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Aurora Seles

Aurora Seles

CARNAVAL. Jornalista, com especializações no Instituto de Psicologia da USP e em Marketing e Comunicação Publicitária pela Faculdade Cásper Líbero. Bacharelanda em Direito. Professora e profissional de comunicação. Foi assessora de imprensa da Tom Maior, Rosas de Ouro e Vai-Vai. Coautora do livro SOFIA Belas Artes - Encontro de Saberes: Artes, Arquitetura, Saúde, Ciências Sociais e Humanas, lançado em dezembro/2015.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



26/10/2016 00h17

A luta não é armada: Todo mundo fala, todo mundo escreve. Viva a comunicação
Aurora Seles

Nos últimos anos era comum ouvirmos a expressão: "era digital".

De um tempo para cá isso mudou e agora a pauta é: "era da diversidade".

Um tema está atrelado ao outro, até porque a internet possibilitou o debate de vários assuntos. E é incrível acompanhar as manifestações. Todo mundo fala, todo mundo escreve. Olha a comunicação aí gente!

Debate. Foto: Arte

E nessas andanças acompanhei um encontro sobre as mulheres negras: lutas, desafios, persistência e força. Uma roda de conversa com formadoras de opinião e muitos estudantes. Estes expuseram suas dores após pesquisarem sobre a escravidão e suas marcas históricas. O preconceito escancara a realidade de pobres, negros, gays, mulheres, nordestinos e deficientes.

Há outros eixos. A lista é grande. Ouvir os jovens é fundamental e não apenas por se tratar da futura geração, mas sim, pela oportunidade de acompanhar o que eles conhecem, esperam e pretendem. Sem falso moralismo, devemos contribuir com essa galera, e escutá-los, é o melhor caminho.

A educação é a grande porta da evolução humana e o ensino é democrático sim. Tenho orgulho de acompanhar as escolas que promovem esses tipos de encontros, a troca de ideias, o estímulo aos estudantes à exposição de pensamentos, opiniões e principalmente a busca pelo conhecimento.

Ouso parafrasear trechos das músicas Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais MCs: "Eu tenho uma missão e não vou parar...Minha palavra vale um tiro...Eu tenho muita munição". E ainda, Travessia, de Milton Nascimento: "Estou só e não resisto, muito tenho pra falar. Solto a voz nas estradas, já não quero parar".

Fica cada vez mais evidente que a luta não é armada. A voz ganhou força. Avante juventude!

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15/10/2016 00h01

Docência segue um caminho escasso
Aurora Seles

Em 516 anos de história, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, mostram que o Brasil ultrapassa mais de 206 milhões de habitantes e, desse número, 13 milhões são analfabetos (não leem e não escrevem).

A informação representa 8,7% da população acima de 15 anos. Analfabetos funcionais, que conhecem letras e números, somam 27%. Para diminuir esses índices faz-se necessária uma política de educação mais atuante, porém, o déficit de professores aumenta significativamente.

Docência segue um caminho escasso. Foto: Arte

O cenário é delicado. Há poucos que pretendem seguir a carreira de professor.

Embora seja uma profissão elogiada e fundamental, tem despertado cada vez menos o número de interessados no Brasil. Alguns motivos, podem ser justificados pelos baixos salários, falta de ascensão na carreira e reflexos de problemas sociais dentro da escola.

A última estimativa divulgada pelo Ministério da Educação, MEC, dá conta de que faltem 170 mil docentes nos níveis fundamental e médio no país e, mesmo quando estão nas salas de aula, muitos deles não têm a qualificação necessária para a formação dos estudantes.

Nas escolas públicas do Brasil, 200.816 professores lecionam em disciplinas nas quais não têm formação, isso equivale a 38,7% do total de 518.313 professores na rede. Os dados estão no Censo Escolar de 2015 e foram divulgados pelo MEC.

Na outra ponta, 334.717 mil posições, ou 47,2%, são ocupadas por docentes com a formação ideal, ou seja, com licenciatura ou bacharelado com complementação pedagógica na mesma disciplina que lecionam. Mais 90.204, 12,7% de posições, são ocupadas por professores que não têm sequer formação superior.

Fica muito difícil melhorar a qualidade da educação sem investir no professor.

No dia 15 de outubro de 1827, o Imperador Pedro I decretou a criação de escolas elementares em todas as povoações brasileiras. Curiosamente, passados 189 anos, ainda não conseguimos ensinar letras nem mesmo aos professores. Triste realidade! A data deveria ser feriado nacional - e não pelo dia de descanso -, mas sim pela importância da profissão.

Sala de aula. Foto: Reprodução

A base, a raiz de tudo, começa pelas mãos de um professor, educador, instrutor ou, permita-me caro leitor, de um mestre.

Ensinar é um dom, uma oblação. E para saudar esse dia vale lembrar que é o professor quem contribui para a descoberta do pensamento, do raciocínio e do saber viver. E reitero os quatro pilares da educação, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco: conhecer, fazer, conviver e finalmente, ser. Uma profissão totalmente humana.

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28/09/2016 14h12

'Cartola de Ouro'
Redação SP

No ano em que é comemorado o centenário do samba um dos nomes lembrados é o de Cartola. Sambista, fundador da Estação Primeira de Mangueira, tradicional escola de samba carioca, é, até hoje um marco do samba.

Angenor de Oliveira (11-10-1908 a 30-11-1980), era também conhecido por Divino e Poeta das Rosas. O apelido Cartola surgiu quando trabalhava em uma obra e - para não sujar o cabelo - passou a usar um chapéu coco. Desde então esse codinome ficou eternizado.

Cartola. Foto: Reprodução

Aprendi que sempre vale a pena conhecer a obra de um gênio, e se for popular, aí é imprescindível. Nas duas últimas semanas conferi duas homenagens voltadas especialmente para ele.

No musical "Cartola - o mundo é um moinho", em cartaz até o dia 31 de outubro, no teatro Sérgio Cardoso, a peça com idealização e elenco renomados retrata a vida e obra do mestre, pautadas pelas canções do compositor.

Há também convidados como as velha-guardas das escolas paulistanas Águia de Ouro, Vai-Vai e Tom Maior e cantores do segmento como Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Tudo elaborado com muito carinho e simplicidade, características peculiares do agraciado.

Já a exposição "Ocupação Cartola", no Itaú Cultural até 13 de novembro, traz outros cuidados, também especiais a quem visita o espaço. A trajetória do artista é retratada por manuscritos originais, fotos e vídeos.

Réplicas do cardápio do restaurante Zicartola e um livro inédito de poemas guardados pela neta de Cartola, Nilcemar Nogueira, também diretora do Museu do Samba, localizado no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro.

Durante a visitação recebi um guardanapo de papel com a letra da música "Acontece", escrita em 1972, em verde e rosa. Música de Cartola, a qual ele gostaria de ser lembrado para sempre. A revelação está registrada em uma entrevista televisiva do ano de 1977.

"Esquece nosso amor vê se esquece
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ai se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo
Isso não acontece"

Devemos às gerações pós-bossa nova e pós-festivais muito do que aconteceu à nossa música popular entre os anos de 1973/1985. Época da censura, onde a maioria dos músicos conseguiu manter-se em plena atividade.

Cartola. Foto: Reprodução

Figuras renomadas como mestre Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Nei Lopes, Noca da Portela e Dona Ivone Lara, sambistas que tiveram suas carreiras consolidadas na década de 70, além de outros bambas como Dicró e Bezerra da Silva, adeptos do samba de malandragem e vários intérpretes.

Salve o centenário do samba! 

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25/05/2016 11h32

Religiões afro-brasileiras sob um olhar poético
Aurora Seles

Os rituais e as festas são uma parte integrante da cultura e uma parte do folclore brasileiro. Desde que passei a ser blogueira do SZRD, a inquietude tomou conta da rotina e virei uma pesquisadora contumaz da nossa história cultural.

Na última semana, tive o privilégio de manusear uma das obras de Cecília Meireles (1901-1964) de 1983, pela Funarte. O título "Batuque, samba e macumba - estudos de gesto e de ritmo" é uma síntese da jornalista, pintora, escritora e professora brasileira que retratou o período de 1926 a 1934 com ilustrações e textos do Carnaval e costumes brasileiros.

Cecília Meireles. Foto: Reprodução

Todas as ilustrações do livro, pintadas pela escritora, foram expostas em 1933. À época, a imprensa noticiou que aquela exposição fixaria os ritmos do samba, as figuras típicas da baiana e do bamba.

Cecília, que também era poetisa, detalha o que é o xale retangular de um e meio a dois metros de comprimento, com uma largura de uns 80 centímetros, atravessado de listas duradouras, entremeadas de algum fio metálico, ou apenas riscado de azul e branco. Trata-se do autêntico pano da "Costa" (da costa de África). Usado pelas baianas em todos os segmentos.

Outro trecho, minuciosamente transcrito, sob o olhar de nossa protagonista. "No canzol estão, pois, os santos com os seus emblemas: Xangô, Ogum, Oxossi, com fitas vermelhas. Machados, espadas, flechas, etc - uma vez que tudo os distingue: cores, objetos e substâncias. Iemanjá, por exemplo, tem como emblemas as rosas brancas, a estrela-do-mar, os búzios, os seixos rolados, miçangas brancas ou azuis, fitas da mesma cor. Se a Umbanda é o terreiro físico, onde se desenvolve a macumba, um outro terreiro existe, na imaginação do negro, em plano astral, correspondente àquele, e onde repercute o bem e o mal que nele se pratica, despertando assim as forças sobrenaturais que passam a agir segundo o poder dos feiticeiros, e à sua vontade - sempre que a sua vontade for justa. É o terreiro da Aruanda".

Religiões afro-brasileiras sob uma olhar poético. Foto: Reprodução

Os olhos cintilam enquanto folheio e viajo nas pinturas e linhas da autora. A forma lírica e pueril como define nossos costumes é sedutor. Eis outra parte da narrativa. "A macumba em seu aspecto festivo tem uma doçura selvagem, um encantamento profundo, de onde se exala o torpor misterioso e a invencível atração da selva africana, povoada de deuses e demônios, tão autênticos como a água dos rios, os troncos das árvores e as feras que passeiam, sem dizerem aos homens de onde vêm nem quem são. Traduzem, além disso, a saudade do negro pela choça dos seus antepassados, o banzo da ausência sem volta, a melancolia da vida que o Atlântico partiu - e que o bom brasileiro acolheu em sua alma com ternura, para consolar o antigo escravo e antiga ama, que lhe encheram a infância de lendas e cantigas e deixaram seu sangue na terra que plantaram - seu coração nos berços que moveram e a última esperança num mundo mais feliz, na Aruanda do sonho, que a música e o fumo da macumba permitem às vezes entrever".

Todas as religiões que foram trazidas para o Brasil pelos negros africanos, ainda na condição de escravos, são consideradas afro-brasileiras. A lista passa de 15 costumes e rituais africanos, mas a predominância em todos os estados brasileiros está no Candomblé, Quimbanda e Umbanda.

O termo candomblé é uma junção do termo quimbundo candombe (dança com atabaques) com o termo iorubá ilé ou ilê (casa): ou seja, "casa da dança com atabaques". É uma religião derivada da natureza africana onde se cultuam os Orixás e voduns. Mantêm mais de três milhões de seguidores em todo o mundo. A ligação dos cultos é um fenômeno brasileiro em decorrência da importação de escravos onde, agrupados nas senzalas, nomeavam um zelador de santo também conhecido como babalorixá no caso dos homens e iyalorixá no caso das mulheres.

Religiões afro-brasileiras sob uma olhar poético. Foto: Reprodução

A Quimbanda é um conceito religioso de origem afro-brasileira, presente na Umbanda, ainda controverso quanto a sua real definição na atualidade. Por vezes, é classificada como uma religião autônoma. Suas entidades vibram nas matas, cemitérios e encruzilhadas, também conhecidos como "Povo da Rua" e abrangem os mensageiros ou guardiões Exus e Pomba-gira. Estas entidades trabalham basicamente para o desenvolvimento espiritual das pessoas, com o intuito da evolução, além de proteção de seu médium. Como são as entidades mais próximas à faixa vibratória dos encarnados, apresentam muitas semelhanças com os humanos.

A Umbanda, de origem brasileira, sintetiza vários elementos das religiões africanas e cristãs, porém sem ser definida por eles. Oriunda da língua quimbunda de Angola e significa "magia", "arte de curar". Formada no início do século XX, no sudeste do Brasil, é considerada uma religião brasileira por excelência, com um sincretismo que combina o catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena. O dia 15 de novembro, já considerado como a data do surgimento da Umbanda pelos seus adeptos, foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 através da Lei 12.644.

Durante a III Semana de Folclore, em 1950, na cidade de Porto Alegre/RS, Cecília Meireles declarou a respeito da mostra: "Eu não vim aqui, propriamente, como uma especialista na matéria. Eu vim como uma pessoa que, cansada de buscar caminhos para que os homens se entendam em outros setores de atividades intelectuais, procura, no folclore, talvez um caminho mais ameno, talvez um caminho mais possível. (...) encontrem no folclore a solução para muitos de seus problemas pela compreensão das suas origens, da sua identidade, daquilo que neles é transitório e também aquilo eu neles é permanente".

Muito obrigada Cecília Meireles. Sua obra, genuinamente brasileira, fortalece nossa origem e nossa cultura. Motumbá!

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16/05/2016 11h04

Reverência às mulheres no Carnaval brasileiro
Aurora Seles

Quinta-feira, 12 de maio, foi um dia marcado por um acontecimento político. O Brasil passou por mudanças e o Ministério refeito por um time, exclusivamente, masculino. Sem levantar bandeira - ou polemizar - aproveito esse espaço, dedicado à cultura, para relembrar algumas mulheres homenageadas no Carnaval do nosso país.

Na linha do tempo, nos últimos vinte e dois anos, foram mais de dez nomes femininos que tiveram suas histórias cantadas nas cidades carioca e paulistana.

Ângela Maria e Lilian Gonçalves. Foto: Reprodução

Relembre alguns enredos:

1994: Sociedade Rosas de Ouro - "Sapoti". Campeã, Especial.

Carnavalesco: Tito Arantes. Voltado à cantora e atriz Angela Maria, nascida em 13/5 na cidade de Macaé/RJ.

1996: Vai-Vai - "A rainha, à noite tudo transforma". Campeã, Especial.

Carnavalesco: Sidinho Ramos. Homenageada à empresária Lilian Gonçalves, nascida em 21/4 no estado de Minas Gerais.

2012: Império Serrano - "Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba". Vice-campeã, Acesso.

Carnavalesco: Mauro Quintaes. Retratou a história da cantora e compositora nascida em 13/4 no Rio de Janeiro.

2012: Acadêmicos do Tatuapé - "Tatuapé 60 anos - Da arte do samba, nasci para comunidade, defesa e essência. Sou guerreira! Sou Leci Brandão". Vice-campeã, Acesso.

Carnavalesco: Mauro Xuxa. História da cantora e compositora nascida em 12/9 no Rio de Janeiro.

2012: Portela - "E o povo na rua cantando... é feito uma reza, um ritual...". Sexto lugar, Especial.

Carnavalesco: Paulo Menezes. Referência à cantora Clara Nunesnascida em 12/8 na cidade de Paraopeba/MG. Faleceu no Rio de Janeiro em 2/4/1983.

2012: Unidos do Cabuçu - "A Cabuçu dá a Elza na Avenida". Décimo segundo lugar, Grupo C.

Carnavalescos: Marco Aramha e Marcyo de Olliveira. História da cantora e compositora Elza Soares, nascida em 23/6 no Rio de Janeiro.

Beth Carvalho. Foto: Reprodução

2013: Acadêmicos do Tatuapé - "Beth Carvalho, a madrinha do samba". Décimo primeiro lugar, Especial.

Carnavalesco: Mauro Xuxa. Narrou a história da cantora e compositora nascida em 5/5 no Rio de Janeiro.

2015: Mocidade Alegre - "Nos palcos da vida, uma vida no palco...Marília". Vice-campeã, Especial.

Carnavalescos: Márcio Gonçalves e Sidnei França. A escola homenageou a atriz, cantora e diretora teatral brasileira Marília Pêra, nascida em 22/1 no Rio de Janeiro. Faleceu em 5/12/2015.

2015: Vai-Vai - "Simplesmente Elis. A fábula de uma voz na transversal do tempo". Campeã, Especial.

Carnavalescos: Alexandre Louzada, Eduardo Caetano e André Marins. Enredo sobre a vida da cantora Elis Regina, nascida em 17/3 na capital Porto Alegre/RS. Faleceu em São Paulo no dia 19/1/1982.

Elis Regina. Foto: Reprodução

2015: Nenê de Vila Matilde - "Nenê apresenta seu musical: Rainha Raia nas asas do Carnaval". Nono lugar, Especial.

Carnavalesco: Roberto Szaniecki. Tema voltado à atriz, dançarina e cantora Claudia Raia, nascida em 23/12 na cidade de Campinas/SP.

2016: Estação Primeira de Mangueira - "Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá". Campeã, Especial.

Carnavalesco: Leandro Vieira. Contou a história da cantora e compositora nascida em 18/6 no município de Santo Amaro/BA.

Zezé Motta. Foto: Reprodução

2017: Acadêmicos do Sossego - "Zezé Motta - A Deusa de Ébano". Série A.

Carnavalesco: Marcio Puluker. O enredo retratará a vida da atriz e cantora, nascida em 27/6 no município de Campos dos Goytacazes/RJ.

2017: Grande Rio - "Hoje é dia de Ivete". Especial.

Carnavalesco: Fabio Ricardo. A escola retratará a vida da cantora Ivete Sangalo, nascida em 27/5, em Juazeiro/BA.

São nomes reverenciados em nossa história e que nos convidam a várias rodas de conversas, prosa boa e saudosismo. Aplausos mil!

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28/04/2016 10h50

Alquimia de Hermes Trismegisto cantada por Jorge Ben
Aurora Seles

Em abril é comemorado o dia de São Jorge (275 - 23 de abril de 303 d.C., Nicomédia, Turquia), um soldado romano no exército do imperador Diocleciano, venerado como mártir cristão e que na biografia de santos é um dos mais venerados no catolicismo (tanto na Igreja Católica Romana e na Igreja Ortodoxa como também na Comunhão Anglicana).

Imortalizado na lenda em que mata o dragão, São Jorge é também um dos 14 santos auxiliares. O dia 23 de abril, para algumas das religiões afro-brasileiras, é a data em que se fazem homenagens para Ogum - um dos principais Orixás.

Na música brasileira, há um grande Jorge. Seu nome de batismo, Jorge Duílio Lima Meneses, conhecido como Jorge Ben, é guitarrista, cantor e compositor. Na década de 80 mudou seu nome artístico para Jorge Ben Jor, provavelmente pela numerologia, mas fontes comentam que a ideia ocorreu para evitar confusões com o músico americano George Benson, pois Jorge Ben começava a se tornar muito conhecido nos Estados Unidos. Carioca de Madureira, nasceu em 22 de março de 1945.

Jorge Ben Jor. Foto: Divulgação

Ganhou seu primeiro pandeiro aos 13 anos de idade e, dois anos depois, já cantava no coro de igreja. Também participava como tocador de pandeiro em blocos de Carnaval. Aos 18, ganhou um violão de sua mãe e começou a se apresentar em festas e boates, tocando bossa nova e rock and roll. No início dos anos 60 apresentou-se no Beco das Garrafas, que se tornou um dos redutos da bossa nova. Em 1963, subiu no palco e cantou "Mas que Nada" para uma pequena plateia, que incluía um executivo de uma renomada gravadora.

Dois meses depois, era lançado o primeiro compacto de Jorge Ben, que inclui ainda "Por Causa de Você, Menina". No mesmo ano lançou o primeiro LP, "Samba Esquema Novo", acompanhado pelo conjunto de samba jazz Meireles e os Copa Cinco. "Mas que Nada" foi seu primeiro grande sucesso no Brasil e também é uma das canções mais executadas nos Estados Unidos até hoje, na versão do pianista brasileiro Sérgio Mendes com o grupo de hip hop norte-americano "Black Eyed Peas".

Participou dos programas Divino, Maravilhoso e O Fino da Bossa, época em que obteve enorme sucesso com "Cadê Tereza?", "País Tropical", "Que Pena e Que Maravilha". Nos anos 70, Jorge Ben lançou os álbuns "A Tábua de Esmeralda", 1974; "Solta o Pavão", 1975 - ano em que compôs "Jorge de Capadócia", que já foi interpretada por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC's; em 1976 lançou "África Brasil". Todos são considerados clássicos da música brasileira. Lançou mais de 35 discos e vendeu milhares de cópias. Em 2004, lançou "Reactivus Amor Est" (Turba Philosophorum), primeiro álbum com canções inéditas desde 1995.

Capa do álbum A Tábua de Esmeralda. Foto: Divulgação

Atualmente, seus shows costumam durar cerca de três horas. O álbum "A Tábua de Esmeralda" une som e alquimia. Na primeira faixa, Jorge Ben canta "Os alquimistas estão chegando! Estão chegando os alquimistas", um convite para ouvir composições de um mundo peculiar. O nome do disco é o texto escrito por Hermes Trismegisto que deu origem à Alquimia. Hermes Trismegisto, uma divindade originada do sincretismo entre Hermes, deus da mitologia grega, e Toth, deus egípcio do conhecimento, da sabedoria e da magia. Trismegisto significa "três vezes grande", pois ele conhece as três partes da filosofia universal: a alquimia, a astrologia e a teurgia.

A letra de Jorge Ben na canção Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda é composta, literalmente, da Tabula Smaradigna, tradução latina de uma obra alquímica árabe que data do século XII, também atribuída a Hermes Trismegisto e muitíssimo influente na idade média tanto para o mundo árabe quanto para o mundo cristão.

A tradução da Tabula Smaragdina significa: É verdade, certo e muito verdadeiro. O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa. E assim como todas as coisas vieram do Um, assim todas as coisas são únicas, por daptação. O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua alma. O Pai de toda Telesma do mundo está nisto. Seu poder é pleno, se é convertido em Terra. Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia. Sobe da terra para o Céu e desce novamente a Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores. Desse modo obterás a glória do mundo. E se afastarão de ti todas as trevas. Nisso consiste o poder poderoso de todo poder.

Vencerás todas as coisas sutis e penetrarás em tudo o que é sólido. Assim o mundo foi criado. Esta é a fonte das admiráveis adaptações aqui indicadas. Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da Obra Solar é completo. A música popular, assim como outro tipo de arte, é produzida em sua totalidade cultural. Coube a indústria fonográfica armazená-la como produto lírico e musical para conteúdo técnico, e principalmente, expressões variadas, de universos e argumentos, anteriormente apenas visualizados em textos poéticos para resgates nostálgicos.

Letras musicais, compostas com substâncias líricas, também são artes verbais e felizmente, assim como a síntese do álbum acima, há inúmeras obras que nos cercam de informação. Aplausos ao Jorge Ben Jor. Salve Jorge! Confira letra da música Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda, escrita por Jorge Ben

"Hermes Trismegisto escreveu

com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda

O que está embaixo é como o que está no alto,

e o que está no alto é como o que está embaixo.

E por essas coisas fazem-se os milagres de uma coisa só.

E como todas essas coisas são e provêm de um

pela mediação do um,

assim todas as coisas são nascidas desta única coisa por adaptação.

O sol é seu pai, a lua é a mãe.

O vento o trouxe em seu ventre.

A terra é seu nutriz e receptáculo.

O Pai de tudo, o Thelemeu do mundo universal está aqui.

O Pai de tudo, o Thelemeu do mundo universal está aqui.

Sua força ou potência está inteira,

se ela é convertida em terra.

Tu separarás a terra do fogo e o sutil do espesso,

docemente, com grande desvelo.

Pois Ele ascende da terra e descende do céu

e recebe a força das coisas superiores

e das coisas inferiores.

Tu terás por esse meio a glória do mundo,

e toda obscuridade fugirá de ti.

e toda obscuridade fugirá de ti.

É a força de toda força,

pois ela vencerá qualquer coisa sutil

e penetrará qualquer coisa sólida.

Assim, o mundo foi criado.

Disso sairão admiráveis adaptações,

das quais aqui o meio é dado.

Por isso fui chamado Hermes Trismegistro,

Por isso fui chamado Hermes Trismegistro,

Tendo as três partes da filosofia universal.

Tendo as três partes da filosofia universal.

O que disse da Obra Solar está completo.

O que disse da Obra Solar está completo.

Hermes Trismegisto escreveu com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda.

Hermes Trismegisto escreveu com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda".

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08/03/2016 10h00

Homenagens às mulheres em diversos segmentos
Aurora Seles

Público predominante no Brasil e no mundo. Alguns nomes que marcaram a história.

A ideia era trabalhar esse texto e usar como base a música de Benito di Paula, "Mulher Brasileira" (1975), mas a geografia ficaria restrita. Ao falar do expressivo gênero feminino - de A a Z -, incluem-se Ana Maria Botafogo, na dança clássica; Anne Frank, famosa pelos documentos em que relata suas experiências enquanto vivia escondida durante o holocausto; Zuzu Angel, estilista brasileira, conhecida pela procura de seu filho durante a ditadura militar e, claro dona Zica Cartola, grande símbolo do Carnaval.

Dona Zica. Foto: Reprodução

Especialistas afirmam que a profissão do futuro é a do empreendedor, com destaque às mulheres. Em todos os segmentos elas brilham porque o termo "sexo frágil" está em desuso. São multifacetadas. Administram lares, finanças, políticas, empresas e muitos negócios. Geraram e reproduzirão a espécie.

Embora o preconceito ainda persista, vivemos um momento histórico na categoria feminina. O espaço foi conquistado com dignidade e persistência. Modelos que se destacaram pela sua energia, audácia, entusiasmo e feitos heroicos não faltam ao longo de toda a história da humanidade. Todas, sem exceção, merecem a homenagem feita no dia 8 de março. A lista é numerosa pela grande influência que foram e são destaques nas respectivas épocas de suas existências. Confira alguns nomes:

Na área jurídica, por exemplo, há uma grande referência. A baiana Luislinda Valois, nascida em 1942. Estudou teatro, filosofia e direito até se tornar a primeira juíza negra do Brasil, em 1984, adotando o uso de colares de candomblé em suas audiências.

Aracy Cortes (RJ, 1904-1985) foi uma cantora brasileira, vizinha de um rapaz negro que tocava flauta, Pixinguinha. Começou a cantar em vários teatros da cidade, tornando-se conhecida pela voz de timbre soprano e o jeito personalista de cantar. Projetou-se como a primeira grande cantora popular, destacando-se em meio ao quase exclusivismo das vozes masculinas da época. Foi dela também a primeira audição de "Aquarela do Brasil " (Ary Barroso), a primeira e mais importante canção exportada para os EUA, inaugurando o gênero samba-exaltação.

Mãe Menininha do Gantois (BA, 1894-1986) foi uma Iyálorixá (mãe-de-santo) brasileira, filha de Oxum. Abriu as portas do Gantois aos brancos e católicos - uma abertura que, em muitos terreiros, ainda é vista com certo estranhamento. Nunca deixou de assistir à missa e até convenceu os bispos da Bahia a permitir a entrada nas igrejas de mulheres, inclusive ela, vestidas com as roupas tradicionais do candomblé.

Dandara (1664-1694). Não há confirmação do local de seu nascimento, Brasil ou no continente africano, mas teria se juntado ainda menina ao grupo de negros que desafiaram o sistema colonial escravista por quase um século. Ela participava também da elaboração das estratégias de resistência do quilombo. Esposa do Zumbi dos Palmares, foi uma guerreira feroz e brava defensora do quilombo. Suicidou-se para não voltar à condição de escrava. Dominava técnicas da capoeira e teria lutado ao lado de homens e mulheres nas muitas batalhas consequentes a ataques a Palmares, estabelecido no século XVII na Serra da Barriga, região de Alagoas, cujo acesso era dificultado pela geografia e também pela vegetação densa.

Ema Klabin (RJ, 1907-1994). Apreciadora de música e de arte teve uma significativa atuação na vida cultural da cidade, com participação nos conselhos de instituições culturais, além de promover artistas, participar de leilões beneficentes em prol das entidades que apoiava e realizar concertos em sua própria casa com artistas de renome. Já no final de sua vida, e não tendo herdeiros diretos, preocupou-se com o destino de sua coleção e criou a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, para que se criasse um novo museu aberto à visitação pública.

Tarsila de Amaral (SP,1886-1973). Uma das mais importantes pintoras brasileiras do movimento modernista. Seu quadro Abaporu de 1928 inaugura o movimento antropofágico e foi a obra brasileira a alcançar o maior valor em um leilão internacional: 1,5 milhão de dólares.

Dia da mulher. Foto: Arte

Maria Firmina dos Reis (MA, 1825-1917). Escritora, considerada a primeira romancista brasileira. Mulata e bastarda, enfrentou a barreira dos preconceitos e publicou, em 1859, o romance Úrsula, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil e um dos primeiros escritos produzidos por uma mulher brasileira. Em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, o que causou escândalo no povoado de Maçaricó, em Guimarães. A escola teve de ser fechada em menos de três anos.

Shirley Horn (Washington, DC 1934-2005, cantora e pianista norte-americana de jazz e de pop. Colaborou com muitos grandes nomes do jazz e foi mais conhecida por sua habilidade de cantar e acompanhar-se ao piano com a independência quase incomparável e por sua voz rica e exuberante, um contralto encruado. Embora ela pudesse oscilar tão fortemente como qualquer artista de jazz linha de frente, a reputação de Horn ancorou em sua requintada balada. Foi nomeada para nove prêmios Grammy Awards durante sua carreira, ganhando o Prêmio Grammy Award for Best Jazz Vocal Performance no 41° Prêmio 41st Grammy Awards com "I Remember Miles", uma homenagem a seu amigo e mentor.

Rosa Parks (EUA, 1913-2005). Costureira americana, tornou-se símbolo do movimento civil pelos direitos dos negros ao recusar ceder seu lugar a um branco em um ônibus em 1955. Sua luta solitária acabou chegando aos ouvidos de Martin Luther King, que incitou os negros a recusar o transporte público branco.

Maria da Penha (CE, 1945). É uma farmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 70 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica. Sua luta e história inspiraram a lei de proteção das mulheres em casos de violência doméstica. Hoje é coordenadora da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência.

Luiza Erundina. Foto: ReproduçãoLuiza Erundina (PB, 1934). Assistente social e Deputada Federal pelo estado de São Paulo. Em 1988 eleita a primeira prefeita da maior metrópole brasileira. A gestão teve o período de 1989 a 1993. Elaborou ações importantes nas áreas de educação (os responsáveis pela pasta eram os educadores Paulo Freire e, depois, Mário Sérgio Cortella, reconhecidos internacionalmente). Na área da cultura (comandada pela filósofa Marilena Chauí) foi responsável pela construção do Sambódromo do Anhembi e pela restauração das grandes bibliotecas do centro da cidade, como a Biblioteca Mário de Andrade. Também sancionou a lei de incentivo fiscal à cultura do município, a Lei Mendonça.

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21/07/2015 11h30

Cuidar da voz é um ato constante dos intérpretes
Aurora Seles

Cantores de samba-enredo são peças-chave para a emoção do Carnaval

Chegamos ao segundo semestre. Período em que as agremiações estão engajadas nas eliminatórias para a escolha de seus sambas de enredos. A disputa ocorre por pelo menos dois meses. Grupos de compositores apresentam suas canções e, sem dúvida, selecionam a dedo o intérprete a defender sua obra. A letra e a melodia na voz de um bom cantor enaltecem a composição e ganham a conquista do público.

Tudo é regado com muita emoção e garra, afinal, a maratona envolve as eliminatórias para definir o samba, a vitória e a demonstração durante os ensaios gerais e técnicos, e no desfile oficial.

Alguns se referem aos "puxadores do samba", mas a referência foi contestada pelo saudoso Jamelão (José Bispo Clementino dos Santos, Rio de Janeiro, 1913-2008, cantor brasileiro, tradicional intérprete dos sambas-enredo da escola de samba Mangueira). Esplêndido em toda sua gloriosa voz e interpretação.

"Puxador é puxador de corda, puxador de carro, puxador de fumo, puxa-sacoâ?¦Eu sou é intérprete", declarava.

Jamelão. Foto: Reprodução

Portanto, os intérpretes são os responsáveis pelo canto do samba-enredo antes, durante e no dia do espetáculo levado ao Sambódromo. São horas incontáveis. Haja fôlego! Para falar dessa peculiaridade - a voz - conversei com uma querida amiga e profissional do ramo. Clara Rocha é fonoaudióloga especialista em voz, cantora, atriz e professora de técnica e expressão vocal.

Iniciamos o papo com dois pontos especiais, a resistência e a qualidade vocal. Para gravar uma locução comercial de meio minuto é mais importante a qualidade da voz do que a resistência. Neste caso, mesmo que a voz tenha um registro mais caricato ou não tão confortável, os poucos segundos dessa gravação dificilmente podem prejudicar a voz do locutor.

Ao comparar o cantor de samba-enredo, poderia mensurar o período de uma hora e outros tantos minutos na avenida. E para ele, após o desfile, bastaria descansar a voz, mas não é bem assim. A adrenalina toma conta. Por isso é perguntado: o que o cantor precisa para manter uma boa voz: qualidade ou resistência?

Nesse caso - canto popular - é necessário sim que haja qualidade vocal mínima, mas uma voz que tenha alteração leve, como rouquidão discreta ou ar na voz - para alguns cantores pode ser utilizado até mesmo como um recurso artístico - muito bem aceitos e podem ser minimizados com exercícios e treinamento vocal. No entanto, o intérprete certamente precisa ter resistência na voz e dar conta de uma demanda tão exigente como a do carnaval brasileiro.

Vale considerar os ensaios pré-carnaval, ensaios em casa, nas quadras e toda rotina do cantor. Normalmente esse profissional é comunicativo. Isso também é um desgaste vocal.

Por isso, é necessário ficar atento. Será que o desgaste ocorre apenas durante o canto, ou quando ele conversa normalmente? Vale considerar o ambiente ruidoso que promove o desgaste na voz, para qualquer pessoa, seja falada ou cantada.

Observe: um professor exerce 12 horas de aula e depois vai cantar. Certamente ele sentirá fadiga em sua voz e esforço em determinadas notas. Esse sintoma foi provocado pela atividade anterior, ou seja, no desgaste da voz falada.

O mau uso na voz falada reflete na voz cantada. Isso é comum acontecer. É preciso observar a frequência do uso da voz nesses aspectos, mas a maioria das reclamações é oriunda da voz falada. Os intérpretes de samba-enredo - onde a demanda é alta - têm de focar na resistência vocal e os cuidados preventivos são essenciais.

Clara recomenda que todos façam aula de canto. "Tudo é na raça, há uma grande emoção por trás da voz e a expressividade torna-se fundamental a esses cantores. Mas não adianta ter uma voz linda e maravilhosa, muitas vezes por ser visceral, e abrir mão da técnica".

Alguns cantores gritam e não percebem o abuso e mau uso da voz, isso pode ocasionar lesões futuras nas pregas vocais. Podemos compará-los aos professores. Este profissional até pode ter uma voz rouca, mas tem de ser resistente, porque ele fica em sala de aula quase todos os dias.

Essa é a principal queixa e ocorre pelo mau uso da voz, sem monitoramento. Não há treinamento na faculdade de educação ou qualquer escola para prevenir e aprimorar a voz e a comunicação.

Por isso, o estudo do canto é importante, no sentido do condicionamento da laringe para suportar a demanda vocal e também o esforço físico.

"A voz é o tato à distância", ensinava Daniel Boone (1734-1820). Um dos primeiros heróis populares dos Estados Unidos, pioneiro e caçador que explorou as florestas ocupadas por nativos indígenas. Baseada em sua história existiu uma série de televisão americana (ação-aventura).

Cuidados essenciais

1 - Procure um profissional para acompanhar os cuidados com a sua voz antes de qualquer queixa instalada, e não apenas quando surgir alguma dor, ou outro incômodo. As dicas das vovós ou mamães: tomar conhaque para aquecer a voz, usar pastilhas, tomar chá de gengibre e outras recomendações, são cuidados temporários. Pode ocorrer de o intérprete notar que está rouco, porém, fisicamente se sente normal. Esse é um alerta, a voz está comprometida e pede cuidados. Compare: um atleta da maratona da São Silvestre não irá a uma festa rave no ano novo porque isso vai deixá-lo cansado. Da mesma forma, o cantor que tem a demanda vocal aumentada terá fadiga. Precisa intercalar o uso da voz com momentos de repouso vocal, além de realizar exercícios que lhe darão conforto e maior resistência da voz.

2 - Hidratação é extremamente importante. No período do carnaval o clima é quente e é necessária a reposição de água no organismo. A prega vocal é uma região mucosa e precisa ser hidratada, assim como todo o corpo.

3 - Repouso vocal. Uma noite de repouso contribuirá - e muito - na voz. Transmitir a emoção, mas cuidar da voz. Esse ajuste vocal é feito sob a orientação de especialistas, sejam fonoaudiólogos, professores de canto, preparadores vocais, além da autopercepção e autoconhecimento vocal. A voz é escuta. O bom falante é antes de tudo um bom ouvinte, portanto, escute a sua voz, observe se canta em uma boa tonalidade, escolha aquela que seja adequada à sua voz e perceba se está cantando de maneira confortável. É importante que o próprio cantor identifique se há excesso, esforço ou se o canto está extremamente agudo ou grave, em relação ao seu tom habitual. Automedicação é perigoso! Para qualquer queixa recomenda-se falar com profissionais de otorrinolaringologia ou fonoaudiologia. O uso de sprays e pastilhas anestesia a garganta, trazem conforto momentâneo, mas mascaram possíveis problemas vocais.

Um grande inimigo do cantor de escola de samba é a competição sonora. Em uma quadra é difícil falar baixo, pois no ambiente, além da bateria, as pessoas conversam e naturalmente elevam a voz. Esse fenômeno, conhecido como Efeito Lombard - elevação automática da intensidade, na presença de ruído mascarante - é observado também em outros profissionais, como os repórteres, que aumentam a intensidade da voz quando gravam reportagens em lugares ruidosos.

Há muitos cantores que não têm o hábito de fazer aquecimento vocal ou ter cuidados específicos com a voz e cantam muito bem. Ainda assim, a fonoaudióloga reitera a importância dessa prática de aquecimento vocal, com o objetivo de dar conforto e resistência à voz, para diminuir o cansaço vocal no final do desfile.

Hábitos caseiros

Gengibre - quando ingerido ele não passa diretamente pela prega vocal, mas vai através do esôfago em direção ao estômago. A prega vocal está na via respiratória e não digestiva, desta forma os alimentos não "passam" pela prega vocal. Embora o gengibre apresente propriedades anti-inflamatórias, ele não é capaz de "curar" uma rouquidão causada por abuso vocal.

O mesmo princípio vale para a maçã, embora tenha funções adstringentes, não solucionará uma lesão de prega vocal, como edema, nódulo ou outros problemas na voz. Por outro lado, a fruta funciona como um alimento para reduzir o pigarro, ou derivado de leite que deixa a saliva mais espessa. O álcool, assim como a pastilha e o spray, não é bom para a voz, uma vez que dá sensação de anestesia e pode mascarar um problema.

A água é uma grande amiga do corpo humano. Quando tomamos água o trato vocal é hidratado. Outra dica é a inalação - ar-úmido - que aí sim "passa pela prega vocal" e hidrata esta região. De um modo geral, muitas pessoas moram em cidades poluídas e lavar o nariz com soro fisiológico, melhora o funcionamento das vias aéreas, o que pode impactar positivamente na voz.

A especialista em voz recomenda ao intérprete para não esperar ficar rouco e, posteriormente, buscar um profissional. "Trabalhe sua voz para aguentar a demanda do carnaval. O cantor de samba-enredo tem uma voz cantada, próxima da falada, porque ele chama as pessoas e traz energia e emoção na voz". Inclusive são quesitos avaliados pelo público. Clara complementa: "Seria ideal ao intérprete ter o acompanhamento da tríade: otorrino, fono e professor de canto para manter a voz saudável e resistente". As consequências podem ser lesões nas pregais vocais, como os conhecidos nódulos, pólipos, entre outros. Alguns casos são tratados com fonoaudiologia, outros são cirúrgicos. Para não chegar ao extremo, procure um especialista e cuide de sua voz!

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18/05/2015 00h01

Uma mulher guerreira na direção de Carnaval
Redação SRZD

Abro o artigo com um trecho da música Samba da Benção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, da década de 60:

"O branco mais preto do Brasil...A benção, todos os grandes sambistas do Brasil / Branco, preto, mulato...".

Adentro a sala de Solange Cruz, presidente da escola de samba Mocidade Alegre, com o enredo 2016 definido. Será um tema afro, por isso, foi inevitável cumprimentá-la com essa canção. Sorridente, ela responde que essa é uma identidade para quem trabalha com o samba.

Solange Cruz. Foto: Claudio L. Costa

Sintetizando a história da Mocidade Alegre, havia três irmãos, pai e tios de Solange, naturais da cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, e que viviam em São Paulo desde 1948.

Passados dois anos, eles e um grupo de homens, saíam pelas ruas da região central da cidade fantasiados de mulher.

Treze anos depois, entre os foliões, havia uma mulher no desfile e todos estavam fantasiados de palhaços pela avenida São João. O locutor de uma rádio, Evaristo Carvalho, disse:

"É um bloco muito alegre, um bloco de sujos, como existem muitos no Rio de Janeiro". A partir desse dia surgiu o nome; Mocidade Alegre.

A escola tem quarenta e sete anos e dez campeonatos, sendo seis deles, conquistados sob a gestão de Solange Cruz.

Solange Cruz. Foto: SPTurisA menina-mulher que acompanha a história da agremiação desde o seu nascimento passou por vários setores. Foi chefe das miudinhas, chefe de ala e de outros departamentos, diretora de comunicação, mestre de cerimônias, vice-presidente e presidente, há 13 anos.

Um dos produtos criados, antes de assumir a presidência, é o Grupo Miscigenação, mistura de dança e música, por meio da magia do Carnaval e do folclore brasileiro.

Para ela não existe fórmula mágica para os resultados. A base está no conceito escola de samba. Um ambiente formado pela massa e pela comunidade - ela é o foco central.

Administrar é um dos pontos, mas a prioridade está nas pessoas.

"Hoje há muitos presidentes que entendem de administração, mas não conhecem totalmente uma escola de samba" relembra.

A escolha dos enredos é sempre baseada para agradar ao seu público interno, sua gente. A prioridade é a escola, o ponto de partida, o material de trabalho. Para o próximo ano, a Mocidade Alegre desfilará "Ayo - a alma ancestral do samba".

Trata-se de um gênero musical de origens africanas para comemorar o centenário do samba. Solange reitera:

"O samba tem muito suingue, cor da pele e faz arrepiar, assim como na Bahia onde há temas interessantes, mas já defendemos enredos que não eram afros e fomos muito felizes".

Pioneira em enredos abstratos, a agremiação também teve excelentes resultados. E a própria presidente relembra que antigamente o Carnaval era mais histórico e cronológico. Buscava-se contar histórias na íntegra e os julgadores tinham formação em história, geografia, filosofia.

Essa mudança ocorreu com a chegada do subjetivo, do abstrato que tomou conta do Carnaval, inclusive no Rio de Janeiro. Ainda assim, a "Morada do Samba" busca temas para agradar seus componentes.

"Quem faz o Carnaval é a massa. Tem de mexer com a emoção, com a alegria. A comunidade é a facilitadora e o resultado do trabalho, principalmente para quem está na liderança", reflete Solange.

A postura, diante do cargo, é bem pontual. Ela trabalha como a porta-voz e não a dona da escola.

Quando assumiu a Mocidade, a agremiação não tinha o sincronismo atual. Houve muito trabalho, pesquisa, deu ouvido à comunidade, o que gostavam ou queriam, e o resultado chegou logo no primeiro ano, com a conquista do campeonato.

Solange Cruz. Foto: Divulgação

Comento que o termo festa popular está em desuso, afinal, o segmento tornou-se um grande produto comercial. Ela faz um paralelo com o mundo externo.

"Vender algo que você acredita, o entusiasmo aumenta; mas ter um produto em mãos onde o ceticismo toma conta, pode ter certeza que não será vendido".

Assim como outras escolas, as fantasias são comercializadas pela boutique virtual - e-commerce - para simpatizantes, veteranos ou novatos. Esse é outro momento primordial do público da escola. É ele quem influencia os recém-chegados. E Solange pontua:

"É mais fácil ter 300 pessoas que te abraçam e te convidam para festejar, do que uma com pouca experiência que não sabe nada".

E por falar na questão monetária ela brinca que, embora a escola tenha a cor vermelha, ela prefere trabalhar no azul. Essa é uma de suas principais metas e reconhece que só a atinge com a ajuda de todos, sejam voluntários ou equipe contratada.

Os colaboradores tem grande satisfação em trabalhar na escola. A festa de lançamento do enredo, ocorrida em 25 de abril de 2015, foi uma surpresa para a presidente, que não participou de nenhum ensaio.

Ela frisa que confia em sua equipe, caso contrário, não teria sentido. A maioria é voluntária na escola e esse é um dos pontos observados, com peculiaridade, pela presidente.

"Graças a Deus conseguimos trabalhar de maneira humanitária. Acredito no trabalho por amor. Fico feliz em saber que a comunidade é presente. Para mim, é estranho assimilar uma pessoa batendo no peito por um pavilhão e amanhã está contemplando outro".

Solange Cruz e baianas da Mocidade Alegre. Foto: Claudio L. Costa

Houve situações como essas na escola, porém, tratadas de forma amigável. A saída ocorreu pela porta da frente. Alguns conheceram outros lugares e perceberem que o melhor local é a sua própria casa. São reincidentes. Preservaram a experiência e voltaram à "Morada do Samba". Solange fica muito feliz, claro!

É uma mulher habilidosa, comunicativa, vocabulário preciso - oratória e fonética especiais -, simpática e vaidosa. Em qualquer ambiente corporativo é possível encontrar líderes sisudas e enérgicas, com pouca feminilidade. Felizmente esse cenário muda a cada dia. Faço essas observações e, ela sorri animadamente.

"Gosto de mudar o figurino, o cabelo, os acessórios", completa.

Está sempre arrumada - inclusive, a respeito de unhas e maquiagem - e com a voz ativa para organizar qualquer evento. Com esse perfil passou a levar seu conhecimento, de liderança e empreendedorismo, às empresas de todo o país.

Solange é referência em palestras motivacionais. No ano passado, convidada para um evento na região sul do Brasil, teve uma experiência bem interessante. Havia dez salas e, em uma delas, com 50 presidentes e diretores de RH, ela estava entre os convidados e notou a coincidência com o segmento escola de samba.

Um presidente delega as tarefas e espera o resultado, mas é necessário o acompanhamento, a vistoria e a participação. Na Mocidade as reuniões ocorrem duas vezes por semana para discutir ações, planejamento e também o resultado após os eventos feitos na quadra, ou em outros lugares.

Solange Cruz. Foto: Divulgação

Ainda, na comparação com o mundo empresarial, em que a competição é inerente em qualquer setor, a escola de samba Mocidade Alegre preserva a tradição dos sambistas e fundadores Juarez, Salvador e Carlos Cruz. Quando a escola ganha o Carnaval, imediatamente os componentes seguem para sua quadra e comemoram. Quando uma coirmã vence o campeonato, a escola cumprimenta, respeitosamente, o outro pavilhão em sua própria sede.

"Quando saúdo um presidente e seu pavilhão, estou me referindo à nação daquela escola. Perder faz parte, porque todos buscam o campeonato, isso é natural", enfatiza Solange.

Vale lembrar que ela também teve uma função importante na Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, mas desligou-se para dedicar seu tempo integral a Mocidade. Ela parabeniza a gestão atual e comenta que há resultados, mas a divulgação foi tímida.

"O nome da Liga-SP é forte e reconhecido pelo segmento, isso é mantido com administração séria, linear e muita dedicação. Para mim, o maior valor de um ser humano e de todas as coisas é o nome. Isso é imprescindível", acrescenta.

Seus atributos também contemplam a facilidade para falar ao microfone. E revela:

"Falo com o espelho e observo pastores - eles têm o dom da didática e são persuasivos". Desde pequena era oradora da turma no colégio e na Mocidade Alegre aprimorou mais. Até o ano 2000 trabalhava com marketing e vendas. Batia todas as metas do mês - evidente quando tinha convicção. Certa vez, recebeu a incumbência de vender um material elétrico para unhas, que removeria cutículas instantaneamente. Avisou ao seu gerente que não acreditava no produto.

Tiro e queda. Não vendeu. Sr. Irvis e Roberto Siqueira - são chefes saudosistas, o último foi um "guru". Era uma importadora que vendia máquinas para cortar cabelo. Virei referência entre meus colegas e todos pediam dicas.

Casada há 23 anos com Mestre Sombra, eles tiveram Carlos Augusto, o Carlinhos, filho de 15 anos, também chamado de Sombrinha. A mãe descreve o primogênito com os olhos brilhantes.

Ele é autodidata, independente, toca todos os instrumentos, joga futebol, estuda inglês, é líder nato e tem opinião formada para tudo, além disso, é uma pessoa muito querida. É capaz de sair em todas as escolas de samba. Os mestres de bateria gostam muito dele e na cidade maravilhosa até participa de um grupo formado por esses ritmistas.

"Carlinhos está sempre antenado. É um estudioso do Carnaval e gosta muito de sambas enredo e desfiles. O material menos assistido é o da Mocidade Alegre porque ele vivencia mais. Aprendeu a tocar os instrumentos sozinho, sem a interferência do pai". Depois de tecer os elogios ao filho ela comenta, com muito carinho, sua atuação maternal. "Peço perdão ao meu filho, porque falho como mãe. Ele entende e até brinca com isso, mas estamos sempre juntos, inclusive porque o Sombra é pai e mãe, em muitas vezes".

Mulher, mãe, líder, formadora de opinião, Solange Cruz é católica, devota de Nossa Senhora, gosta de ir ao cinema, gosta de cozinhar e receber seus amigos.

Dinâmica e assertiva nas decisões, sua trajetória é composta de vitórias que a conduzem para celebrar a vida!

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20/03/2015 00h03

Murilo Lobo: Superação de um jovem talento do Carnaval
Aurora Seles

Ah, assistimos mais um espetáculo!

O último Carnaval foi simplesmente lindo. Daqui a pouco tem mais. Aproveitarei o momento para contar, em linhas leves, a trajetória de um amigo querido - exemplo de superação.

Nosso papo rolou numa sorveteria bem planejada. Ambiente convidativo com algumas taças, transbordando de massas geladas, e também xícaras. O projeto inteiramente arquitetado por ele. Sim! Murilo Lobo, 49, estudou canto, é arquiteto, cenógrafo, carnavalesco e apaixonado pela vida.

Murilo Lobo. Foto: Divulgação

Suas primeiras palavras ecoam com o trecho do Samba da Benção, de Vinicius de Moraes: "Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração". A pele clara transcende a adoração pela cultura afro-brasileira. Filho de pai seresteiro - tocava violão, cantava MPB e samba - ao lado da mãe, ambos curtiam os bailes de Carnaval, no Esporte Clube Banespa, e confeccionavam as próprias fantasias para animar o bloco do salão. A animação perdurava a noite inteira e, durante o dia, os figurinos eram readaptados às crianças.

Nesse clima o jovem Murilo passou a criar as peças dos amigos. Também era adepto ao canto e até hoje guarda gravações de quando tinha apenas seis anos, cantando samba de breque, preferência voltada ao samba e jamais à música americana.

Aos 15 anos, sozinho, assistiu aos desfiles na Avenida Tiradentes. Era o primeiro a chegar e garantir um espaço bacana. Ele não torcia por nenhuma escola de samba. Absolutamente aberto ao espetáculo, tudo o comovia e extasiava. Uma paixão natural que crescia a cada instante. Sua sensatez permitia olhar as criações, admirá-las e aprender, sem desdenhar qualquer trabalho.

Em 1988 viajou ao Rio de Janeiro e sentiu a emoção, ao vivo, do espetáculo apresentado na Sapucaí. Conferiu tudo com muita admiração, em especial, a apoteose da Vila Isabel, posteriormente campeã, com o enredo "Kizomba, a festa da raça".

Desfile da Unidos de Vila Isabel em 1988. Foto: Divulgação

É kardecista e acompanha as atividades em um núcleo espírita. Nesse lugar sua vida migrou ao segmento Carnaval. Era um belo dia de 2007 e um amigo o convidou a desfilar na Rosas de Ouro. A ala "Canto Forte", na época com débito de R$ 30 mil. Pediram autorização da presidente para fazer uma fantasia mais simples. Com essa venda, quitaram a dívida e conseguiram confeccionar os figurinos daquele ano. No dia da grande festa, ajudava a amarrar as fantasias, organizava as filas, corria de um lado a outro. Adrenalina total.

Em 2006, o enredo: "Diáspora africana, um crime contra a raça humana", trouxe mais envolvimento com a agremiação. No ano seguinte passou a ser chefe de ala e conheceu a escola com mais detalhes. Visitava os bastidores. Paralelo a isso, sempre mandava comentários ao diretor musical Osmar Costa. Este gostava das análises e convidou Murilo a fazer parte da "Comissão Julgadora de Samba de Enredo", ao lado dos diretores da escola. Oportunidade de opinar e trocar ideias complexas com os participantes.

Surge a chance irrecusável, por meio do carnavalesco Jorge Freitas, para escrever a quatro mãos o enredo "Cacau: um grão precioso que virou chocolate, e sem dúvida se transformou no melhor presente" - campeão de 2010. A priori, seu contato com Freitas era apenas como chefe de ala. Relação conflituosa, mas felizmente viraram grandes amigos.

Em 2011 recebe das mãos do amigo Freitas, a incumbência de desenvolver um enredo na cidade de Santos à escola Sangue Jovem. O tema enaltecia reis africanos: Mandela, Martin Luther King e o rei Pelé - os três arautos da paz. Outra experiência incrível e ao mesmo tempo dolorosa. Afinal, são realidades completamente distintas, verba reduzida e a distância da grande metrópole.

A agremiação - oriunda de torcida de futebol - diferenciava-se como organização de escola e havia poucas pessoas no barracão. Mesmo assim, foi um belo desfile. Horas depois, quando voltava - de ônibus - para São Paulo, Murilo recebe a triste notícia do acidente, com três vítimas fatais - eletrocutadas próximas ao local do evento.

Acidente com alegoria da Sangue Jovem. Foto: Reprodução

Esse episódio não estava sob a responsabilidade da escola e sim da segurança pública. Abalado, ele titubeou, pois estava começando a desenvolver seu trabalho. Deixar de ganhar o Carnaval em função de alegorias, fantasias, evolução, qualquer quesito é um fator, mas perder vidas é imensurável. Difícil comparar.

E se não bastasse sua dedicação ao Carnaval, em 2012 outro susto, diagnosticado com câncer de tireoide. Perguntava-se por que havia passado por isso. Superou e encontrou a resposta na alegria de viver. Para ele, a fragilidade é econômica e explica que não passou a vida com intuito de investir na velhice, mas sim nos sonhos. Os dias passaram e refletiu "as oportunidades surgem, muitas vezes, para levar luz às pessoas e aos projetos que nos envolvemos".

Trabalhou muito tempo voluntariamente. Com a remuneração, a responsabilidade e o compromisso aumentaram, porque a paixão está atrelada a essa característica. Novamente o amigo e carnavalesco da Rosas de Ouro oferece outro desafio. Desta vez seria desenvolver um trabalho à escola do Grupo de Acesso, em São Paulo: a Unidos do Peruche.

No início ele acreditava que seria semelhante ao projeto feito no litoral. Criar o enredo e fazer algumas visitas técnicas. Engano! A escola carecia da presença do carnavalesco e estava desde 2010 no mesmo grupo. Com a direção nova, tudo foi literalmente revisto. A proposta era um enredo afro.

Em casa questionou a si mesmo: o que essa comunidade precisa ouvir? Pesquisou a lenda de um menino - desenho franco-suíço (originalmente Kiriku e a Feiticeira). Título posteriormente substituído para "Karabá e a lenda do menino de coração de ouro". Narrativa de uma história singela sobre um menino que nasceu falando. A tribo era oprimida por uma poderosa feiticeira e ele perguntava qual o motivo daquela maldade. A busca desse menino, em ajudar sua aldeia, fundamentava-se na busca da verdade. Pelas entranhas da terra, o menino fez amizades com os animais e finalmente chegou ao cupinzeiro - onde morava o grande sábio. Esse local só era aberto a quem fosse digno e o menino de ouro possuía essa peculiaridade.

O sábio explicava que a feiticeira não era absolutamente malvada. Quando criança havia sofrido uma violência; em suas costas foi cravado um espinho para que ela dotasse de poderes malignos. Ela sentiu muita dor e pensava que nunca mais se livraria do mal. O menino tira o espinho com os próprios dentes e a vida da feiticeira renasce. Tudo se renova. Como agradecimento ele é beijado e vira um grande guerreiro.

Essa é a trama do enredo, a transformação. Naquele instante Murilo encontrara o tema à "Filial do Samba". Ela precisava tirar o espinho de suas costas. Para isso, a dedicação dos componentes, com seus corações de ouro, seria fundamental. O trabalho coletivo fez a transformação. Um dos trechos do samba: "Quem tem coragem e na fé vai atrás do que quer, é guerreiro! Dignidade traz sabedoria para reconhecer na vida o sentido verdadeira".

Ele acredita que a função dos criadores de Carnaval é encontrar nas comunidades o que ela quer e pode dizer. O trabalho, feito em conjunto, trouxe o resultado. Pela primeira vez conferiu a criação inteira na avenida, sob uma forte chuva. Humildemente reitera a ajuda dos amigos e canta outra parte do samba: "Missão cumprida, olha aí a nossa tribo na avenida".

A conversa segue, com entusiasmo e paródias. Trocadilho com o enredo "Mirei no que vi e acertei no que não vi. O menino pequeno se tornou grande guerreiro. A jornada é de todos. Para sermos grandes na vida temos de começar com pouco".

Lidou com situações curiosas, por exemplo, na comissão de frente trouxe borboletas. Espécie que deixa para trás não apenas um simples casulo, mas a forma de ser e transformar-se em algo melhor. Muito contestado, insistiu. A escola abriu o desfile com bailarinas de ponta - trabalho feito pela coreógrafa Paula Gasparini. Frisa que Carnaval é feito de bom gosto e que alguns visuais são surpreendentes e nem por isso, tão caros. Por exemplo, o cupinzeiro foi forrado com boias de piscina (material reciclado - espaguetes cortados em 20 mil pedaços) com pastilhas pratas aplicadas.

Comissão de frente da Unidos do Peruche. Foto: SRZD - Claudio L. Costa

O compromisso emocional contribuiu para a permanência na escola, já com o enredo 2016: "Ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que ninguém no mundo vence a beleza que tem o samba...100 anos de samba, minha vida, minha raiz". A data do centenário será em 1 de novembro do próximo ano (fonte: Enciclopédia da Música Brasileira, com a partitura do registro de Pelo Telefone, composição de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida). Enredo musical, uma festa de todos. Com outro verso cantarolado, desta vez de Caetano Veloso: "o samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor, o grande poder transformador", finalizamos o bate-papo com sua definição sobre Carnaval.

"A expressão mais profunda de alegria e paixão que a gente tem nesse país. É uma ópera ao ar livre. As escolas precisam encontrar meios para viabilizar o espetáculo, não necessariamente pelo luxo, mas pela emoção do componente. São as pessoas que fazem a diferença".

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13/02/2015 00h02

O ritmo da animação pede passagem com tecnologia
Aurora Seles

Concentrar, organizar e manter mais de duas mil pessoas num percurso de 530 metros é uma tarefa peculiar. Somado a isso, muita energia, alegria e claro: comunicação!

Daqui a pouco serão abertos os portões da passarela do samba em São Paulo, o sambódromo do Anhembi , Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo. No Grupo Especial serão 14 escolas de samba e no acesso 8 agremiações. Uma das maiores festas do mundo em que o público, canta, dança, aplaude, sorri e transborda de emoção.

Quando criança ficava fascinada com o agito, a correria e até os gritos nos bastidores do Carnaval. Naquela época o "gogó" ditava as regras. E quando soava o apito, todo mundo ficava em estado de alerta. Fogos de artifício também eram recursos para despertar a atenção dos componentes. E finalmente, o som da sirene para avisar que o desfile começaria.

Parece que foi ontem, mas o tempo voou.

Há duas semanas estive na cabine do SRZD - preparada especialmente à cobertura - e conferi aos ensaios técnicos. Observei o cuidado das escolas de samba com a comunicação.

Cabine SRZD no Anhembi. Foto: SRZD

Os dirigentes usavam fones de ouvido, microfone e rádio. Outro item foi o metrônomo, utilizado para marcar o tempo do compasso (indicado pelo piscar de uma luz LED) e por um som eletrônico. Esse acessório acompanha o ritmo das baterias e deixa o desfile mais homogêneo na questão sonora, onde o tempo médio dessa ala gira em torno de 145 batidas por minuto. Em suma, é um relógio que mede o tempo musical e os compassos.

As escolas também traziam outra tecnologia: um veículo aéreo não tripulado, também chamado UAV (Unmanned Aerial Vehicle) e mais conhecido como drone (zangão, em inglês). Equipamento resistente a trabalhos pesados e ambientes diversos. Essa pequena aeronave, que não necessita de pilotos, fazia imagens panorâmicas dos desfiles técnicos. Sem dúvida, uma alternativa sensacional para registrar o trabalho complexo das escolas de samba.

Sambódromo do Anhembi. Foto: Rafael Neddermeyer - Liga-SP/Fotos públicas

A equipe SRZD, numa estrutura de alguns metros quadrados, abrigava quase vinte profissionais que administravam, ao vivo, a transmissão. Houve também a visita de muitos artistas e entrevistas. Vídeos e fotos publicados em tempo real. O trabalho estava sob a direção do querido Raul Machado.

Vivemos a era digital. Certamente a tecnologia da informação contribui para o crescimento dos comunicadores e, no Carnaval, essa interação está no ranking das prioridades. Mais um ano em que muitos foliões, seja por meio da arquibancada, da web ou de um televisor, conferirão um espetáculo mágico de confetes, serpentinas, tecnologia, brilho, cores, luz e sincronismo dos componentes. Na passarela do samba uma infinidade de pessoas percorrerão um pouco mais de meio quilômetro. Serão 65 minutos de festa para cada escola.

A comunicação estará presente em todos os quesitos.

Confira esse ziriguidum e viva o Carnaval 2015!

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15/01/2015 13h45

Comunicação: crise para o contexto da escola de samba
Aurora Seles

Trabalhar no segmento da comunicação é, sem dúvida, uma das áreas mais atraentes. Não há rotina e em várias ocasiões é preciso mudar as estratégias em cima do "deadline".

Nos últimos meses participei de nove projetos institucionais e seis foram implantados. Quanto aos trabalhos pendentes, o motivo é exatamente o tema desse conteúdo: gestão de crises. Uma tensão corporativa pode durar três dias, três semanas ou três meses.

Comunicação: crise para o contexto da escola de samba. Foto: Reprodução

Felizmente já estamos na fase de reorganização. Antes de atuar no Carnaval, frequentava, ao lado de vários amigos, ensaios das escolas de samba. No dia de retirarmos as fantasias notamos o presidente com três aparelhos celulares em suas mãos.

Desligava uma chamada e atendia outra, sem cessar. Posteriormente ele comentou com o nosso grupo o motivo de tantos telefonemas. Um funcionário havia caído de uma alegoria e estava muito machucado. A imprensa queria saber detalhes, mas o dirigente aguardava informações do hospital.

Um de meus amigos comentou: você precisa de uma assessora de imprensa. Trocamos cartões. No ano seguinte estava na quadra, mas desta vez não era foliã.

Desde então são inúmeras situações presenciadas e administradas nesse setor. Um dos cases marcantes foi receber uma nota do departamento que controla o uso de imóveis e atua na prevenção e fiscalização de instalações e sistemas de segurança de edificações, em São Paulo.

Na mesma semana uma boate, em Santa Maria-RS, vitimou quase duzentas e cinquenta pessoas e vários estabelecimentos foram monitorados. A escola em que assessorava recebeu uma equipe de fiscais que solicitou a apresentação, em 24 horas, de toda a documentação que atestava a segurança da quadra. Isso tudo ocorreu uma semana antes de a escola desfilar no sambódromo.

A situação era delicada e os dirigentes ficaram com os humores alterados. Felizmente pela confiança adquirida tive, a incumbência de gerenciar o momento com a imprensa e os órgãos responsáveis.

Comunicação: crise para o contexto da escola de samba. Foto: Reprodução

Advogados, engenheiros, técnicos, comunidade e todos os afins. Fazer o media training para que a principal dirigente falasse com os jornalistas foi um momento especial. Choro, revolta, punhos cerrados e insegurança. Tudo fazia parte do cenário. Cerca de meia hora depois convocamos a imprensa e a fala - emocionada - transmitiu credibilidade e confiança ao principal parceiro da agremiação: seu público!

Nota emitida aos órgãos de comunicação, aos canais da escola e aos patrocinadores. A escola teve ainda dois ensaios na quadra e recebeu uma excelente classificação no desfile oficial. A garra dos componentes fidelizou ainda mais a história daquela entidade. Após a crise, vários pontos foram reavaliados e claro, o ensinamento do mestre dos magos contribuiu para minimizar o problema: "a verdade os libertará".

Muitas vezes os grandes desastres e escândalos nascem de pequenos deslizes, portanto, a melhor maneira de lidar com uma crise é por meio da prevenção. Estudar e apurar os possíveis pontos críticos de uma empresa; observar a postura dos porta-vozes - excepcionalmente aqueles que têm medo -, até porque, esse é um sentimento que normalmente paralisa os envolvidos e não se eximir da culpa são providências essenciais ao gerenciamento do fato.

O desempenho manterá a credibilidade da empresa, afinal, comunicação não é o que você diz, mas o que o outro entende.

O clichê "fazer do limão uma limonada" reitera: uma crise pode ser sinônimo de uma grande oportunidade.

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06/08/2014 00h40

Comunicação: uma ferramenta universal
Aurora Seles

Desde os primórdios, até a atualidade, os meios de conversação contribuem aos diversos segmentos.

Recentemente li um artigo de Sidney Rezende, com excelente análise, sobre o ofício de ser jornalista. Refleti profundamente sobre a importância da comunicação.

A meu ver, trata-se de uma das maiores ferramentas para promover a simbiose do conhecimento. Ser jornalista, por exemplo, não é ter a ilusão de ficar atrás de uma bancada. A paixão pelo segmento é complexa, porque adquirimos técnicas de melhorar nosso diálogo e principalmente, levar informação.

Comunicação na pré-história. Foto: Divulgação

Tudo começou na era pré-histórica. O homem observou a necessidade de manifestar-se desde que passou a viver em sociedade, fosse para alertar sobre alguma coisa, expressar sua cultura ou sentimento.

No período Paleolítico e Mesolítico (500.000 A.C. a 18.000 A.C.) o homem dominava a natureza, fabricava utensílios, usava trajes para conter o frio, usava o fogo e também desenvolvia a linguagem com intuito de se exprimir.

Desta forma, começa-se o que hoje conhecemos como pinturas rupestres, ou seja, desenhos feitos em cavernas ou pedras com a ideia de expressar-se. Logo depois, as habitações passaram de cavernas a casas construídas pelo próprio homem, as roupas eram produzidas por teares e a comunicação passava a ser expressa em ossos, pedras e madeiras.

A transição da Pré-história ocorre no final da Idade dos Metais (por volta de 4.000 A.C.), daí o surgimento da escrita na Mesopotâmia e no Egito.

Desde então essa ferramenta cresceu cotidianamente. O primeiro exemplar de um jornal é de 59 A.C., em Roma. No rádio, consta a primeira transmissão em 1900; a televisão surge em 1924. O processo é realmente evolutivo: desenvolvimento da pré-escrita, da escrita, do papel, das impressões manuais e das mecânicas.

Estamos na era digital - da tecnologia e informação - e podemos dividir nossos pensamentos e sentimentos ao redor do mundo. A informação alcançou distâncias geográficas e culturais.

A comunicação é um processo que circunda a troca conhecimento. Muitas vezes são utilizados os sistemas simbólicos a este fim.

Há uma infinidade de maneiras para promover a informação: duas pessoas durante uma conversa face a face, ou através de gestos com as mãos, mensagens enviadas pela internet, a fala e a escrita possibilitam interagir com o mundo.

Com o uso da semiótica - teoria geral de todas as linguagens e de todos os sistemas de significação - o ato de comunicar-se é ainda maior.

Podemos materializar o pensamento através de símbolos. Este processo, que abrange as redes colaborativas e os sistemas híbridos, contribui para as comunicações de massa, pessoal e horizontal.

Chacrinha, o velho guerreiro, alardeava: "Quem não se comunica se trumbica". Absolutamente! A comunicação é uma atividade educativa. Ela circunda a troca de experiência entre pessoas de gerações diferentes, evitando-se assim que os grupos sociais retornem ao primitismo.

Chacrinha. Foto: Divulgação

Sem dúvida, o assunto oferece um gancho sobre a importância da comunicação num desfile de Carnaval.

Desde a ideia do enredo até a concepção da totalidade das alas, a interação é simultânea.

Carnavalesco, diretorias gerais de uma agremiação e também das alas, componentes.

Da concentração até o fechamento dos portões, tudo é sincronizado. O tempo cronometrado.

A demanda envolve muitas pessoas - e faixas etárias. Claro! Da velha-guarda à ala das crianças, não há exceção.

Todos têm sua importância na passarela do samba. Imaginem um setor perder a conexão com os outros setores.

Ufa! Vale lembrar que a criação do enredo é - na maioria das vezes - a interpretação de um fato histórico, de uma homenagem, de uma recordação.

Há pouco mais de uma hora para retratar o tema. O resultado positivo, do trabalho que dura o ano inteiro, ocorre excepcionalmente pela boa comunicação.

As atividades incluem festas, ensaios, shows, coreografias e muito diálogo. Imprevistos são solucionados rapidamente quando existem os chamados "planos B", mas esse é um assunto de gerenciamento de crises.

Confira no próximo artigo!


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10/07/2014 00h12

Cadência do Futebol
Aurora Seles

O futebol é uma das marcas do nosso querido país. Há várias pérolas na modalidade e Mané Garincha (1933-1983) está entre as joias.

Elza Soares e Garrincha. Foto: DivulgaçãoNa década de 70 dançava seus dribles nos adversários e fazia muita finta. O termo - de origem italiana - significa ato de fingir, do particípio passado do verbo "fingir". A finalidade é fazer com que o oponente acredite em uma ação, que não acontecerá.

A finta é uma jogada individual que existe praticamente em todos os esportes coletivos. No caso do futebol, o termo mais usado é o "drible".

A rapidez e perfeição desse movimento ficou conhecida nos pés do grande Garrincha. Suas pernas eram tortas e driblava quase com frequencia para o mesmo lado.

Será sempre lembrado como um dos heróis da conquista da Copa do Mundo em 1958 e, principalmente, da Copa seguinte.

Em 1968 casou-se com Elza Soares, uma das maiores musas da música popular brasileira. Cantora de jazz, soul e com a voz especial - entonação grave, muito peculiar. A soada rouca e vibrante tornou-se sua marca registrada. Após terminar o segundo LP, "A Bossa Negra", Elza esteve no Chile para representar o Brasil na Copa do Mundo de 1962. O estilo exorbitante fascinou o público.

Garrincha. Foto: Ilustração

Elza tornou-se popular com as canções "Se Acaso Você Chegasse", "Mas Que Nada", entre outros sambas de sucesso. Foi a primeira mulher brasileira a puxar um samba enredo. Passou pelo Salgueiro, Mocidade e Cubango. Recebeu indicações ao Grammy Awards e, em 2000 recebeu o prêmio como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres.

No ano 2007 cantou o Hino Nacional Brasileiro a cappella na Cerimônia de Abertura dos Jogos Panamericanos Rio 2007. Seu último álbum, lançado em 2004, "Vivo Feliz", traz a mistura de diversos ritmos que vai do samba à música eletrônica.

De um lado, o drible nos pés do anjo de pernas tortas. Do outro, o som na voz rouca da linda negra. Sem dúvida uma união que referencia gerações em várias modalidades. Seja para quem gosta de ver a bola correr nos grandes campos ou ouvir as belas interpretações da música popular brasileira.

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04/06/2014 12h52

Música para o coração
Aurora Seles

No início da década de 70 morria o grande Pixinguinha (1897-1973). Chamava- se Alfredo da Rocha Viana que, durante a vida foi flautista, saxofonista, compositor e arranjador brasileiro.

Pixinguinha. Foto: Divulgação

Uma de suas canções mais marcantes é "Carinhoso". Desde a criação consistiu interpretações de Elis Regina, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Maria Bethânia e muitos outros nomes da nossa música.

Tema de novela, jingle publicitário e muitas adaptações, "Carinhoso" é sem dúvida, uma das obras mais importantes da música popular brasileira. Foi composta entre 1916 e 1917 por Pixinguinha e posteriormente recebeu letra de João de Barro (Braguinha), sendo gravada com grande sucesso por Orlando Silva.

Desde o início de 2014 artistas, de diversos segmentos, morreram em decorrência de problemas cardíacos. A lembrança é propositalmente aplicada para que o leitor reflita o primeiro verso da obra de Pixinguinha:

Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim

Cifras da canção Carinhoso. Foto: Divulgação

O uso do gerúndio caiu como uma luva nas metáforas: os olhos ficam sorrindo e seguindo alguém que foge. Ah, nessa hora o coração bate feliz!

Arrisco em afirmar que realmente o coração ri, muito mais do que chora. Esse órgão carrega todo o sentimento e pulsa de alegria quando emana carinho. Fica mais carinhoso.

Somos privilegiados e acarinhados por obras dessa proporção. E como disse o grande jornalista Sergio Cabral*: "Músicos, musicólogos e amantes de nossa música podem até discordar de uma coisa ou outra. Mas, se há um nome acima das preferências individuais, este é Pixinguinha."

Caricatura do Pixinguinha. Foto: DivulgaçãoEle era também uma das principais figuras das rodas de choro na casa de Tia Ciata, onde o choro acontecia na sala e o samba no quintal. Num desses encontros nasceu o famoso Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba gravado.

No dia 17 de fevereiro de 1973 - data em que seria o padrinho de uma criança - na IgrejaNossa Senhora da Paz, em Ipanema/RJ, Pixinguinha sofreu um enfarte definitivo. A Banda de Ipanema, que fazia naquele momento um dos seus mais animados desfiles, rompeu-se na hora, com a chegada da notícia. Os corações não conseguiam sorrir.

Daqui a pouco a composição completará um centenário. Há peças tão genuínas que jamais envelhecem. E é fato: Pixinguinha é gosto universal para todas as idades.

* Autor de Pixinguinha, Vida e Obra (1977)


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