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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



08/09/2016 16h59

Opinião: Os sambas da Vila Isabel
Carlos Fernando Cunha

Quando anunciei por aqui que iniciaria esse processo de análise dos sambas-enredo de escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, evidenciei que seria tarefa árdua escrever sobre os sambas da Vila Isabel. Por conta da paixão que tenho pela escola e pelo fato de conhecer pessoalmente vários dos compositores candidatos. Se neutralidade é algo inviável de atingir no ato da crítica, neste caso, o caminho é ainda mais penoso. Mas, vou tentar, pois as utopias são necessárias.

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Em primeiro lugar, sabemos que a Vila Isabel é especialista em fazer bons sambas. Podem buscar em suas mentes que encontrarão vários sambas produzidos no chão do bairro de Noel que se destacam por sua qualidade, ousadia e inovação. Peguemos Martinho da Vila e parceiros como exemplos.

Em 1967, ele e Gemeu ganharam com "Carnaval de Ilusões", samba que incorporou em seu refrão uma canção de roda popular: "Ciranda, cirandinha/Vamos todos cirandar/Vamos dar a meia volta/Volta e meia, vamos dar". Em 1987, Martinho, Ovídio e Azo compuseram "Raízes" e inovaram com os versos sem rima. E ainda poderia destacar outros sambas: "Sonho de um sonho" (Martinho, Rodolpho e Graúna), 1980, escrito a partir das ideias de Drummond, samba de melodia ímpar; "Pra tudo se acabar na quarta-feira", 1984, letra que traz à cena o protagonismo dos trabalhadores do carnaval. Enfim, a Unidos de Vila Isabel contraria Noel Rosa. Ela não só mostra que faz samba também, mas produz sambas de muita qualidade, em vários casos, inovadores e ousados.

Inovação e ousadia marcam o samba da parceria de André Diniz, Bocão, Tunico e amigos. Ao meu ver, trata-se de um samba que, ainda candidato, já entra para a história da Vila Isabel e dos sambas-enredo. Em primeiro lugar, numa bela homenagem ao parceiro Leonel, falecido, os autores fazem um acróstico, ou seja, as primeiras letras de cada verso da letra formam, em sentido vertical, uma mensagem, uma máxima que remete ao companheiro e ao próprio enredo: "O tema musical deu mais saudade, Leonel". Emocionante. Ainda sobre a letra, destaco o poder de síntese dos autores, pois tudo da sinopse está lá, bem arrumado. Mas André e CIA não pararam por aí. O refrão do meio construído por eles é digno de um estudo mais apurado a ser feito posteriormente. Ele diz: "Da ancestralidade se formou/Em mãos de prata, o negro da canção/ Um passo, um giro, um toque do tambor/Milongueiro tango é pura sedução". Surpreendentemente, em sua repetição, o refrão é cantado de trás para a frente, invertido. Por que? Teríamos aqui a intencionalidade dos autores em nos sugerir, através deste bate e volta, a resistência e persistência do povo negro, as idas e vindas místicas da ancestralidade, a via de mão dupla e a simbiose que marcam a construção dos gêneros musicais americanos? E ainda tem mais.

Prestem atenção na melodia do refrão. Da primeira vez que ouvi, achei que tivesse faltado sincronia entre a melodia cantada e a instrumentação da gravação. Mas foi escutar novamente e perceber a intencionalidade dos autores em alterar a métrica tradicional do canto, as divisões, transformando este refrão, musicalmente, numa síntese do enredo, qual seja, o som da cor, o som negro, polirritmado, sincopado, ousado e desafiador. Para finalizar meus pitacos sobre esta parceria, ainda cito sua linda e tradicional melodia que, junto às contemporaneidades citadas, formam um grande samba. Se ele vai ser o vencedor, se o samba é o melhor para a Vila Isabel desfilar com vistas ao título, não sei. Mas, ao meu ver, entrou para a história.

- Ouça o samba de Evandro Bocão, André Diniz, Tunico da Vila, Professor Wladimir, Wanderson Pinguim

Dona Ivanísia, Vinícuis Natal e parceiros trazem para a disputa outro belíssimo samba. A letra é muito bem construída, poética, e destaco a linda passagem: "Do alto, a lua de Luanda chegou querendo se juntar ao povo do samba para Kizombar". O samba possui melodia fácil, bem feita, bonita e dota o samba daquilo que chamamos de "pegada". O intérprete Zé Paulo, um dos melhores do momento, dá um show na gravação apresentada. Zé possui um timbre especial, demonstra garra e força na voz e brinca como ninguém com os ornamentos do canto, sem exagerar nas doses. Vale também destacar os dois excelentes refrões do samba que, com certeza, mexerão com a alma dos amantes da Vila. A escola estará muitíssimo bem servida se Dona Ivanísia e amigos forem os campeões da disputa.

- Ouça o samba de Dona Ivanísia, Antônio Conceição, Dinny da Vila, Thales Nunes, Vinícius Natal

Vou continuar a análise com mais um sambaço da Vila Isabel, outro possível campeão, a parceria de Arthur das Ferragens e amigos. Letra muito bem elaborada, em acordo com a sinopse, que apresenta bonitas passagens poéticas, tais como as que constroem o refrão do meio: "Vila/Azul que dá o tom a minha vida/Um sopro de esperança na avenida/Eu faço um pedido em oração/Ouvi-la sempre no meu coração". Ou ainda na primeira parte do samba, os belos versos: "Oh minha flor/Quero você em meus braços/Bailando no mesmo compasso/Um tango de drama e amor". Destaco também a segunda parte do samba, onde encontramos um diálogo que pode ser muito bem aproveitado entre os intérpretes e o povo do samba: "Ginga no lundu/Morena/Negro é o rei/É o rei/Toque de Ijexá/Afoxé/Pra purificar/Minha fé". Esta seção do samba, ao meu ver, pode fazer a diferença na disputa, pois trata-se de uma estratégia dos compositores que vai evidenciar o canto da escola, um dos grandes atributos e trunfos da comunidade da Vila em seus desflies. O samba tem corpo e alma de Vila Isabel.

- Ouça o samba de Artur das Ferragens, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Braguinha e Rafael Zimmerman

Outro bom samba é o do batuqueiro e compositor Macaco Branco que esbanja coragem e rema contra a maré ao assinar sozinho sua obra. A letra é bem feita, sem sobressaltos e enxertos artificiais vindos da sinopse. A melodia também é bem construída e soa bem aos ouvidos. Merece destaque o refrão do meio, no qual Macaco Branco parece brincar com a métrica e a divisão rítmica aos moldes dos sons latinos. Vai brigar. "Deixa a Swingueira te levar"!

- Ouça o samba de Macaco Branco

Cito também o samba de Jonas e companheiros. Um bom samba, especialmente sua segunda parte e o interessante refrão final.

- Ouça o samba de Jonas, Marcelo Mendes, Mazinho Villas, Chico Moraes, Jaiminho Harmonia

A Vila Isabel segue sua história e apresenta uma excelente safra para 2017. Para além das inovações, das belas melodias e poesias que os sambas trazem, fico feliz pelos jovens compositores que têm se apresentado como concorrentes ao longo das últimas disputas. Alguns estão novamente nesta safra, outros resolveram dar um tempo este ano. Temos um time de primeiríssima linha no bairro de Noel Rosa e das calçadas musicais. Sigamos, pois a estrada é longa! A Vila Isabel precisa de todos vocês!

Axé!
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Foto: Henrique Matos

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02/09/2016 12h58

Opinião: Os sambas da Portela
Carlos Fernando Cunha

"Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar" é um dos enredos mais aguardados na Sapucaí em 2017. Pela Portela, por Paulo Barros e por seu detalhamento expresso na sinopse. As águas doces, os rios, seus mistérios e força. Cai perfeitamente a temática na Portela, a escola azul e branca que já fez desfiles e sambas belíssimos falando das águas e do mar. E nem vou mencionar o samba de Paulinho da Viola, uma beleza, tomado de empréstimo para dar nome ao enredo.
Ouvi atentamente os sambas disponibilizados no site do SRZD. De imediato senti falta de alguns tradicionais compositores na lista dos sambas, David Correia e Toninho Nascimento, por exemplo, dois craques. Não sei os motivos de não terem elaborado sambas, mas, de todo modo, fazem falta. Também fui pego de surpresa pela desclassificação da parceria de Luiz Carlos Máximo, outro excelente compositor vencedor. Enfim, coisas do mundo do samba.
Gostei da safra da Portela 2017. Há bons sambas que podem levá-la ao aguardado título, depois de anos sem um campeonato. Selecionei 4 sambas que me chamaram a atenção. Vamos a eles.

- Compositores: Edynel, Zezé do Pandeiro, Roger Resende, Yuri Soares, João Malandragem e Braguinha

- Compositores: Flávio Bororó, Alexandre Fernandes, Eli Penteado, Deco, Profa. Sônia, Enzo Moreno, Braco, Anderson, Zeca Bigode e Guga

- Compositores: Noca da Portela, Diogo Nogueira, Celso Lopes, Ciraninho, Rafel Gigante, Rafael dos Santos, Vinícius Ferreira, Leandro Fregonesi, Charlles André e André do Posto 7

- Compositores: Samir Trindade, Elson Ramires,Neizinho do Cavaco, Paulo Lopita 77, Beto Rocha, Girão e J.Sales

O samba dos amigos de Juiz de Fora, Edynel e parceiros, vai brigar e correr por fora. Vale lembrar que Edynel e Zezé do Pandeiro já sentiram o gosto de ganhar samba na Portela no ano 2000. O samba feito para este ano possui letra bem adequada à sinopse e uma excelente sacada, o sincretismo entre Oxum e Nossa Senhora Aparecida, presente no refrão.

Gostei também do samba de Bororó e parceiros. Possui um refrão final muito forte, tomando parte da melodia do samba de Paulinho da Viola. Melodia bonita e fácil de ouvir. Meu senão fica por conta do refrão do meio que possui bela melodia, mas não compreendi a estratégia dos compositores em repetir e inverter os versos: "Quem tá na beira do rio vem mergulhar/Vem mergulhar quem está na beira do rio/Quem tá na beira do rio vem mergulhar". A ver...

A parceria de Noca da Portela é muito forte. Um bom samba eles apresentaram. Assim como a parceria de Bororó, aproveitaram no refrão o samba de Paulinho. Um baita refrão. Letra bem construída em acordo com a sinopse e os possíveis setores do desfile. É um dos potentes candidatos.

O samba de Samir Trindade e amigos foi o que mais chamou minha atenção. É dono de uma melodia esplendorosa. Trata-se de um hino de amor a Portela. Muito bom de se ouvir, especialmente em sua segunda parte, linda. Quero muito ouvir este samba na quadra com a execução da bateria e analisar seu desempenho, pois necessariamente ele pede um andamento cadenciado. A letra parece que não conta todo o enredo, pelo menos o que percebemos através da sinopse. Mas trata-se de uma belíssima obra.

A Portela vai brigar com muita força para ganhar o carnaval 2017. Sua safra de sambas é mais um fator que indica a escola como uma das grandes favoritas.

Axé!
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30/08/2016 11h24

Opinião: Os sambas da Mangueira
Carlos Fernando Cunha

"Só com a ajuda do santo", nome do enredo da Estação Primeira de Mangueira para a Avenida em 2017. De certa maneira, Leandro Vieira segue o sucesso de 2016 quando a escola, em primeiro plano, homenageou Maria Bethânia, mas estavam lá o tema da força e da mística de Oyá. Desta vez não se trata de um enredo biográfico, mas uma abordagem geral sobre esta temática tão rica e tão importante para o povo brasileiro, a religião e seus mistérios.

Há alguns anos que a Mangueira traz sambas de alto nível para o Carnaval carioca. Para citar um episódio recente, creio que todos tenham percebido a força do samba de Alemão do Cavaco, Cadu e amigos, quando do encerramento dos Jogos Olímpicos 2016. Um samba potente, belo e que consagrou a Estação Primeira como campeã este ano. Na disputa passada tivemos excelentes sambas com vários dos autores e personagens que novamente se candidatam a donos do hino Mangueira 2017.

Talvez essa produção tão qualificada dos últimos anos tenha afetado a priori minha avaliação, ou seja, fui com expectativa elevadíssima para ouvir a safra de 2017. E confesso que não senti tanta emoção como no ano passado ao ouvir os sambas. Não se trata aqui de avaliar a safra como ruim, longe disso. Temos bons sambas em Mangueira e, com certeza, vai ser dureza a escola escolher o vencedor, pois, ao meu ver, a disputada está muito acirrada.

Meus destaques:

Compositores: Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão

Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Flavinho Horta, Gabriel Martins e Igor Leal

Compositores: Nelson Sargento, Arlindo Cruz, Gustavo Louzada, Cosminho Vida, Wagner Santos e Jorginho Bernini

Compositores: Tantinho da Mangueira, Deivid Domênico, Felipe Filósofo, André Braga, Guilherme Sá e Jorge Fernando TR

A parceria de Nelson Sargento (ídolo) traz, entre outros, Arlindo Cruz. Isso é de se destacar, pois bem sabemos a capacidade do artista em compor sambas-enredo e, julgo, cabe suspeitar de uma vontade de Arlindo em ser campeão em algumas das principais escolas do grupo especial carioca. Uma pequena dose de ambição é necessária em todo artista. O samba é muito bom. Avalio como aquele que conta melhor a história do enredo através de sua letra e destaco a boa sacada nos versos: Eu não sou santo, mas o santo me ajudou / Vou à igreja, mas também bato tambor. Isso é bem a expressão do brasileiro na sua relação com a religião e a vida.

Também considero muito bom o samba de Lequinho e amigos. O samba é a cara da Mangueira e, na disputa, tem a ajuda de um personagem que precisa ser mencionado: Tinga. Um monstro de cantar sambas-enredo. Ele pode fazer a diferença. Talvez seja sua voz que me faça ouvir neste samba uma sonoridade afeita à escola do bairro de Noel Rosa. Se o samba ganhar, posteriormente, prometo melhor explicar este sentimento, musicalmente falando.

O samba de Tantinho é excelente. Ele nos remete a estruturas melódicas dos sambas mais antigos, aqueles sambas que nos fizeram sambistas. Igor Sorriso está magnífico na interpretação. O refrão do meio é tão bom, tão bom, que sei lá! Ouso escrever que ele deveria ser o principal do samba. Desculpem a intromissão, amigos compositores. Amigos ouvintes, façam um teste. Comecem a cantar o samba pelo refrão do meio e sigam como se esta fosse a primeira parte. Coisas dos meus ouvidos? Me digam aí!

Alemão do Cavaco e seus parceiros campeões estão muito bem na briga, mais uma vez. A letra foi construída em acordo detalhado com a sinopse. Há soluções melódicas bem construídas, algumas difíceis, o que pode afastar passagens do samba daqueles ouvidos acostumados com sonoridades mais intuitivas. É mais um bom samba da safra e vai esquentar a arenga.

Em princípio, pode parecer que alfinetei a safra 2017. Mas vocês perceberam os adjetivos elogiosos atribuídos aos sambas que destaquei. Peço perdão, mas ainda estou marcado pelo impacto positivo e estrondoso de Mulher Brasileira e Menina de Oyá.

Salve a Estação Primeira de Mangueira!

Axé!
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24/08/2016 08h00

Opinião: Sambas concorrentes na São Clemente
Carlos Fernando Cunha

Antes de propriamente começar a escrever sobre a safra de sambas da São Clemente, aviso que deixarei as análises mais apuradas e detalhadas para quando os sambas de todas as escolas do Grupo Especial forem definidos. Farei isso individualmente com o samba campeão de cada escola, bem como ousarei uma análise comparativa entre eles. Assim, os comentários elaborados neste primeiro momento serão mais gerais com relação à safra específica de cada escola, destacando sempre alguns sambas que chamaram minha atenção positivamente.

- Confira o que colunistas do SRZD falam do enredo de sua escola

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

A São Clemente vem com um enredo de difícil compreensão, em princípio: "Onisuáquimalipanse". A expressão francesa significa algo como: Envergonhe-se quem nisso vê malícia, maldade. Remete a França do Rei Sol, mas é evidente que a craque Rosa Magalhães quer bulir com a nossa realidade brasileira.

Sendo assim, já era de se esperar que os compositores da escola construíssem suas obras com toques de humor e irreverência. Há sambas, inclusive, que conseguiram a difícil tarefa de citar literalmente em seus versos a palavra "Onisuáquimalipanse".

Muitas das letras trazem a picardia sugerida pelo enredo. Muitas das melodias também. Mas percebi certos exageros em sambas com construções melódicas afeitas às marchas carnavalescas. Bem como temos vários sambas por lá, cujas letras pouco nos possibilitam compreender o enredo. O difícil enredo, como disse anteriormente.

Na audição que realizei, entre os sambas concorrentes, dou destaque a três:

Compositores: Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo, Anderson Paz, Gustavo Albuquerque, Camilo Jorge e Marcelo SP

Compositores: Ricardo Góes, Flavinho Segal, Nelson Amatuzzi, Fábio Portugal, Naldo, Serginho Machado, Floriano do Caranguejo, Jedir Brisa, JJ Santos, Eduardo, Diego Tavares e Gustavo

Compositores: Marquinho Gravino, Hugo Bruno, Alex Jouber, Alexandre Moraes, Igor Marinho, Diego Estrela, Miranda, Russo e Fabiano

Boa sorte à São Clemente!

Axé!
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16/08/2016 08h49

Opinião: Samba-enredo, como avaliar uma obra de arte?
Carlos Fernando Cunha

Está quase na hora de iniciar a tarefa mais difícil que realizarei no Portal SRZD, avaliar e comentar os sambas-enredo concorrentes das escolas do grupo especial do Rio de Janeiro. Não fugirei da raia, mas gostaria de adiantar algumas palavras aos queridos leitores.

- Confira o que colunistas do SRZD falam do enredo de sua escola

Fotos: SRZD

É possível avaliar uma obra de arte? Que critérios utilizar? Existe neutralidade no processo avaliativo?
Essas perguntas estão martelando meu cérebro desde que aceitei a tarefa e vou tentar, minimamente, enfrentá-las.

- É possível avaliar uma obra de arte? - Sim, desde que tal avaliação siga critérios previamente estabelecidos e que você, enquanto avaliador, busque estar aberto ao desconhecido e fechado aos preconceitos.

- Que critérios utilizar? - Aqui mora o perigo, pois a definição dos critérios é fundamental em qualquer tipo de avaliação. Como defini-los?

- Existe neutralidade no processo avaliativo? - NÃO!

Fui curto e quase grosso. Mas é preciso ainda falar sobre os critérios. Na ausência de outros, nas análises que farei, vou tomar como parâmetros principais os critérios determinados pela LIESA em seu Manual do Julgador 2016:

"No Quesito Samba-Enredo, o Julgador irá avaliar a Letra e a Melodia do Samba-Enredo apresentado, respeitando-se a licença poética.

Para conceder notas de 09 a 10 pontos, o Julgador deverá considerar:

LETRA (valor do sub-quesito: de 4,5 a 5,0 pontos):
- a letra poderá ser descritiva ou interpretativa, sendo que a letra é interpretativa a partir do momento que contar o Enredo, sem se fixar em detalhes.
Considerar:
· a adequação da letra ao enredo;
· sua riqueza poética, beleza e bom gosto;
· a sua adaptação à melodia, ou seja, o perfeito entrosamento dos seus versos com os desenhos melódicos.

MELODIA (valor do sub-quesito: de 4,5 a 5,0 pontos)
Considerar:
· as características rítmicas próprias do samba;
· a riqueza melódica, sua beleza e o bom gosto de seus desenhos musicais;
· a capacidade de sua harmonia musical facilitar o canto e a dança dos desfilantes.
Não levar em consideração:
· a inclusão de qualquer tipo de merchandising (explícito ou implícito) em Sambas-Enredo;
· a eventual pane no carro de som e/ou no sistema de sonorização da Passarela;
· questões inerentes a quaisquer outros Quesitos".

Como não sou julgador, a esses critérios principais poderei agregar outros, certo? Isso é importante, pois o percurso pode apresentar armadilhas e novidades.

E ainda sobre aquela pergunta: Existe neutralidade no processo avaliativo? Respondi com um NÃO veemente. Então, vou tentar, juro que vou, ser o mais honesto comigo mesmo e com vocês sobre os sambas da minha paixão, a Unidos de Vila Isabel.

Axé!

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21/07/2016 11h11

Anittas e Ludmillas: Uni-vos!
Carlos Fernando Cunha

Prepara que agora é a hora do show das poderosas. Elas descem e rebolam, afrontam as fogosas. São as que incomodam e expulsam as invejosas que ficam de cara quando tocam. Se não está mais à vontade, sai por onde entrei. Quando começo a dançar, eu te enlouqueço, eu sei. Meu exército é pesado e a gente tem poder. Ameaça coisas do tipo: Você! (Show das Poderosas)

Olimpíadas. Foto: DivulgaçãoOs Jogos Olímpicos Rio 2016. É tão raro o acontecimento, uma edição da mais tradicional competição esportiva do planeta em nossas terras, que me atrevo a não escrever sobre o mundo do samba nesta semana. Já entrei no clima olímpico!

Os Jogos, bem sabemos, vem da Grécia Antiga, marcadamente organizados por questões religiosas. A partir de sua retomada em Atenas, 1896, os Jogos entraram em sua fase moderna, com a competição assumindo outros contornos: saúde, educação, política e economia.

Desde 2007, quando o Brasil oficializou sua candidatura a sediar o evento, num sugestivo 7 de setembro, os Jogos não saíram mais das páginas de jornais, das matérias de canais de televisão e das redes sociais.

Uma oportunidade para o país!

Um desperdício de dinheiro público!

As opiniões e análises sobre os Jogos Olímpicos Rio 2016 são variadas: amorosas ou rancorosas.

Chamo a atenção para a cerimônia de abertura dos Jogos. Um dos momentos mais aguardados e belos da competição, sem dúvida. Os diversos países que sediaram os Jogos Olímpicos ao longo do tempo mostraram ao mundo sua história, sua cultura, sua face. Atletas, autoridades, público e artistas dividem o espetáculo. Como esquecer o acendimento da Pira Olímpica em Barcelona, 1992?

E o que esperar da cerimônia de abertura dos nossos Jogos Rio 2016?

As notícias das últimas semanas revelam a presença na festa de escolas de samba do Rio de Janeiro, coreografias de Débora Colker, desfile de Gisele Bündchen, cantorias de Caetano Veloso, Giberto Gil, Elza Soares e Paulinho da Viola. Até aqui, elogios de todos os lados. No entanto, bastou divulgarem os nomes de Ludmilla e Anitta como participantes do evento que muitas pessoas, através das redes sociais, voltaram sua ira contra a organização dos Jogos e as próprias artistas. Mais um gol da Alemanha, muitos escreveram!

Vamos pensar um pouquinho. Quais argumentos baseiam essas críticas contra especificamente Ludmilla e Anitta? Gosto musical pessoal, certo? Mas será que é somente isso? Será que há machismo, racismo, sexismo, moralismo, preconceito de classe social?

Ficam as perguntas para nossa reflexão. Ainda que seja óbvia a resposta.

Lembrei do samba. Do velho samba do início do século XX. Do samba perseguido nas esquinas, nos botequins e nos terreiros, como disse Sargento.

Lembrei do funk. Do funk brasileiro que desde a década de 1980 apanha de preconceito e discriminação.

O que mais me incomoda nessas críticas às presenças de Anitta e Ludmilla na abertura dos Jogos é o fato de que perderemos, nós brasileiros/as, mais uma vez, perderemos a chance de valorizar e admirar aquilo que mais nos caracteriza enquanto nação: a diversidade. Somos um povo por ela marcado e abençoado. Nossa identidade é múltipla. Somos negros, brancos, cafuzos, mamelucos, espíritas, umbandistas, evangélicos, gays, machos, fêmeas, forrozeiros, sambistas e rockeiros. Somos muitas outras coisas conjugadas. Somos um Brasil que esbanja cores, sonoridades, cheiros e sabores. Mas parte de nós parece cega. Ou se vê de outra maneira no espelho.

Amigos e amigas, já passou da hora de fazermos da alteridade a nossa bandeira.

Que venham os Jogos Olímpicos Rio 2016!

Axé!

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04/07/2016 12h20

Alô, Mestre Mug!
Carlos Fernando Cunha

Escreveu Martinho da Vila em "Pra tudo se acabar na quarta-feira", samba-enredo da Unidos de Vila Isabel: "Os foliões são embalados pelo pessoal da bateria". Pois não lembro de roda em que eu não tenha cantado este samba de 1984, o estopim do meu caso de amor com a Vila. E, volta e meia, ao final do verso citado, incluo frase que homenageia um grande personagem do Carnaval carioca: "Alô, Mestre Mug"!

Amadeu Amaral, o Mug, é daquelas pessoas que todos gostam de estar perto e conviver. O presidente de honra da bateria da Unidos de Vila Isabel é mestre também em distribuir sorrisos e angariar admiradores por onde passa. No ano de 2010, em sua casa, batemos um papo em forma de entrevista que gravei e carreguei comigo. Após trinta anos (1979-2009), Mug deixava o cargo de mestre de bateria da Vila. Neste texto, recupero parte das memórias do querido Amadeu sobre sua história, a nossa Vila e os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Nascido em 17 de dezembro de 1950, no bairro de Bonsucesso, Mug teve uma infância sofrida, perdendo a mãe aos onze anos de idade. O pai, na luta do trabalho, invariavelmente tinha que deixar Amadeu e suas irmãs com parentes. Aos treze anos, Mug foi morar com a irmã mais velha no bairro de Vila Isabel. Na Vila ficou, mas esbarrou na ordem do cunhado de cerrar as portas da casa da Petrocochino às 22 horas. Foi então morar na Rua Conselheiro Correia, próxima à região chamada de Terreirinho, onde conseguiu viver a juventude com mais liberdade.

Na época, início dos anos 60, Mug ainda não frequentava a Unidos de Vila Isabel: "Eu nem gostava de samba. Frequentava uns bailes por ali. E gostava de bater macumba". Nas peladas de futebol, na convivência da Rua Nova e das vielas conheceu a rapaziada da bateria, de quem lembra com saudades: "Bibico, o maior surdo de primeira da escola. Vlandre, que foi meu mestre. Bebeto, Guaracy, Mauro do Terreirinho. Só tinha craque".

Já li textos sobre Mug que firmam sua entrada na bateria da Vila em 1967. No entanto, em nosso bate-papo, Amadeu contou que seu primeiro desfile foi em 1969: "Tinha um cara que se chamava Adauto. Ele saía todo ano na Vila vestido de mulher. Eu batia na curimba dele, no Terreirinho. No Carnaval de Ilusões, ele veio vestido de Saci. Fiquei interessado naquilo e quando veio o Yayá do Cais Dourado eu passei a sair na escola, em 69, por causa do samba". As referências feitas aos enredos e sambas, de maneira correta em seus tempos, indicam precisão na memória de Amadeu.

Na bateria dirigida por Mestre Ernesto, Mug começou tocando tarol, o instrumento mais característico da Vila Isabel: "Eu tocava tarol. Era tarol de couro. Gostava de um tarolzinho no ombro". Durante os primeiros anos da década de 70, em momentos de afastamento do diretor, Mug, junto com Moacir e Tuíca, chegou a assumir a direção da bateria. Em 1978, conduzida por Ernesto, a Vila Isabel foi rebaixada para o grupo 1B. Mug assumiu a bateria sozinho e, em 1979, foi campeão em seu primeiro desfile como mestre, levando a escola de volta ao grupo principal: "Em 78 teve um problema com os diretores. O Ernesto tirou 7, 8 e 9. E saiu para o Salgueiro. Veio um tal de Murilão da Boca do Mato, trazido pelo Martinho. Veio o Bigode da Portela. E a rapaziada não aceitou. Foi nomeado diretor Moacyr Telhado. Até Beto Sem Braço foi diretor de bateria da Vila Isabel. Um dia eu cheguei na quadra e me deram a chave do quarto. Abri e botei a bateria pra tocar. E não saí mais".

Ao relembrar os desfiles da Vila Isabel, Mug fez menção especial a dois carnavais. Falou sobre 1988, Kizomba, a festa da raça, desfile reconhecido e louvado por quase todos os entendidos como um dos maiores de todos os tempos da Sapucaí. Amadeu disse que a escola mexeu com o povo do samba: "A Vila Isabel estava desacreditada, mas quando cheguei no barracão e vi o carro dos orixás, pensei: a Vila vai ser campeã". Neste ano, a bateria da Vila ganhou o prêmio Estandarte de Ouro, mas Mug, devido a problemas particulares, na hora H, quase não desfilou.

Amadeu Amaral falou do desfile de 1989 como a sua melhor passagem com a bateria da Vila Isabel pela Sapucaí: "Direito é Direito foi lindo. A minha melhor bateria. Deu tudo certo. Tirei tudo 10, mas fomos roubados. O título era nosso. Eu não engulo isso até hoje".

Trechos do desfile da Unidos de Vila Isabel em 1989:

Ao analisar as características da bateria da Vila Isabel, Mug afirma que é uma das mais cadenciadas, cujas afinações dos instrumentos são mais graves, especialmente caixas e surdos. Para ele, "o segredo da nossa bateria está nos taróis, nas caixas e nos centradores. Eu sempre tive bons times nestes instrumentos e ninguém toca feito nós".

Foto: Acervo PessoalE o que faz um bom mestre de bateria, Mug? Ele espondeu que é preciso conhecer os instrumentos, mas o principal "é saber tratar os batedores, ter bom papo e ser vaselina". Citou os mestres de sua preferência: Vlandre e Coé. Mas, em sua opinião, "o Louro era o melhor deles todos. Ele tocava bem todos os instrumentos. Tocava até violão de sete cordas". E ainda afirmou que, fora a bateria da Vila Isabel, o melhor ritmo que ele já ouviu na avenida esteve com a bateria da Unidos da Tijuca, na época de Mestre Celinho (que esteve à frente da escola entre 1999 e 2007).

Amadeu Amaral é Benemérito da Unidos de Vila Isabel, Presidente de Honra da sua bateria e, em 2014, recebeu o certificado Sou da Vila e não tem jeito!, do Departamento Cultural que tem feito um excelente trabalho em prol da memória da escola. Ao longo da vida, Mug recebeu muitos troféus, placas comemorativas e homenagens, a mais recente, a inauguração do Campo Amadeu Amaral - Mestre Mug, situado na Rua Correia de Oliveira (Favelinha).

Eu sonho em desfilar na Bateria Amadeu Amaral Mestre Mug.

Que a Unidos de Vila Isabel avalie a ideia. A diretoria da escola pode ouvir seus ritmistas sobre a sugestão, um bom caminho. E sigamos com Mestre Wallan, sobrinho do homem, fazendo valer o encanto da batuta Amaral na Sapucaí.

Axé, Mestre Mug!

Confiram os depoimentos de Wallan Amaral, Ruça, Décio Bastos, Gera e Ed sobre nosso Mestre Mug, quando da homenagem do Departamento Cultural da Unidos de Vila Isabel em 2014:

Ô sorte!

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14/06/2016 08h57

O samba é seu dom!
Carlos Fernando Cunha

Queria que as letras deste texto estivessem em verde e branco, preto e vermelho. O verde e o branco do Império Serrano. O rubro e o negro do Flamengo. Duas paixões de Wilson das Neves, cantor, compositor, baterista e ator que completa 80 anos de vida.

Meu objetivo não é traçar um perfil do "Das Neves", mas importa, brevemente, dar a medida do tamanho deste artista. São 62 anos de carreira, viagens pelo mundo afora com sua bateria. Acompanhou e gravou com inúmeros personagens da música, compôs mais de 200 melodias, atuou em 3 filmes, lançou 13 discos. E levem ainda em consideração que Wilson das Neves será o enredo da Tupy de Braz de Pina para o carnaval de 2017.

Gosto da expressão de Paulo César Pinheiro, parceiro de 70 músicas com Das Neves, quando de sua tentativa em definir o amigo: Acho que quando Zé Keti cantou "Eu sou o samba", o Wilson estava soprando para ele (Citado por Gabriela Goulart, O Globo, 6/3/2016).

É isso! Das Neves é o samba, a voz do morro, o rei dos terreiros, natural do Rio de Janeiro, quem leva a alegria para milhões de corações brasileiros.

Wilson das Neves. Foto: Divulgação

Conheci Wilson das Neves em 20 de novembro de 2014, uma quinta-feira de muito sol no Rio de Janeiro, feriado, Dia da Consciência Negra. De carro, saí de Juiz de Fora às 8 da manhã e quando deu 10 horas estava na porta da sua casa no bairro da Ilha do Governador. Bati palmas e nada. Insisti. Abriu-se a porta e era ele, ainda mal levantado da cama, resto de cabelos esvoaçantes.

Pigarreando, perguntou-me: Você é da terra do Big Ben, meu filho? Sorri e ele me convidou para entrar. Enquanto tomava seu banho, sentei no sofá da sala e não tirei os olhos da paredes. Fotos. Recortes de jornais emoldurados. Prêmios. Faixas e condecorações alusivas à bateria do Império Serrano. Paixão para dar à vista.

Depois de um café preto e curto, entramos em meu carro e defini o destino da corrida. No entanto, seria preciso passar primeiro na banca de jornal. Motivo? Antes de qualquer cumprir qualquer compromisso, Wilson precisava pilhar o jornaleiro tricolor pela derrota da semana para o nosso Flamengo. Aproveitei a carona e também tirei minha casquinha.

Foi quando notei no olhar de Wilson aquele brilho de identificação, de comunhão. E seguimos até a Barra da Tijuca, quilômetros recheados de deliciosa conversa sobre o Maracanã, Zico, Dida, o Império, Chico Buarque, candomblé, samba e João, o bisneto.

Wilson das Neves aceitara gravar, cantando, o samba "De Piedade" no meu disco, o Baobá. E foi nesse 20 de novembro que o conduzi ao estúdio e recebi a graça da sua participação. Quando escrevo o termo "graça" é para deliberadamente aludir ao sagrado. Luis Filipe de Lima, diretor musical do disco, amigo de tempos do Das Neves, serviu como instrumento divino e nos uniu. É a explicação para que "De Piedade", parceria minha e do amigo Tiago Rattes, elaborada
anos antes, finalizada por mim pensando Wilson das Neves, recebesse sua posterior e real participação.

Ver e ouvir Das Neves no estúdio foi outra viagem. Ele carrega na voz a malemolência da nossa música popular brasileira. Os mais de 60 anos de bateria renderam a ele divisões pra lá de sincopadas. E, inteligente como poucos, absorveu dos muitos cantores e cantoras que acompanhou, seletivamente, os ornamentos do seu próprio
cantar.

Após a gravação, voltamos a Ilha do Governador. De lá, rumei sozinho para Juiz de Fora. Durante semanas pensei em como agradecer Das Neves, para além das palavras. Não houve pagamento em dinheiro, nenhuma exigência por parte dele. Ele foi de graça e, como disse anteriormente, por graça. Até que caiu a ficha. Era óbvio.

Comprei uma bela camisa do nosso Flamengo, mandei escrever Das Neves na parte de trás e remeti a ele pelo correio. Dias depois, tocou meu celular e era ele do lado de lá. Ligou para agradecer o presente. Disse que usaria a camisa no sábado posterior num show marcado com a Orquestra Imperial. Conservando sua meninice, cantou: Eu teria um
desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo! E, gargalhando, finalizou sua ligação com o bordão de Roberto Ribeiro que já é seu: ?sorte!

Axé, Wilson das Neves! Que os Orixás te protejam e te guiem!

Ouçam "De Piedade" (Carlos Fernando/Tiago Rattes):

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31/05/2016 11h17

Zélia Duncan e Roque Ferreira: Antes do mundo acabar
Carlos Fernando Cunha

Não foram poucas as rusgas entre artistas da música popular brasileira ao longo da história. Entre as mais famosas, as disputas entre Wilson Baptista e Noel Rosa, Emilinha Borba e Marlene. É evidente que houve pitadas de pessoalidade nestes casos, mas é preciso considerar as altas doses de pimenta que a indústria cultural colocou nestas cumbucas ferventes.

Recentemente, por conta do terremoto político que assolou nosso Pindorama, o território artístico voltou a cindir. Muitos foram às ruas, posaram para selfs em vans, ocuparam palanques, palcos televisivos, vestiram vermelho, o verde e o amarelo, atacaram e xingaram uns aos outros, levaram cusparadas e cuspiram, pediram desculpas, cantaram em escolas ocupadas por estudantes. Um novo rebuliço na categoria que, historicamente, quase sempre, deu as caras quando a situação do país exigiu.

A cena parecia mais calma nos últimos dias. Aparências, nada mais. A turbulência política não cessou, vide o episódio Ministério da Cultura, assassinado pelo governo interino, ressuscitado por artistas recalcitrantes. Há mais por vir, dizem.

Nosso destemido samba, repentinamente, tornou-se palco de um entrevero difícil de imaginar. Roque Ferreira, do alto de sua verve forjada no Recôncavo Baiano, declinou da indicação de Terreiros, seu álbum, ao Prêmio da Música Brasileira (PMB). Roque recusou a disputa com a cantora Zélia Duncan - que concorre com o disco Antes do Mundo Acabar - porque, segundo ele, a cantora não é do samba. Para o baiano, Zélia não poderia estar inserida na categoria do Prêmio relativa ao samba, pois "ela não é sambista, é oportunista. Entrou no samba pela porta dos fundos e por isso liguei para o José Maurício Machline para retirar meu nome de lá" (Transcrição retirada da coluna de Ronaldo Jacobina, Jornal da Tarde, publicada em 21/05/2016).

Amigos e amigas. Quando soube do caso, pasmei. Dias antes, havia escutado os três discos concorrentes ao PMB no gênero samba, o de Roque, o de Zélia e o de Moacyr Luz, intitulado Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - 10 anos e outros sambas. Por dois motivos. Porque pretendia escrever uma resenha sobre os três trabalhos aqui no SRZD, bem como pelo fato de que, lá no fundinho da alma, acalentei uma esperançazinha, imodesta, de que meu disco, Baobá, pré-selecionado que foi ao PMB, pudesse furar as ondas bravias do desconhecido e figurar no panteão dos finalistas. Porém, ao ouvir os três trabalhos, os discos de Roque, Zélia e Luz, encerrei qualquer tipo de tentativa de contestação, ainda que íntima. São excelentes álbuns de samba e merecem estar onde estão. Merecem muito mais. Merecem algo que mesmo o PMB não pode garantir. Merecem ser ouvidos e assobiados por todos que gostam de música e de samba.
Mas, meu querido Roque Ferreira, por que tomou essa atitude intempestiva?

Eu sei da luta de Roque em favor do samba na Bahia. Ele e outros artistas geniais daquela terra boa, Nelson Rufino, Riachão, Edil Pacheco, Walmir Lima, entre outros, trabalham duro para elevar o samba da Bahia e desconstruir a imagem que dele fez a indústria cultural ao longo das últimas décadas. Sabemos, Roque, que o samba baiano não se resume à boquinha da garrafa, ao agachadinho, ao lepo. Salve, Gordurinha! Salve, Ederaldo Gentil!

Querido Roque, como você diz, é preciso ser rocha. Mas, sem ternura? Jamais!
Na guerra precisamos ter clareza de quem são nossos verdadeiros inimigos. E com certeza, Roque, Zélia Duncan não merece a condição de alvo neste campo minado que é a nossa música popular.

Sou admirador do trabalho musical de Zélia Duncan. Ela começou a aparecer em 92 quando gravou uma faixa no songbook de Dorival Caymmi (aquele baiano). Em 94, explodiu com o sucesso de Catedral, gravado em seu primeiro álbum solo, Zélia Duncan. Mas quero chamar a atenção para seu disco Eu me transformo em outras (2004). Obra-prima em que Zélia gravou Cartola, Ataulfo Alves, Wilson Baptista, Dorival Caymmi, Hermínio Bello de Carvalho, Jacob do Bandolim, Elton Medeiros, Pixinguinha.
Querido Roque, convenhamos, não dá para acusar Zélia de oportunista.

Foto: Roberto Setton - Direção de arte: Simone Mina

Em Antes do Mundo Acabar (2015), a cantora entoa sambas de Arlindo Cruz, Ana Costa, Xande de Pilares, Fred Camacho, Pretinho da Serrinha, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Délcio Carvalho, Riachão (ele mesmo), Sereno, Moacyr Luz. E Zélia, a compositora, também apresenta sambas de sua lavra no disco.
Antes do Mundo Acabar é uma homenagem ao samba. É um pacto de compromisso de Zélia Duncan com este gênero que está em nossas consciências, em nosso corpo brasileiro. Um compromisso datado, que seja, pois ela tem o talento de se transformar em outras.

Vi Zélia Duncan sambar e cantar com Ana Costa, Mart´nália e Martinho da Vila, 2009, 2010, bem antes de saber da ideia dela em gravar um disco de sambas. Ouvi sambas de Zélia feitos em parceria com as duas primeiras artistas sambistas. E me identifiquei com Zélia e sua relação com o samba. Em certa medida, uma história parecida com a minha, com a de muitos do/no samba. Admiração, flerte, abraço, compromisso, ancestralidade.

Zélia pode não ter os pés no samba, mas o samba está nela. Basta ouvir seu disco de 2004, basta ouvir seu disco de 2015, basta vê-la cantar o samba, de corpo e alma.

Em 2014 fiz um samba para Zélia Duncan, no qual digo que seu apelido, ZD, significa ziriguidum. Prerrogativa dos bambas, Zélia tem ziriguidum. E ziriguidum, meus senhores, não é coisa de qualquer um.

Meu querido Roque Ferreira, dono de obra fundamental da música popular brasileira e do samba, guerreiro e defensor da nossa mais legítima cultura, cidadão orgulhoso de Nazaré das Farinhas. Faço a você um desafio em tom apelativo de fã. Ouça os trinta primeiros segundos do disco de Zélia Duncan, o início da faixa Destinos sem razão (Xande de Pilares/Zélia Duncan). Sinta o quanto de você e do Recôncavo há naqueles tambores, nos fraseados das cordas. Siga por mais tempo e apazigue seu coração com os versos cantados: "Olha o meu coração / Se a vida nos juntou / Quem vai separar tanto amanhecer? / Segura firme a minha mão / Destino tem razão, tem que viver / Segura firme a minha mão / Destino tem razão, vamos viver". Dê uma golada em uma boa pinga mineira, pegue o telefone e ligue para ZD, a Roqueira do rock e do Roque. Tudo vai ficar no seu lugar, graças a Deus!

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23/05/2016 11h47

Arriba, SRZD!
Carlos Fernando Cunha

Exatamente 10 da manhã, escrevo em homenagem aos 10 anos do Portal SRZD.

Parabéns, Sidney Rezende e equipe. 10 anos são longos 3.650 dias no ar, milhões de notícias e opiniões sobre temas diversos. Uma década fazendo jornalismo de vanguarda, contemporâneo e isento. Não deve ter sido fácil sobreviver. Mas vida é o que não falta ao SRZD. O portal adquiriu alma e isso é raro nos veículos de comunicação hodiernos.

10 anos é coisa para 10 horas de comemoração. Este cabalístico número 10 que é tão significativo em nossa cultura. Chamado de perfeito pelos gregos antigos, pois a natureza nos deu 10 dedos nas mãos. O 10 de Pelé, Zico e Maradona. Os 10 mandamentos. O 10 das escolas de samba, do carnaval, tema tão bem abordado pelo SRZD durante este tempo.

Foto: SRZD

2006. Qual foi a escola campeã carioca no ano de nascimento do SRZD?

Ela. A minha, a nossa Unidos de Vila Isabel!

Comecei a desfilar na bateria da Vila em 1996, 10 anos antes do título de 2006, nosso segundo campeonato no grupo especial. Ouvia os antigos falarem do gostinho de 1988 e passei todo este tempo cantarolando na cabeça aquele lindo samba do Martinho: "Quando o sonho acontecer e todo morro descer numa tremenda euforia. Eu vou tentar me segurar pra não gritar, nem chorar. E nem cair na orgia".

2006. Nunca havia experimentado a sensação de chegar ao setor 13 e ouvir aquele grito do povão: "É campeã!"

O sonho aconteceu pra mim e pra muitos em 2006. Não me segurei, gritei, chorei e caí na orgia. Martinho deve ter feito o mesmo em 1988.

O samba-enredo nos garantiu aquele campeonato. No geral, somamos 397,6 pontos, junto a Grande Rio. Mas superamos a escola de Caxias no samba-enredo com três 10 e um 9,9. Competência de nossos compositores.

2006. A Vila Isabel conclamou os povos latino-americanos à união. Desfilamos com as imagens e as utopias de Bolívar, Fidel e Che Guevara.

E como esses sonhos são necessários 10 anos depois.

Aos colegas do SRZD, mais uma vez, parabéns pelos 10 anos. E sigamos por mais 10 e 10 e 10 e 10 e 10. Cantando e perseguindo os ideais do samba campeão de 2006!

"Sendo firme, sin perder la ternura

E o amor por este chão

Em límpidas águas, a clareza

Liberdade a construir

Apagando fronteiras, desenhando

Igualdade por aqui"

Ô sorte!

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16/05/2016 09h27

Muito prazer!
Carlos Fernando Cunha

 

Foto: Alfredo SouzaA sirene toca.
Lacrimejo de alegria.
Chora cavaco.
Sobe minha bateria.
Um, dois, três, quatro!
Lá se vai a agonia.

Senhores e senhoras, leitores e leitoras, com satisfação, inicio minhas atividades como escriba aqui no SRZD. Reservei este primeiro preto no branco para me apresentar e anunciar o que teremos por aqui ao longo de nossa jornada.

Antes de tudo, de qualquer credencial possível, sou um ritmista de bateria de escola de samba. É meu fundamento. Branquelo de óculos, classe média, carioca residente nas Minas Gerais, no início da década de 1990 conheci os terreiros das escolas de samba, cruzei a Sapucaí e de lá não mais consegui me livrar. Alguém consegue?

A vivência com o samba de escola de samba na escola de samba é item especial em minha formação humana e musical. Além de tocar samba, passei a cantar e a compor sambas. O samba virou objeto de estudo, seus meandros e articulações. O professor universitário, originário da Educação Física, abriu espaço em seu diário para o samba enquanto atividade de ensino, pesquisa e extensão.

O que teremos por aqui, então?

Pretendo trazer a esse espaço de reflexão questões sobre o Carnaval e o samba, pensando neste último também de maneira mais ampla, fora das escolas. O samba enquanto gênero musical, suas histórias e percursos, seus personagens visíveis e invisíveis, livros, discos, artistas, eventos, festas, rodas, encontros e outras síncopes. Vou tentar me equilibrar nesta corda bamba, mas escorregões para outras bandas poderão ocorrer pelo caminho.

Antecipo aos que não me conhecem que, sim, torço por uma escola de samba. Há árbitro de futebol que não tenha um time preferido? Há comentarista de Carnaval possuidor de coração incolor? Du-vi-de-o-dó!

Na próxima coluna escreverei sobre o meu amor da passarela. Abrirei logo o jogo. No entanto, sobre amores, esclareço que os mais duradouros, de tempos em tempos, precisam de acidez e alfinetadas mútuas.

Ao fim do início, deixo abraço de fã aos companheiros blogueiros, ao Sidney Rezende, a Luana Freitas, aos padrinhos João Paulo Alves e Cláudio Francioni.

Aos leitores e leitoras, faço o convite para embarcarem comigo na viagem. Que seja respeitosa e prazerosa, sempre.

Ô sorte!

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