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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



15/06/2016 10h12

Advogado defende criação de delegacia racial para combater a discriminação
Carlos Nobre

Formado em Direito pela Universidade Gama Filho e coordenador do Fórum de Cidadania e do Movimento Rio Pede Paz, o advogado Cacau de Brito, 58, é um dos destacados ativistas dos direitos humanos do Rio de Janeiro. Diante do crescimento do racismo em nosso estado, Cacau diz ser inevitável na atual conjuntura a criação de uma Delegacia de Crimes Raciais para investigar as denúncias de discriminação racial. Recentemente, o advogado lançou a obra "Sem meias palavras", onde, num dos capítulos, faz diversas análises sobre os direitos dos afro-brasileiros.

Ele também faz anualmente um rito: todo 20 de novembro, Dia Nacional de Consciência Negra, assiste aos eventos afro na base do Monumento a Zumbi dos Palmares, na antiga Praça Onze, onde aproveita para conversar a respeito da luta negra com militantes afro. Ele também foi fundador da Associação dos Advogados Evangélicos do Brasil e ex-diretor do Procon RJ, onde defendeu os direitos do consumidor. Cacau conversou comigo a respeito do combate ao racismo.

Cacau de Brito. Foto: Reprodução/YoutubeComo você avalia a situação do negro na atual conjuntura?
CACAU - Estou muito preocupado. Em primeiro lugar, o racismo hoje está mais explícito. Ou seja, as pessoas não escondem que têm aversão a outra cor. Por outro lado, vejo lentidão nos organismos destinados a combater esse tipo de crime, que é inafiançável, como o Ministério Público.

Que casos de racismo têm lhe impressionado?
CACAU - Me chama atenção que o racismo tem se multiplicado pela internet, particularmente pelas mídias sociais. O fato de o racista achar que não pode ser identificado pela internet, já que se cadastra nas redes com nome falso, dá a ele um certo espírito de impunidade. Isso estimula aos racistas a publicarem depoimentos mais constrangedores contra a população negra. Também, veja só, vemos até pessoas com diplomas universitários com discursos racistas. Recentemente, num supermercado do Leblon, uma mulher foi presa por ter insultado o gerente negro da loja, e outra mulher em Niterói foi presa pelo mesmo fato.

Parece que nem negros famosos não escapam desses ataques...
CACAU - É verdade. Recentemente, tivemos os casos da apresentadora Maria Julia Coutinho, a Maju, apresentadora do tempo do "Jornal da Nacional", da TV Globo, que foi atacada. Os racistas invadiram a página do jornal na internet e postaram conteúdo racista contra ela. Também não escaparam disso a atriz Taís Araújo, também da TV Globo, e a atriz Cris Viana, objetos de ataques dos racistas.

Cai por terra, então, a tese segundo a qual o negro famoso tenderia a escapar do racismo?
CACAU - Completamente. O racismo hoje atinge a todos, ou seja, anônimos e famosos. O fator diferencial é que os famosos têm mais condições de se defenderem. Ou seja, seus admiradores protestam em suas páginas nas redes sociais contra os ataques, acionam a polícia, a justiça... enquanto a vítima anônima do racismo fica indefesa e à mercê dos ataques.

Como reverter essa situação em sua opinião?
CACAU - O crime de racismo é complexo, nem sempre você consegue tipificar. Muitos delegados tendem a tipificar o racismo como injúria racial, que é algo mais leve, mais ligado a uma ofensa ocasional, sem maiores ligações estruturais com os dilemas da cor. Então, a penalidade é menor. Já no caso do racismo, prevê-se prisão e o crime é considerado inafiançável.

Você defende a criação de uma Delegacia de Crimes Raciais em nosso estado?
CACAU - Com certeza. Por que defendo? Porque é preciso que o Estado cumpra este papel de mediador, ou seja, mediando os mais variados interesses. É preciso demonstrar que o Estado está vigilante em defesa dos grupos minoritários ou historicamente vulneráveis.

Em sua opinião, como esta delegacia deve atuar?
CACAU - Ela deve ser uma delegacia igual às outras, ou seja, com condições de trabalho. Neste caso, deve ter quadros comuns como delegados, escrivães, inspetores etc. Só que os futuros servidores da Delegacia de Crimes Raciais, antes de tomar posse, passariam por uma reciclagem.

Como assim?
CACAU - É necessário que eles façam um curso de relações raciais numa universidade que trabalhe com isso como Cândido Mendes, PUC, UFRJ, UFF, e outras. Essa complementação visa adequar o olhar policial ao conhecimento racial, ou seja, dar a eles instrumentos mais bem conceituados do que seja o racismo e suas reentrâncias. Assim que for averiguar uma denúncia racial, o policial possa ter elementos técnicos-estruturais para analisar se realmente houve rompimento da lei racial e enquadrar com precisão aqueles que cometeram o crime racial. Como se trata de algo novo, é necessário que se qualifique mais o policial.

Como essa delegacia deve atuar?
CACAU - Acredito que devemos como experiência ter somente uma delegacia para atender a cidade do Rio de Janeiro em um primeiro momento. Até porque estamos vivendo um momento grave na economia, de crise administrativa do estado do Rio de Janeiro. Se essa delegacia der certo, a gente cria mais duas para atender a região metropolitana, e mais à frente, espalhamos elas para o interior do estado.

Não estaríamos privilegiando somente o negro com isso?
CACAU - Não, porque somos 52% da população brasileira. Somos uma comunidade historicamente injustiçada. Trabalhamos mais de 350 anos como escravo. A delegacia não vai apurar crimes somente contra negros, mas todas as raças. Daí, seu nome de Delegacia de Crimes Raciais.

Mas os negros historicamente são os mais prejudicados, você não concorda?

CACAU - Sim. Veja, os imigrantes europeus chegaram no final do século XIX ao Brasil e hoje ascenderam mais que os negros. Isto porque, em geral, não eram negros, mas europeus. Este fato facilitou a vida deles em nosso país. O último Congresso Mundial da ONU sobre Discriminação Racial, em 2001, reafirmou que os países membros da ONU deveriam produzir políticas de redução do racismo em suas regiões. Então, essa proposta não é absurda. Pelo contrário. Ela está dentro das novas conceituações de atuação para combater e reduzir os danos sociais em nossas sociedades.


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17/05/2016 13h56

100 anos de nascimento de Silas de Oliveira
Carlos Nobre

O sambista Silas de Oliveira (1916-1972) nasceu em Madureira.

Em 2016, o bairro está festejando os 100 anos de nascimento de grande compositor.

Ele é considerado o maior autor de samba-enredo da história das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Silas dava aulas de Português, quando começou a namorar uma das alunas, a jovem Elaine dos Santos. Nessa época também fez amizade com o jornaleiro Mano Décio da Viola (1909-1984), que se tornaria seu maior parceiro.

Pelas mãos de Elaine e de Mano Décio, Silas sobe os morros cariocas atrás de rodas de samba. Com os dois, frequenta também os tradicionais pagodes nas casas das "tias" baianas, regados a muita bebida, comida e batucada. Seu talento como compositor começa a se revelar, ainda que timidamente.

Silas de Oliveira. Foto: ReproduçãoAs visitas a estes locais passam a ser cada vez mais constantes e não tarda para que Silas passe a ser considerado como "gente da casa" nos redutos de samba.

Frequentador da escola de samba Prazer da Serrinha, agremiação em que começou, Silas, após cisão entre os integrantes, também ficou na nova escola resultante dela, a GRES Império Serrano, em 1947.

Ele integra a nova escola desde seu primeiro desfile. Ali, se sagrou campeão no Carnaval de 1948.

Entre 1949 e 1951, o samba vitorioso do Império Serrano trouxe a assinatura de Silas e de Mano Décio.

Em 1955 e 1956, mais duas vitórias da dupla na escolha do samba-enredo e do Império Serrano na Avenida: "Exaltação a Caxias" e "O Sonhador de Esmeraldas".

Silas dedicou 28 anos de sua vida ao Império Serrano e nesse período fez 16 sambas-enredo para a escola, dos quais 14 foram defendidos no desfile oficial.

Quando Mano Décio foi para a Portela, a dupla se desfez.

Mas Silas continuou compondo para a verde-e-branco de Madureira, muitos dos quais tornaram-se clássicos do gênero, como "Aquarela do Brasil" (1964), "Os Cinco Bailes da História do Rio" - em parceria com Dona Ivone Lara e Bacalhau (1965), "Glórias e Graças da Bahia" - com Joacir Santana (1966) e "Pernambuco, Leão do Norte", com o qual enfrentou - e venceu - o antigo parceiro Mano Décio da Viola, que retornava à escola, em 1968.

A última parceria dos dois grandes sambistas foi em 1969 com "Heróis da Liberdade", um clássico de samba-enredo, num ano em que o jeito de fazer samba-enredo passava por grandes modificações, sobretudo no andamento acelerado, lembrando marcha militar.

No dia 20 de maio de 1972, Silas foi a uma roda de samba. No momento em que cantava "Os Cinco Bailes do Rio", sofreu um enfarto fulminante. Morreu no terreiro, onde passou a maior parte de sua vida. Nos deixou obras-primas como "Meu Drama" (gravada por Cartola como "Senhora Tentação"), "Apoteose ao Samba" (com Mano Décio, imortalizada por Jamelão) e "Aquarelas do Brasil".



08/04/2016 12h20

Dois grandes congressos afro
Carlos Nobre

Nos anos 1930, época de grandes conflitos políticos-ideológicos envolvendo as classes sociais/etnias, alinhados a intelectuais brancos dedicados a causa social, intelectuais negros organizaram dois congressos sobre a condição afro-brasileira que se tornaram marcos na história das ciências humanas no Brasil.

Esses congressos também entraram para nossa história como os pioneiros ecos de discussão do racismo, das desigualdades e da subordinação das culturas negras de forma em geral.

Por conseguinte, esses intelectuais afro estavam articulados com instâncias de pensamento e influência na sociedade brasileira.

Assim, em 1934, foi realizado, em Recife, I Congresso Afro-Brasileiro organizado pelo antropólogo Gilberto Freyre. Ele foi auxiliado na realização do evento pelo psiquiatra Ulysses Pernambuco e pelo poeta negro Solano Trindade, no Teatro Santa Izabel, em Recife.

Além de doutores, esse congresso juntou mães de santo, cozinheiras, negros de engenho, rainhas de maracatus, analfabetos, semianalfabetos, estudantes de medicina, psiquiatras e engenheiros, intelectuais e jornalistas do Rio de Janeiro.

Freyre conseguiu apoio para a realizá-lo devido a grande repercussão de seu livro, "Casa grande e senzala", lançado no ano anterior, ou seja, 1933, onde punha em cena como protagonista da sociedade brasileira o negro e sua cultura. Isto malgrado ter escrito que o processo das relações raciais brasileiras ter sido pautado por uma certa "democracia racial", que, com tempo, comprovou ser inverídico.

No entanto, a mescla entre estudiosos e gente pobre deu uma cor importante ao primeiro congresso afro de Recife. Segundo Jose Jorge Siqueira no livro "Entre Orfeu e Xangô: a emergência de uma nova consciência sobre a questão do negro no Brasil 1944/1968" (Pallas, RJ, 2006), a presença de pais de santo e negros pobres teria dado um novo sabor aos estudos afro-brasileiros naquela ocasião.

Assim, a importância congressual residiria no interesse que despertou em gente culta como Franz Boas, Roquette Pinto, Rudiger Bilden e Azevedo Amaral. Esses estudiosos estavam interessados na rica e complexa cultura afro-brasileira que estava incrustada na mentalidade de negros e brancos pobres Brasil afora.

O congresso de Recife também recebeu colaborações científicas de Rodolfo Garcia, Mário de Andrade, Arthur Ramos e Melville J.Herskovits e outros notáveis estudiosos brasileiros e estrangeiros. No último dia, os congressistas prestaram uma homenagem ao médico maranhense Nina Rodrigues, pioneiro dos estudos afro no Brasil, defensor da cultura yorubá. Ele, no entanto, apesar de elogiar os negros, os viam como inferiores racialmente aos brancos.

Alguns trabalhos apresentados neste congresso:
Cunha Lopes e J. Candido de Assis - o "Ensaio etno-psychiátrico sobre negros e mestiços".
Ulysses Pernambuco- "As doenças mentais dos negros de Pernambuco", onde pegou dados do Hospital de Alienados de Recife, entre 1932-1933
Abelardo Duarte - "Grupos sanguíneos da raça negra"
Ronalinho Cavalcante- "O recém-nascido branco, negro e mulato"
Alvaro Faria- "O problema da tuberculose no preto e no branco e relações de resistência racial"
Rodrigues Carvalho -"Aspectos da influência africana na formação social do Brasil".
Edison Carneiro - "Situação do negro no Brasil".

Mãe Ainha e Edison Carneiro. Fotos: Reprodução

Nesse estudo, Edison Carneiro, etnógrafo afrodescendente, constata que a experiência da democracia burguesa no Brasil provou sua total inutilidade na resolução dos problemas do país.

Outros participantes:
Miguel Barros- da Frente Negra Pelotense, no Rio Grande do Sul, por seu turno, relatou as proibições em lugares públicos (teatros, cafés, barbeiros, colégios etc) que o negro gaúcho é submetido. Também falou do lugar do pária como negro, mostrou como as elites se referem ao desdém aos intelectuais negros.

Ou ao desprezo que tem pelas jovens negras formadas, que não encontram emprego, e são obrigadas a mudar de profissão.

A viúva de Juliano Moreira apresentou também uma comunicação neste congresso. Ela disse que o marido - um notável psiquiatra negro baiano - tinha convicção que as diferenças entre os indivíduos dependiam muito mais do grau de instrução e educação de cada um, como fator mais decisivo, do que o pertencimento ao grupo étnico.

Este congresso mexeu nos setores da inteligência brasileira e principalmente com a Bahia, considerada a capital afro-brasileira.

Assim, o intelectual afrodescendente Edison Carneiro, após chegar a Salvador vindo de Recife, tem uma ideia fixa: organizar o II Congresso Afro-Brasileiro, em sua cidade, para dar a vazão a demanda por estudos étnicos que o Brasil dali para frente começa a despertar na intelectualidade estrangeira.

Realizado, em Salvador, em 1937, reuniu mais 3.000 pessoas no local do evento e nos eventos descentralizados, ou seja, nos terreiros do Gantois, no Axé Opô Afonjá e no de Joãozinho da Gomeia, segundo Siqueira.

A estratégia dos organizadores foi unir discussões e eventos festivos afro, criando uma novo diálogo entre as culturas diaspóricas.

"O congresso mesclava heterogeneidade de pessoas e instituições que seria impossível negar-lhes repercussão, tanto no meio acadêmico quanto mesmo no próprio meio popular das gentes de cor", escreve Siqueira.

O congresso teve a participação de Jorge Amado, Manuel Diegues Junior, Donald Pierson, Carmargo Guarnieri e Frutuoso Viana, além da presença de Mãe Menininha (líder religiosa do terreiro do Gantois) e Mãe Aninha ( líder do Axé Opô Afonja). Esta era considerada uma grande articuladora e intelectual popular de grande habilidade. No congresso, ela apresentou um estudo sobre o emprego das ervas no cotidiano do candomblé.

Em termos políticos/estratégicos, o congresso negro de Salvador teve mais importância do que o de Recife. Isto porque provocou desdobramentos como na criação de entidades que lutariam pela preservação dos valores de base africana, principalmente no enfrentamento da perseguição aos cultos afro pela polícia.

Nesse sentido, neste mesmo ano, foi fundada, em Salvador, a União das Seitas Afro-Brasileiras cujo objetivo era combater a intolerância religiosa e refrear os ataques dos policiais às casas de santo em Salvador.

Entre os principais participantes deste congresso se encontravam:
-Melville Herskovits com o trabalho "Deuses africanos e santos católicos nas crenças do negro do novo mundo"
-Ademar Vidal- "Costumes e práticas do negro"
-Edison Carneiro - "Uma revisão na etnografia religiosa afro-brasileira"
-Renato Mendonça - "Negro e a cultura no Brasil"
-Arthur Ramos - "Culturas negras: problemas de aculturação no Brasil"
Martiniano Bonfim- "Os ministros de Xangô"
-Amanda Nascimento - "A influência da mulher negra na educação do brasileiro"
Ao total, o congresso teve 23 comunicações.

Depois destes dois grandes congressos afro, somente na década 1950, o tema racial voltaria ser estudado com força quando foi iniciado o programa de estudos da Unesco sobre as relações raciais no Brasil. Deste programa, saíram as seguintes obras: "Raça e classe no Brasil rural", de Charles Wagley, da Universidade de Columbia(EUA), "As elites da cor", de Thales Azevedo, " O negro no Rio de Janeiro", de Luis Antonio Costa Pinto; " Relações raciais entre pretos e brancos em São Paulo", de Roger Bastide e Florestan Fernandes; "Religião e relações raciais", de René Ribeiro, e "Cor e mobilidade social", de Fernando Henrique Cardoso.

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08/03/2016 11h24

Terreiro 'Migrante' completa 130 anos
Carlos Nobre

Fundado, em 1896, pela mãe-de-santo Anna Eugênia dos Santos (1869-1938), a Mãe Aninha, na Pedra do Sal, bairro da Saúde, o terreiro Ilé Axé Opô Afonjá, está completando 130 anos.

Mãe Aninha. Foto: ReproduçãoTrata-se de casa tradicional religiosidade africana- uma das mais antigas do Brasil - e que teve sete endereços diferentes até fixar-se definitivamente em Coelho da Rocha, em São João do Meriti, Baixada Fluminense.

Para comemorar o feito, o sociólogo e filho-de-santo da casa Ed Machado, lançou semana passada, no Renascença Clube, no Andarai, o livro "Ilé Axé Opô Afonjá: da Pedra do Sal até Coelho Rocha"(Editora Metanoia, 104 páginas).

A obra mostra a trajetória de criação do famoso terreiro na Pedra do Sal, que, na época, era conhecido por ser reduto das chamadas "tias baianas", entre elas, a famosa Hilária Batista de Almeida (1854-1924), a Tia Ciata, que abrigou na sua casa destacadas rodas de samba.

Depois da fundação do terreiro no Rio de Janeiro, Mãe Aninha, que era baiana, também criou outro Axé Opô Afonjá, em 1910, no bairro São Gonçalo do Retiro, periferia de Salvador. Este acabou se projetando internacionalmente.

O Axé Apô Afonjá de Coelho da Rocha não conquistou a fama de seu co-irmão baiano mas continuou forte e ativo nos endereços nos quais manteve sua sede,

Segundo Ed Machado, em viagem ao Rio de Janeiro, em 1896, Mãe Aninha ficou abrigada em casas de conterrâneos que migraram para o Rio de Janeiro antes da abolição. Ali, ela acabou iniciando no culto várias pessoas. Ela voltou para Salvador, e por duas vezes, veio conferir como se encontravam o primeiro Axé Opô Afonjá.

Em 1925, o terreiro foi transferido da Pedra do Sal para Rua São Luiz Gonzaga, 49, em São Cristovão. Depois, passou pelos seguintes lugares: Rua Felipe Camarão, 23, São Cristovão (1930) ; Rua Barão de Mesquita, 494, Tijuca (1932); Rua Senador Alencar, 22, São Cristovão (1938); Rua Bela, 22, São Cristovão (1942) e Rua Agripina de Souza, 1029, Coelho da Rocha, São João do Meriti (1944).

A obra já está à venda nas livrarias.

Trechos do livro:

Ilé Axé Opô Afonjá: da Pedra do Sal até Coelho Rocha. Foto: DivulgaçãoCASA DA FORÇA
"Com o nascimento espiritual de seus primeiros filhos na Pedra do Sal, estava naquele instante fundado o primeiro e atuante terreiro de candomblé do Rio de Janeiro que veio ser chamado de Axé Opô Afonjá cujo significado em português é; Casa da Força sustentada por Xangô."

AMIGOS
"Fazer amigos era também uma rotina na vida de Mãe Aninha, sem dúvida possuía grande habilidade para isso, que segundo nos contam, foi sempre rodeada de intelectuais e por pessoas de altos níveis da sociedade. No retorno ao Rio de Janeiro em 1930 conheceu outras pessoas que tornaram se amigos, e desempenharam importante papel no funcionamento do terreiro".

FESTAS
"Dentre seus filhos, clientes, visitantes, o Axé contava com pessoas de grandes posses e confortável vida financeira, bem como, de relevante posição social, alguns intelectuais e outros representantes da alta sociedade carioca. As festas do calendário litúrgico, as procissões, as cerimônias religiosas que marcavam a vida dos filhos de Orixá, as obrigações, as confissões feitas a Iyalorixá e os cânticos, bem como as práticas de caridade "cristã" pautavam a vida dos iniciados".



13/01/2016 17h18

'Pelo telefone': nascimento polêmico há 100 anos
Carlos Nobre

A primeira melodia registrada como "samba" no país completa 100 anos, em 2016. Sua concepção, no entanto, envolveu praticamente toda a comunidade negra da antiga Praça Onze, no Rio de Janeiro.

Samba Pelo Telefone. Foto: Reprodução

Acusação de furto da melodia, disputas pesadas nos bastidores pela sua autoria, esperteza de alguns e dissensões de todos os tipos envolveram o registro do samba "Pelo Telefone", na Biblioteca Nacional, em 1916.

Quem documentou tudo isso foi o músico e cronista Almirante (Henrique Foreis Domingues) em seu livro clássico "No tempo de Noel Rosa" (Sonora Editora, RJ, 2013).

Almirante detalhou a grande disputa em torno da autoria de "Pelo Telefone", primeira melodia registrada como samba no país.

Segundo ele, em 1916, seis participantes de uma roda de samba na casa Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, criaram, num belo improviso o samba intitulado "Roceiro".

Sinhô. Foto: ReproduçãoEsse foi o primeiro nome que "Pelo Telefone" obteve.

Os criadores teriam sido Hilário Jovino Ferreira, Mestre Germano, Tia Ciata, João da Mata, J.B. Silva (Sinhô) e o jornalista Mauro de Almeida, que escreveu os versos.

No início, os autores não classificaram a melodia como samba, mas como partido alto ou tango. A primeira exibição pública da música ocorreu no Cinema Teatro Velo, à Rua Haddock Lobo, Tijuca, a 25 de outubro daquele ano.

Com o sucesso da música, uma nova apresentação ocorreu para a imprensa, em 3 de novembro. Segundo Almirante, aproveitando-se do êxito da música, o violonista Ernesto dos Santos, o Donga, registrou-a na seção de direitos autorais da Biblioteca Nacional e também em cartório como se fosse dele e de Mauro de Almeida. Na Biblioteca Nacional, "Pelo Telefone" recebeu sob o número de registro como 3.295, em 27 de novembro de 1916.

No entanto, em 1913, três anos antes, durante campanha contra o jogo do bicho em toda a cidade, os repórteres Castelar de Carvalho e Eustaquio Alves do vespertino "A Noite" instalaram na rua, defronte da redação, pequena roleta rústica oferecendo "fezinhas" ao povo.

Em 2 de maio de 1913, o jornal trouxe fotos da roleta de jogo cercada por populares assistindo à cena. E a manchete de primeira página: "O jogo é franco".

No subtítulo, acrescentava o jornal: "Uma roleta em pleno Largo da Carioca".

Devido à notícia escandalosa, motivo de comentário geral na cidade, o então Chefe da Polícia, Belisário Tavora, segundo Almirante, mandou destruir a roleta e os apetrechos da jogatina.

O assunto encerrou-se sem que qualquer compositor criasse canção mencionando o fato, explica Almirante.

E sem querer dar trégua aos viciados em jogo, outro chefe da polícia, Aurelino Leal, três anos depois, deu continuidade à campanha contra o jogo.

Em 30 de outubro de 1916, publicou uma nota oficial em todos os jornais:

"Ao delegado do distrito, ordenando-lhe que lavre auto de apreensão de todos os objetos de jogatina. Antes, porém, de se lhe oficiar, comunique-se-lhe esta minha recomendação pelo telefone. Recomende-se, outrossim, ao mesmo delegado que intime os diretores de clubes existentes na Av. Rio Branco e suas proximidades a se mudarem para outros locais, com prévia ciência, dentro do prazo de 30 dias, sob pena de serem cassadas as respectivas licenças".

No entanto, o tradicional humor dos cariocas se fez presente nesta ocasião. Nesse sentido, foram distribuídos pelas ruas folhetos anônimos com versinhos parodiando o samba e gozando o Chefe de Polícia.

Em outras palavras, o "Roceiro", criação coletiva da casa de Tia Ciata, recebia a contribuição pública. Nele foram inseridos versos que o iriam imortalizar dali por diante:

"O Chefe de Polícia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que na Carioca
Tem um roleta
Para se jogar
Ai, ai, ai
O Chefe gosta da roleta,
Ô Maninha
Ai, ai, ai
Ninguém mais fica correta
Ô Maninha
Chefe Aurelino
Sinhô, sinhô
Faz o convite
Sinhô, sinhô
Pra se jogar
Sinhô, sinhô
De todo jeito
Sinhô, sinhô
O bacará
Sinhô, sinhô
O pinguelim
Sinho, sinhô
Tudo é assim"

Com o sucesso da nova versão popular em cima da música coletiva da casa de Tia Ciata, surgiram dúvidas sobre a autoria do samba. Fervilhavam debates nos cafés, esquinas e nas lojas de música sobre isso.

A esse respeito, em 4 de fevereiro de 1917, segundo Almirante, o "Jornal do Brasil" publicou pequena nota que criticava a esperteza de Donga e os versos encaixados na melodia por autores anônimos das ruas.

Na época, a melodia era considerada como tango. A nota citava os verdadeiros autores e dizia que Ernesto dos Santos, o Donga, era falso autor e rotulava-o como "caradura".

Eis a nota do "Jornal do Brasil" da época:

"Do Gremio Fala Gente recebemos a seguinte nota: Será cantado domingo, na Av. Rio Branco, o verdadeiro tango "Pelo Telefone" dos inspirados carnavalescos, o imortal João da Mata, o mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata e o inesquecível bom Hilário; arranjo exclusivamente pelo bom e querido pianista J.Silva (Sinhô), dedicado ao bom e lembrado amigo Mauro, repórter da "Rua", em 6 de agosto de 1916, dando ele o nome de "Roceiro".

Aqui, algo já se estabelece, ou seja, o tango "Roceiro" vira de fato "Pelo Telefone", uma influência vinda das ruas que alterara a letra original do tango para satirizar o Chefe de Polícia da época.

Dando sequencia aos debates, Almirante escreve que Donga jamais respondeu e nem se defendeu na imprensa da acusação de ter surrupiado "Pelo Telefone".

Ou seja, diz ele: " silenciando-se totalmente, apesar dos severos protestos dos demais companheiros".

Com a incerteza de quem seria os autores da música tão celebrada, outros compositores aproveitaram para editar a mesma melodia e versos, usando diferentes títulos como "Chefia da Folia no Telefone", de Carlos A. Lima; "Ai, si a Rolinha Sinhô, Sinhô" de J.Menra, como tango; "No telefone, Rolinha, baratinha e Cia", de Maria Carlota da Costa Pereira, também como tango com motivos carnavalescos, explicou o estudioso.

Bom registrar que, naquela época, chamada de Belle Époque, início do século XX, começava-se um debate sobre autoria e direitos autorais no Brasil.

Assim, era comum sambistas venderem composições ou mesmo registrarem composições alheias como suas.

Considerado um dos autores originais de "Pelo Telefone", Sinhô, cognominado "Rei do Samba", e figura polêmica da casa de Tia Ciata, também era acusado se apropriar de músicas alheias. Um dos seus maiores acusadores era outro sambista famoso, Heitor dos Prazeres.

Heitor dos Prazeres. Foto: Reprodução

Reza a lenda que, certo dia, Heitor esperou a passagem de Sinhô entre a Rua de Santana e Frei Caneca. Sinhô viu Heitor no seu encalço, e quis mudar de calçada, mas não conseguiu. Heitor conseguiu alcançá-lo. E cobrou. Ou seja, acusou Sinhô de estar a registrando sambas seus como fosse dele, Sinhô.

Este, na maior cara-de-pau, teria respondido ao amigo dos batuques da Tia Ciata: "Samba é como passarinho, é de quem pegar".


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09/12/2015 17h22

Inaugurada Casa do Jongo da Serrinha
Carlos Nobre

Dança onde os participantes improvisam o corpo e os versos, dando umbigadas, numa roda animada, ao som de atabaques, o jongo se firmou no subúrbio durante a chegada de afrodescendentes da região do Vale do Paraíba para o Rio de Janeiro, no início do século XX. 

Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Carlos Nobre

Os bairros onde se desenvolveu foram os morros de São Carlos, Salgueiro, Mangueira e Serrinha. Com o passar das décadas, o jongo quase que desapareceu no Rio de Janeiro. Mas, na Serrinha, ele cresceu, e por isso, se tornou no maior reduto desta manifestação afro na cidade.

Há sete dias, estive presente na inauguração da Casa do Jongo, na Rua Compositor Silas de Oliveira, em Madureira, que contou com a presença de diversos grupos artísticos, além, é claro, dos próprios jongueiros. Do início da rua até o local onde fica a Casa do Jongo, foi criada uma espécie de desfile de sambistas e jongueiros.

A concentração começou nas esquinas das Ruas Silas de Oliveira com Edgar Romero, na subida da Serrinha, onde nasceu a escola Império Serrano. Passistas, baianas, integrantes da Velha Guarda, ritmistas e casais de mestre-sala e porta-bandeira mostravam impaciência para entrarem em cena. Quando veio a ordem para o desfile começar, os tambores dos blocos entraram em cena e os corpos iniciaram o movimento de danças afro.

Maura Luísa e Matheus. Foto: Carlos NobreDe repente, a rua é tomada por mais foliões.

Ou seja, a eles se juntam dois casais de mestre-sala e porta-bandeira: Agata, 10 anos, e Fernando, 12, e também Maura Luisa, 30, e Matheus, 19, que bailam na rua, com movimentos envolventes, num utópico duelo de corpos entre o masculino e o feminino.

Por volta de metade da manhã, a festa começa a definir sua tradição quando um grupo de homens e mulheres do Império Serrano forma uma procissão de umas 25 pessoas.

A caminhada, ao som de atabaques, é liderada por Dona Maria do Jongo, 94 anos, e pelo seu filho Ivo Mendes, 70 anos, vestidos de branco, que sobem a rua em direção à Casa do Jongo, que será inaugurada dentro em pouco.

Dona Maria do Jongo e seu filho. Foto: Carlos Nobre

O estilo imperial de mãe/filho chama atenção dos presentes. Por sua vez, os moradores da Silas de Oliveira abrem as salas para apreciar os folguedos.

Mais atrás, o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira sobe a rua só envergando o pavilhão do Jongo da Serrinha.

"Esse é um dia muito feliz para mim", diz Dona Maria do Jongo, fundadora do Império Serrano, juntamente com os filhos. Ela começa a falar da importância da dança para a comunidade e diz que tudo vem da ancestralidade.

Ivo Mendes explica que a vitalidade da mãe, aos 94 anos, é devido a "essa coisa de ser negro, de ter muita resistência e não ficar abatido". Ela tem dois filhos, quatro netos e quatro bisnetos.

O som dos tambores aumenta na rua.

Surgem mais blocos, alguns femininos, cujas alas mesclam quatro cores nas fantasias. Os blocos tentam alcançar o pelotão de vanguarda de Dona Maria do Jongo. Atrás deles, veio grupo de foliões do jongo: mulheres, em geral, jovens, em cima de pernas de pau, dando um ar circense ao evento. Por fim, os grupos param em frente a duas barracas.

Ali, ocorrem apresentações de dançarinos do jongo.

Instalada em um espaço com cerca de dois mil metros quadrados, a Casa do Jongo contará com salas administrativas e para o ensino de cursos, além de espaço para exposições, cineclube, lojas, horta comunitária, terreiro para rezas e terreiro para jongo e capoeira.

Segundo Dione Boy, coordenadora da Associação Cultural Jongo da Serrinha, o local era um galpão abandonado e agora se transformará num espaço de muitos encontros, de beleza, de cultura.

O jongo foi tombado pelo IPHAN como o primeiro bem imaterial do Estado do Rio.


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23/11/2015 22h58

Tia Ciata é homenageada com escultura
Carlos Nobre

As comemorações pelo Dia Nacional da Consciência Negra teve uma grande surpresa com a presença nas ruas do entorno da antiga Praça Onze de uma escultura de cinco metros de altura de Hilária Batista de Almeida(1854-1924), a Tia Ciata, confeccionada com material reaproveitado de aço carbono, aço inox soldados, chapas de geladeiras e armários velhos.

A escultura saiu dos jardins da Escola Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, na Rua Benedito Hipólito, Centro, acompanhada por baianas de escolas de samba e mães-de-santo. Ela foi levada em cortejo para o Monumento de Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra.

A construção do monumento aconteceu durante uma oficina de escultura, na Caloueste Gulbenkian, no segundo semestre de 2015, cujo objetivo central era a homenagem em escultura da grande líder da cultura negra do Centro, no início do século XX.

Durante toda manhã de 20 de novembro, na Calouste Gulbnekian, a escultura atraiu a atenção dos visitantes, que ficaram fascinados pela imagem forte da antiga mãe de santo, que se tornou uma das figuras negras mais reverenciadas da cidade.

Antes de ser levada às ruas, a escultura foi homenageada por mulheres, lideradas por Gracy Mary, bisneta de Tia Ciata, que, numa roda, ao som de uma bateria de mulheres, foi cercada e saudada por gritos entusiásticos das mulheres.

Gracy Mary, que organiza um movimento de baianas da região, disse estar feliz com a homenagem prestada a sua bisavó. Ela diz que aprendeu a admirar a bisavó devido às histórias ouvidas sobre ela, em geral, contadas pelos parentes mais velhos.

Por volta de 1906, a casa de Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúnas, 106, hoje Rua de Santana, era uma espécie de centro cultural frequentada por sambistas, estivadores e políticos. Suas rodas de samba se tornaram famosas e costumavam a durar dias.

Numa certa noite, em 1906, foi cantado numa de roda de sua casa o samba "Pelo Telefone", registrado como autoria de Donga e Mauro de Almeida. A obra entrou para a história da MPB como o primeira música registrada como samba e virou mito.

O papel de Tia Ciata, na Pequena África, sua liderança e capacidade unificar as mulheres, foram tema de um livro clássico chamado "Tia Ciata e a Pequena África", de Roberto Moura.



17/11/2015 13h43

Recuperando a história de Zumbi dos Palmares
Carlos Nobre

Em meu novo livro - que lancei essa semana pela editora Multifoco - "Um abraço forte em Zumbi: pensamento e militância no front da Áfrika Carioka" - abordo como foi a construção do Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro) pelos militantes afro.

O livro também tem artigos sobre o mundo do samba, ações negras, negros na maçonaria, relações diaspóricas afrodescendentes, políticas de combate ao racismo e negros em partidos políticos.

Um Abraço Forte em Zumbi. Foto: DivulgaçãoEm relação à criação do Dia Nacional da Consciência Negra, ele aconteceu, em São Paulo, quando o Movimento Negro Organizado (MNU), naquela ocasião, fez uma análise histórica da importância do Quilombo de Palmares e de Zumbi, seu principal líder, durante o período colonial brasileiro.

Eles concluíram que, no quadro de heróis nacionais cultivados pelos brasileiros, não havia representante afro de significado de luta pelos direitos afro.

Os livros didáticos, por exemplo, elogiavam o negro Henrique Dias, o criador do Batalhão dos Henriques. Este ajudou os portugueses a expulsar os holandeses de Pernambuco, mas também foi usado para combater o Quilombo de Palmares.

Então, os militantes concluíram pela transformação do dia da morte de Zumbi - 20 de novembro de 1695 - como Dia Nacional da Consciência Negra. E, desse modo, elevaram Zumbi dos Palmares como o herói dos oprimidos em geral.

Trinta sete anos depois do estabelecimento dessa data, hoje, pelo menos, segundo os militantes negros, o 20 de novembro é feriado em cerca de 2.600 municípios. Existem movimentos para que a data se torne feriado nacional.

Após uma briga que durou seis anos, que chegou até ao Supremo Tribunal Federal (STF), o Rio de Janeiro foi o primeiro município a criar o feriado pelo Dia da Consciência Nacional da Negra, em meados dos anos 1990.

Depois, em 2002, a lei 4007/2002 tornou o Rio de Janeiro o primeiro estado a decretar feriado estadual em 20 de novembro.

Em 2011, a lei federal no. 12.519/2011, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, tornou o 20 de novembro Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra Brasileira.

O Rio de Janeiro também é pioneiro em homenagear Zumbi dos Palmares em monumentos. Através de lei estadual, em 1986, foi criado e instalado o Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, que hoje é o local onde ocorrem as cerimônias relacionadas ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Também existem monumentos a Zumbi em Padre Miguel, Duque de Caxias, Quissamã, Campos, Volta Redonda, Búzios, Petrópolis, entre outros municípios.


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04/11/2015 13h46

A história 'secreta' do Terreirão do Samba
Carlos Nobre

Um amigo nosso escreveu esse artigo contando a história do Terreirão do Samba, a ser editado na próxima edição impressa do jornal "Questões Negras".

A HISTÓRIA "SECRETA" DO TERREIRÃO DO SAMBA
por JOSÉ REINALDO MARQUES*

"Durante o carnaval, o samba da velha Praça Onze renasceu com o projeto Terreirão do Samba. Foi por lá que, bebendo e brincando, em meio a 76 barracas instaladas no quintal da escola Tia Ciata, o carioca resgatou um pouco da alegria dos carnavais antigos."

Essa foi a abertura de uma reportagem do jornal O Dia, assinada por Mônica Maia e Mônica Soares, sobre o Terreirão do Samba, na edição do domingo 16 de fevereiro de 1991.

Por isso, se me pedem para citar um carnaval inesquecível, não preciso fazer um grande esforço de memória para apontar o de 1991. Isto porque inauguramos um projeto inovador no calendário carnavalesco da cidade com apoio da Riotur.

O local escolhido não foi aleatório, pois a antiga Praça Onze "das famosas batucadas" é um marco da história do samba carioca, que resistiu a diversas ameaças de desaparecimento no contexto das intervenções urbanas ocorridas no Rio de Janeiro.

Inaugurado num sábado, 7 de fevereiro, em 1991, o Terreirão do Samba surgiu no cenário da Cidade Maravilhosa como um símbolo da cultura afrobrasileira que se desenvolveu no Centro da cidade, que fazia limites com o Cais do Porto e a Cidade Nova.

Uma área cuja ocupação - incluindo o Morro da Providência (a primeira favela do Rio de Janeiro segundo alguns historiadores) e o Morro da Conceição - contou com uma grande migração de famílias negras vindas da Bahia (bantos e yorubás), que ali foram se acomodando dando origem a um território formado por um grande contingente de afrodescendentes.

Esse ambiente foi batizado por Heitor dos Prazeres como a "Pequena África" - cuja capital na opinião do cineasta Roberto Moura era a Praça Onze - devido à contribuição singular que deu ao fortalecimento das culturas de matriz africana no Rio de Janeiro, em fins do século XIX e início do século XX.

A proposta de criação do Terreirão do Samba se baseou no fato de que era necessário criar um espaço alternativo, mas digno, para o sambista (desde os já consagrados até os mais jovens) apresentar a sua arte. E que durante o período carnavalesco se transformasse também em área de entretenimento gratuito para os milhares de foliões que não podiam pagar por um ingresso para assistir ao espetáculo das escolas de samba que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, vizinha ao Terreirão do Samba.

Partimos do princípio de que era preciso resgatar a memória de importantes figuras da cultura afrocarioca que nos precederam. Tais como: Tia Ciata, Tia Carmem, Hilário Jovino Ferreira, João da Baiana, Donga, Bucy Moreira, Mestre Cazuza, Xangô da Mangueira, entre outros.

Na época, a nossa intenção era que o Terreirão do Samba pudesse também incentivar novas gerações de sambistas e valorizar a identidade que essas culturas conquistaram a partir da rica experiência anterior.

O projeto começou na antiga Assessoria de Carnaval da Riotur, nos anos 1990, na época liderada pelo Dr.José Messias Dias Filho - médico que pontuou sua passagem no mundo do samba -, cuja equipe envolvida no desenvolvimento do Terreirão do Samba era formada por este autor, Filó Filho, Sonia Regina Oliveira (neta de Donga), a José Carlos Machine (síndico da Passarela do Samba), Agnaldo Dias e Xangô da Mangueira.

O escritório da Assessoria de Carnaval ocupava um pequeno imóvel instalado próximo à quadra esportiva que atendia aos Cieps, na esquina da Av. Marquês de Sapucaí, com a Rua Benedito Hipólito, a 50 metros da Praça Onze, que naquela época era um ambiente mal iluminado, sem banheiros, inexistência de limpeza. A única atração do local eram as barracas tradicionalmente ali instaladas pelas Tias Baianas e as Velhas Guardas das escolas de samba, no período do carnaval.

Essa realidade chamou a minha atenção e a do Filó. Conversamos sobre aquela situação humilhante a que sambistas e foliões eram submetidos, realidade esta que precisava urgente de uma intervenção do poder público municipal, que, naquele momento, fazíamos parte. Comentei com o Filó sobre a possibilidade melhorar a iluminação da praça, dotá-la de banheiros e um palco para apresentação dos intérpretes de samba- enredo, durante o carnaval.

O Filó, que tinha produzido um evento no Renascença Clube, no Andaraí, chamado "Terreirão de Iaiá", com a sua criatividade, na mesma hora vislumbrou um novo cenário para a Praça Onze, livre de entulhos, com barracas típicas e samba de primeira. E completou: "Terreirão do Samba, Reinaldo, esse é o projeto!"

Voltamos eufóricos para a Assessoria de Carnaval da Riotur, para compartilhar com o Dr. José Messias e o resto da equipe a nossa ideia. O Messias acatou de imediato a nossa sugestão e nos orientou que fizéssemos uma boa justificativa para ele apresentar à diretoria da Riotur, cujo presidente à época era o advogado Trajano Ribeiro.

O Filó, que é engenheiro civil, imediatamente começou a fazer o traçado e a pensar na logística e infraestrutura que deveriam contemplar o Terreirão. Eu, jornalista, fiquei encarregado da produção dos textos de apresentação e de concepção do projeto, que seriam revisados e ajustados pela Sonia Oliveira, que, pela sua organização e visão holística seria encarregada na formatação do processo original do projeto.

Internamente, tanto na Riotur quanto na própria prefeitura, cujo prefeito na época era Marcelo Alencar, o Terreirão do Samba não foi de início unanimidade. Sofria críticas sobre o seu real potencial artístico e também era questionado do ponto de vista financeiro.

A nosso favor, tínhamos o apoio do Trajano Ribeiro, que gostou do projeto; o apoio de Mestre Cazuza da Mangueira, e a impetuosidade do Dr. José Messias, cujo dom para a negociação política foi fundamental para que conseguíssemos apoio externo dos próprios sambistas, lideranças do Movimento Negro e da iniciativa privada, para fundar o nosso Terreirão do Samba. 

Com a determinação do Dr. José Messias e o "sigam em frente do Trajano", conquistamos o apoio da Comlurb, que se comprometeu a fazer a limpeza da área; e da Secretaria Municipal de Fazenda, encarregada do licenciamento das barracas que seriam instaladas no Terreirão do Samba.

Se, por um lado, o presidente da Riotur estava suscetível à realização do projeto, ainda nos faltava o principal. Ou seja: convencer o então prefeito Marcelo Alencar de que o projeto era viável; que os gastos seriam recompensados pela imagem positiva que o seu governo passaria a ter entre os sambistas e junto a população carioca, amante do samba e do carnaval. Foi, então, que mais uma vez prevaleceu a articulação de Messias. 

No dia em que ele foi defender o projeto junto ao Marcelo Alencar, combinou com Alcione, sem que o prefeito tivesse conhecimento, que levasse à prefeitura um grupo de sambistas tradicionais, do qual fizeram parte Martinho da Vila, Beth Carvalho e a própria "Marrom".

Segundo uma fonte que participou do encontro, a reunião foi com o presidente da Riotur, Trajano Ribeiro; José Geraldo Machado, então diretor de operações do órgão; José Messias, Marcelo Alencar e alguns assessores. O debate ficou tenso.

Pressentindo que ia perder a parada, Messias habilmente se levantou, foi até a antessala e chamou os sambistas. Era o argumento que faltava: imediatamente o prefeito saudou os artistas e autorizou a liberação da verba que garantia a infraestrutura básica do Terreirão do Samba.

A partir dali, o projeto ganhou fôlego e mais apoios vieram. Como o dinheiro liberado pela prefeitura só era suficiente para garantir a construção do palco, instalações sanitárias e iluminação, o empresário Washington Maia, dono de uma rede de motéis, financiou as barracas típicas que foram instaladas na Praça Onze.

Terreirão do Samba. Foto: Divulgação

O cenário do Terreirão do Samba foi planejado com um arranjo de barracas dispostas em "ruas e becos" improvisados em homenagem a personalidades do mundo do samba e suas respectivas agremiações como Candeia, Cartola, Juvenal Lopes, Silas de Oliveira e Paulo da Portela.

Tia Ciata ganhou um destaque especial devido à sua liderança e representação sobre o papel da mulher na história da "Pequena África". A decoração foi executada pelo artista plástico José Paixão, que, em uma ação inusitada utilizou a habilidade de jovens alunos da Escola Municipal Tia Ciata, na confecção de painéis e adereços.

Mesmo com a chuva que desabou na cidade do Rio de Janeiro naquele ano, o lançamento do projeto foi um sucesso de público. E com a ajuda de Candonga, Delegado, Mestre Fuleiro, Waldir 59 e Xangô da Mangueira, o Terreirão do Samba conseguiu atrair a atenção de sambistas consagrados.

Um grande painel com o desenho da figura dos Oito Batutas foi a moldura do "Palco João da Baiana", por onde passaram Alcione, Agepê, Beth Carvalho, Jamelão, Jovelina Pérola Negra, Lecy Brandão, Martinho da Vila, Nei Lopes, entre outros, que embalaram o público acompanhados do grupo Samba Som 7, que fazia a base dos shows dos artistas que se revezavam para dar uma canja. O cantor e compositor Mombaça também foi uma das atrações da primeira edição do evento.

Na quarta-feira de cinzas, Sonia Oliveira se reuniu com os barraqueiros na Praça Onze, para fazer um balanço do projeto e ouvir sugestões. Acabou tendo a feliz ideia de aconselhá-los a criar uma associação. Ela argumentou que como pessoa jurídica, os barraqueiros teriam mais segurança para permanecer naquele espaço. E assim nasceu a Associação Cultural dos Barraqueiros do Terreirão do Samba.

Empolgados com a repercussão alcançada, resolvemos realizar o evento na sexta e no sábado das Campeãs. A divulgação ganhou força com a iniciativa da Associação dos Barraqueiros, que arrecadou verba para pagar chamadas na Rádio Tropical.

De novo, tivemos a confirmação de que o Terreirão do Samba tinha agradado ao público, que mais uma vez aplaudiu a iniciativa. Entre os sambistas, a opinião não foi diferente. Jamelão e Mestre Marçal disseram ao jornal O Dia que achavam que o projeto era uma vitrine para os artistas do mundo do samba.

Ressaltando que um dos aspectos mais interessantes do Terreirão era a valorização do sambista, na mesma reportagem, Manaceia lembrou as dificuldades que compositores como ele tiveram que enfrentar para expressar a sua arte. "O sambista sempre encontrou dificuldade. O compositor de hoje pode ter mais caminho, e o Terreirão do Samba é um deles", disse o sambista que é um dos baluartes da Velha Guarda da Portela.

Em 2016, o Terreirão do Samba completa 25 anos de fundação, e acho que deveria ser aberto ao público que visitará a cidade, durante as Olimpíadas, como mais uma boa opção de entretenimento que o Rio de Janeiro tem a oferecer aos turistas, nacionais e estrangeiros, que desejam conhecer nossas raízes culturais.

Por se tratar de um espaço dedicado a uma das mais importantes vertentes das manifestações populares do Brasil, o Terreirão do Samba também é um dos bons exemplos da capacidade que o carnaval carioca tem de se reciclar, sem violar ou deixar no esquecimento as suas mais importantes tradições. Como escreveu o saudoso Albino Pinheiro, "o Terreirão do Samba abriga samba de verdade".

*Jornalista e um dos autores do projeto Terreirão do Samba



26/10/2015 13h24

O Terreirão das Tias em Oswaldo Cruz
Carlos Nobre

Na história da comunidade negra, a mulher tem um papel importante, justamente por dominar a culinária e, com ela, sustentar a prole. Esse espírito ainda continua vivo com três mulheres de Oswaldo Cruz: Neide Sant'anna, filha do compositor Chico Sant'anna, da Portela, autor do clássico "Saco de Feijão"; Selma Candeia, filha do Mestre Candeia, e Romana Antônio Silva Correa, presença marcante como sambista e cozinheira. 

Todas as três têm barracas na Feira das Yabás, em Oswaldo Cruz, que acontece a cada segundo domingo do mês. No entanto, enquanto a Feira das Yabás não retorna (está renovando o alvará de licença), elas criaram o evento "Roda de Samba do Terreiro das Tias", a cada terceiro domingo do mês.

Para não perderem o freguês, resolveram manter aceso o espírito da Feira das Yabás em outro local, na Rua Adelaide Badajoz, 68, também em Oswaldo Cruz, chamada de rua da feira, que historicamente é frequentada por grandes portelenses e imperianos.

Foto: Acervo pessoal

A estreia do Terreirão das Yabás, na Adelaide Badajoz, em 29 de setembro passado, reuniu quase duas mil pessoas ansiosas por cantar e se deliciar com a cozinha popular das três mulheres. Tinha gente saindo pelo ladrão na fuzarca. Na segunda edição, 18 de outubro passado, também teve casa cheia.
Assim, elas agora têm a Feira das Yabás e Roda de Samba do Terreiro das Tias. Muita tradição, muita raiz, muita africanidade.

"A ideia do terreirão surgiu porque a gente dependia do dinheiro que arrecadava na Feira das Yabás. A feira estava sem data para retorno. Então, nos juntamos e resolvemos criar o Terreirão das Tias. Alugamos um salão e botamos para frente, com bebida, comida e samba de raiz", conta Neide.

"O boca a boca funcionou", garantiu Romana. "Isto porque vieram os amigos que também frequentavam a Feira das Yabás. Também nossa página sobre o terreirão no Facebook foi um sucesso. Tivemos mais de 2 mil curtidas antes do evento."

Segundo Neide, o local também onde rola o terreirão (Rua Adelaide Badajós) era importante, pois o terreirão fica em frente a um botequim historicamente frequentado por grandes nomes da Portela.

"Meu avô, meu pai (Antônio Candeia pai e filho), Monarco, Cascaquinha, Manacea e outros, frequentavam essa rua que é a rua da feira como a gente chamava. Eles também frequentavam o botequim daqui, cantavam sambas. Então, estamos fazendo um resgate histórico do samba de raiz, mais uma vez", observa Selma.

Na próxima roda de samba (15 de novembro) haverá homenagem ao compositor Silas de Oliveira que, em 2016, estaria completando 100 anos se estivesse vivo.

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12/10/2015 14h12

O avanço científico dos médicos egípcios
Carlos Nobre

O título de "Pai da Medicina" atribuído ao grego Hipócrates corresponde a mais um equívoco cometido pelo domínio europeu na descrição dos processos históricos dos outros povos.

A condição de Pai da Medicina seria mais apropriada ao cientista e clínico egípcio Imhontep, que quase três mil anos antes de Cristo praticava quase todas as técnicas básicas da medicina.

Foto: Reprodução de InternetO Egito possuía uma ciência médica e farmacológica sistematizada e muito desenvolvida, cujas recentes descobertas mostram que os cientistas egípcios tiveram a capacidade de promover cirurgias complexas como as cerebrais, de catarata ou o engessamento de membros com ossos quebrados, conhecer substâncias cicatrizantes e anestésicos.

O avanço da medicina foi impulsionado, principalmente, pelo desenvolvimento da técnica de mumificação que consistia em um conjunto de procedimentos químicos e físicos que visavam à preservação dos corpos, já que o sistema religioso no Egito pregava que, para se alcançar a vida eterna, a alma dos mortos precisava de um corpo.

A mumificação permitiu o acesso ao interior do corpo humano e, com isso, os egípcios passaram a conhecer o sistema circulatório, o funcionamento de cada órgão e a relação entre eles.

O pioneirismo dos egípcios na medicina em relação aos outros povos deve-se ao fato de que muitos povos da época tinham a crença de que a abertura dos corpos dos mortos fosse um desrespeito ou achavam que as almas escapariam dos corpos (como pensavam os sumérios e assírios).

Essas conquistas da medicina egípcia estão registradas em "papiros médicos" encontrados em sítios arqueológicos no Egito. Esses documentos descreviam com detalhes procedimentos
médicos: "O batimento cardíaco deve ser medido no pulso ou na garganta" (texto extraído de papiro datado de 1550 a.C.).

Outra característica da medicina desenvolvida pelos egípcios foi a especialização que possibilitou o desenvolvimento, por exemplo, da odontologia que, naquela época, já usava brocas e praticava os procedimentos de colocação de prótese e drenagem de abscessos.

Os métodos contraceptivos também já eram do conhecimento dos egípcios.

FONTE: Contribuição dos povos africanos para o conhecimento científico e tecnológico universal, de Lázaro Cunha

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29/09/2015 12h10

O retorno do terreiro de Joãozinho da Gomeia
Carlos Nobre

A famosa casa de religião afro de João Alves de Torres Filho (1914-1971), Joãozinho da Gomeia, criada há 44 anos e abandonada ao longo da década de 1980, após a morte do babalorixá, no bairro Independência, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, está retornando da terra onde fincou raízes através de escavações que vêm sendo feitas por um grupo de 17 arqueólogos coordenados por Rodrigo Pereira, do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As escavações vêm sendo supervisionadas pelos professores-doutores Rita Scheel-Ybert e André Leonardo Chevitarese, do Programa de Pós Graduação em Arqueologia do

As escavações já tiveram um feito importante, ou seja, os arqueólogos localizaram a casa do caboclo Pedra Preta, uma das entidades que Joãozinho da Gomeia incorporava. Mas o orixá Iansã, santo da alma do babalorixá, era patrona do terreiro da Gomeia. O caboclo Pedra Pedra é uma entidade do Candomblé de Caboclo que também influenciava as ações espirituais de Joãozinho.

Ali, na casa do caboclo Pedra Preta, Joãozinho e sua mãe biológica, Dona Senhora, faziam orações e tratavam das doenças da população local e também de diversas celebridades nacionais e internacionais que procuravam seu terreiro.

Segundo Pereira, coordenador das escavações, em 15 dias de trabalho, foram localizados, além da casa de caboclo, frascos, vidros para acondicionar remédios, contas e fios de contas religiosas, trancinhas de tecido para ornamentação de atabaque, pires, pirex, xícaras, garfos, facas e moluscos de culto.

Foto: Rodrigo Rodrigues

"Havia assentamentos religiosos, mas estes parecem que foram levados", desconversa. Todo o material, explicou ele, ficará sob a guarda do Museu Nacional até o fim da pesquisa em 2019. A pesquisa tem sido acompanhada por Mãe Seci Caxi, apontada como sucessora de Joãozinho da Gomeia. Ela tem auxiliado na identificação dos materiais obtidos.

Ela é filha biológica de Kitala Mungongo, recentemente falecida, que foi iniciada por Joãozinho da Gomeia. Mãe Seci Caxi nasceu dentro da Gomeia, em 1 de novembro de 1961, pelas mãos do próprio Joãozinho que foi seu padrinho de batismo.

O arqueólogo acrescentou que as escavações para localizar a planta original do terreiro de Joãozinho da Gomeia será a base de sua tese de doutorado a ser apresentada dentro de três anos no Museu Nacional.

"A pesquisa, que se utiliza de metodologia arqueológica, visa levantar dados acerca do processo de formação do registro arqueológico no Terreiro da Gomeia, por Registro Arqueológico, ou seja, todo resquício material deixado pela ação de grupos humanos ao longo da história de ocupação de um lugar", explicou Pereira.

De acordo com ele, esse pode ser o primeiro levantamento etno-arqueológico de uma casa de candomblé no Brasil a partir da visão arqueológica.

Segundo Pereira, a etno-arqueologia é um ramo da arqueologia que usa de comparações entre os materiais arqueológicos e as práticas ainda vigentes de grupos que têm determinada continuidade nas práticas culturais. - Me utilizo de dados dos terreiros em funcionamentos para comparar e elucidar as questões levantadas na Gomeia".

Segundo Pereira, o material que vem sendo retirado do antigo terreiro da Gomeia não é considerado arqueológico pela lei no. 3924/1961. - Estou tratando o material que estamos recolhendo, aqui, como histórico e dando um viés arqueológico a ele- assegura Pereira.

Pereira disse que segue uma linha teórica denominada de "Arqueologia do Tempo Presente", pois, o material escavado, apesar de jovem, tem repercussões na memória dos grupos a que aquele material se refere, como, no caso do terreiro da Gomeia, em que seus símbolos e evidências ainda fazem parte da memória do bairro onde ele

Para executar essa pesquisa, ele procurou o Secretário de Cultura de Caxias, Jesus Chediak, para obter autorização da referida secretaria para proceder com as pesquisas

Foto: Rodrigo Rodrigues

O arqueólogo esteve também com ex-integrantes do terreiro que deram informações a respeito da disposição dos cômodas da casa. Esse fato permitiu a elaboração, ainda em curso, de uma planta da disposição dos espaços erigidos e rituais do terreiro. Na verdade, estou elaborando a planta ainda, via uso de técnicas de história oral e dados etnográficos-contou Pereira. Ele detalha com foram as escavações durante 15 dias, no bairro Independência:

"Aqui, parece que não tem mais os assentamentos originais, mas acho que tem uma cultura material importante. Ficamos semanas escavando, no período 03 a 14 de agosto passado. Acho que resgatamos objetos do cotidiano do terreiro. A razão dessa escavação é que ela faz parte do meu doutorado"- contou ele.

Em março e agosto de 2016, estão previstas mais escavações no terreiro da Gomeia pela equipe coordenada por Rodrigo Pereira.

Pai de santo de celebridades

Joãozinho de Gomeia não foi apenas mais um pai de santo. Entre 1950-1960, se tornou o maior babalorixá do Brasil, sendo aclamando como Rei do Candomblé, por diferentes correntes religiosas.

Entre as pessoas que procuram seus serviços religiosos se encontravam ex-presidentes da República (Getúlio Vargas e Juscelino Kubischek), artistas (Dalva de Oliveira, Marlene, Blacaute, Grande Otelo), intelectuais estrangeiros( Pablo Neruda, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre), parlamentares, empresários e integrantes da

Após sua morte, em 1971, devido a um aneurisma cerebral, seu terreiro, em Caxias, continuou funcionando, mas, em 1985, foi transferido para Maiporã, a 55 Km de São Paulo, onde hoje ocupa um terreno de 28 mil alqueires.

Foto: Divulgação

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23/09/2015 14h41

O romance proibido entre Salomão e uma negra
Carlos Nobre

A mulher negra, na Bíblia, tem como símbolo, Sulamita, ou a Rainha de Sabá, que manteve intenso amor com Salomão, cujo relacionamento é descrito em detalhes em " O Cântico dos Cânticos".

O casal gerou Menelik I, aquele, que, mais à frente, recebeu a tarefa mítica de conduzir a Arca da Aliança para Etiópia, onde o cristianismo nasceu e se fortaleceu e depois se espalhou pelo mundo.

Foi uma jornada paradigmática, sem paralelo na história afro religiosa.

Sulamita. Foto: ReproduçãoAssim, o maior poema de amor entre duas pessoas (Sulamita-Salomão) tem uma transversalidade afro, ou seja, na presença de Sulamita irradiando sua beleza/dominação afro em relação a outro ser.

Ela, por conseguinte, é de beleza inconteste, envolvente.

Se a gente reler, agora, com mais argúcia o " Cântico dos Cânticos", veremos, neste sentido, várias coisinhas dialéticas quando a cor negra permeia diversos aspectos da Bíblia, que, na verdade, são poucas vezes explicitados para os cristãos em função até do que eles podem causar como novos significados de leitura bíblica.

Mas, vejamos estes aspectos.

Em primeiro lugar, o protagonismo estético da mulher negra naqueles tempos; a intensidade de um relacionamento entre seres de cores diferentes; as diferentes estratégias para burlar aqueles que não viam bem este relacionamento; e, por fim, a agudização da intensidade das relações entre Sulamita/Salomão, onde, dois seres passam o tempo todo, no poema bíblico, fazendo mútuos elogios um para o outro, utilizando como metáfora os valores mais importantes daquela época como incenso, vinho, mirra, leite, gado, ervas etc.

Em geral, existem publicações bíblicas que se propõem a ocultar a condição de cor de Sulamita, ou seja, querem esconder sua cor, pois ela é a grande protagonista de "O Cânticos dos Cânticos".

Ou seja, a mulher negra, nesta perspectiva, aqui, está em primeiro plano.

Na minha Bíblia (Editora Alfalit Brasil, RJ, 1999) é impossível para tradutor esconder a cor de Sulamita. Veja, por conseguinte, logo nos primeiros versos, como Sulamita se apresenta para suas rivais, as judias, que ficam ressentidas por Salomão tê-la escolhido como sua favorita.

Neste sentido, Sulamita diz, assim, para suas rivais: "Sou escura, porém, amável, filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as tendas de Salomão".

Não seria melhor o tradutor ter posto "Sou negra", ao invés de "sou escura"?

Bem, parece, que nesta altura, quando apresenta sua identidade física, Sulamita está sofrendo grande pressão por ter se apaixonado por Salomão. Ela mesmo diz que as mulheres judias não admitem que ela possa ser favorita de Salomão com aquela cor. Ela tenta contemporizar, ao dizer para suas rivais:

"Não olhes para mim porque sou escura: o Sol me escureceu".

Ou seja, aqui, nesta passagem bíblica, Sulamita, a mulher mais linda da Terra naquele momento histórico, tenta uma justificativa "natural", quer dizer, atribuindo à natureza o processo de ter se tornado uma mulher diferente, ou seja, de ter nascido com a cor negra, que, por conseguinte, por ter sido fomentada pelos raios do Sol... Assim, diz ela para as judias: "Não olhe para mim porque sou escura: O Sol me escureceu".

No entanto, Salomão não vê coisa assim. Ele acha, por conseguinte, que está diante de uma mulher superior a todas. Naquela época, Salomão, bonito, guerreiro, sábio, sagaz, podia ter as mulheres que quisesse em sua cama, mas, ele, em várias passagens, diz que não existe outra superior a Sulamita.

Em certo momento, Sulamita assume sua condição de mulher total, diante da pressão das judias para que sai fora do relacionamento com Salomão: "Eu sou a Rosa de Saron, o lírio dos vales", diz ela, numa tentativa de afirmação de sua beleza, de sua identidade, de sua cor, de seu estilo diferente de mulher, ante o ressentimento das rivais.

Por outro lado, vejamos, por conseguinte, os arroubos salomônicos em relação à sua amada. Diz ele, referindo-se a Sulamita:

"Tuas faces são delicadas quando ornadas com enfeites, teu pescoço com joias preciosas."

"Tu és formosa, minha amada, tu és formosa. Teus olhos são os da pomba."

"Teu pescoço é como a Torre de David, edificada para arsenal, no qual pendem milhares de escudos, todos broquéis de guerreiros valentes."

"Teus seios são como dois filhotes gêmeos da gazela, que se apascentam, entre as rosas."

"Tu és bela, minha amada, e não tens nenhuma imperfeição."

"Teus lábios destilam o mel, minha noiva! Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o perfume de teus vestidos é como o cheiro do Líbano".

"És fonte de jardim, poço de águas vivas, que fluem do manancial do Líbano".

"O contorno de tuas coxas são como joias, obras de joalheiro. Teu umbigo é como uma taça redonda, a bebida nunca falta; teu ventre é como um monte de trigo, cercado de rosas".

Por sua vez, Sulamita, no mesmo "O Cântico dos Cânticos", fortalece seu amor, sem esquecer das rivais. Ela diz, a certa altura, muito preocupada: "Eu vos suplico, filhas de Jerusalém, se encontrades meu amado, dize-lhe que estou doente de amor".

Independente desta guerra para manter Salomão ao seu lado, Sulamita protagoniza, nesta história, momentos impressionantes de dedicação ao amado, ou seja, vê nele muitas virtudes comparadas com a mecânica da natureza.

Vejamos alguns trechos de dedicação de Sulamita a Salomão:

"Meu amado é puro e coroado, distinto entre dez mil".

"Sua cabeça é como ouro refinado, seus cabelos são ondulados, negros como o corvo".

"Sua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça, e sua direita me abrace".

"Eu sou um muro, e meus seios são como torres: então, tornei-me a seus olhos como aquela que acha paz".

"Eu sou do meu amado e meu amado é meu".

Enfim, um amor histórico, com dinâmicas de diversos quilates, marcando as diferenças, ou seja, a cor é uma balizadora de encontros/desencontros entre os seres humanos.



08/09/2015 15h32

As redes de Tia Ciata na Pequena África
Carlos Nobre

Citadíssima em obras de sociologia e antropologia sobre a cultura negra no Rio de Janeiro - e homenageada em diversos enredos das escolas de samba de todos os grupos - Hilária Batista de Almeida (Salvador, 1854 - Rio de Janeiro, 1924), a famosa Tia Ciata, pelos relatos destas obras, com certeza, deve merecer sua posição de grande dama negra da história afrocarioca.

Tia Ciata. Foto: ReproduçãoEla - negra baiana que migrou para o Rio de Janeiro por volta de 1870 e que, aqui, inicialmente morou no bairro da Saúde, e depois, na Praça Onze, locais primordiais de desenvolvimento da cultura afro da época - se tornou um símbolo de diversidade negra e também líder reverenciada da comunidade afrobaiana do Rio de Janeiro Belle Époque.

Em 1876, então com 22 anos, migra para o Rio de Janeiro, indo morar, inicialmente, na Rua General Câmara. Tempos depois, se muda para a Rua da Alfândega, 304, onde se instala numa casa ao lado onde morava o famoso Miguel Pequeno, marido de dona Amélia do Kitundi. Miguel era outro líder da colônia baiana entre o final do século XIX e início do XX.

Em algumas obras, Tia Ciata, como era apelidada pelos amigos da Pedra do Sal, aparece como Hilária Batista de Almeida. No atestado de óbito, no entanto, está como Hilária Pereira de Almeida; e numa petição para ser admitida como sócia do Clube Municipal encaminhada por seu filho João Paulo este escreve o nome da mãe como Hilária Pereira Ernesto da Silva.

Alguns estudos, erroneamente, apenas citam-na, porque, numa noite de setembro de 1916, numa roda de samba, em sua casa, na antiga Rua Visconde de Itaúnas - hoje Santana - se encontravam diversos batuqueiros como Pixinguinha, Sinhô, China, Assumano e outros.

Naquela data, nascera de improviso numa roda de samba em seu terreiro o samba "Pelo Telefone", que Donga e o jornalista Mauro de Almeida registraram como deles na seção de direitos autorais da Biblioteca Nacional. O samba se tornou um divisor de águas na cultura do samba na cidade e ampliou a fama de seus possíveis autores.

Assim, a casa de Tia Ciata acabou entrando para a história da Música Popular Brasileira e das da cultura afrocarioca por ser o local onde teria surgido o primeiro samba registrado como tal.

Neste endereço, Tia Ciata se consagrou pelas suas festas memoráveis que acabaram entrando para a crônica da cidade, mesmo depois de sua morte, em 1924. Seus filhos, netos e bisnetos reverenciam e divulgam a memória da mãe, avô e bisavó através da cultura oral.

Tia Ciata e a Pequena África. Foto: ReproduçãoA importância maior de Tia Ciata era porque era uma mulher-rede, ou seja, uma mulher cheia de contatos, e que sabia movimentar estes contatos em seu favor ou a serviço da comunidade negra da época como demonstra diversas passagens do livro clássico "Tia Ciata e a pequena África", de Roberto Moura (Prefeitura do Rio de Janeiro, 1995).

Neste sentido, sua inteligência e capacidade de entender sensivelmente o tempo onde estava vivendo lhe proporcionou por conseguinte saber manipular o que chamamos de "redes africanas", ou seja, grupos ou pessoas que detêm conhecimento, e que os movimentava em benefício próprio e do próprio grupo onde está inserido, se aliando assim a outros grupos mais poderosos não necessariamente negros.

Vejamos, neste sentido, a primeira rede de Tia Cita. Seu marido, João Batista da Silva, que cursou três anos de medicina, em Salvador, trabalhava no gabinete do chefe de Polícia do presidente Venceslau Braz. Este tinha uma ferida numa perna. João ofereceu os préstimos da mulher Ciata para curá-lo. O presidente foi na casa deles. Tia Ciata, filha de santo do então famoso João Alabá, com seus conhecimentos de medicina africana cura a perna do presidente da República.

Sentindo a importância deste fato, Tia Ciata parece que aprofundou a relação com o presidente da República. Neste sentido, suas rodas de samba passaram a ser protegidas por policiais cedidos pelo governo e prestigiadas pela presença da elite. Na época, as manifestações culturais populares de todos os tipos eram violentamente reprimidas. João da Baiana, por exemplo, teve um valioso pandeiro apreendido pela polícia. Várias rodas de batuqueiros eram desmontadas e seus frequentadores, via de regra, eram encarcerados. Os grupos artísticos eram obrigados a pedir autorização governamental para se manifestar.

No entanto, nas festas de Tia Ciata, a polícia só chegava lá para proteger ela, a família e seus convidados. Ela sabia como tirar vantagens de suas amizades poderosas. Tinha essa "rede" política.
Quando, por exemplo, ia para a rua vender suas obras culinárias (doces e comidas variadas) seu ponto, na Rua da Alfândega, se transformava num local frequentado por diversos grupos (jornalistas, artistas, negros anônimos). Era um local onde circulavam informações, novidades e dicas do que rolava na comunidade negra da época. Era a "rede" da rua de Tia Ciata.

Outro fato importante que demonstrou a capacidade de articulação de Tia Ciata: percebeu que a cultura afro exercia fascínio na elite branca da época. Mesmo mantendo um severo controle social das atividades negras, essa elite não conseguia conter seus impulsos interiores rumo a ter acesso e participar daqueles ritos "bárbaros", que também tocavam em sua essência estrutural.

Ou seja, eles sentiam que para terem um espírito aberto ao mundo era fundamental participar também dos ritos afros ligados a mais profunda ralé dos guetos da Belle Époque carioca. Estes lhes impunham outra condição de cidadania e de postura relativas ao outro. Era igual à disputa hoje pelo cargo de rainha da bateria nas escolas de samba pelas atrizes e modelos, onde conflitos e brigas internas não podem ser divulgados abertamente.

Ou seja, a mulher não negra, ali, em frente, ao som alucinante do tarol, surdo, tamborim, reco-reco, pandeiro, chocalho, repique, caixa... se encontra harmonizada entre o paganismo e o profundo exercício do prazer, onde a música serve para ampliar suas cadeias internas de emoção e identificação estética e espiritual. Além disso, há o exercício do marketing, de ser objeto das câmaras dos cinegrafistas e fotógrafos... muito natural.

Desse modo, Tia Cita abria assim sua casa para frequência das elites que iam atrás de seus conhecimentos "bárbaros", conforme explica Carlos Sandroni, em "Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933)" ( Jorge Zahar Editor/UFRJ, RJ,2001).

"Os sambas na casa de Tia Cita ficaram na memória oral do Rio de Janeiro, como nos mostram os depoimentos recolhidos por Moura (e também na literária, sendo citados por poetas como Manuel Bandeira e Mário de Andrade)", afirma Sandroni.

Tia Ciata, segundo Moura e Sandroni, dividiu os aposentos de sua casa conforme a "classe" dos frequentadores. Assim, alegam eles, ela reproduzia o funcionamento comum das casas das elites da época. Esse status era reafirmado na sala de visitas da casa de Tia Ciata, na Praça Onze, onde existia alguns ambientes.

No primeiro, havia dança de par enlaçado e a música dos choros, baseada em gêneros europeus como a polca, a valsa etc. Era uma festa mais "civilizada", no dizer do próprio Pixinguinha, pois era frequentada pela elite branca. Por oposição, na sala de jantar, ficava a esfera íntima, onde prevalecia, protegido por um "biombo cultural", um divertimento de tipo afrobrasileiro, de pessoas pobres negras, os contemporâneos da Tia Ciata.

Sandroni, por seu turno, alega que não havia intenção da nega Ciata em impor uma segregação. Diz ele:

"O biombo não servia para interditar, mas para marcar uma fronteira pela qual, sob certas condições, passava-se constantemente", escreve ele. Sandroni, para reforçar seus argumentos, se socorre com testemunhos da presença de membros da elite branca na roda de samba de Tia Ciata, como na composição de Pixinguinha e Cícero de Almeida, de 1932:

"Samba de partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato
Só vai mulato filho de bahiana
E gente rica de Copacabana"

Por essa perspectiva, segundo Moura e Sandroni, Tia Ciata incorporou um espírito líder dentro da comunidade daquela época. Também porque era a dona de um vasto conhecimento doméstico - essencialíssimo naquela época. O homem negro, neste sentido, era periférico, pois não tinha trabalho regular, nem profissão. Enquanto isso, a mulher negra dominava a casa de ponta a ponta. Além disso, ela tinha dotes culinários, quebrava os tabus frequentando às ruas e sabia criar e manter contatos com gente do governo, sem falar em seu amplo poder religioso que impunha respeito e devoção.

Tia Ciata, segundo Moura, começou vendendo doces e comidas de santo na Rua Sete de Setembro. Era uma doceira de mão cheia. Seu negócio prosperou tanto que ela acabou contratando outras mulheres para ocuparem pontos estratégicos nas ruas do Rio, onde ganhava dinheiro com seus dotes e adotando trajes tradicionais de baianas (saias longas, rendadas, pano da costa, brincos em estilo pingente, colares de contas etc).

Afinal, ela era Tia Ciata, amiga de autoridades, o marido trabalhava na Chefatura de Polícia, sabia como lidar com os signos do poder em benefício dela.

Ela também cumpriu um papel importante como líder estética. Os ranchos, antecessores das escolas de samba, para terem sucesso, tinham que passar pela sua casa e pela casa de outras "tias baianas" para receberem a benção delas. Pois, sem elas, rancho não existia, não poderia ter desempenho positivo.

Na verdade, a importância de Tia Ciata é que os registros históricos falam muito dela numa era onde prevaleceu grandes "tias baianas", a maioria frequentadora da casa de João Alabá, na Saúde. Ernesto dos Santos (1889-1974), o Donga, e João Machado Guedes (1887-1974), o João da Baiana, eram filhos das baianas Tia Amélia e Tia Perciliana, negras que migraram de Salvador para o Rio de Janeiro, trazendo, como outros contemporâneos, uma cultura nigeriana muita densa, muito conhecida pela força de sua religiosidade.

Elas eram contemporâneas de Tia Ciata, mas Ciata se destacava.

Havia também citações importantes em relação ao trabalho e à vida das Tias Tereza, Emilia e outras. Tia Carmem do Xibuca (1878-1988), mais nova que as demais, nascida em Salvador, sobreviveu até os 110 anos, em meados dos anos 1980, na Praça Onze.

Ela chegou ao Rio de Janeiro aos 15 anos, migrando junto com a família. Ao morrer, deixou 40 netos, 50 bisnetos e 30 tataranetos. Teve 22 filhos.

Segundo Moura, a concentração da comunidade afrobaiana encontrava-se na Pedra do Sal e Morro da Conceição. Nestes locais, as tias baianas fizeram história. As mais destacadas foram:

TIA PERPETUA - Morou na Rua de Santana, onde também se concentrava grande população afro. Nesta rua, chamada antigamente de Visconde de Itaúnas, na casa de número 116, morava Tia Ciata.

TIA VIRIDIANA - Mãe de Chico Baiano, sambista famoso entre os afrodescendentes da época, que não se destacou midiaticamente para ser citado como um dos promotores da folia do Carnaval da Belle Époque.

CALU BONECA- Há poucas informações sobre essa tia baiana. Neste caso, urge a necessidade de mais pesquisas sobre ela e sua trajetória.

MARIA AMÉLIA - Também mulher importante na época. Os ranchos antes de saírem também passavam em sua casa para pedir a benção.

ROSA OLÉ - Também há poucas informações sobre essa tia.

SADATA - Uma das fundadoras do rancho "Rei do Ouro", junto com Hilário Jovino Ferreira, outro grande líder da comunidade baiana na Belle Époque carioca. Mulher que se destacou como animadora e grande cozinheira na Pedra do Sal.

DIDI DA GRAÇINDA - Mulher do famoso Assumano Mina do Brasil.

TIA GRACINDA - Tinha um bar, o Gruta Baiana, na Av. Rio Branco, morou na Rua Julio do Carmo num sobrado grande que dava para a Praça Onze. Ficou com fama de ter sido uma baiana muito bonita e muito assediada pelos homens.

Em geral, de origem yorubá, essas baianas mantiveram, aqui, a cultura religiosa de seus descendentes quando criaram terreiros afro. Também foram elas que estabeleceram o espírito de animação das ruas quando criaram ranchos, cacumbis, afoxés e outras manifestações culturais de matriz africana que logo se destacaram na cidade, ganharam corpo e se tornaram fatos marcantes da cultura negra no Rio de Janeiro.

A ala de baianas das escolas de samba do Rio de Janeiro foi instituída como uma homenagem às tias baianas negras que migraram de Salvador e se estabeleceram com seus familiares na Pedra do Sal, Morro da Conceição, Ladeira João Homem e outras localidades do entorno da Praça Mauá. O então prefeito Pedro Ernesto, através de decreto-lei, em 1933, tornou obrigatória a ala de baianas nas escolas de samba do Rio de Janeiro.


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01/09/2015 12h18

Carolina de Jesus: uma escritora negra
Carlos Nobre

Em 1958, uma mulher negra, de 44 anos, alta, porte soberbo, cata restos de comida pelas ruas do Centro de São Paulo. O que colhe serve para alimentar seus filhos e outras crianças da favela.

Ela nem terminara o curso primário.

Nascera em Sacramento, em Minas Gerais, viera ainda adolescente como migrante para São Paulo, e na cidade acabou morando na favela do Canindé, hoje extinta.

Carolina de Jesus. Foto: ReproduçãoNeste mesmo ano, um jornalista indignado com a situação miserável do povo brasileiro, consegue que o chefe de reportagem de seu jornal ("Folha da Noite") aprove sua pauta de cobertura sobre os deserdados da cidade.

Ou seja, ele quer mostrar como é uma favela por dentro, já que este tipo de moradia precária e desumana vinha preocupando as autoridades públicas da época.

O repórter em questão era Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, nos anos 1980.
Durante sua investigação pelas favelas, acabou encontrando a favelada de porte soberbo que colhe restos do lixo.

Era Carolina Maria de Jesus.

Ele fica encantado com a mendiga negra do Canindé.

Esta, por seu turno, sente que pode confiar naquele homem branco, que quer entender o mundo favelado.
Assim, ela lhe mostra diversos cadernos encardidos, que recolhera no lixo, que foram utilizados por Carolina para escrever seu cotidiano naquela miséria paulistana.

Audálio, excitado, sentindo que estava diante de uma grande reportagem, leva os cadernos para casa, e fica assustado/deslumbrado com o que lê.

Era um registro cru, criativo e detalhado do cotidiano de uma catadora de lixo da favela do Canindé, dando conta, numa narrativa emocionante, do que era o mundo dos pobres e dos miseráveis das favelas paulistas.

O jornalista escreve sua reportagem.

Mas, nela, utiliza diversas citações do diário de Carolina Maria de Jesus, a favelada negra que se recusa a ficar impassível à sua tragédia pré-estabelecida. Ali, naquelas, em letras miúdas, ela relata com precisão sua vida e dos outros favelados dos anos 1950.

A reportagem repercute.

Mais à frente, o jornalista publica mais relatos de Carolina na revista "O Cruzeiro", a mais importante daquele período.

Não tem outra: a poderosa editora Francisco Alves, da época, com a supervisão de Audálio, publica o diário de Carolina chamado "Quarto de Despejo", e o livro se torna best-seller.

Pela primeira vez na história da literatura brasileira, uma mulher se tornava best-seller, lida por diferentes classes sociais. E o mais complicado disso tudo, o sucesso vinha de uma favelada, quase analfabeta, que tecia com inigualável potência o cotidiano dos seus semelhantes para sobreviverem às intempéries e à injustiça no mundo dos privilegiados urbanos.

Talvez a mais sofisticada biografia sobre Carolina Maria de Jesus tinha sido escrita pelo historiador afro Joel Rufino dos Santos, chamada "Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável", para a Coleção Personalidades Negras da Editora Garamond, em 2009.

Aqui, Rufino não só utiliza de tudo - livros publicados sobre a autora - como faz diversas incursões sobre a sociedade brasileira da época onde a escritora viveu.

Desse modo, nos dá um complexo panorama do "ser escritor afro" numa sociedade que é racista historicamente, mas sempre nega esta condição através de diversos mecanismos que tentam amenizar esta tensão, um deles, a tal da democracia racial, que, neste milênio, se espatifou com o racismo explícito dos brasileiros que aparecem comumente nos jornais.

Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência.

"Quarto de despejo" foi lançado em 20 de agosto de 1960.

Em um mês, dez mil exemplares foram vendidos.

Dali por diante, a autora deixou a favela, se tornou personalidade nacional, foi requisitada e ganhou projeção internacional, fato raríssimo para uma mulher negra... ou seja, se projetar como escritora.

Em 1964, época do surgimento da ditadura militar (1964-1985), paradoxalmente, segundo Rufino, foi o ano no qual a escritora brilhou em festas, festivais, entrevistas no rádio e televisão, comícios, recepção em palácios de governo, viagens...

Rufino, neste contexto, tem uma opinião contraditória sobre Carolina.

Ele escreve:

"Eu admirava e ao mesmo tempo a menosprezava. Contraditória e ideologicamente, ela desafiava às minhas classificações de jovem marxista, acostumado a dividir a humanidade em alienados e politizados", explica o biógrafo.
Rufino detalha ainda que Carolina não era a favelada resignada que todos pensam. Segundo o historiador, era uma espécie de Nzinga numa situação oposta, pois, aqui, não tinha cetro nem coroa.

Estava como mendiga, catadora de lixo, sem perspectivas de mudança social...

Mas nunca aceitou a miséria, apesar de ter vivido muitos anos com ela.

Fiz dela aqui um retrato: bovarista, marrenta, inteligentíssima, capaz de se tornar escritora com só dois anos de escola, mulher interessante, fisicamente parecida com uma fluminense de sucesso tardio, Clementina de Jesus. Retrato infiel?

Confirmei alguns clichês, fugi de outros", escreve Rufino.

Para Rufino, qualquer juízo sobre Carolina e sua obra não devem esquecer que ela são três: a mulher, a escritora e a personagem criada pela escritora.

O que ele mais se queixa é que a escritora não teve lugar reconhecido na história de nossa literatura até hoje.

Muito antes de ser sucesso no mundo literário burguês dos anos 1960, Carolina catou cadernos e livros no lixo. Talvez o fizesse evitando olhares, como os antigos mineiros que contavam o dinheiro no próprio bolso: ler e escrever num país em que a instrução é monopólio dos de cima tem algo de obsceno, diz Rufino.

Carolina foi o que os dicionários chamam de grafomaníaca: pessoa com tendência compulsiva, doentia, de fazer registros gráficos, rabiscos e, especialmente, escrever em qualquer superfície ou material imediatamente acessível.

Vício de escrevinhar, ser infeliz se passar um dia sem escrever. Nem todo grafo maníaco, porém, será escritor. Há uma diferença essencial entre escrevinhador e o escritor. Este é aquele que tem algo a dizer em favor dos homens, e numa forma que todos os homens possam compreender. Escrevinhar é uma mania, escrever é uma tarefa, luta diuturna, sem vencedor, com as palavras até que digam da nossa força e fraqueza de humanos", avalia o biógrafo.

Uma das manifestações do talento literário em Carolina é seu poder de descrição. Ela criava imagens poéticas mesmo quando errava na concordância nominal - falha, aliás, comum em pessoas instruídas - e na grafia.

Segundo Rufino, era capaz de belas imagens, como ao contar uma festa de políticos, em que haveria distribuições de "surpresas para pobres".

Fazia tudo para ser vista, apreciada, gostada - ou detestada, rejeitada, que fosse.

O insuportável era que não vissem, na rua, no ônibus, na favela. Feios, baianos, pretos, não se reconhecia através deles, mas de homens brancos - estrangeiros, de preferência, conta o biógrafo. Nos olhos desses homens, via imagem que tinha de si: bonita, inteligente, gostosa...

Ela, ao escrever uma peça, e ter sido rejeitada pelos editores por se negra, escreveu:

"Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo negro mais educado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta".

Rufino acrescenta:

"Suponho, mas é suposição, que suas fontes literárias fossem antologias escolares daquele de século XX, de que tirou o máximo proveito, como outros poetas de baixa escolaridade e grande expressividade, um Cartola, um Catulo da Paixão Cearense, um Silas de Oliveira".

Na esteira de "Quarto de Despejo", nasceu o Movimento Universitário de Desfavelamento.

O livro de Carolina, na visão de Rufino, desfez estereótipos naquela época que todos tinham dos favelados: que são unidos, que não têm preconceitos, que são solidários, talentosos sambistas, cordiais e infelizes.

Escreve ele:

"Carolina nos apresenta outra favela: no Canindé, os favelados são desunidos, preconceituosos, egoístas, medíocres, nem sempre apreciam batuques, são agressivos - e felizes. Semelhante a retratistas da alta burguesia - um Fernando Sabino, um Lúcio Cardoso, um Scott Fitzgerald -, ela exibiu o contrário do que pensamos de fora: os homens, em qualquer posição social, se parecem mais do que se diferenciam. Rasgou máscaras sociais".

Carolina ainda foi autora dos seguintes livros:

"Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada" (Francisco Alves, SP, 1961)
"Pedaços da fome" (Aquila, São Paulo, 1963)
"Provérbios" (São Paulo, s/e, s/d)
"Diário de Bitita" (Nova Fronteira, RJ, 1986).