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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



25/08/2015 09h06

Dona Ivone: a primeira mulher que compôs samba-enredo
Carlos Nobre

Dona Ivone Lara nasceu em 13 de abril de 1921, na Tijuca, no Rio de Janeiro, e se tornou, pelo tempo e pela força de suas melodias, a grande dama do samba carioca ainda viva.

Várias empresas públicas privadas estão a homenageando com um songbook dedicado a seus sambas.

Ela, hoje, aos 94 anos, é um ícone do mundo do samba, principalmente da GRES Império Serrano, escola em que foi uma das fundadoras.

Em junho passado, em São Paulo, houve uma exposição em sua homenagem no Itaú Cultural. A mostra contava a história que Dona Ivone foi a primeira mulher a entrar para a ala de compositores da escola de samba carioca, GRES Império Serrano, em 1965, ou seja, há 50 anos, e teve sua carreira de sambista iniciada nos anos 70.

Ivone Lara - A dona da melodia. Foto: DivulgaçãoO espaço da exposíção foi dividido em cinco eixos temáticos e cada pessoa tinha liberdade de montar seu percurso, de acordo com o interesse que cada canto do espaço expositivo despertar: "O canto dos mais velhos", "O bordado dos encontros", "O enredo da festa", "A composição do viver" e "Tanger as cordas do hoje".

Cada um deles reúne composições, áudios, vídeos, imagens raras, objetos pessoais, figurinos e instrumentos musicais da sambista.

Nos dias 23 e 24 de junho, o público participou de uma visita lúdica, seguida de uma oficina de criação de objetos, que se baseavam nas letras das músicas compostas por Dona Ivone.

Dona Ivone Lara nasceu na Rua Desembargador Isidro e só depois do falecimento dos pais, quando tinha 12 anos, foi morar com os tios, em Madureira, segundo Kátia Santos, que a biografou para Coleção Personalidades Negras, da Editora Garamond.

Ainda menina, na Tijuca, frequentava as rodas de samba na localidade de Terreiro Grande, no Salgueiro. Ali, mais à frente, ingressou na escola Prudente de Moraes. Na época, foi colega de turma de Noel Rosa, um dos maiores nomes da história do samba brasileiro.

Com a morte do pai, quando ela tinha três anos de idade, e da mãe, aos doze, foi criada pelos tios e com eles aprendeu a tocar cavaquinho e a ouvir samba, ao lado do primo Mestre Fuleiro; teve aulas de canto com Lucília Villa-Lobos e recebeu elogios do marido desta, o maestro Villa-Lobos.

Casou-se aos 25 anos de idade com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha, onde conheceu alguns compositores que viriam a ser seus parceiros em algumas composições, como Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira.

Compôs o samba "Nasci para sofrer", que se tornou o hino da escola.

Com a fundação do Império Serrano, em 1947, passou a desfilar na ala das baianas. Compôs o samba "Não me perguntes", mas a consagração veio em 1965, com "Os cinco bailes da história do Rio", quando tornou-se a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de escola de samba.

Com o desaparecimento da escola Prazer da Serrinha, transferiu-se com todo o seu grupo para o Império Serrano, fundado em 1947 por dissidentes da Prazer da Serrinha. Continuou a compor e uma das suas músicas de maior sucesso na escola foi "Não me perguntes", com Mestre Fuleiro).

Em 1965, seu samba-enredo "Os cinco bailes da corte" ou "Os cinco bailes tradicionais da história do Rio" (com Silas de Oliveira e Bacalhau) classificou-se em quarto lugar no desfile de escolas de samba e foi gravado posteriormente, em 1974, pela própria autora, em Discos Marcus Pereira, "Histórias das escolas de samba: Império".

Foi a primeira mulher a compor samba-enredo.

Aposentada, em 1977, passou a dedicar-se exclusivamente à carreira artística. Entre os intérpretes que gravaram suas composições destacam-se Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro e Roberta Sá e Dorina.

Foi homenageada pelo Império Serrano no Grupo de Acesso com o enredo "Dona Ivone Lara: O enredo do meu samba".


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17/08/2015 12h14

Candeia: Os 80 anos de um mito
Carlos Nobre

Há 80 anos, em 17 de agosto de 1935, nascia, em Bento Ribeiro, bairro de bambas, Antônio Candeia Filho (1935-1978), um nome incontestável, no mundo do samba. Era filho de outro sambista portelense, Antônio Candeia, um gráfico.

Candeia foi autor de sambas antológicos, esteticamente profundos.

Trata-se de um sambista diferente, complexo, cuja base de suas obras são os encontros da cultura suburbana que ele transforma em melodias memoráveis.

Além disso, Candeia sempre navegou pelas culturas populares, mostrando versatilidade e compromisso com as lutas vindas desta base.

Candeia. Foto: Divulgação

Povo, aqui, entendido como os trabalhadores em geral envolvidos em empregos de baixa renumeração, aqueles ambulantes das ruas, os trabalhadores mal renumerados dos escritórios, os operários, em síntese, todos aqueles que têm uma vida atropelada pela pressão das classes dominantes.

Liderança no mundo do samba, mesmo numa cadeira de rodas, Candeia se tornou mais importante ainda, pois, sentado, ali, naquela cadeira, participou de shows antológicos.

Também comandou novas conquistas para o mundo do samba.

Tinha autoridade irrefutável neste aspecto.

Deixou uma grande legião de admiradores 37 anos após sua morte.

Ele sintetiza o homem negro suburbano, pobre, mas orgulhoso, destemido e invencível na sua luta cotidiana.

Apesar dessas origens, seu comportamento, no cotidiano, é de um rei negro, usando o samba como sua única estética na adversidade de predomínio branco.

Nesse sentido, esse comportamento se parece como um paradigma de grandes conquistas sobre essa adversidade histórica aos negros.

Por conseguinte, trata-se do primeiro sambista que conceitua sobre a questão racial em seus sambas e na sua atuação cotidiana.

Ele - mesmo sem instrução mais aprofundada- percebeu há 40 anos que as escolas de samba se transformaram em redutos massificados da classe média carioca, aliada aos programas turísticos estatais.

Por isso, deixou sua querida Portela, que ingressava nesse mundo plástico, dissociável e incolor dos desfiles eminentemente turísticos.

Em contrapartida, resolveu criar uma escola afro de verdade.

Como aquelas de antigamente.

Assim, em 1975, há 40 anos, nasceu a GRES Quilombo (olha o nome, um resgate dos resistentes escravos que criaram comunidades independentes em relação ao poder colonial).

Sacando as mutretas do desfile, a escola nunca quis seguir o modelo implantado pelos órgãos turísticos.

Nessa perspectiva, desfilava na comunidade, em Acari, ou nos grupos de acesso mais voltados para as origens do samba.

Desse modo, a GRES Quilombo nestas quatro décadas seguiu o modelo de seu criador, sendo um território de discussão afro, de laboratório de novos sambas, de africanidade, de difusão de novos experimentos afro e assim por diante.

Por isso, sempre recebe a visita de escolas de samba de outros estados que buscam beber na água que a Quilombo fomenta, via seu criador, Candeia.

Salve os 80 anos de Candeia!!!

 

Paulinho da Viola canta "Filosofia do Samba", de Candeia, no Circo Voador.


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10/08/2015 09h28

Mulheres que marcaram a Mangueira
Carlos Nobre

MULHERES QUE MARCARAM A MANGUEIRA

Com o enredo "Agora chegou a vez vou cantar, mulher da Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar", em 2015, a GRES Mangueira não ganhou o Carnaval passado (10º Lugar).

No entanto, permitiu algo interessante: que o público desse conta das mulheres protagonistas da escola, muitas vezes anônimas, que, no cotidiano, são brilhantes.

Baianas da Mangueira. Foto: Arquivo do autor

Afora Dona Neuma e Dona Zica, vejam algumas mangueirenses importantes, que pouca gente conhece, exceto o pessoal muito ligado ao mundo do samba:

BENEDITA DE OLIVEIRA

Conhecida como Tia Fé. Jongueira, mãe de santo e líder comunitária dos primórdios da Mangueira. Teria nascido no bairro da Saúde e mudado para o morro. Criou blocos no morro que acabaram fortalecendo a criação da Mangueira.

DONA IRENE

Mãe de Lilico, reserva de Delegado como mestre-sala. Teve também ampla atuação comunitária e formadora de alas dentro da escola.

DONA LUCÍOLA

Era uma espécie de eminência parda dos idos dos anos 1920-1930. Era parteira e mãe-de-santo. Teria sido herdeira dos dotes de sua mãe, Dona Lucinda. Era de pouca conversa, incisiva, boa memória. Teve 14 filhos e 53 netos.

NININHA

Porta-bandeira cuja mãe era Maria Coador ou Maria dos Tomates.

MARIA COADOR

Deu nome ao local morro da Mangueira por ser a mais notável moradora daquele pedaço. Ela era jongueira da localidade, mulher grande, forte, por acordar sempre antes do sol, cantando muito alto, era chamada de despertador do morro.

DONA BELINHA

Certa vez, estava desesperada e fez uma promessa. "Iam desapropriar esta parte do morro e eu prometi a Santa Joana d' Arc que se os homens deixassem a gente ficar, eu construía a Capela. Como vocês vêm, estamos aqui, nós e a Santa", dissera ela nos anos 1980. A igreja tem dez metros quadrados, com torre, sino, altar, imagem de santa.

DONA CARMEM

Em sua tendinha, vendeu de tudo e com isso conseguiu que os três filhos concluíssem o curso superior.

DONA PEQUETITA

Também dona de uma famosa tendinha no início do anos 1930. Sua filha Guezinha se formou em enfermagem.

TIA CECEIA

Filha de Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da Mangueira, e irmã de Dona Neuma. Considerada outra baluarte do samba da Mangueira.

DONA LEA

Filha de Chico Porrão, era o bicheiro do morro e financiou a escola em seus primórdios.

NILCEMAR

Neta de Cartola e presidente do Centro Cultural Cartola.

CHININHA

Neta de Saturnino Gonçalves e filha de Dona Neuma, chegou a presidir a Mangueira.

TIA ZÉLIA

Uma das fundadoras da Velha Guarda da escola, já falecida. Uma das maiores animadoras culturais do morro.


TIA TOMASSIA

Também ligada ao pioneirismo da mulher nos primórdios da Mangueira, juntamente com Tia Fé.



04/08/2015 08h42

Memórias de uma porta-bandeira
Carlos Nobre

Era 26 de fevereiro de 1990, na Passarela do Samba.

Quando Tatu e Gisele, o casal de mestre-sala e porta-bandeira da GRES Portela, se aproximavam do ponto final do desfile, próximo ao recuo da bateria, na Passarela do Samba, a armação da roupa de Gisele quebrou.

Apesar dos esforços de um costureiro, não foi possível continuar a apresentação.

Sem algo mais adequado para fazer, Gisele sentou no meio-fio, em frente à banca de jurados e chorou.

Hoje, passados 25 anos do episódio dramático (ela tirou nota cinco quando estava acostumada sempre com 10), Gisele Mara de Sá, a Gisele da Portela, 56 anos, moradora de Cascadura, sorri tranquila ao lembrar daquele momento frustrante em sua grande carreira.

Gisele, porta-bandeira da Portela. Foto: Arquivo pessoal

Diz que o episódio a marcou, mas nunca tirou seu reinado de porta-bandeira por mais de 12 anos, na mitológica GRES Portela, do início dos anos 1980 a meados dos anos 1990, onde conquistou fama, amigos, posição, prestígio...

Afinal de contas, Gisele era uma afrodescendente linda, tinha classe ao empunhar o pavilhão portelense, seu sorriso encantava os sambistas, sua pele resplandecia, seus bailados conquistavam o público, na escola e na Avenida.

Ela era Gisele da Portela, como Paulo da Portela, o mitológico fundador da agremiação nos anos 1920, em Madureira.

Devido à sua contribuição para a GRES Portela, a Velha Guarda da escola lhe concedeu um diploma especial de contribuição para o patrimônio da azul e branco de Madureira.

Gisele ficou emocionada quando o recebeu na quadra da escola.

Conversei com ela, a respeito dessa sua trajetória no mundo do samba.

Gisele, como foi seu começo de carreira?
GISELE: Comecei como passista no GRES Arrastão de Cascadura, e na mesma escola, mais à frente, fui porta-bandeira por sete anos.

E como a Portela entrou na sua vida?
GISELE: Nunca tinha pensado em ser Portela, mas, em 1985, houve um concurso para porta-bandeira na escola. Resolvi participar até porque meus pais eram sambistas da Portela. Fui finalista. Quando venci, os dirigentes anunciaram que a primeira porta-bandeira da escola era eu e não a segunda. Foi um choque. Fiquei feliz e com medo.

Como é a arte da porta-bandeira?
GISELE: Olha, eu aprendi cedo... minha mãe foi porta-bandeira da GRES Em Cima da Hora, em Cavalcanti, onde eu e meus irmãos nascemos. Depois, ela foi porta-bandeira e baiana da Portela. A escola ficava próxima de nossa casa... acho que o samba tem tudo a ver comigo... como poderia ser diferente?

Mas você teve sua mãe como referência?
GISELE: Para aprender, eu observei as grandes porta-bandeiras e peguei o jeito delas se apresentar, mas acrescentei meu estilo e jeito de ser.

Explique melhor, Gisele.
GISELE: A porta-bandeira não deve imitar as outras. Cada uma tem sua forma de dançar, bailar na Avenida... Tem que manter seu estilo. A dança mostra o que a pessoa é.

E como você desenvolveu esse estilo?
GISELE: Quando estava em casa, eu me olhava no espelho e ficava treinando novos passos. Tentava dar o máximo para a escola, para que ela sentisse minha dedicação... para a Portela sempre ter nota dez neste quesito de mestre-sala e porta-bandeira.

Pode falar um pouco quem é você?
GISELE: Sou filha do ferreiro Antônio Targino de Sá e da doméstica Antônia Maria Eleutério. Meus pais frequentaram a GRES Em Cima da Hora e GRES Portela. Eu entrei pela primeira vez numa quadra de uma escola de samba aos cinco anos levada pelos meus pais. Nunca mais quis sair dali. Era muita emoção para mim quando criança. Me sentia à vontade vendo aquilo tudo.

E como era a família de vocês?
GISELE: Normal. Tive quatro irmãos. Eu nasci em 9 de dezembro de 1957, em Cavalcanti, sou sagitariana. Muito nova, meus pais se mudaram para Cascadura, onde estou até hoje, com meu marido Carlinhos e meu filho de 14 anos.

O trabalho normal, sem samba?
GISELE: Fui bancária do Itaú, trabalhei nas Casas Pernambucanas, Embratel...

Quem você recorda como porta-bandeira hoje?
GISELE: A Dodô... ela já faleceu, né? Ela foi a primeira porta-bandeira da Portela, morava no morro da Providência, ali na Central do Brasil. Mas também tinha a Vilma, a Neide e outras.

Qual o papel da porta-bandeira no desfile?
GISELE: Desfilar com amor e carinho, executar bailados e rodopios com muita fé.

Que cuidados a porta-bandeira deve ter com o pavilhão da escola nas mãos dela?
GISELE: São vários. Por exemplo, não dobrar ele, permanecer esticadinho nas mãos dela. O mastro deve estar sempre ereto, ela segurando firme. Neste momento, a porta-bandeira deve ter postura, irradiar simpatia, sorrir, ser elegante...

Como era antigamente a atuação deste casal no desfile?
GISELE: Antigamente, o casal vinha na frente da bateria devido à sua importância para a escola. Depois, este local foi ocupado pela velha guarda, os baluartes da escola. Hoje, mudou completamente, são outras pessoas que ocupam a comissão de frente.

É verdade que você foi professora da porta-bandeira Selminha Sorriso da GRES Beija-Flor?
GISELE: Não é verdade, nunca fui professora dela, ela mesma é que se fez com seu esforço. Na verdade, somos amigas. Não sou a professora dela. Ela começou na GRES Império Serrano e depois foi para GRES Estácio. Em seguida, entrou na GRES Beija-Flor, onde se destacou. Ela é muito boa, sabe lidar muito com sua função.

Existe realmente a energia da águia da Portela na Avenida?
GISELE: Muita. A águia da Portela me dá muita emoção. Ficava arrepiada quando ela entrava na Avenida.



20/07/2015 15h09

Ismael, homenageado em botequim
Carlos Nobre

Um dos maiores sambistas de todos os tempos e um dos fundadores da primeira escola de samba, a "Deixa Falar", no Estácio, em 1926, Ismael Silva (1905-1978), em 14 de setembro próximo, completaria 110 anos se estivesse vivo.

No entanto, ele continua sendo um sambista inesquecível e seus sambas cada vez mais sendo gravados por novos artistas.

Espaço Ismael Silva. Foto: Glaucia MeloEm sua homenagem, há dois anos, funciona, no Bar do Gomes, entre as ruas Gomes Freire e Riachuelo, na Lapa, o Espaço Ismael Silva, uma homenagem ao grande fundador da GRES Estácio de Sá e primeiro compositor a definir o samba numa estrutura rítmica seguida pelos demais sambistas dali por diante.

Ismael, já maduro, deixou o Estácio e passou a morar num prédio da Gomes Freire. Costumava, assim, frequentar o bar, vizinho ao prédio onde morava. Os proprietários do botequim, nos fundos da casa, colocaram 20 fotos.

Essas imagens do sambista chamam a atenção dos frequentadores.

Célio Lins, um dos garçons, diz que, em geral, os frequentadores tiram fotos tendo as imagens de Ismael como cenário. "É muito gratificante ter Ismael como nosso patrono", diz ele.

Filho do cozinheiro Benjamim da Silva e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, Ismael era o mais novo dos cinco irmãos.

Diante das dificuldades financeiras enfrentadas após a morte de seu pai, mudou-se com a mãe da praia de Jurujuba, em Niterói, para o bairro Estácio, no Rio, quando tinha três anos.

Ismael frequentou a escola primária e terminou o ginásio aos 18 anos, depois de morar em outros bairros do Rio como Rio Comprido e Catumbi.

Espaço Ismael Silva. Foto: Glaucia MeloAos 15 anos, fez o samba "Já desisti", considerado como a sua primeira composição. Em 1925, teve o seu primeiro samba gravado: "Me faz carinhos". Essa composição promoveu a sua aproximação com Francisco Alves, o "Chico Viola" ou "Rei da Voz".

Ao lado de Nílton Bastos e Francisco Alves, Ismael formou o trio que ficou conhecido como "Bambas do Estácio" e que deu origem àquele que é considerado um dos mais bonitos sambas da história: "Se você jurar".

Após a morte de Nilton, teve início sua contribuição com Noel Rosa. As 18 composições da dupla fazem de Ismael Silva o mais frequente parceiro do Poeta da Vila.

Em 1928, Ismael Silva, com um grupo de sambistas do Estácio, fundou o bloco que se tornaria o precursor da primeira escola de samba de que se tem notícia: a "Deixa falar".

A escola desfilou nos anos de 1929, 1930 e 1931.



13/07/2015 17h16

Mocidade de Vicente de Carvalho: líder das baianas quer levar benefícios para ala
Redação SRZD

A nutricionista Ana Daraunke de Souza Lima é a mais nova presidente da Ala de Baianas da GRES Mocidade de Vicente de Carvalho. Ela será apresentada às mulheres da escola durante o anúncio do enredo do Carnaval 2016, chamado "Negritude, que implorou a liberdade, hoje dita moda".

Ana, que morou duas décadas em Salvador, também é dançarina e pretende fazer uma gestão aberta e democrática na ala. Sua prioridade é aumentar o número de componentes da ala e trazer benefícios sociais para as baianas, em geral, da terceira idade.

- Clique aqui e saiba tudo sobre o Carnaval carioca

Fotos: Reprodução de Internet / Divulgação

Veja um pouco da conversa que ela teve com o SZRD:

Quais são suas prioridades para Ala de Baianas da Mocidade?
Ana - Espero, em primeiro lugar, atrair mais baianas para nossa ala. Eu fiquei sabendo que houve desistências de componentes. Algumas deixaram a ala por terem se tornado evangélicas e outras devido ao mal atendimento da escola, que não lhes davam atenção.

O que você pretende trazer para a ala?
Ana - Vou dar mais atenção, pois, se trata de segmento importante na escola, que não dá ponto, mas tira ponto se o número de baianas não estiver dentro do que estipula o regulamento. Nesse sentido, estamos conversando com a diretoria para doar cestas básicas para a ala, dar água e refrigerantes nos ensaios, fazer a festa anual da ala e sorteio de brindes para elas. Isso estimula as pessoas a frequentarem a quadra e se sentirem mais integradas nela.

E como será a festa de apresentação do enredo 2016?
Ana - Será, em nossa quadra, na Av. Pastor Martin Luther King, 2309, Vicente de Carvalho, às 14 horas, no próximo domingo, 19 de julho. O enredo é "Negritude, que implorou a liberdade, hoje dita moda". O enredo fala da escravidão até os dias de hoje, quando o negro virou grande personalidade, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa. O ministro permitiu que a escola usasse sua imagem na logomarca do enredo. Ficou muito bom.

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13/07/2015 08h24

As mortes 'mitológicas' de Geraldo Pereira
Carlos Nobre

Autor de sambas antológicos ("Falsa Baiana", "Acertei no milhar", "Escurinho", "Pisei num despacho"), que entraram para a história da música popular brasileira (MPB), Geraldo Pereira (1918-1955) não teve seus 60 anos de morte louvados em 8 de maio passado como grande sambista que era.

Geraldo Pereira. Foto: ReproduçãoNo entanto, a causa de sua morte, passadas seis décadas, ainda é motivo de polêmicas e versões desencontradas, se tornando um tema mitológico entre os boêmios do passado e do presente.

Além disso, outro malandro famoso, João Francisco dos Santos, o Madame Satã ( 1900-1976), faz parte da mitológica morte de Pereira, ocorrida num bar também famoso, o Capela, na Rua Mem de Sá.

Também o local onde o bar está localizado - Lapa - aumenta mais o grau de comentários sobre o fato, por ser ponto de frequência tradicional de boêmios.

Assim, tudo indica que Pereira morreu "três vezes".

Vejamos:

VERSÉO 1
Madame Satã. Foto: ReproduçãoPobre, preto e homossexual, Madame Satã desde década de 1930 se tornara um mito na Lapa por defender pobres, enfrentar policiais e por possuir um soco poderoso com a mão esquerda. Muitos tentavam trazer a glória para si provocando Satã e eram derrotados rapidamente por ele. No início de maio de 1955, Satã estava bebendo no Capela, que ficava, então, no Largo da Lapa, 30. Estava na mesa sozinho e usava seu tradicional chapéu Panamá. Nesse ínterim, chegou Pereira acompanhado de uma mulher. Pereira tinha mais ou menos 1,90m. Era forte e esbelto. Estava bêbado, mas reconheceu Satã. Foi até a mesa dele e pegou em seu copo com intenção de provocá-lo. Satã puxou o copo de volta das mãos do sambista. Para evitar atritos, mudou de mesa. Pereira foi atrás e xingou Satã de viado. Chamou pra porrada. Satã não suportou mais as agressões. Se levantou e deu uma canhota no ouvido de Pereira. O sambista caiu de cabeça e desmaiou. Satã saiu de fininho do Capela. Chamaram a antiga assistência (hoje ambulância do Corpo de Bombeiros) que demorou uma eternidade. No dia seguinte, Satã soube da morte de Pereira por terceiros. Resolveu sumir da Lapa. O laudo médico deu como causa da morte um derrame cerebral e livrou Satã de culpa.

VERSÉO 2
O Taufic Lauar, cujo nome artístico era Raul Moreno, amigo de Pereira, diz que ele chegou no Capela acompanhado do sambista e de uma mulher. Satã estava bebendo. Geraldo, bêbado, avistou Satã. Foi até ele e jogou fora o chope. O mitológico malandro não se incomodou e pediu outro chope. Pereira tornou a jogar fora. Satã advertiu: "Olha, aqui, menino, eu sei que vocês são do rádio e eu gosto de vocês, meu negócio é brigar com a polícia, não quero encrenca com você". Em seguida, pediu outro chope. Mas Pereira jogou fora. Satã se levantou e deu umas bolachas no sambista até ele se acalmar, contara Raul Moreno. Ou seja, não tivera soco de esquerda nem o sambista batera a cabeça no chão. Ao ser levado para o hospital, Pereira morrera, na verdade, devido a problemas intestinais por conta da bebida. Segundo Rogério Durst no livro "Madame Satã" (Brasiliense, SP, 1985), essa briga pode ter acelerado os problemas de saúde que Pereira vinha passando. Depois de cinco dias internado, ele morreu.

VERSÉO 3
Parece a versão mais fantasiosa e geralmente refutada. Pereira batia na mulher e esta acabou colocando vidro amassado numa de suas bebidas, que provocou sua morte no Hospital Souza Aguiar. Durst chega a duvidar que o soco de Satã causara a morte de Pereira. Segundo ele, a história de Satã ter matado um sambista valente rendeu muito para sua fama. Ele gostava de trabalhar sua lenda como malandro de grande força física. Mesmo as pessoas da área cientifica, como os médicos, tiveram dificuldades com Pereira. Para a causa da morte do sambista houvera três atestados de óbito. Dois dão como causa da morte uma hemorragia intestinal e o outro fala de hemorragia cerebral.



06/07/2015 08h34

Os 45 anos de religião de um babalaô
Carlos Nobre

Autor de 16 obras sobre a cultura religiosa afrobrasileira e professor do mestrado em Antropologia Sociocultural da Universidade de Havana (Cuba), o babalorixá e babalaô Fernandez Portugal Filho, 64 anos, formado em Ciências Sociais, está completando 45 de iniciado na religião dos orixás.

Fernandez Portugal Filho. Foto: Acervo pessoalEle foi iniciado nessa religião, em 1970, em Belford Roxo, Baixada Fluminense, pelo pai-de-santo Zezito de Osun. Mas, aos 14 anos, já houvera conhecido a umbanda, numa casa religiosa na Penha, levado por parentes.

Há mais de 30 anos, ele também se iniciou na maçonaria e é filiado à Loja Salomão, do Grande Oriente do Brasil (GOB), e nessa instituição ocupou diversos cargos administrativos e ritualísticos.

Há duas semanas, para comemorar os 45 anos de feito, ele acabou dando um almoço para amigos e filhos religiosos, num restaurante da Tijuca, onde agradeceu as homenagens por quatro décadas e meia de trabalho religioso.

Ele é considerado um dos mais profícuos autores de religiosidade africana no Brasil - alguns de seus 16 livros estão esgotados, só encontráveis hoje em sebos digitais como "Ossayn: o senhor das folhas" e "Axé: o poder dos deuses africanos".

Lançou os seguintes livros pela Editora Madras: "Formulário Mágico e Terapêutico", "Ifá: o senhor do destino", "Guia prático da língua yorubá", "Os búzios da Santeria: manual para divinização por meio dos 16 odu segundo a tradição afro-cubana", "Olhos de fogo, coração de mel", "Uso mágico e terapêutico do sabão da costa" e "Manual prático do jogo de búzios".

Em 2016, estão previstos mais dois livros, um sobre o emprego de ervas na religião afro e outro sobre a gramática yorubá, o primeiro com quase 400 páginas e o segundo em torno de 600.

Rigoroso e metódico em suas ações religiosas, ele afirma que desde o final dos anos 1980 adotou a religião yorubá, que, segundo sua concepção, é diferente no estilo ritualístico do candomblé, embora os orixás sejam os mesmos.

A respeito do babalaô, o intérprete dos signos do sistema de adivinhação africano chamado de Ifá, ele diz que o sacerdote desse sistema deve estudar continuamente.

"A iniciação em Ifá mudou radicalmente a minha vida", diz ele.

Vejam trechos de uma conversa que o sacerdote afro teve com nosso blog:

AVALIAÉÉO PESSOAL
"As reflexões são muito naturais sobre esses 45 anos de santo. Na verdade, há oscilações nessa caminhada espiritual. Não se têm somente vitórias. Posso dizer que podemos falar de uma sobrevivência total, e vivenciá-la. Não vivencio como atribulações, com bravatas, tipo assim: ah, eu tenho 45 anos de santo... já se passaram, não vou ficar me apegando somente ao tempo. Essas quatro décadas e meia foram muito importantes, aprendi muito. Mas também tive decepções e questionamentos íntimos. Isso faz parte da nossa trajetória. O mais importante foi o que aprendi e vivi, ou seja, a busca da harmonia de um modo geral".

TRATOR
"Em minha avaliação, toda trajetória na qual você galga um espaço de referência, seja midiático ou religioso, ele sempre é pontilhado por situações adversas, por conflitos. Em certo sentido, reconheço que eu avancei como um trator até ajustar-me com a dinâmica da natureza, fugi de coisas fáceis. Na religião, aprendi o código referencial de existência. Em minha vida, optei pela cultura negra, ou seja, me pontuar na vida pela sua filosofia".

YORUBÁ OU CANDOMBLÉ
"Os orixás são os mesmos. No caso da religião yorubá, o que diferencia é a forma de culto, a ausência de ostentação, a natureza do segredo, as convocações, a magia... Nesse caso, as atividades aos orixás se processam mais solene, mais recatada, mais prudente, mais comedimento, digamos assim. É uma coisa majestosa, cada passo é prudente".

INICIAÉÉO AO YORUBÁ
"Tudo aconteceu de forma extraporânea, não há uma pessoa que possa definir minha pessoa como indicada ao culto. Naquela época, eu dava sinais de cansaço e insatisfações no candomblé, que foi adaptado aqui no Brasil por africanos e brasileiros. Naquela época, a cabeça estava muito forte, vinha procurando afirmação. Por que eu estava procurando outro sentido religioso? Porque eu não gostava em algumas casas religiosas dos maus tratos que as pessoas sofriam. Também me deixava insatisfeito a falta de compromisso, a falta de horário... eu não me costumava com as respostas cretinas e absurdas que recebia, e como me tratavam como verdadeiro parvo. Como já vinha de outro nível social e cultural, eu já fazia a diferença nesse meio. Mas era muito ingênuo nesse meio. Eu não atinei para essas diferenças. Eu vi muita gente sendo usada como uma massa de manobra. Eu disse 'meu lugar não é aqui'. A coisa perdeu seu encanto. Todas as coisas têm uma atração e um encanto, como começam e terminam, eu não sei... mas isso foi se perdendo, foi se criando outras convicções... aquilo é um casamento, quando há separação, cada um para seu lado, perdeu-se a confiança. Na época, eu já era babalorixá. Me iniciei num candomblé de Belford Roxo, na Baixada Fluminense".

Ifá, o senhor do destino - Livro de Fernandez Portugal Filho. Foto: DivulgaçãoCONTATO COM OS YORUBÁS
"Naquela época, comecei a ter contatos com nigerianos na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde existia o convênio Brasil-Nigéria de estreitamento de laços culturais entre as duas nações, um relacionamento fortalecido pela diáspora. Naquela época, fazia amizades com eles. Com isso, surgiu a oportunidade de viajar para Nigéria. A princípio, lá, na Nigéria, sofri um pouco com as implicações culturais de mudança de costume. No entanto, com o passar do tempo, fui assimilando tudo, procurando entender. Nesse meio tempo, nunca quis ser um deles, eu sempre quis ser eu mesmo, mas com uma visão de amizade, conluio, de estreitamento de relacionamentos através das iniciações. Também respeitando de todas as formas aquele modo de viver, sem fazer perguntas indiscretas, mas participando daquela formalidade, do protocolo, da etiqueta que o yorubá tem. Aqui, no Brasil, essa finesse yorubá se perdeu em razão de muitas situações disparatadas, que fez que o candomblé perdesse isso".

BRANCO OU NEGRO
"O fato de a gente ser branco nunca me atrapalhou em termos religiosos. Eu me sinto muito bem exercendo o sacerdócio de uma religião de origem africana. Agora, havia curiosidades. Ou seja, quando as pessoas vinham me consultar ficavam curiosas, esperavam encontrar um negão de dois metros, vestido em trajes africanos e usando equete na cabeça. Se houve rejeição ao fato de eu ser branco, ela foi velada, não foi direta. Mas, hoje, não existe mais essa distinção. Até porque existem muitos babalorixás e yalorixás que são brancos".

PIERRE VERGER I
"Então, fui estudando a obra de Pierre Verger (etnólogo francês, nascido em 1902, autor de diversos livros sobre religiosidade negra, radicado em Salvador desde os anos 1950 e que morreu em 1996). Sua obra foi importante e aprendi muito com ele. Eu gostava da forma como ele, um estrangeiro, se comportava diante daquelas pessoas negras em Salvador... ele tinha o apreço por elas sem deixar de ser Pierre Verger... isso me encantou, essa atração inteligente, espontânea, genial, comportamento diante de outros povos... porque as diferenças são muito marcantes... quando você está na Nigéria, você tem que compartilhar, você abandona uma parte de si... isso foi fundamental para mim, principalmente esse encontro com Verger foi fundamental"

PIERRE VERGER II
"Ele foi me apresentado por Alberto Santana, do famoso terreiro Axé Opô Afonjá, de Salvador. Tivemos uma identificação logo, tivemos um bom trânsito um com o outro. Toda vez que eu ia a Salvador, ele me dava maços de fotografias em preto e branco de Salvador dos anos 1950. Também eram fotografias da África, do culto de Salvador... atrás das fotos tem o carimbo Pierre Verger."

INICIADO COMO BABALAÉ
"Foi iniciado como babalaô no final década de 1980, na África. A iniciação ocorreu num momento de certa maturidade psicológica ao culto. Isso foi realmente muito bom. Mudou radicalmente minha vida em termos absolutos. Iniciação intelectual rigorosa. Na verdade, ele não deixa de aprender, ele estuda continuamente todo aquele conhecimento do sistema de Ifá através do comportamento. Esse sistema é rigoroso. Tem outros mestres do Ifá africano que fazem uma espécie de supervisão do conhecimento que você adquire. Então, às vezes, os mestres vêm ao Brasil comprovar se você está apto para o cargo. Porque existem graduações no babalaô... no dia que você é consagrado, é babalaô como os mais velhos. Mas, agora, em termos de conhecimento, há graduações. Isso com o respeito que você adquire, com as oportunidades e também com o odu que você traz. Ifá diz que não adianta aprender coisas que você não vai aplicar. Alerta para isso, para o excessivo e para as coisas retóricas e inúteis em nossa vida."

ATO DE ESCREVER
"O que me move é a indisciplina. Eu tenho dificuldade de manter a disciplina ao escrever... Eu não tenho horários... Eu tenho muitas ideias e muito material para trabalhar essas ideias.... Eu não me considero escritor e sim autor. O escritor é aquele que tem total domínio da língua materna. Eu sou autor. Assim como quem escreve a bula de remédios. Também é autor. Quem escreve um livro para mim é autor. Eu vejo que, no Brasil, temos grandes escritores. Como todas as coisas geniais, porém, são poucos os geniais".

OBRAS
"Em meus livros, eu adentrei um pouco pela etnologia, pelo estudo do idioma yorubá, que é a língua dos orixás. Considero um belo trabalho meu livro 'Guia prático à língua yorubá' em quatro idiomas. Ele dá representação do estudo e prática da língua yorubá. Um livro, depois de publicado e comercializado, não pertence mais ao autor, o livro é de todo mundo... ele pode chegar nas mãos de uma prostituta, do político, do estudante... alguém vai esquecê-lo no metrô, barcas, avião, sei lá onde vai parar... então, não é mais do autor, do escritor... se ele estartou, não fica preso..."

VAIDADES
"Eu não tenho essa preocupação, assim: 'ah, vou escrever isso e aquilo'. O autor tem sempre uma esperança de sucesso. Ele é vaidoso, todo mundo o é, ele quer ser reconhecido pelas pessoas, pelos leitores... nós, autores, temos essa vaidade..."

TERREIRO
"Há 25 anos, eu instalei meu terreiro, aqui, no Estácio, na região chamada 'Pequena África'. Na época, havia sido um terreiro de senhora de Oyá, que havia falecido. Tive que fazer algumas cerimônias fúnebres para trabalhar. Isso foi em 1992."

OBJETOS
"Tenho uns 200 objetos africanos, resultantes de minhas viagens à África, onde, em geral, vou para cursos e participar de cerimônias religiosas. Eles são de madeiras, bronze, marfim. Alguns eu ganhei e a grande maioria eu comprei... todos os apetrechos dos orixás da minha casa são de origem africana. Aqui, foi um dos primeiros terreiros no Brasil a cultuar Oduduwa e Olokum. Oduduwa é um deus mitológico yorubá que participou da formação do mundo. Já Olokum é dono dos oceanos. A grande maioria das casas de santo não tem esses orixás. Isso nos dá destaque, claro. Vários sacerdotes nigerianos visitaram nossa casa e confirmaram como um local de origem yorubá. Eles se reconheceram nessa casa, com seus apetrechos africanos, seus valores culturais, as suas práticas... eles, com certa regularidade, nos visitam."

O PROFESSOR
"Em 1994, fui participar de um congresso em Cuba. Nesse congresso, eu conheci algumas pessoas, fiz amizades com elas. Então, fui chamado para ir à Universidade de Cuba. Me convidaram logo para ser professor. Como teste, fizeram uma prova curricular e uma prova de aula que não durou 15 minutos. Pediram logo que parasse, pois estava aprovado. Me perguntaram se queria participar do corpo docente da casa. Aceitei na hora. Eu dou aula de religiões afrobrasileiras para o mestrado em antropologia sociocultural. Em Cuba, aprendi com muitos deles como atuar para se fazer frente à engenhosidade da vida, vi a capacidade deles, a engenhosidade em inventar o amanhã, inventar o outro dia... conheci alguns babalaôs cubanos de alto gabarito".

LIVROS NOVOS
"Estou terminando uma gramática yorubá-português, com quase 400 páginas. Também estou terminando um livro de folhas que já tem 600 laudas digitadas. A obra falará sobre a folha, seu nome científico, popular, uso em magia, nos cultos afro... considero que foi um grande trabalho. Eu começo a trabalhar forte e, se a cabeça não der, eu paro. Vou naquilo que posso produzir".


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29/06/2015 10h31

Árvores africanas e o meio ambiente
Carlos Nobre

Palco onde surgiu o homem como espécie, a África sempre foi o continente impactante, pois, ali, ainda encontramos vestígios importantes da formação da Terra através seu diversificado, exuberante e o raro meio ambiente.

Abricó, Parque Garota de Ipanema. Foto: Glaucia MeloDe acordo com alguns autores, ao ser trazido à força para o Brasil como escravo, o africano não se dissociou de sua cultura, pois, em nosso país, essa cultura se reproduziu em diferentes regiões, criando outras Áfricas que exprimiam um modo de ser deste continente.

Essa travessia dramática através do Atlântico, por conseguinte, foi acompanhada de sementes de árvores e plantas que os escravos - principalmente os nigerianos - trouxeram para o Novo Mundo buscando assim manter sua cultural original.

O antropólogo José Flávio Pessoa de Barros, um estudioso percuciente dessas transformações, não tem dúvida a respeito desta transferência ambiental de conhecimento, ou seja, o escravo e o próprio traficante de escravos introduziram árvores/plantas africanas de grande importância e utilidade religiosa no Brasil devido a diversos interesses.

Segundo ele, vários espécimes foram transportados pelos navios negreiros que traziam cargas clandestinas, muitas de interesse dos portugueses que introduziram no Brasil espécimes nativas africanas ou originárias da Ásia, há muito aclimatadas na África.

Palmeiras Triângulo, Maracanã. Foto: Gláucia Melo"Dentre estas destacam-se como asiáticas a jaqueira, mangueira e o tamarinheiro, e nativas da África algumas variedades de inhame, o quiabo, a melancia, a mamona, o dendezeiro, a pimenta-da-costa e o obi", escreveu ele no livro "O segredo das folhas: sistema de classificação de vegetais no candomblé Jêje-Nagô no Brasil" (Pallas/UERJ, Rio de Janeiro: 1993).

Pessoa de Barros mostra que essa transferência vegetal, em muitos sentidos, visou atender aos postulados religiosos, pois, em uma nova terra, os africanos tentaram substituir também árvores/plantas nativas africanas por aquelas que tinham semelhança/originalidade com o meio ambiente africano como ele explica.

No entanto, em muitos casos, buscavam manter a originalidade: "Quando não foi possível o encontro de sucedâneos, o elemento negro desenvolveu estratégias para que as espécies fossem trazidas do continente africano pelos navios negreiros que carregavam cargas clandestinas de pimenta-da-costa, por exemplo, e de outras espécies que interessavam imediatamente ao contingente escravo como o obi, que, segundo diversos pesquisadores, produz um efeito excitante, assim como sacia o apetite, o que supomos muito deve ter interessado aos possuidores de escravos, já conhecedores deste efeito no continente africano.

Ao mesmo tempo, os traficantes de escravos levaram para África e Ásia: milho, jequiriti, pinhão branco, batata doce, fumo, assim como várias espécies de mamonas, objetos de exploração comercial, segundo Pessoa de Barros.

Em contrapartida ao envio de espécies para o continente africano, a África também "enviou" para a América novos vegetais, fato, segundo ele, assinalado por inúmeros pesquisadores.

Baobás, Campo de Santana. Foto: Glaucia MeloDe acordo com o estudioso, este posicionamento étnico-político visou primeiramente atender a interesse comercial dos colonizadores e, também, preencheu às necessidades ritualísticas do contingente africano aqui instalado.

Passados mais de três séculos do processo escravista, tudo indica que a influência africana no meio ambiente foi forte. Segundo o arquiteto Roberto Okabayashi e o engenheiro florestal Flávio Telles, da Fundação Parques e Jardins, da prefeitura do Rio, o meio ambiente africano influenciou bastante a área urbana da cidade.

Segundo eles, é comum encontrar árvores africanas servindo para arborizar rodovias, praças e parques como é o caso do Campo de Santana e Passeio Público que têm baobás e dendezeiros, entre outras árvores africanas.

No espaço urbano do Rio de Janeiro, podem ser encontradas árvores de origem africana servindo para arborizar estradas, jardins, praças, parques e estacionamentos. No Campo de Santana e Passeio público são encontradas, entre outras, o baobá e o dendezeiro. Também as ruas de cidade são marcadas pela presença de árvores africanas.

O botânico Okabayashi fez uma listagem de algumas árvores africanas presentes no Brasil, cujas sementes foram trazidas por traficantes ou escravos nos navios negreiros:

Fonte: Guia Patrimonial da Pequena África (Centro Portal Cultural, RJ, 2014)



22/06/2015 14h52

Quilombo: escola fundada por Candeia chega aos 40 anos
Carlos Nobre

Em 8 de dezembro de 1975, há 40 anos, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio de Janeiro, foi fundada a GRES QUILOMBO, a primeira dissidência da GRES PORTELA. A fundação fora liderada Antônio Candeia Filho (1935-1978), o Candeia, mitológico sambista carioca, autor de clássicos que até hoje são relembrados por antigos e jovens admiradores.

A segunda dissidência da GRES PORTELA foi a GRES TRADIÉÉO, fundada, em 1984, em Campinho. Esta foi fundada pelos parentes de José Natalino do Nascimento (1905-1975), o Natal da Portela, um dos fundadores da grande escola de Madureira, após novas divergências com a então cúpula portelense.

No caso da GRES QUILOMBO, cuja proposta não era desfilar no Grupo Especial, seu objetivo era manter a tradição do samba, manter-se fiel às raízes africanas e valorizar o patrimônio afrobrasileiro.

Entre os que assinaram sua ata de fundação estavam nomes llustres como Paulinho da Viola, Monarco, Eduardo Coutinho, Jacira Silva, Nei Lopes, André Motta Lima, Carlos Saboia Monte (pai de Marisa Monte), Cláudio Pinheiro, Viola e tantos outros.

Na verdade, a GRES QUILOMBO era um grande projeto estético-político.

- Madureira, Portela e Natal: um triângulo perfeito

Fotos: Reprodução de Internet

Em primeiro lugar, se identificava com as populações quilombolas, principalmente com Zumbi dos Palmares (1655-1695), já que sua quadra era um verdadeiro quilombo. Por isso, adotou o nome Quilombo. Ou seja, a escola fugia do modelo habitual para se inserir na mais perfeita tradição das culturas africanas.

Por outro lado, pretendia ser um resgate das grandes tradições do samba carioca, pois, firmava pé no chamado samba de raiz, valorizando batuqueiros das quadras, dos botecos, das esquinas, que não tinham vez na mídia, e cujas obras fugiam dos modelos valorizados pela indústria cultural da época.

Em terceiro, a GRES QUILOMBO era uma escola que tinha um relicário de tradições estéticas, pois, trazia uma proposta de revigoramento das tradições afro começadas/sedimentadas por Paulo da Portela, pelas famosas tias baianas da Praça Onze.

Em quarto, era uma escola afro de verdade e que não seria de certa forma "contaminada" pelos ditames do capitalismo do carnaval carioca, já que a indústria carnavalesca vinha acabando com diversos instrumentos instrumentais africanos. Por exemplo, a comissão de frente, em geral, antigamente, formada pelos mais antigos integrantes da escola, dava lugar a malabarismos circenses. Surgiam também as chamadas madrinhas ou rainhas de matéria, posto hoje supervalorizado pela visibilidade que dá a foliã. Os enredos sobre cultura brasileira foram atropelados por enredos patrocinados de louvações a culturas estrangeiras ou louvação de celebridades.

Ou seja, a GRES QUILOMBO buscava ser uma alternativa ao mundo do samba da época, bastante influenciado pelos valores de classe média ascendente.

A GRES Quilombo, neste contexto, pretendia ser um retorno à tradição cultural afro do samba, um novo mergulho em suas raízes, um alerta à descaracterização do desfile, à desvalorização dos tradicionais batuqueiros, retorno à tradição de Paulo da Portela e de outros bambas.

Nesse sentido, entre suas maiores contribuições, trata-se do "Manifesto" de fundação da GRES Quilombo", pois, neste raro documento, os sambistas, há 40 anos, identificavam diversos problemas políticos e administrativos e também estéticos - que dificultavam a ascensão das escolas de samba como produto genuinamente afro-brasileiro .

Com base no livro "Candeia: luz da inspiração", de João Batista M. Vargens (Martins Fintes/Funarte, RJ, 1987), apresentamos um resumo do manifesto dos sambistas da Portela que criaram a GRES Quilombo.

ESCOLA DE SAMBA
"Escola de samba é Povo em sua manifestação mais autêntica!
Quando se submete às influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo.
Se hoje em dia são unânimes opinião e posição contrárias da imprensa em relação à Portela, é porque a Portela, apesar de sua tradição de glória, se deixou descaracterizar pelas interferências de fora. Aceitou passivamente as idéias de um movimento que, sob o pretexto de buscar a evolução, acabou submetendo o samba aos desejos e anseios das pessoas que nada tinham a ver com o samba".

MUDANÉAS
"Durante a década de sessenta, o que se viu foi a passagem de pessoas de fora, sem identificação com o samba, para dentro das escolas. O sambista, a princípio, entendeu isso como uma vitória do samba, antes desprezado e até perseguido. O sambista não notou que essas pessoas não estavam na escola para prestigiar o samba. E aí as escolas de samba começaram a mudar. Dentro da escola, o sambista passou a fazer tudo para agradar essas pessoas que chegavam. Com o tempo, o sambista acabou fazendo a mesma coisa com o desfile".

CÉPIAS
"A Portela adotou a Águia porque era o símbolo do que voa mais alto, acima de todos. E, inatingível, a Portela nunca imitava nada dos outros. Sempre criava. Hoje, o que a Portela está fazendo é procurar copiar o que se pensa que está dando certo em outras escolas.
Voltando a olhar o samba por si mesma, a Portela voltará a ter os valores imprescindíveis, que tanto serviram para afirmar sua glória. Enganam-se os que pensa, ser impossível recobrar esses valores.

MANIFESTO
"Estou chegando...
Venho com fé. Respeito os mitos e tradições. Trago um canto negro. Busco liberdade. Não admito moldes.
As forças contrárias são muitas. Não faz mal...Meus pés estão no chão. Tenho certeza da vitória.
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado. Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
Teorias, deixo de lado. Dou vazão à riqueza de um mundo ideal. A sabedoria é meu sustentáculo. O amor é meu principio. A imaginação é minha bandeira".

RADICAL
"Não sou radical. Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura. Gritarei bem alto explicando um sistema que cala vozes importantes e permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem. Sou franco-atirador. Não almejo glórias. Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio. Não atribua a meu nome ao desgastado sufixo ao. Nada de forjadas/malfeitas especulações literárias. Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais. Eu sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.

Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito. Intimamente ligada às minha origens.

Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: não me incomodem, por favor.
Sintetizo um mundo mágico.

Estou chegando...."

CRÍTICAS
"A centralização se tornou demasiada na Portela. As diretorias, de algum tempo para cá, passaram a não mais ouvir as solicitações do componente, nem procurar explicar a ele suas decisões. A organização do Carnaval passou a ficar a cargo de poucas pessoas. Muita gente fica sem saber o que fazer. No desfile, isso se reflete no grande número de diretores responsáveis, que não sabem como agir".

GIGANTISMO
"Gigantismo, sem dúvida, atrapalha a escola. Todos os setores são prejudicados por ele. É unânime a opinião de que a Portela cansa, porque ninguém aguenta ver um desfile arrastado. No entanto, o gigantismo é uma falha que decorre da própria escola e das influências externas que agem nefastamente sobre ela. Donos de alas conquistam seus figurantes, procurando angariá-los sem atender os verdadeiros interesses da Portela. Faltam medidas administrativas corajosas de eliminar esse problema".

FIGURINOS
"O figurinista, ainda que famoso, precisa conhecer a Portela profundamente. Não adianta imaginar figurinos sem levar em conta os componentes da escola. Como resultante, as fantasias têm sido confeccionadas em total desacordo com os figurinos apresentados.
Algumas alas tomam a si a iniciativa de escolher suas próprias roupas, sem levar em conta o enredo e o figurino recebido e nenhuma medida punitiva ou preventiva é tomada pela diretoria.

Há anos gasta-se dinheiro para construir alegorias grandiosas. O resultado nunca é esperado, porque o responsável pelo barracão não está integrado na escola. Os carros são pesados, difíceis de conduzir, quebram e prejudicam a escola".

ALEGORIAS
"A partir de determinada época, generalizou-se a idéia de que a alegoria de mão era uma solução visual que emprestaria leveza e facilidade ao desfile. Na realidade, o que se vê é um obstáculo que não deixa sambar. E, além disso, as alegorias de mão ou de carro, não podem ser olhadas separadamente como um simples quesito de julgamento. São antes de mais nada partes integrantes que devem ajudar a contar o enredo e valorizar o desfile da escola".

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15/06/2015 10h56

Madureira, Portela e Natal: um triângulo perfeito
Carlos Nobre

Sempre era possível encontrá-lo assim em Madureira: paletó de pijama, chinelos, cigarro no canto da boca, chapéu panamá na cabeça, rodeado de amigos, sentado na mesa do bar, jogando carteado.

Ali, ele passava horas e horas, absorto, esquecido de tudo: até de comer.

Em 1975, Hiram Araujo e Amaury Jório lançaram um livro espetacular sobre o mundo do samba dos subúrbios cariocas, definindo este personagem com mais precisão: "Natal: o homem de um braço só".

Natal da Portela. Foto: Arcélio FariaEm 119 páginas, a obra dá um painel detalhadíssimo da vida de um dos fundadores e presidente da GRES Portela, o banqueiro do jogo de bicho José Natalino do Nascimento, o Natal da Portela, que nasceu em 1905, em Queluz, São Paulo, chegando criança ao Rio, e que morreu em 1975, em Madureira, após uma longa trajetória que misturava polêmica, marginalidade, crime e defesa dos oprimidos.

Madureira foi o bairro onde ele se tornou figura das mais populares e fascinantes do Rio de Janeiro. Nesta cidade, poucos são aqueles que poderiam ostentar esta trajetória de sucesso para um homem negro, pobre, que modificou sua vida, tendo como ponto de partida, sua autoridade, sua capacidade de enfrentar desafios e visão de mundo polivalente em ajudar os pobres e desvalidos.

Assim, em sua trajetória, Natal da Portela encarnou uma série de personagens apreendidos no cotidiano suburbano.
Desse modo, era o valente, o bicheiro, o presidente da escola de samba, o generoso, o construtor, o prefeito, o poderoso, o homem do dinheiro, o vilão, entre outros papéis que desempenhou muito bem em Madureira.

Natal, devido à sua presença e postura, se consagrou como uma figura mitológica na vida carioca. Negro que passou fome, foi garanhão, pai de 25 filhos (19 morreram), dirigente de clube, sagaz e antenado com seu tempo.

Ele perdeu o braço direito num acidente ferroviário quando ainda era rapaz empregado da Rede Ferroviária Federal, que administrava, na época, o transporte por trens no Rio de Janeiro.

No entanto, a perda do braço não o imobilizou.

Pelo contrário.

Resistiu, vestiu-se de coragem e se tornou o mais respeitado personagem suburbano das últimas décadas, gritando e dando tiros quando necessário para manter sua lógica de compreensão dos conflitos do mundo.

Na época, falava-se que tinha sido alvo de mais de 100 tiros dados pelos inimigos. Mas nunca atingiram o alvo. Por isso, diziam que ele tinha o corpo fechado, bala nunca entrava.

Nesso sentido, enfrentou sozinho - e já velho - valentes jovens, que, diante de sua autoridade e determinação em vencer qualquer batalha, pediam perdão a ele.

De outro modo, jogavam as armas no chão ao serem questionados pela força/presença/personalidade de Natal. Nessas horas, era o símbolo do seu Natal, de sua autoridade, de seu destemor, que intimidavam os valentes.

Ele conheceu, assim, a marginalidade bruta dos subúrbios com as palmas da mão. Sabia quem era quem e como era perigosa a sua atividade profissional, de banqueiro do jogo de bicho, em Madureira e bairros vizinhos.

Com esse poder, acabou criando outras perspectivas.

Ou seja, construiu escolas, hospitais, financiou a edificação de barracos em favelas, pagou centenas de sepultamentos, criou e calçou dezenas de ruas, construiu caixas de água, ou seja, era uma espécie de civilizador autoritário nas regiões inóspitas suburbanas, segregadas e distante dos benefícios da ação pública.

Ao mesmo tempo, era uma figura respeitadíssima no mundo ilegal suburbano, pois, para os moradores, ele não era vilão, mas um herói às avessas dos subúrbios, que as classes dominantes pensavam jamais existir.

Este livro, de Araujo e Jório, se tornou clássico no assunto, pois se constituiu num dos melhores flashes sobre Natal da Portela. Abaixo, reproduzimos algumas passagens deste livro a fim de que possam conhecer, em certo sentido, o pensamento de Natal da Portela e sua mitológica ação nos subúrbios do Rio de Janeiro.

BRIGA COM O IMPÉRIO

"Porra, já ganhei muitos Carnavais em cima desses putos. Dá até para dar colher. Acontece que eu não gosto de perder, ora porra. Tô sempre querendo mais. Ganhei Carnaval de toda a maneira. No legal e no roubo".

"Também já até perdi a conta do número de vezes que fui garfado. O que eu nunca fiz foi sair por aí me lamentando. Quando perdia, não botava a boca no trombone. Aguentava firme. Na primeira oportunidade, roubava também. Apelação, eu só fazia na hora. Aí eu brigava, pintava os canecos". 

"Depois que eu via que não dava mais jeito, não ficava como meia dúzia de putos por aí, aporrinhando os outros. Meus negócios sempre foram muito bem feitos. Dava o golpe e quando percebiam, já era tarde. Também eu estava sempre nos bastidores! Botava meus cachorrinhos lá, eles vinham me contar. Em 1964, soube que o Império Serrano ofereceu um Volks para ganhar o Carnaval. Dei a maior foda neles. Fui lá oferecer o Volks e o prêmio. O Império sempre ficou por baixo de nós, ora porra. Quando eles tiravam o 4º lugar tinha até festa! Davam desfile e tudo! Eles têm que dar o braço a torcer à gente. Ganhamos sete Carnavais seguidos e só não ganhamos o oitavo porque fiquei com medo de virar rancho. Vieram dizer que quem ganhasse oito vezes seguidas, deixava de ser escola de samba. Aí, eu botei o galho dentro. Fiquei cabreiro, deixei correr frouxo e um filho da puta qualquer ganhou".

CARNAVAL 1960

"No Carnaval de 60, inventaram um tal de pontos negativos. Percebi logo que era pra prejudicar a Portela. E sabe por quê? Porque tínhamos feito um grande desfile. Não tinha medo de perder para ninguém. Então os putos bolaram esta porra. Eu estava sabendo disso. O nosso pessoal, por fora, já até começava a comemorar a vitória. E eu dizendo: "Olhe pessoal, nosso Carnaval dá pra ganhar de qualquer um, mas não vamos levar o caneco! Eles estão armando pra nos derrubar. E a merda toda são esses pontos negativos. Aí é que está a sacanagem! Então, eu fui para a apuração bolando o que eu podia fazer. Pensei, pensei e disse pros homens que estavam comigo: 'Nós vamos perder, mas eu vou dar um jeito'. 'Que jeito'?, perguntaram. Aí, eu disse, que não podia dizer, mas que poderiam contar que eu iria virar a mesa. Eu tinha toda a certeza de que a Portela perdia por pontos negativos e ganharia o Salgueiro. Meus cachorrinhos tinham me confirmado. Ao invés de irem logo somando e tirando os pontos negativos, primeiro fizeram a apuração legal, dando o resultado. A Portela ganhou disparada. Passamos 8 pontos à frente deles".

FUNDADOR

"E não tem filho da puta nenhum que diga, na minha cara, que eu não fui fundador da Portela. Fui, botei meu dinheiro todo na escola, e quem não quiser acreditar que vá pra puta que pariu".

DISCRIMINADO

"Eu era muito levado sim, mas havia racismo nas escolas. Eu, negro, sempre levava a culpa em tudo que de errado acontecia. É claro que, às vezes, eu tinha culpa no cartório. Mas, muitas vezes, estava inocente. Se aparecia uma carteira riscada, a professora logo dizia: "Foi esse negrinho sujo". Me davam castigos. Me botavam de joelhos em cima de grãos de milho. Ou, então, levava coças de vara de marmelo. Eu me revoltava. Me defendia. Era expulso. Aí as professoras chamavam meu pai, inventavam uma porção de histórias e lá ia eu embora, sabendo muito bem o motivo, que era de ter um preto a menos no colégio. Minha vaga era sempre ocupada por um branquinho".

BISCATEIROS

"Passei a viver de biscates, a vender o que conseguia: angu, peixe, farinha... qualquer porra. O dinheirinho que conseguia, comprava comida pra mulher, pros filhos. Isto, quando não vinha o rapa e carregava tudo. Aí, eu ficava no desespero, sem ter nada para levar. É por isso que me sobe um ódio danado quando vejo uns filhos da puta tirando coisas que esses pobres diabos ficam vendendo nas ruas. Eu já senti na pele o drama deles. Teve uma vez que vi um bando de putos correndo atrás de um garoto pra lhe tirar sua mercadoria. Pô, fiquei louco. Perguntei se não tinham vergonha de tirar as coisas do garoto. Um pé-de-chinelo lá ainda quis botar uma questão.

- Seu Natal, nós estamos cumprindo a Lei!

- Então vão cumprir a lei de vocês na puta que pariu!

PAULO DA PORTELA

"Enquanto o Paulo foi vivo, a Portela era ele. Coitado, morreu cedo.
Tuberculoso. No seu enterro tinha mais gente do que em dia de Fla-Flu na disputa do campeonato. Não se conseguia andar em Madureira quando o corpo passou em direção ao cemitério. O Paulo morreu e eu resolvi me dedicar de corpo e alma à Portela. Eu já estava com dinheiro e não me importava de gastar. Já tinha minha banca em Madureira. Agora queria ver a minha escola bonita. Eu nem me importava de vestir a escola de cabo a rabo. Eu fazia isso por prazer. Em memória do Paulo. Por amor à Portela".

TRÉS EFÉMERIDES SOBRE NATAL EM 2015

Em 5 de abril passado, tivemos os 40 anos de sua morte.
Também completou 40 anos o lançamento do livro "Natal: o homem de um braço só", de Hiram Araújo e Amaury Jório, obra clássica sobre samba, jogo do bicho, Madureira e Portela.
O livro está esgotado e nunca mais saiu nova edição dele.
Também, esse ano, no próximo 31 de julho, se estivesse vivo, ele comemoraria 110 anos.


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08/06/2015 10h52

Fernando Pamplona: Ditadura Militar tentou controlar enredos do Salgueiro
Carlos Nobre

Nos anos 1960, o Salgueiro produziu uma das maiores mudanças ideológicas do Carnaval carioca.

Ao invés de enredos anódinos, a escola apostou em temas africanos, raros nas escolas da época. Nestes enredos, os sambistas narravam sua própria história como afrodescendentes. Em vista disso, foram postos na Avenida enredos memoráveis como "Quilombo de Palmares", "Chica da Silva", "Chico Rey", "Valongo", "Praça Onze", "Aleijadinho".... Era, enfim, a consolidação do enredo afro via Salgueiro.

Foto: Reprodução de InternetAo mesmo tempo, a escola abandonou definitivamente as fantasias europeias muito comuns em todas elas: ou seja, o negro trajado como rei europeu, usando perucas brancas iguais as dos colonizadores, roupas do mesmo quilate. Ou seja, era o oprimido falando com a boca do opressor.

Na bateria, em alguns desfiles, os mestres incorporavam mais instrumentos africanos como atabaques, chocalhos, reco-reco, fortalecendo a dimensão afro-estética dos desfiles salgueirenses.

Segundo o carnavalesco Fernando Pamplona (1926-2013), responsável por essa transformação do olhar salgueirense em relação ao Carnaval, a mudança despertou a atenção da ditadura militar (1964-1985).

"O DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e alguns coronéis não largavam de nosso pé. Uma vez na quadra Calça Larga, um coronel acompanhado de oficiais, me inquiriu: Por que vocês não contam a história da liberdade até os dias de hoje?", escreveu Pamplona em suas memórias, chamadas "O encarnado e o branco", publicada, em 2013, pela Nova Terra.

Ou seja, eles queriam que a escola contasse a liberdade sob ponto de vista oficial, pois, nesse caso, havia vagas para louvar Duque de Caxias, Tiradentes, Dom Pedro I, Princesa Isabel e outros.

Pamplona deu uma de João-sem-braço, não disse que sim, nem não, mas manteve seus enredos revisionistas da história brasileira, incorporando sempre uma certa visão afro da história.

No entanto, constatou uma reação da ditadura militar com sua teimosia estética. Ou seja, percebeu que se iniciara outra pressão: o DOPS começou a infiltrar seus homens nos ensaios da escola.

Os arapongas das três Forças Armadas compravam mesas, fingiam que eram apreciadores do samba, mas ficavam de olho em tudo que se passava nos ensaios da quadra. A forma como se comportavam chamavam atenção de todos que percebiam tratar-se de espiões e não de sambistas. 

Ao mesmo tempo, a ditadura militar acionava as delegacias comuns para prenderem sambistas salgueirenses importantes para o desenvolvimento da escola na Avenida. Era uma forma de "atrapalhar" a escola, provocando tensão na quadra com a prisão de seus principais chefes de ala. Nessas horas, Pamplona acionava amigos ou ia pessoalmente à delegacia para negociar a liberdade dos sambistas. 

Mesmo assim, a escola nunca se sujeitou, nem obedeceu aos pedidos dos censores para mudar sua linha afro nos enredos.

Fonte: "O encarnado e o branco", de Fernando Pamplona (Nova Terra, RJ, 2013)

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31/05/2015 19h21

Três mistérios de Cartola
Carlos Nobre

ANGENOR DE OLIVEIRA, o Cartola, (1908-1980) é considerado por alguns como o maior sambista de todos os tempos devido à rara qualidade de seus sambas sendo gravados e regravados por diversas gerações de cantores. Cartola nasceu no Catete, mas passou parte da infância em Laranjeiras. Depois, com a família, ainda jovem, se mudou para a Mangueira. No morro, criou o Bloco dos Arengueiros, em 1928, que, mais tarde, se tornou a GRES Estação Primeira de Mangueira. No entanto, em seus 72 anos de vida, chama atenção três mistérios que protagonizou nessas sete décadas de existência.

MISTÉRIO 1
Cartola. Foto: Gláucia MeloNos anos 1940, Cartola, que nos anos 1930, tinha se tornado um dos maiores compositores de samba ao lado de Paulo da Portela, desaparece do morro da Mangueira, da escola que fundara, que tinha se originado do "Bloco dos Arengueiros", criado por ele, Carlos Cachaça e outros bambas da favela.

Alguns disseram no morro que ele havia morrido, mas não encontravam o corpo... onde estaria Cartola? Pouco se sabe deste período cartoliano.

Existem apenas suposições segundo as quais teria brigado com sambistas da Mangueira e resolvera abandonar o morro para não sofrer retaliações.

Outra versão dizia que teria contraído uma doença grave e, por isso, sumira do mundo artístico mangueirense. Especulava-se que teria sido a meningite.

Só especulações.
Outra versão falava que fugira do morro após a morte de sua primeira mulher, Deolinda, que o deixara abatidíssimo. Este mistério teve uma solução: Cartola só foi reencontrado, em 1956, pelo jornalista e escritor Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, trabalhando como lavador de carros num prédio de Ipanema.

Graças a Porto, teria voltado a compor e cantar, pois foi levado a programas de rádio. Essa redescoberta fez com que ele se tornasse um ícone, sendo gravado por diversos cantores, se tornando um símbolo de grande presença e admiração pelos novos sambistas e intérpretes da MPB.

Mas por que Cartola desapareceu por quase duas décadas? Ninguém responde a esta pergunta na historiografia da MPB.


MISTÉRIO 2

Ninguém ainda conseguiu decifrar a idolatria por Cartola mantida por umas três gerações de intelectuais brasileiros. De Vinicius de Moraes a Sergio Cabral (pai), existe uma igreja, onde os "sacerdotes" e seus coroinhas rezam missa continuamente em louvor a São Cartola.

Não creio que seja somente pela obra do sambista.

Acredito que seja mais pela complexidade humana de Cartola, um favelado que enfrenta com galhardia as vicissitudes da vida... além do mais, ele, Cartola, representa um tipo comum na vida brasileira, mas de extrema bondade, parece não ter qualquer vestígio de rancor/ressentimento pela dura vida lá no morro.

Com base nesta idolatria, estes intelectuais divulgaram a obra de Cartola, transformaram "As rosas não falam" num clássico. Por tabela, as outras obras do compositor caíram no gostar/querer de todos, virou mito, obra gravada e regravada sempre.

Com encanto.

É claro que, se formos confrontar a obra dele com a de alguns sambistas de sua geração... ele, Cartola, pode perder para Ataulfo Alves, Wilson Batista, Geraldo Pereira... Estes caras têm obras consistentes, mas não superam o mito Cartola.

Não tem como.

Por conseguinte, são encobertos por ele, Cartola.

Assim, Cartola passa para a história do samba como uma figura que agrada a todos... mas aí, acho que tem um mistério, ou seja, a gente não sabe se é a obra ou a (rica) trajetória do afrodescendente Cartola que balizam esta fama que vigora no Brasil.

Quando a gente lê sua rica biografia, surgem dúvidas, surgem questões... perguntamos: como ele superou aquele mar de adversidades? Que força era aquela que possuía para renascer sempre? O sol nascerá mais uma vez?

Não teria sido isto que encantou os intelectuais de classe média que passaram a fazer uma igrejinha de louvor a ele... e a igrejinha se expandiu e virou templos imensos pelo Brasil e pelo mundo louvando São Cartola.

MISTÉRIO 3

No início dos anos 1960, Cartola se tornou zelador da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na época, localizada num casarão no Centro do Rio de Janeiro.

O local se tornou ponto de encontro de sambistas da mais fina raiz. Além de rodas de samba, Zica, a segunda mulher de Cartola, considerada uma exímia cozinheira, passou a servir sopa aos participantes. A roda de samba de Cartola e Zica cresceu pela cidade. 

Muitos comentários.

Estimulados por amigos, o casal resolveu transferir a roda de samba para um sobrado, na Rua da Carioca, em 1963. A iniciativa foi apoiada por mangueirenses históricos. Assim, nascia o mitológico bar "Zicartola", na Rua da Carioca. Desse modo, o "Zicartola" se tornou um marco na história da MPB.

Passaram por aquele local músicos da Bossa Nova, poetas do movimento concretista como Ferreira Gullar, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral (pai), Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Zé Keti, Elton Medeiros e o garotão Paulinho da Viola, nos seus 19 anos.

Neste bar antológico, Cartola e Elton Medeiros teriam composto outro clássico do mundo do samba, " O sol nascerá".

O bar, então, inaugurava uma nova modalidade de casa-show-samba, ao lado da famosa Praça Tiradentes, resgatando a grande época de desfrute da cultura afrocarioca da belle époque no início do século XX.

No entanto, parece que Zica e Cartola tiveram problemas administrativos, e depois de dois anos de funcionamento, o bar fechou. Seria somente por problemas administrativos? Tenho minhas dúvidas.

E um mistério: por que o Zicartola durou tão pouco tempo (menos de dois anos)?


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25/05/2015 12h22

A 'paradinha' de Mestre André de Padre Miguel
Carlos Nobre

Se existe um nome mitológico no Carnaval carioca, este é o de José Pereira da Silva (1932-1980), o Mestre André.

Ele era maestro-chefe da bateria da GRES Independente de Padre Miguel, nos anos 1960-1970.

Todos, em geral, louvam Mestre André, em primeiro lugar, por ter sido o criador da famosa "paradinha" da bateria, hoje executada por todas as escolas de samba.

Começou como mestre-sala.

Mestre André. Foto: ReproduçãoMas ficou conhecido logo pela facilidade em soprar o apito. Assim que ouviam o apito do Mestre André, os ritmistas faziam mudanças sonoras/harmônicas na bateria, pois sacavam imediatamente códigos que viam através daquele famoso apito.

Em 8 de fevereiro de 1959, na Av. Rio Branco, foi a estreia da GRES Mocidade Independente no Grupo Especial.

Nesta apresentação, Mestre André, de frente para a bateria, com seu apito implacável, teve um escorregão, e caiu no chão.

Para ele, Mestre André, era um desastre inconcebível, já que ostentava títulos e mais títulos de elegância afrobrasileira.

Sem se importar com o fato, Mestre André, astuto que só ele, se levantou, e num rodopio, apontou para o repique.

O instrumento entrou no tempo exato e a bateria se manifestou harmônica/empolgada na Avenida com todos os seus instrumentos, pois entendera imediatamente, as sinalizações de sua liderança musical.

Estava, então, criada, a "paradinha" das baterias, na estreia da GRES Mocidade Independente no Grupo Especial.

No entanto, há uma segunda versão sobre a criação da "paradinha".

Djalma Nicolau, tocador de caixa da agremiação, diz que foi ele quem sugeriu a "paradinha" para Mestre André. Este teria aceito e resolvera pô-la em prática no Carnaval de 1959.

A terceira versão da "paradinha" é do ex-mestre-sala da Mocidade Independente chamado de Salgueiro. Este cortejava a porta-bandeira, Helena de Siri. Salgueiro escorregou e caiu.

No chão, foi coberto pelo pavilhão da escola da porta-bandeira.

Esta era uma estratégia para que os jurados não percebessem a gafe de Salgueiro.

Mestre André, então, sacando o lance, pediu que a bateria parasse de tocar.

Foi atendido na hora.

O público não entendeu aquele silêncio percussivo.

Lépido, Salgueiro se levantou, voltou a cortejar a porta-bandeira e o show continuou, com o retorno da bateria ao seu som original, sob o controle de Mestre André.

Mestre André não ficou somente na "paradinha".

Ele teve uma vida musical afro genial.

Organizou algumas estratégias, naquela época, ainda muito atrasada, subdesenvolvida.

Por exemplo, criou algumas novidades.

Uma delas:

-Mandou vender antes do desfile sapatos dos ritmistas. Mesmo a contragosto, no asfalto quente, os ritmistas desfilaram e encantaram o público com seu toque. Parece que André quis desafiar a bateria colocando-a em condições adversas, com o fogo nos pés do asfalto. Na verdade, demonstra sua grande capacidade de liderança, pois todos os ritmistas obedeceram a uma proposta física violenta do chefe, e se consagraram na avenida, com os gritos de "olé" da arquibancada.

Outra contribuição:

- O ritmista Sebastião Miquimba marcava o ritmo no surdo de primeira, mas sempre dava mais um pancada no couro para preencher o vazio que ficava antes do toque da segunda.

Mestre André viu aquilo e achou uma grande novidade percussiva. Além de oficializar o surdo de terceira, em sua bateria, o Mestre mandou confeccionar um surdo especial para Sebastião Miquimba.

Assim, a Mocidade Independente criava mais uma bossa no mundo samba, graças aos ouvidos maravilhosos de Mestre André.
Mais uma criação de Mestre André, ou seja, foram as baquetas múltiplas para ampliar o toque dos tamborins.

A impressão é que havia mais instrumentos tocando na bateria, dando uma impressão que havia um universo sonoro variado e indefinível na Avenida.

Por fim, criou uma escola de ritmistas mirins, tirando as crianças do mundo do ócio das favelas de Padre Miguel. A maioria destes jovens acabara engrossando a famosa bateria da Mocidade Independente.

Era um avanço grande, pois, naquela época, Mestre André executava um trabalho social no mundo do samba, que viria a ser recuperado, nos anos 1980, com a "Mangueira do Amanhã".


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18/05/2015 15h23

A escola de samba por Joãosinho Trinta
Carlos Nobre

Joãosinho Trinta (1933-2011) sempre foi considerado um carnavalesco genial, principalmente na GRES Beija-Flor, onde venceu os Carnavais de 1976, 1977, 1978, 1980 e 1983, além de ter obtido diversos vice-campeonatos, principalmente em 1989, com o polêmico enredo "Ratos e Urubus, larguem minha fantasia". Este enredo causou polêmica ao tentar levar para o desfile a imagem de Cristo caracterizado como mendigo. Devido a sua genialidade, ele, em 1983, foi analisado pelos psicanalistas do Colégio Freudiano. A entrevista se tornou um clássico e foi editada num livro que também se esgotou e virou obra rara. Veja alguns trechos dessa famosa entrevista de Joãosinho Trinta.

Joãosinho Trinta. Foto: DivulgaçãoParticipação

"A escola de samba (...) exige uma participação física da pessoa, uma participação de voz, de movimento, quer dizer, todo o ser humano acontece. Ainda tem mais: a escola de samba tem vários enfoques. Ela requer ou engloba vários interesses, como a pesquisa, por exemplo. Para fazer um enredo é preciso pesquisar, daí a ala dos compositores acabar tendo uma cultura enorme, porque eles, na procura de dados para fazerem sambas totalmente diferentes uns dos outros, vão para bibliotecas, vão para vários lugares e acabam tendo um cabedal de conhecimentos muito grande. Tanto que eles gostam muito e dizem, é uma verdade, que samba é cultura".

Lúdico

"(...) E cada instrumento desses é um grande universo. Mas, principalmente, a soma de tudo isso cria uma força muito poderosa, de interesse, de participação, de atividade, que as pessoas só veem no desfile, mas que acontece o ano inteiro. Toda a preparação de um desfile motiva muito as pessoas envolvidas. Há ainda o aspecto lúdico, da disputa, você ser Beija-Flor, você ser do Salgueiro, tudo isso é estimulante."

Classe Z

"A escola de samba parece ter todos os ingredientes vitais da dinâmica da vida. E, sobretudo, é uma realização. É aquele momento de sonho, do sonho que nós entendemos como tão importante quanto é o alimento físico e que as pessoas necessitam. Principalmente, essa de classe Z que, por incrível que pareça, estão cheias de energia, estão num mundo muito mais aberto, são muito mais receptivas".

Corpo

"O que eu acho fantástico na escola de samba é que as pessoas possuem seu corpo. (...) Quando alguém é vibrátil a ponto de expressar o bater do tamborim ou do agogô, quer dizer, o ritmo do samba, eu acredito que essa estrutura é perfeita. Eu falo do tamborim e do agogô porque são instrumentos de toques sutis. O surdo marca bem o ritmo, mas esses outros tipos de instrumento brincam. É preciso muita receptividade para alcançar, para estar dentro do toque deles. Isso me fascina, porque um ser humano que tenha essa receptividade é um ser humano poderoso".

Nagô

"(...) E aí eu faço um enredo que se chama "A criação do Mundo na Tradição nagô". Na tradução nagô está todo aquele conhecimento, aqueles símbolos que você vai encontrar nos Vedas, no Livro dos Mortos, no Egito, eu li alguma coisa no trabalho de Jung sobre todos esses símbolos, e fui encontrando os meus parâmetros".

Transformação

(...) trouxe os valores do rancho e da grande sociedade e transformei o desfile da escola de samba, botei pra vertical, aumentei os carros... Por que aumentei os carros? Só por grandeza, só por que eu sou pequeno? Não. Porque eu tive a visão do espaço da arquibancada. Há trinta anos não era necessário fazer carros grandes, porque o espaço era a Praça Onze, e uma população muito menor assistia ao desfile. Nem era necessário arquibancada. Havia bancos e as pessoas levavam caixotes. Era muito pequena a dimensão de quem assistia. Quer dizer, o visual de quem está naquela arquibancada lá em cima é totalmente diferente do visual da Praça Onze de 30 anos atrás, que era corda, que era chão. Então, eu não fiz crescer o carro gratuitamente. Eu fiz crescer o carro na medida em que as arquibancadas cresceram, na medida em que o Rio cresceu, na medida em que a população aumentou, na medida em que a escola de samba deixou de sair como saía há 30 anos, com 100, 200 pessoas, saindo hoje com 3.000. Eu apenas acompanhei a dinâmica do tempo e do espaço.

Fonte: "Psicanálise Beija-Flor. Joãozinho Trinta e os analistas do Colégio ( freudiano)". Editora Aoutra/Taurus, Rio de Janeiro, 1985.