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Celso Sabadin

Celso Sabadin

CINEMA. Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



23/10/2016 13h27

'Noite de Verão em Barcelona': apenas simpático
Celso Sabadin

Noite de Verão em Barcelona. Foto: Divulgação

Na virada do século 20, pipocaram vários filmes - todos meio parecidos entre si - sobre pequenas histórias humanas que se desenrolavam sob o clima místico de uma suposta nova era que se iniciava. Invariavelmente eram breves dramas românticos que transitavam entre o trágico e o mágico. "Noite de Verão em Barcelona" parece um destes filmes. Algo como um projeto de 1999 que, sei lá, não conseguiu financiamento na época e sai agora com um certo sabor passadista. Viagem minha, claro.

Como já tem um tempão que o século virou, a ambientação mágica agora fica por conta da noite de 18 de agosto de 2013, momento previsto para o cometa Rose atravessar os céus da bela Barcelona. É neste clima de esperança e romantismo que o diretor Dani de la Orden reúne seis histórias de amor emolduradas pelo charme da famosa cidade catalã e temperadas por uma certa dose agridoce de jovialidade urbana.

Um trabalho apenas simpático interpretado por um eficiente elenco jovem e que motivou o diretor a realizar a sequência "Noite de Inverno em Barcelona", lançada em 2015, mas que permanece inédita no nosso circuito.



19/10/2016 13h38

Belíssimo 'O Último Tango' registra meio século de paixões
Celso Sabadin

Não sou um grande fã de dança. E fiquei absolutamente encantado com o trabalho de direção de Wim Wenders no documentário "Pina". Se ele fez o que fez num filme cujo tema não me é próximo, fiquei imaginando o que ele faria - desta vez não como diretor, mas como produtor - em outro documentário correlato, "O Último Tango". Pois de tango eu gosto. E muito. Não deu outra: saí da projeção fascinado.

O Último Tango. Foto: Divulgação

"O Último Tango" relata a trajetória de dois dos mais famosos dançarinos da história deste ritmo-símbolo da alma argentina: María Nieves Rego e Juan Carlos Copes. A questão não é "somente" - repare as aspas - contar esta bela história, mas antes e principalmente a inventividade da forma como ela vem à tela.  Temos aqui um registro humano e espontâneo dos dois protagonistas que, de coração aberto (ela mais, ele menos), expõem suas lembranças não a um entrevistador ou ao diretor do filme (o alemão Germano Kral), mas a toda equipe de produção. O documentário registra com intimidade amplas conversas que Maria e Juan - sempre separadamente - travam com diversos membros que participam das filmagens, com destaque para o elenco que representará a ambos nas belas reconstituições dramático-musicais que permearão com cores ficcionais os caminhos dos depoimentos documentais.

O resultado carrega consigo a dimensão passional do próprio tango em si que, claro,  jorra na tela aos borbotões, para a alegria dos fãs. Eu incluído. São histórias de amores, mágoas, traições, paixões, fidelidades e infidelidades que costuram uma carreira de quase meio século dedicado à música e à dança.

Coproduzido por Argentina e Alemanha, "O Último Tango" esteve na seleção oficial do Festival de Toronto, e ganhou prêmio de público como Melhor Documentário no Festival de Washington. Uma belíssima viagem romântico-dramático-musical que estreou em 6 de outubro e continua em cartaz.



13/10/2016 09h36

'Terra Estranha': início promissor de um bom trio de estreantes
Celso Sabadin

Depois de alguns curtas e documentários bem sucedidos, a diretora Kim Farrant estreia no longa ficcional de maneira bastante convincente: "Terra Estranha" pode não trazer uma história das mais originais, mas demonstra grande competência no quesito criação de clima. Que envolve, direta e incisivamente, o talento direcional.

Terra Estranha. Foto: Divulgação

Aos poucos, sem pressa, o espectador vai tomando contato com o drama que se abateu sobre Catherine (Nicole Kidman) e Matt (Joseph Fiennes), que ao lado dos dois filhos tenta se adaptar a uma nova vida numa desolada cidadezinha do interior da Austrália. Sob todos os pontos de vista, o clima é denso e árido. Inclusive literalmente. Debaixo de sua imaculada roupa de farmacêutico e sem um fio de cabelo fora do lugar, Matt busca hipocritamente esconder um passado do qual se envergonha. Catherine traz a perturbação no seu olhar e nos seus gestos. As crianças trilham aos trancos e barrancos os caminhos do crescimento, da maturidade e da descoberta da sexualidade. Paira sobre a cidade e sobre a família uma pesada nuvem de mágoas, tensões insuportáveis e segredos inconfessáveis. 

"Terra Estranha" marca a estreia no longa de ficção não apenas da diretora, mas também de seus roteiristas, Fiona Seres e Michael Kinirons (este também autor do argumento), nomes até o momento mais ligados à TV que propriamente ao cinema. Um bom início de carreira cinematográfica coroado com indicações tanto aos principais prêmios da crítica australiana como também ao prêmio do júri no Sundance Festival.

A estreia é nesta quinta, 13 de outubro. 



05/10/2016 14h36

'Um Doce Refúgio' ou a vida sem sair do quintal
Celso Sabadin

"Um Doce Refúgio" trata de uma das mais recorrentes dicotomias do homem urbano contemporâneo: aquela vontade de largar tudo e viver intensamente a natureza... desde que com todos os confortos da vida moderna, claro. O protagonista é o artista gráfico Michel (Bruno Podalydès), sujeito entediado pelo cotidiano de seu serviço e pela mesmice de sua vida familiar ao lado da esposa Rachel (Sandrine Kiberlain). Ele é fascinado por aviões, principalmente pelo serviço postal aéreo francês, mesmo sem nunca ter pilotado um avião. Travado demais para entrar de cabeça em seus sonhos, Michel encontra um "meio termo": empreender uma aventura de caiaque. Desde que seja num riacho perto de casa e municiado dos mais improváveis equipamentos que lhe garantam toda a segurança possível. Ao se acostumar a viver a vida pela metade, ele desenvolveu um forte medo do imponderável e do imprevisível. Neste mundo de seguranças falseada e fabricadas, quem poderia atirar a primeira pedra em Michel?

Um Doce Refúgio. Foto: Divulgação

Além de interpretar o papel principal, Bruno Podalydès também roteiriza e dirige o filme, como já havia feito em "Adeus Berthe: O Enterro da Vovó". E novamente atua ao lado do irmão Denis. Com simplicidade e um misto de romantismo e comicidade, "Um Doce Refúgio" toca em temas bastante pertinentes. Desilusões, segundas chances, a retomada do tempo perdido, fugas possíveis e impossíveis, há um pouco de tudo. Com delicadeza e sem muita profundidade, mas com o necessário carisma para causar empatia e buscar a reflexão. Uma espécie de "road-movie" sem a estrada... mas com um riachinho.

A estreia é nesta quinta, 6 de outubro.



29/09/2016 17h16

A intrigante mistura de gêneros de 'Um Homem Só'
Celso Sabadin

É, no mínimo, curioso: "Um Homem Só" atrai e intriga com um roteiro esperto que mistura, de maneira inusitada, romance, aventura, drama, comédia, mistério, suspense e - por que não - uma pitada de ficção científica. Pretensão? Longe disso. Com roteiro e direção da estreante em longas Claudia Jovin, "Um Homem Só" mistura todos estes gêneros de maneira curiosa e inteligente, ao mesmo tempo em que entrega uma história ágil que discute temas como a morte e o que fazemos da vida. 

Um Homem Só. Foto: Divulgação

Não estranhe, mas a trama fala de Arnaldo (Vladimir Brichta, ótimo), um homem descontente com a vida que leva, que certo dia descobre ser possível encomendar numa clínica clandestina um clone de si próprio. Com seu duplo assumindo o lado aborrecido da existência, Arnaldo estaria então totalmente livre para aproveitar o lado gostoso da vida. Algo assim como uma versão adulta de "O Menino no Espelho", mas com desdobramentos e resoluções que seguem caminhos diferenciados e até surpreendentes. 

Além de Brichta, o elenco traz também Mariana Ximenes (excelente), Otávio Muller, Milhem Cortaz, Cadu Fávero, Ingrid Guimarães e Eliane Giardini. 

A estreia é nesta quinta, 29 de setembro.



26/09/2016 19h48

Festival de Brasília 2016: A angústia da busca em 'Elon não acredita na morte'
Celso Sabadin

Elon (Rômulo Braga) é um personagem em busca. Numa primeira leitura, em busca de sua esposa, com quem tinha combinado de se encontrar no final do expediente do trabalho dela, mas que não encontrou. Elon se enfurece, se desespera, mas não estranha a situação. Sai pela cidade em busca de outras pessoas que possam ajudá-lo em sua própria busca. E só encontra portas que se fecham em sua cara. Algumas simbólicas, outras bastante literais.

Elon não acredita na morte. Foto: Divulgação

O filme "Elon Não Acredita na Morte", integrante da Mostra Competitiva do 49º Festival de Cinema de Brasília, explora este clima exasperante de procura intensa, coloca uma câmera claustrofóbica perseguindo o protagonista, e desenha em seu entorno frias e escuras ambientações que sublinham o misto de ansiedade e medo de quem não consegue quebrar o círculo vicioso de suas próprias angústias. Na verdade, Elon não consegue fugir de si mesmo, e a busca pela esposa é apenas a sinalização visível de suas insondáveis procuras internas.

Durante o filme, impossível não lembrar da expressão "Cinema da Nuca", criação sarcástica do jornalista e cineasta Alfredo Sternheim para criticar enquadramentos que privilegiam as nucas dos atores em detrimento de seus rostos. É o caso. Embora aqui o recurso enfatize a ausência de horizontes visíveis para o protagonista.

"Elon Não Acredita na Morte" é o longa de estreia do mineiro Ricardo Alves Jr., duas vezes premiado em Brasília pelos seus curtas "Convite Para Jantar Com O Camarada Stalin" e "Tremor".

O filme tem distribuição contratada para o circuito comercial, mas seu lançamento só deve ocorrer no próximo ano.

*Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do Festival



26/09/2016 12h35

Festival de Brasília 2016: O choque de identidades culturais em 'Antes o tempo não acabava'
Celso Sabadin*

"Como é bom ouvir os apresentadores do Festival dizendo que o filme veio do Amazonas!". Assim o diretor Sérgio Andrade apresentou seu novo longa, "Antes o Tempo Não Acabava", neste 49º Festival de Cinema de Brasília: saudando a região norte, e lembrando que "tem muita gente filmando no Amazonas". O que acontece em função de políticas públicas de descentralização do audiovisual que não podem nunca ser abandonadas, nas palavras de Andrade, bastante aplaudido depois do já tradicional "Fora Temer".

Antes o tempo não acabava. Foto: Divulgação

"Antes o Tempo Não Acabava" mostra os conflitos de um jovem indígena (Anderson Tikuna) dividido entre a forte herança cultural de seus ancestrais e os apelos consumistas da modernidade. Com traços de índio e sangue de índio, ele quer trocar seu nome para um "nome de branco", e secretamente se diverte dançando "All the Single Ladies" diante do espelho. Sabe pintar o corpo como seus ancestrais, mas o tradicional urucum é substituído pelo batom vermelho do salão de cabeleireiro onde trabalha, após abandonar o repetitivo e massacrante emprego que tinha numa linha de montagem industrial. Entre os chamados místicos de sua cultura original, com a qual inevitavelmente continua sintonizado, e o desejo de libertação de preceitos religiosos que combate, o rapaz ainda terá de lidar com as descobertas de sua própria sexualidade. 

"Antes o Tempo Não Acabava" tem o grande mérito de levantar importantes questões sobre as transformações socioculturais indígenas sem nenhum tipo de panfletarismo ou didatismo que muitas vezes contaminam as obras audiovisuais que tratam do tema. Pelo contrário, provoca a reflexão através do silêncio e da contemplação concentradas no protagonista, ao mesmo tempo em que proporciona um retrato fiel de Manaus e sua periferia, locais onde o filme se passa.

Trata-se do segundo longa de Sérgio Andrade, após o premiado "A Floresta de Jonathas". Aqui, a direção é compartilhada com Fábio Baldo, premiado curtametragista que estreia na direção de longas. Coproduzido por Brasil e Alemanha, "Antes o Tempo Não Acabava" tem distribuição contratada para o circuito brasileiro, com estreia prevista para 2017. 

*Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do Festival



25/09/2016 17h16

Festival de Brasília: Direção competente e roteiro ralo marcam 'A cidade onde envelheço'
Celso Sabadin

Existe um tipo de cinema, muito identificado com a produção europeia, que popularmente é chamado de "filme que não acontece nada". Geralmente são retratos existenciais de personagens introspectivos desenvolvidos em narrativas que caminham na contramão da agitação vazia do cinema comercial norte-americano. São filmes onde o que se sugere fala mais alto do que se mostra.

A coprodução lusobrasileira "A Cidade Onde Envelheço" é um destes filmes. Mas com um porém: ele abusa do direito de "não acontecer nada".  

A cidade onde envelheço. Foto: Divulgação

Tudo gira em torno de duas jovens portuguesas que dividem um apartamento em Belo Horizonte: Francisca, estabelecida há mais tempo no Brasil, e Teresa, que acaba de chegar para tentar a vida por aqui. Muito amigas em épocas passadas, em Lisboa, ambas tentam se adaptar à difícil realidade da convivência fora de casa, dentro de um clima que alterna tensões e afetos. Mas o roteiro de João Dumans, Marilia Rocha e Thais Fujinaga acaba patinando, não alcançando um desenvolvimento satisfatório a ponto de segurar a atenção em seus 99 minutos de projeção.

Mesmo com este tênue fiapo de história, a direção de Marília Rocha se mostra envolvente e segura. "A Cidade Onde Envelheço" é o primeiro longa ficcional da diretora, após seus premiados documentários "Aboio" e  "A Falta que me Faz". O filme já tem distribuição para o mercado brasileiro, o que só deve acontecer em 2017. 

*Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do Festival.   



24/09/2016 18h55

Festival de Cinema de Brasília 2016: 'Martírio' investiga as raízes da tragédia Guarani Kaiowá
Celso Sabadin*

Pouco tempo atrás, milhares de pessoas no Facebook alteraram seus sobrenomes para Guarani Kaiowá em solidariedade aos massacres que esta comunidade indígena estava sofrendo. Até aquele momento, para uma boa parte destes facebookers, Guarani era apenas um time de futebol de Campinas, e Kaiowá era simplesmente um rua muito íngreme do bairro paulistano de Perdizes. O desconhecimento do assunto era geral. E de certa forma continua sendo. 

Neste sentido, o documentário "Martírio", exibido na Mostra Competitiva do 49º Festival de Cinema de Brasília, vem jogar uma importantíssima luz histórica sobre o tema. Dirigido por Vincent Carelli, "Martírio" traça um amplo e abrangente panorama sobre a questão indígena brasileira em geral e o problema dos Guarani Kaiowá em particular. E, como sempre, escancara nossas dificuldades e nossa truculência histórica ao lidar com o tema. Preciosas imagens de arquivo mostram que já há quase 100 anos o tão festejado Marechal Rondon implantava uma visão militarista sobre a questão, sempre no sentido de eliminar as bases culturais dos nativos para cooptá-los ao sistema vigente, fosse ele qual fosse. Imagens menos ancestrais - estas relacionadas à ditadura militar pós-64 - mostram um constrangedor desfile de índios diante das autoridades da época, onde representantes de várias tribos, após passarem pelos devidos treinamentos militares, exibiam suas habilidades em prender, imobilizar e até torturar seus iguais. É simplesmente impensável, mas o filme chega a registrar um momento no qual índios orgulhosos mostram aos oficiais como agora eles já dominam a técnica da tortura no pau-de-arara. A céu aberto. 

Martírio. Foto: Divulgação

O registro da época atual mostra que pouca coisa mudou. A violência militarista dá lugar à violência ruralista, que fomenta a ação de milícias particulares no extermínio dos líderes indígenas, à semelhança dos antigos westerns norte-americanos. Tudo sob o olhar complacente de governos recentes que também deixaram a maionese desandar ao bel prazer da lei do mais forte. Os registros dos debates políticos oficiais sobre o tema são nauseantes. Mas o enjoo no estômago mesmo fica para o final, quando o cineasta capta imagens de uma reunião de ruralistas cujos discursos fariam Hitler parecer humanista.

Saímos do filme com um incômodo misto de sensações que variam da total impotência à triste descrença com as ações governamentais em particular e com o ser humano em geral. 

Além de cineasta, Carelli é indianista, responsável pela fundação em 1986, do projeto o Vídeo nas Aldeias, que apoia as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais por meio de recursos audiovisuais. Em 2009, Carelli lançou "Corumbiara", sobre o massacre de índios isolados em Rondônia, primeiro filme de uma trilogia em desenvolvimento que traz seu testemunho de casos emblemáticos vividos em 40 anos de indigenismo no Brasil. "Martírio" é o segundo filme de uma série que se encerrará com a realização de "Adeus, Capitão", em fase de desenvolvimento. 

Esta militância pela causa esclarece porque "Martírio" acaba de constituindo muito mais numa obra que se reveste de uma gigantesca importância histórico-social-antropológica, que propriamente artística e cinematográfica.  

Um filme obrigatório.

*Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do Festival



23/09/2016 13h38

A bela experiência auditiva de 'Nervos de Aço'

É sempre bom ouvir Lupicínio Rodrigues. Ouvir Lupicínio Rodrigues na tela grande de cinema, então, como diz aquela propaganda, não tem preço. No filme "Nervos de Aço", do clássico e veterano Maurice Capovilla, a experiência de ouvir o grande compositor gaúcho, rei da dor-de-cotovelo, é das mais gratificantes. Para contar a sua história, o filme utiliza o recurso da metalinguagem, mostrando um grupo que monta um espetáculo baseado nas músicas do famoso mestre. Como sempre costuma acontecer nesta formulação de roteiro, os personagens apresentam envolvimentos emocionais que encontram paralelos à obra que eles próprios interpretam, causando assim uma área de conflitos e similaridades entre a ficção e a sua representatividade. 

Nervos de Aço. Foto: Divulgação

O diretor do espetáculo que se ensaia na tela é Joel, interpretado por Arrigo Barnabé. Arrigo pode não ser, como de fato não é, um grande ator, mas o fato dele ser músico e cantor ajuda bastante na composição e na credibilidade do personagem. Joel está vivendo um momento de intensa crise amorosa com sua companheira Rosa (Ana Leonardi) que - claro! - também é a estrela de seu show. Eles levam para o palco os problemas de seu relacionamento, e quem conhece um pouquinho da obra de Lupicínio sabe que um triângulo amoroso será inevitável. 

Dramaturgicamente, "Nervos de Aço" pode até ser considerado convencional, nem sempre a direção de atores funciona bem, e há uma certa dose de previsibilidade em seu roteiro. Mas estas falhas são compensadas pelas excelentes performances de Ana Leonardi e da belíssima banda que a acompanha, que inclui o trombonista Matias Capovilla, filho do diretor. Os mais puristas podem até estranhar alguns arranjos mais jazzísticos feitos para a obra de Lupicínio, mas isso faz parte de uma bem-vinda "repaginação" do compositor, onde há espaço até para um questionamento feminista da submissão das personagens femininas das suas letras. 

"Nervos de Aço" é um filme que acaba atingindo a emoção muito mais pelos caminhos auditivos que pelos visuais. 



21/09/2016 13h19

Novo 'Sete homens e um destino' repagina seus antecessores com talento
Celso Sabadin

É normal que refilmagens de grandes sucessos causem estranheza e alguns narizes torcidos. Caso, por exemplo, deste novo "Sete Homens e um Destino", remake do homônimo de John Sturges, de 1960, que por sua vez é uma adaptação do magistral "Os Sete Samurais", que Akira Kurosawa dirigiu em 1954.

É compreensível. Neste nosso tempo de intermináveis reciclagens, a refilmagem pode parecer apenas um caça-níqueis dentro de um mercado carente de novas ideias. Felizmente isso não aconteceu com esta nova versão, agora dirigida por Anthony Fuqua (o mesmo de "Dia de Treinamento"), que traz um punhado de bons acertos. O primeiro deles - e o mais visível - é trazer o grande vilão para os nossos tempos. Se nos filmes anteriores a ameaça vinha de um bando de criminosos, nesta refilmagem o mau agora é encarnado por um mega empresário. Nada mais coerente. Um empresário que, por sinal, invade uma igreja armado até os dentes, e prega à população local que ele, enquanto grande capitalista, representa Deus. E quem está contra ele está contra Deus. Raciocínio perfeito para estes tempos neoliberais. Para um bandido, é claro.

Sete homens e um destino. Foto: Divulgação

Outra acertada opção de Fuqua foi pela estética e pela narrativa clássicas, que acabam assim prestando uma homenagem não só ao filme anterior, como também a toda a linhagem de westerns clássicos. Tudo está lá: os grandes planos abertos do deserto, cavalgada ao por do sol, duelo, dublês despencando espetacularmente do alto de suas posições de tiro. Um verdadeiro deleite para os fãs do gênero. A magnífica fotografia do italiano Mauro Fiore (o mesmo de "Avatar") e a ótima trilha sonora assinada a quatro mãos por Simon Franglen e James Horner (em seu último trabalho) garantem o espetáculo audiovisual.

Há também espaço para breves mas interessantes leituras sobre a formação da sociedade norte-americana, toda ela baseada na força bruta, na violência e numa aparentemente infinita intolerância entre os lados que se defrontaram numa Guerra Civil que parece jamais ter terminado. Um povo bélico em suas mais profundas estruturas. Talvez não por acaso, os sobreviventes do sangrento conflito do filme tenham sido - e, atenção, lá vem spoiler - justamente os excluídos, representados pelo índio, pelo latino e pelo negro.

Duas significativas variações em relação aos filmes anteriores mostram como este novo "Sete Homens e Um Destino" se apresenta mais sintonizado com os novos tempos. A primeira é a presença de um papel feminino forte (Emma, vivida por Haley Bennett), elemento crucial nos modernos planos de marketing que já pesquisaram a importância da mulher na decisão de compra de um ingresso de cinema. E a segunda - atenção para novo spoiler - vem da motivação dos personagens. Se nos longas anteriores havia ainda um certo senso humanitário de justiça, através do qual os pistoleiros (ou samurais) compram a briga por se solidarizarem e simpatizarem com os camponeses oprimidos, aqui o gatilho (sem trocadilhos) da ação é a pura e simples vingança. Sim, são novos tempos. Não necessariamente melhores, mas novos.

Tudo isso e mais um elenco afiadíssimo encabeçado por Denzel Washington e com um quase irreconhecível Vincent D´Onofrio cada vez mais parecido com Orson Welles. Enfim, um programão. Estreia quinta, 22/09.



18/09/2016 16h15

'Um Dia Difícil' confirma a força do cinema sul-coreano
Celso Sabadin

Novamente o cinema sul-coreano volta a surpreender. E positivamente. Quase sempre bastante criativo e hábil na difícil tarefa de misturar gêneros, o cinema produzido na Coreia do Sul tem encontrado boa receptividade por parte de um público atento às novidades da tela. "Um Dia Difícil" confirma esta tendência.

Um Dia Difícil. Foto: Divulgação

Lembrando o scorsesiano "Depois de Horas", a trama se inicia armando uma verdadeira noite de pesadelos para o detetive Gun-su: retornando do funeral de sua mãe, ele atropela inadvertidamente um homem em uma rua escura e entra em pânico. No desespero de não ser descoberto, Gun-su acaba escondendo o corpo do atropelado no mesmo caixão de sua mãe, dando início a uma eletrizante mistura de suspense, policial e comédia de humor negro. E isto é só o começo.

"Um Dia Difícil" é apenas o segundo longa do roteirista e diretor Seong-hoon Kim, e já arrebatou um punhado de prêmios e indicações em festivais asiáticos. Seu trabalho anterior (uma comédia com o gigantesco título de "Ae-jeong-gyeol-pil-i doo nam-ja-e-ge mi-chi-neun yeng-hyang", que eu não faço a mínima ideia do que possa significar) foi recebido sem entusiasmo, mas seu próximo trabalho, "O Túnel", promete altas doses de suspense e claustrofobia ao retratar o desespero de um homem preso num túnel desabado.



16/09/2016 16h01

Desculpe o incômodo, mas precisamos falar sobre o Oscar
Celso Sabadin

Baixada (pelo menos um pouco) a poeira da polêmica sobre a escolha do filme brasileiro que irá nos representar no Oscar 2017, creio ser importante deixar claro que, em toda esta história, o Oscar em si é o que menos importa. Se um dia o Brasil ganhar um Oscar de Filme Estrangeiro, beleza, maravilha, palmas para o vencedor. E se jamais ganhar, não há a menor importância, pois o nosso cinema e a nossa cultura são muito mais importantes para nós que a estatueta daquele homem pelado com uma espada na frente.

A questão não é o prêmio, mas a cadeia de ilegitimidades que ele sinaliza. A partir de um governo ilegítimo empossado por um golpe de estado, um ministro da cultura igualmente ilegítimo, com nenhuma identificação com os meios culturais do país, escolheu um Secretário do Audiovisual, claro, consequentemente ilegítimo, que pode até ser "gente boa". Mas, que diabos, minha vó também era gente boa, mas jamais teria condições de comandar a Secretaria do Audiovisual. O Secretário, que já foi Secretário do Turismo, Presidente do Sport Club Recife, e cuja atuação na área da cinematografia se restringe a comandar um evento anual na área, começou a compor uma comissão de escolha do filme brasileiro concorrente ao Oscar de maneira, igualmente, ilegítima (pelo menos há coerência: é tudo ilegítimo). Alguns membros escolhidos para esta comissão, ao perceberem o tamanho da encrenca em que estavam começando a se meter, sabiamente se retiraram. Outros, talvez não atentando à gravidade da situação, optaram por permanecer. Alguns filmes previamente concorrentes também notaram o imbróglio e retiraram suas candidaturas.

O resultado não poderia ser diferente: ilegítimo. Não é o caso de defender este ou aquele filme, de atacar outros, nada disso. A grande questão é que estamos enviando para uma premiação internacional um produto audiovisual sem a menor legitimidade do nosso povo, da nossa democracia, da nossa cultura, posto que foi escolhido por uma comissão ilegítima, formada por uma Secretaria ilegítima vinda de um Ministério ilegítimo formado por indicação de um presidente golpista.

Nós, que sempre lutamos contra o filme pirata, temos agora uma Secretaria do Audiovisual pirata, escolhida por um ministério pirata de um governo pirata. Pirata no sentido de ilegal, mesmo. Bucaneiro.

Tudo bem, é só o Oscar. Verdade. Mas é só o Oscar, hoje. Toda este rede de ilegitimidades , com Oscar ou sem, continua comandando diariamente os rumos e as políticas da cultura brasileira, fazendo opções que não têm o aval do voto. Tudo isso é muito grave, com consequências inimagináveis para o futuro do país.

É importante lembrar que a ilegitimidade do golpe de 1964 durou 21 anos, mas atrasou nossa cultura e nossa educação em séculos. Esta é uma característica muito forte da ilegitimidade: o tempo da terra arrasada é muitas vezes maior que o tempo da praga em si.

Se continuarmos apenas a ser indignados virtuais, protegidos pelo conforto dos nossos computadores, sem lutas mais efetivas, teremos de nos esconder envergonhados dos nossos filhos e netos quando, no futuro, eles nos perguntarem o que fizemos para combater tudo isso.



07/09/2016 08h50

'Viva a França!'. E o cinemão clássico e classudo

Golpe baixo! Em plena Segunda Guerra Mundial, em meio ao caos de 8 milhões de franceses fugindo da ocupação nazista, um pai procura o seu filho perdido ao som da trilha sonora de Ennio Morricone. Ou seja: tem como não inundar o cinema de tanto chorar? Pois prepare seus lenços. "Viva a França!" é assumidamente um drama de guerra feito para fazer o público se debulhar em lágrimas. E é extremamente competente nisso.

Viva a França. Foto: Divulgação

O diretor Christian Carion tem uma trajetória inusitada. Cinéfilo desde a infância, mas engenheiro por formação, ele iniciou sua carreira de diretor de cinema com quase 40 anos de idade. E não fez feio. O seu primeiro longa, "Encontro Inesperado" (2001), foi bem recebido, obtendo até uma indicação ao César. Em seguida, dirigiu "Feliz Natal", sobre um caso real acontecido na I Grande Guerra. O filme colecionou várias premiações nacionais e internacionais, incluindo uma indicação ao Oscar de produção estrangeira. 

Em "Viva a França!", Carion repete o tema das Guerras Mundiais e destila novamente seu estilo eminentemente clássico e sentimental. Mas não de melodramaticidade exacerbada ou excessivamente lacrimosa, como o início deste texto pode fazer crer. Mas sim de um delicioso formalismo nostálgico, estilo anos 40, que relembra com muito vigor e talento uma época na qual usar as ferramentas do cinema para manipular emoções ainda não era considerado esteticamente incorreto. Este é um dos grandes trunfos deste engenheiro-cineasta que, assim como o bom e velho Claude Lelouch, também não tem medo de emocionar. 

Ainda que ancorado na busca de um pai pelo seu filho, o roteiro de "Viva a França!" desenvolve com consistência e desenvoltura várias situações e subtramas emolduradas pelas desesperadoras incertezas trazidas pela Guerra. A dor de largar tudo para trás, o medo e o desconhecimento do que virá, a sensação que aquele dia vivido poderá ser o último. Num mundo onde nada mais é seguro e tudo se torna transitório, só resta manter a dignidade da esperança nos valores que nos fazem sentir minimamente humanos. 

É marcante ainda a maneira pela qual o tema dos refugiados, tão presente na época da Segunda Guerra, reveste-se agora de uma lamentável contemporaneidade reversa, onde os exilados humilhados de ontem se tornam vingativamente os opressores de hoje.

Tudo isso regado à trilha sempre magistral de Morricone faz de "Viva a França!", uma experiência a ser desfrutada como aqueles antigos vinhos, cujo sabor de passado só melhora com o tempo.  

A estreia é quinta, 8 de setembro.



06/09/2016 10h12

Mel Gibson ataca de old max em 'Herança de Sangue'
Celso Sabadin

Relegado a segundo plano pela indústria hollywoodiana após algumas escolhas duvidosas, e principalmente por ter se indisposto contra a comunidade judaica no filme "A Paixão de Cristo", Mel Gibson consegue agora na França uma nova oportunidade de protagonismo. Desde "Plano de Fuga", há quatro anos, Gibson não vivia um personagem principal. Na produção francesa (falada em inglês e pensada para exportação) "Herança de Sangue", ele interpreta Link, um ex-presidiário em liberdade condicional disposto a viver a vida longe de confusões. Até o dia em que sua filha Lydia (Erin Moriarty) lhe procura, encrencada até o pescoço com a criminalidade. O paizão vai ter de voltar à ativa.

Herança de Sangue. Foto: Divulgação

Baseado no livro do norte-americano Peter Craig (um dos roteiristas de "Jogos Vorazes"), e dirigido pelo parisiense Jean-Françoise Richet (o mesmo da refilmagem de "13ª Delegacia"), "Herança de Sangue" situa-se no confortável e seguro patamar do "mais do mesmo", cumprindo apenas sua função de mero entretenimento comercial para um dia de chuva. Destaque apenas para uma cena de perseguição na estrada onde o diretor homenageia o antigo "Mad Max" (também estrelado por Gibson) e pela habilidade do roteiro em conseguir encaixar alguns momentos de bom humor dentro de uma temática tão violenta. Mero passatempo.

O filme estreia nesta quinta-feira (8).