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Celso Sabadin

Celso Sabadin

CINEMA. Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



04/09/2016 11h33

Gramado 2016 termina como começou: Ao som de 'Fora Temer'
Celso Sabadin

Foram entregues na noite deste sábado (3) os nada menos que 38 prêmios (ufa!) do 44º Festival de Cinema de Gramado. O grande vencedor foi "Barata Ribeiro, 716", com quatro Kikitos, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, para Domingos Oliveira.

"O Roubo da Taça" também levou quatro prêmios, incluindo um mais que discutível Kikito de Melhor Ator para Paulo Tiefenthaler, que repete no filme o mesmo humor histriônico que o consagrou na TV.

A Melhor Atriz foi Andréia Horta, a maior favorita do Festival, que interpretou o papel título de "Elis". O longa também foi o melhor filme na opinião dos espectadores, que deram notas a todos os concorrentes ao final de cada sessão.

Já o júri da crítica optou por "O Silêncio do Céu", de Marco Dutra, filme que também ganhou o Prêmio Especial do Júri, "pelo domínio da construção narrativa e da linguagem cinematográfica". Certamente o Júri não se importou com a linguagem radiofônica do filme, com suas cansativas, intermináveis e anticinematográficas narrações em off, mas é inegável que o longa tem, sim, suas qualidades, muito mais de direção que de roteiro.

Entre os estrangeiros, os Kikitos ficaram divididos entre a procução paraguaia "Guaraní", de Luis Zorraquín, e a chilena "Sin Norte", de Fernando Lavanderos, que levou como Melhor Diretor. Foram quatro prêmios para o primeiro - incluindo o de Melhor Ator para Emilio Barreto - e três para o segundo. A Melhor Atriz do festival foi a uruguaia Verónica Perrotta, que atua, dirige e roteiriza "Las Toninas van al Este".

O Júri ainda concedeu um Prêmio Especial para o longa-metragem "Esteros", de Papu Curotto, pela direção delicada e inteligente da história de amor dos atores mirins. Esta foi provavelmente a maior pisada na bola do Júri, ao premiar esta obra extremamente enfadonha, cansativa, arrastada e de uma previsibilidade juvenil.

"Rosinha" foi eleito o Melhor Filme entre os curtas-metragens, e Felipe Saleme ("Aqueles Cinco Segundos") foi o Melhor Diretor.

Ao final da premiação, a tradicional foto que reúne todos os vencedores no palco do Palácio do Festival teve um sabor especial de luta pela Democracia, com incessantes manifestações contrárias ao golpe de estado que se instalou no país.

Festival de Gramado 2016. Foto: Celso Sabadin

Confira os vencedores: 

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: "Barata Ribeiro, 716", de Domingos Oliveira

Melhor Direção: Domingos Oliveira ("Barata Ribeiro, 716")

Melhor Atriz: Andréia Horta ("Elis")

Melhor Ator: Paulo Tiefenthaler ("O Roubo da Taça")

Melhor Atriz Coadjuvante: Glauce Guima ("Barata Ribeiro, 716")

Melhor Ator Coadjuvante: Bruno Kott ("El Mate")

Melhor Roteiro: Lucas Silvestre e Caíto Ortiz ("O Roubo da Taça")

Melhor Fotografia: Ralph Strelow ("O Roubo da Taça")

Melhor Montagem: Tiago Feliciano ("Elis")

Melhor Trilha Musical: Domingos Oliveira ("Barata Ribeiro, 716")

Melhor Direção de Arte: Fábio Goldfarb ("O Roubo da Taça")

Melhor Desenho de Som: Daniel Turini, Fernando Henna, Armando Torres Jr. e Fernando Oliver ("O Silêncio do Céu")

Melhor Filme - Júri Popular: "Elis", de Hugo Prata

Melhor Filme - Júri da Crítica: "O Silêncio do Céu", de Marco Dutra

Prêmio Especial do Júri: "O Silêncio do Céu", pelo domínio da construção narrativa e da linguagem cinematográfica 

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

Melhor Filme: "Guaraní", de Luis Zorraquín

Melhor Direção: Fernando Lavanderos ("Sin Norte")

Melhor Atriz: Verónica Perrotta ("Las Toninas Van al Este")

Melhor Ator: Emilio Barreto ("Guaraní")

Melhor Roteiro: Luis Zorraquín e Simón Franco ("Guaraní")

Melhor Fotografia: Andrés Garcés ("Sin Norte")

Melhor Filme - Júri Popular: "Esteros", de Papu Curotto

Melhor Filme - Júri da Crítica: "Sin Norte", de Fernando Lavanderos

Prêmio Especial do Júri: "Esteros", pela direção delicada e inteligente da história de amor dos atores mirins.

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: "Rosinha", de Gui Campos

Melhor Direção: Felipe Saleme ("Aqueles Cinco Segundos")

Melhor Atriz: Luciana Paes ("Aqueles Cinco Segundos")

Melhor Ator: Allan Souza Lima ("O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico")

Melhor Roteiro: Gui Campos ("Rosinha")

Melhor Fotografia: Bruno Polidoro ("Horas")

Melhor Montagem: André Francioli ("Memória da Pedra")

Melhor Trilha Musical: Kito Siqueira ("Super Oldboy")

Melhor Direção de Arte: Camila Vieira ("Deusa")

Melhor Desenho de Som: Jeferson Mandú ("O Ex-Mágico")

Melhor Filme - Júri Popular: "Super Oldboy", de Eliane Coster

Melhor Filme - Júri da Crítica: "Lúcida", de Fabio Rodrigo e Caroline Neves

Prêmio Especial do Júri: Elke Maravilha ("Super Oldboy") e Maria Alice Vergueiro ("Rosinha"), pela contribuição artística de ambas

Prêmio Aquisição Canal Brasil: "Rosinha", de Gui Campos

 

*Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.


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01/09/2016 13h30

'A Comunidade' investiga os inconciliáveis limites entre o indivíduo e o coletivo
Celso Sabadin

Viver em comunidade. Dividir despesas, teto e responsabilidades. Administrar sentimentos. Tomar decisões em conjunto, democraticamente. Incrível como estes conceitos - tão em moda nos anos 70 - parecem hoje estar a anos luz deste nosso século 21 marcado pela extrema individuação pessoal, onde cada um enfia o nariz no próprio celular sem conseguir perceber o que acontece ao lado. Neste contexto, "A Comunidade", novo longa do dinamarquês Thomas Vinterberg, assume ares de um filme histórico secular ao mostrar uma realidade que pode parecer surreal às novíssimas gerações: o compartilhamento de vidas, não de informações virtuais. 

A Comunidade. Foto: Divulgação

Tudo começa quando o arquiteto Erik (Urich Thomsen) herda uma casa maior que as suas próprias necessidades. Para satisfazer a esposa Anna (Trine Dyrholm, melhor atriz em Berlim), e contra suas convicções, ele aceita transformar o lugar numa comunidade, onde morariam alguns amigos e até desconhecidos, desde que passassem pela aprovação da maioria. Como não poderia deixar de ser, aos poucos começam a aflorar os incontornáveis conflitos entre necessidades individuais e coletivas. A casa acaba se transformando num microcosmos da própria sociedade, com seus líderes, liderados, tensões, paixões, conformismos e sentimentos sufocados. 

Coproduzido por Dinamarca, Suécia e Holanda, o filme levanta as eternas e infindáveis questões sobre os limites da convivência humana, e das nossas necessidades gregárias eternamente em conflito com as aspirações individuais. Uma equação aparentemente sem resolução e que desconhece fronteiras etárias, culturais, ou geográficas. 

Depois de participar daquela infeliz jogada de marketing chamada Dogma 95, Vinterberg tem demonstrado ser um cineasta de vários recursos, como pode ser comprovado em "Queria Wendy", "A Caça" e agora neste notável e perturbador "A Comunidade".

A estreia é nesta quinta, 1º de setembro.



31/08/2016 13h01

Gramado 2016: A poética resistência cultural de 'Guaraní'
Celso Sabadin*

A inexorável justiça da História é implacável. Ela julga e cobra, ainda que muitas vezes se atrase. Ontem, no palco do 44º Festival de Cinema de Gramado, foi a vez de nós, brasileiros, passarmos por um breve - mas pungente - momento de constrangimento histórico. Ao anunciar seu filme "Guaraní" (assim mesmo, com acento), o diretor Luis Zorraquín falou sobre a Guerra do Paraguai, "onde 70% da população masculina daquele país foi aniquilada por brasileiros e argentinos, no que podemos chamar de genocídio", afirmou. "E como podemos lidar com isso? Com amor, como mostra o filme", completa o cineasta, para o nosso envergonhamento histórico. Apenas mais um deles, diga-se. 

Guaraní. Foto: Divulgação

 

Falando assim, pode-se até pensar que "Guaraní" seja um épico bélico sobre o tema. Não é. Pelo contrário, trata-se de um road movie intimista onde um velho pescador paraguaio e sua neta  Iara (respectivamente Emílio Barreto e Jazmin Bogarin, ambos estreantes em longas) se deslocam de uma isolada vila no interior do Paraguai até a movimentada Buenos Aires. Como é cânone neste subgênero, a viagem trará surpresas e transformações nesta conflituosa relação familiar. 

Em grande parte falado no idioma de seu título, "Guaraní" é um pequeno e singelo poema sobre resistências, minorias étnicas e culturas subjulgadas. "O sangue não tem culpa que os países se dividiram", diz um dos personagens, num roteiro que mostra a desolação de uma nação que deixou nas trincheiras a maior parte de sua força de trabalho, e que até hoje sofre as consequências da barbárie. 

 

Coproduzido por Paraguai e Argentina, o filme apresenta uma fluidez bela e sensível, que se coaduna com o ritmo das águas do rio que transporta os protagonistas, que envolve lenta e afetuosamente ao som do idioma Guarani, um dos últimos pontos de resistência de toda uma cultura à beira da extinção.

O longa não tem exibição prevista para o Brasil: fica a dica para exibidores brasileiros mais sensíveis.  

*Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.



29/08/2016 10h37

Gramado 2016: 'Elis' é pura fascinação
Celso Sabadin*

Fazer cinebiografia não é fácil. Envolve centenas de desafios, desde os mais técnicos como reconstituição de época, até os mais intangíveis, como a presença do cinebiografado no imaginário de cada um. Quando o personagem escolhido é de grande apelo popular, e viveu numa época relativamente recente, tais desafios parecem que se potencializam: todo mundo quer dar palpite na obra pronta, todos viram críticos, todos reclamam de uma coisa ou outra que o filme teve ou que deixou de ter.

Cinebiografia Elis. Foto: Divulgação

Assim, a cinebiografia "Elis" torna-se ainda mais merecedora de todos os elogios que virão: ela supera seus desafios intrínsecos com louvor e se caracteriza firmemente como uma preciosidade. Roteiro, fotografia, dramaturgia, ritmo, trilha sonora, reconstituição de época e - principalmente - a escolha da atriz para o papel título, tudo funcionou no filme de Hugo Prata, estreante em longas. 

A opção é pelo tradicional. O roteiro - escrito a dez mãos por Luiz Bolognesi, Nelson Motta, Patrícia Andrade, Vera Egito e Hugo Prata - opta pela narrativa clássica e cronológica tão cara às convencionais cinebiografias norte-americanas que tanto já nos acostumamos a ver. Trata-se de um estilo que pode desagradar os apreciadores de um cinema mais ousado, mas que certamente fala mais de perto ao grande público. Esta falta de ousadia não chega a se configurar em problema para "Elis", que acaba se alicerçando firmemente na figura da protagonista, que esbanja força e vitalidade suficientes para segurar todo o filme. Com direito a gostinho de quero mais.

Ainda que episódico, "Elis" tem, no mínimo, dois grandes méritos. O primeiro e o mais evidente é a maneira como Andréia Horta (de "Muita Calma Nesta Hora" 1 e 2) interpretou Elis. Aliás, "interpretou" talvez não seja a palavra mais apropriada. Elis "reencarnou" em Andréia. Gestos, risos, postura de corpo e até o timbre de voz da cantora ao falar são reproduzidos na tela com um realismo impressionante que chega a estarrecer quem teve a sorte de viver nos anos em que a "Pimentinha" era presença constante na mídia. O segundo mérito é a força de um roteiro que conseguiu escapar de um erro dos mais recorrentes de muitas cinebiografias: o de endeusar o cinebiografado, de colocá-lo num pedestal quase religioso, descolando-o das realidades de sua época e vesti-lo com um manto sagrado. Aqui, vemos uma Elis humana, que vive, sonha e sofre com suas hesitações, assim como todos nós. Uma pessoa comum com uma voz incomum que é ao mesmo tempo sua bênção e sua maldição.

A maneira como o roteiro trata a questão das pressões que Elis sofreu dos militares, como ela lidou com isso, seus medos, as retaliações, e o consequente relacionamento com o cartunista Henfil, desembocando no clássico "O Bêbado e o Equilibrista" é o ponto alto do filme. Tudo muito humano, crível, sem simplificações maniqueístas e de uma dignidade ímpar. 

E um destaque final digno de aplausos. "Elis" consegue ser um filme ao mesmo tempo histórico, emotivo e importante, sem recorrer a duas das mais aborrecidas ferramentas cinematográficas aos quais muitas vezes as cinebiografias se rendem: a insuportável narração em off, e os infantis letreiros que fazem questão de escrever, na tela, o ano e o local onde as coisas acontecem. Que alívio!

*Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Festival



27/08/2016 11h54

Imprescindível e urgente, 'Aquarius' é ovacionado em Gramado
Celso Sabadin, de Gramado

Assim como já havia acontecido em "O Som ao Redor", o trabalho anterior de Mendonça, "Aquarius" também abre com imagens do passado. No caso, fotos em preto e branco da orla do Recife num tempo no qual a especulação imobiliária ainda não havia destruído parte da cidade. Tudo ao som da música "Hoje", de Taiguara, um forte ícone musical dos anos 70.   

Aquarius. Foto: Divulgação

Assim como já havia acontecido em "O Som ao Redor", "Aquarius" começa envolvendo o espectador lentamente, aos poucos, sem sinalizar os caminhos que percorrerá, misturando aqui e ali pistas falsas e verdadeiras do que será abordado, e talhando uma nunca menos que magnífica construção de seus fascinantes personagens. Paulatinamente vamos conhecendo Clara, mulher forte que transita com desenvoltura entre o passado e o presente. Que curte com a mesma intensidade tanto as descobertas musicais que o sobrinho lhe disponibiliza em formato digital, como sua invejável coleção de LPs em vinil. Muito bem resolvida, Clara exibe invejáveis equilíbrio emocional e beleza física de quem soube passar pelo tempo com sabedoria. Como ela própria diz, diante de uma grande contrariedade, ela pode até "ficar puta; mas estressados ficam vocês". Direta e honesta, a protagonista levanta a bandeira da cristalinidade que seu próprio nome representa. Será justamente contra ela que se posicionarão as metralhadoras giratórias da ganância, do poder econômico e da livre concorrência. Como se fosse um edifício antigo e ultrapassado, Clara também precisa ser demolida, pois representa uma ética que não encontra mais lugar nos novos tempos do Deus dinheiro. E estorva os caminhos dos novos donos do poder.

Assim como já havia acontecido em "O Som ao Redor", "Aquarius" tem uma direção hipnótica, recheada de detalhes, olhares, inflexões de vozes que conquistam o espectador que, quando menos espera, se vê atrapado até o pescoço na trama proposta. Bem dosados, alguns enquadramentos, movimentações de câmera e inserts de imagem pouco usuais tiram o público de sua zona de conforto sem nunca correr o risco de cair em maneirismos gratuitos. O filme ainda arrebata com um final catárquico que aqui em Gramado rendeu longos minutos de aplausos entusiasmados. E merecidos. 

Novamente, Mendonça cria outra obra imprescindível para a filmografia brasileira, discutindo com criatividade temas urgentes da nossa sociedade divida. Assim como já havia acontecido em "O Som ao Redor".

*Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Festival.


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20/08/2016 18h07

'Lampião da Esquina' documenta importante momento social brasileiro
Celso Sabadin

Depois de "Dzi Croquettes" e "São Paulo em Hi-Fi", a cena gay brasileira dos anos 60, 70 e 80 ganha mais um ótimo documentário: "Lampião da Esquina". Dirigido por Lívia Perez, o filme conta a importante história de pioneirismo e resistência do jornal Lampião, primeira publicação brasileira a abordar temas referentes à homossexualidade. Criado por jornalistas e intelectuais de São Paulo e Rio, o Lampião destilava bom humor e descontração através de uma linguagem franca e aberta que não se furtava em utilizar termos populares em busca de um público mais amplo. Como diz um dos próprios depoentes do filme, "Você já ouviu alguém dizer que fez uma gayzagem? Ninguém faz gayzagem, faz viadagem mesmo". O Lampião era assim, uma publicação de cunho alternativo (na época se dizia "imprensa nanica") que tinha como objetivo a comunicação com os homossexuais "tanto da Pavuna como de Copacabana?", como afirma outro depoente. 

"A volta do esquadrão mata-bicha", "Repressão: essa ninguém transa", "Louca e muito da baratinada" e "Fortíssimo babado" eram algumas das manchetes publicadas no periódico, que não apenas celebrava a cultura homossexual, como também denunciava crimes de ódio contra gays, mulheres, negros e índios.  Dizendo-se ou tentando ser apolítico, o jornal causou polêmica denunciando tanto a truculência da direita como o machismo dentro da esquerda. Comprou briga aberta com delegados da repressão da época, como também publicou declarações do então líder sindical Luís Inácio Lula da Silva afirmando que "feminismo é coisa de gente que não tem o que fazer" e que homossexualidade na classe operária era algo que ele "não conhecia".

Lampião da Esquina. Foto: Divulgação

Entre os depoentes estão Aguinaldo Silva, Ney Matogrosso, João Silvério Trevisan, Luiz Carlos Lacerda (o Bigode), Glauco Mattoso, Celso Curi, Antônio Carlos Moreira, Laerte, Peter Fry, João Carlos Rodrigues, Dolores Rodrigues, Leci Brandão, e Winston Leyland, editor do Gay Sunshine, publicação californiana pioneira no mundo que influenciou Lampião. 

Mais do que documentar um veículo de comunicação, "Lampião da Esquina" revisita o Brasil dos anos 70 e 80, rediscutindo alguns conceitos de liberdade e democracia que tão tristemente voltam à pauta de hoje, travestidos de cores que pensávamos estar enterradas no passado.

O lançamento é exclusivo do CineSesc em São Paulo.



19/08/2016 10h45

'Funcionário do Mês' e a incrível trajetória de uma gigantesca bilheteria
Celso Sabadin

A comédia "Funcionário do Mês" chega ao circuito brasileiro com o aval de ser a maior bilheteria de um filme italiano na história do cinema daquele país. Todo cuidado é pouco. Afinal, sucesso de público - tanto lá como cá - está longe de ser sinal de qualidade cinematográfica. Leandro Hassun que o diga. Isso não significa necessariamente que "Funcionário do Mês" seja ruim, mas tampouco deve se ir com sede ao pote que ele oferece. Expectativas exageradas poderão frustrar seu programa. 

Funcionário do Mês. Foto: Divulgação

Tudo gira em torno de Checco (Checco Zalone) uma espécie de caricatura (ou seria realidade?) daquilo que se convencionou chamar de italiano típico: quase quarentão, solteirão, mora com os pais, e amparado pela tranquilidade de um estável emprego público. Tudo começa a ruir, porém, quando uma reforma política ameaça sua estabilidade profissional, e Checco passa a sofrer sucessivas transferências no trabalho, na obsessão de tentar manter sua tão querida dolce vita.  

O rapaz terá de "rever seus conceitos", como dizia a propaganda daquela montadora italiana de automóveis, e será justamente sobre esta revisão de estilo de vida que o roteiro busca suas gags. Ao tomar contato com outras formas de cultura, o protagonista percebe as limitações dos horizontes sobre os quais alicerçou a mediocridade de sua trajetória, e é neste viés que o filme traz vários pontos de intersecção com a maneira brasileira de ver o mundo, até em função das inúmeras similaridades das nossas culturas latinas. 

Mas calma aí: tudo isso lembrando que acima de tudo "Funcionário do Mês" é uma comédia feita para se comunicar com o maior público possível, com todas as concessões mercadológicas que este conceito implica. 

A dupla formada pelo ator Checco Zalone e pelo roteirista e diretor Gennaro Nunziante é um fenômeno de público local. Em 2011, com "Che Bella Gornatta" (inédito no Brasil), eles quebraram o recorde de maior bilheteria de uma produção italiana dentro da própria Itália, que pertencia ao premiado "A Vida é Bela" desde 1997. Dois anos depois, com "Sole a Catinelli" (também inédito por aqui) eles quebraram seu próprio recorde. E agora, em 2016, Zalone e Nunziate chegam novamente ao topo da tabela, faturando com "Funcionário do Mês" invejáveis 65 milhões de euros. No momento, as três maiores bilheterias domésticas do mercado italiano em todos os tempos levam a assinatura da dupla. 

Interessante notar que todo este sucesso teve início em 2006, quando Zalone, como cantor, lançou no mercado uma despretensiosa canção de temática futebolística chamada "Siamo uma squadra fortissimi", que acabou se transformando num grande sucesso nacional exatamente naquele ano em que a Itália venceu a Copa do Mundo. 

Avnti, azzurra!



18/08/2016 10h03

'Ben-Hur': Pra quê?
Celso Sabadin

Desde que li as primeiras informações sobre esta refilmagem de Ben-Hur, uma pergunta não sai da minha cabeça: por quê? Fui conferir o filme atormentado por esta questão, e ao final da projeção, adivinhem: ela continuou na minha cabeça, agora mais forte ainda. Por que e para que refilmar novamente tamanho clássico?

Ben-Hur. Foto: Divulgação

 

Cinematograficamente falando, não há nada nesta terceira versão (só lembrando que a primeira é de 1925 e a segunda é de 1959, sem contar um curta de 1907 e uma minissérie de 2010) que justifique a ida ao cinema. Temos aqui uma narrativa desgastada e burocrática, quase televisiva, que não consegue provocar sequer uma mínima percentagem do envolvimento das versões anteriores. E com um elenco absolutamente carente de carisma, encabeçado pelos ingleses Jack Huston (no papel título) e Tony Kebell (como Messala). São 140 minutos desprovidos de criatividade que demoram muito mais a passar que os mais de 200 da versão de 1959. 

O "por quê?" continuava a martelar minha cabeça. 

Até o momento em que, na saída da sessão de imprensa, recebo um material promocional me informando que não apenas o filme foi refeito, como também o livro original escrito por Lew Wallace, em 1880, estava ganhando um "remake", escrito pela sua trineta, a partir do novo filme, e adaptando a linguagem para o público de hoje. Ou seja, o livro que gerara os filmes gera agora um novo filme que, por sua vez, gera um novo livro. Percebi finalmente que este novo "Ben-Hur" não é exatamente um filme, mas apenas mais uma pecinha nesta gigantesca engrenagem da cultura pop que tudo mastiga, tudo vomita e tudo recicla em nome de se fazer algumas montanhas de dinheiro em cima de marcas já consagradas. Para os fãs de cinema (e aproveitando o clima da história), uma heresia. 

Quanto ao nosso Rodrigo Santoro vivendo o papel de Jesus, sem trocadilhos, ele não poderia fazer milagre dentro de um projeto tão insosso. Até dá conta do recado, mas alguém precisaria administrar melhor a carreira dele. 

E, para finalizar - e lá vem spoiler -, no final do filme, Ben-Hur e Messala fazem as pazes e viram amigos para sempre. Precisava? 



07/08/2016 13h00

Coproduzido por 5 países, 'Negócio das Arábias' critica a globalização
Celso Sabadin

Num cinema dominado por protagonistas (heróis, super heróis, vilões) adolescentes e pré-adolescentes, não deixa de ser bem-vindo um filme sobre um personagem sessentão. Ele é Alan (Tom Hanks, mais careteiro do que nunca), um executivo que perdeu seu trabalho por causa da concorrência chinesa, e que se vê obrigado a encarar uma oportunidade de negócios na Arábia Saudita para garantir sua sobrevivência financeira. 

Negócio das Arábias. Foto: Divulgação

Mas se o país, com todas as suas idiossincrasias culturais, já não é nada fácil para jovens executivos bombados e motivados, que dirá para um homem de meia idade repleto de problemas pessoais para resolver.   

Na verdade, a maior parte do filme foi rodada em Marrocos e no Egito, não na Arábia Saudita, mas esta licença poética não é importante; faz parte da magia do cinema. Interessante mesmo é verificar como o diretor alemão Tom Tykwer (o mesmo de "Corra, Lola, Corra") utiliza a grandiosidade seca das paisagens desérticas como metáfora da aridez emocional da vida de Alan. Com dificuldades em se relacionar com o próprio pai, e ameaçado pela ex-esposa de perder a casa, Alan tem apenas na filha o vislumbre de um pequeno oásis emocional. Enquanto isso, o tempo corre, e muito. Os espaços gigantescos do lugar se tornam cada vez mais difíceis de serem percorridos, o corpo não responde satisfatoriamente aos problemas de fuso horário, o patrão pressiona, e a ortodoxia dos costumes locais não ajuda em nada. Alan está à beira de um ataque de nervos, e sem poder tirar do rosto o falso sorriso de vendedor bem sucedido. 

A partir do livro "Um Holograma para o Rei", de Dave Eggers, "Negócio das Arábias" (título que erroneamente sugere uma comédia) estreou nesta quinta, 4 de agosto. Coproduzido por Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos e México, o filme é uma crítica aos efeitos da globalização. Ironia pouca é bobagem.



04/08/2016 12h08

'Os cavaleiros brancos' e o eterno colonialismo europeu
Celso Sabadin

Chegar, invadir, mentir, tomar, dominar. A mentalidade colonialista que há séculos extermina culturas parece não ter fim. A produção franco-belga "Os Cavaleiros Brancos" reatualiza o eterno tema, agora sob o ponto de vista do recente caso "Arco de Zoé", acontecido em 2007.

Os Cavaleiros Brancos. Foto: Divulgação

Quanto menos se souber sobre a história do filme antes de vê-lo, melhor. Mesmo porque o ótimo roteiro escrito a seis mãos (e baseado no livro "Nicolas Sarkozy Dans l´Avion? Les Zozos de la Françafrique") desvenda a trama aos poucos, tira o espectador de sua zona de conforto e o envolve paulatinamente até o final que não deixa de causar indignação, por mais que provavelmente seja conhecido. 

A escolha do ótimo Vincent Lindon (de "O Preço de um Homem") para o papel principal, logo ele geralmente escalado para viver personagens repletos de dignidade, foi uma estratégia inteligente e importante para potencializar este viés. 

O que se pode dizer sem estragar surpresas é que tudo começa com a chegada do grupo humanitário francês "Move for Kids" numa região inóspita e profundamente carente da África. Ali, os sempre beneméritos europeus desenvolvem um programa para tirar centenas de crianças da fome e da miséria para lhes dar um futuro digno. Ou talvez não. 

Um dos maiores méritos de "Os Cavaleiros Brancos" é evitar que tudo caia na fácil armadilha da simplificação maniqueísta. Sem a preocupação de construir heróis nem vilões, o filme simplesmente mostra, sem nenhum tipo de julgamento hipócrita, a maneira como a mentalidade colonialista europeia sobre a África é um traço cultural dos mais arraigados. Que parece que jamais vai terminar.

A direção é do belga Joachim LaFosse, o mesmo de "Propriedade Privada", premiado como o melhor diretor no Festival de San Sebastian. A estreia é nesta quinta, 4 de agosto.



01/08/2016 10h31

'O bom gigante amigo': um Spielberg mais reflexivo
Celso Sabadin

Muito se apressou em detonar "O Bom Gigante Amigo", o mais recente trabalho de direção de Steven Spielberg. As primeiras e imediatas opiniões foram no sentido do filme não ter ritmo, de ser excessivamente longo (117 minutos), de ter pouca aventura e até de ser sonolento. Eu mesmo saí do cinema com a incômoda sensação dele ter terminado antes mesmo de ter começado.

Porém, acredito que o "O Bom Gigante Amigo" merece uma leitura menos imediatista. Mesmo porque, se antigamente Raul Seixas condenava "a velha opinião formada sobre tudo", nos nossos novos tempos esta tal opinião precisa ser formada imediatamente, em tempo recorde, sem pausas para reflexão (há até assessores de imprensa que cobram dos jornalistas opiniões rápidas e curtas logo após o término da sessão, o que é extremamente desconfortável).

O Bom Gigante Amigo. Foto: Divulgação

Refletindo com mais vagar (o mesmo vagar do filme), talvez Spielberg esteja realmente propondo um novo ritmo. Talvez o próprio cineasta, o grande mago das aventuras infanto-juvenis durante mais de três décadas, esteja ele próprio, prestes a completar 70 anos no próximo mês de dezembro, cansado da velocidade estonteante (e não pensante) que o cinema vem propondo desde a era do videoclipe, iniciada no final dos anos 70.

O fato é que temos aqui um Spielberg diferenciado, que busca o público infantil desta vez sem bicicletas voadoras, mas com uma lenta e segura sedução narrativa que encanta sem pressa. Afinal, trata-se de um filme sobre um gigante, um ser enorme e envelhecido de movimentos lentos, que foge de seus inimigos não com velocidade, mas com a sabedoria da camuflagem, do se fazer esconder. Vale pensar nisso.

"O Bom Gigante Amigo" marca o último roteiro de Melissa Mathison, a mesma de "E.T.", falecida em 2015. A inspiração foi o livro de Roald Dahl, o mesmo escritor cujos livros originaram "Os Gremlins" e "A Fantástica Fábrica de Chocolate", entre outros.



28/07/2016 11h33

'Jason Bourne' não diz a que veio
Celso Sabadin

Identidade, Legado, Ultimato, Supremacia... são tantos os títulos para a franquia Bourne que o quinto longa da série preferiu simplificar e chega aos cinemas somente com o nome do protagonista: "Jason Bourne". Podia ser "Jason Reborn", pois é incontável o número de vezes que o heroi "quase" é pego, ou "quase" morre, ou se finge de morto. 

Jason Bourne. Foto: Divulgação

Não deixa de ser curioso também o fato dele se chamar Jason, já que na mitologia grega, Jasão foi um príncipe deposto do trono paterno pelo seu próprio tio, Pélias, que temia ser morto pelo sobrinho. Pélias, porém, deu uma chance a Jasão: o trono lhe seria restituído se ele conseguisse cumprir a missão, tida como impossível, de buscar uma vestimenta de ouro num lugar distante. Jasão, construiu, então uma embarcação, com a qual se meteu numa série infindável de viagens aventureiras e tarefas heroicas em busca da tal vestimenta e a consequente restituição de sua coroa de príncipe.

Não que tenha muito a ver com o roteiro do filme, mas há semelhanças com missões difíceis de serem cumpridas e no temor de Pélias em ser morto por alguém da família, da mesma forma que a CIA morre de medo de ser destruída pelo seu ex-agente que, afinal, foi da "família". Família, aliás, que volta a ser tema nesta quinto episódio, onde o pai de Jason terá importância fundamental.

Mas fora toda esta subtrama mitológica típica de crítico de cinema que adora viajar nos mais diversos sabores de maionese, "Jason Bourne" não traz muitas novidades. Pensando mais profundamente, ele pouco diz a que veio. Mesmo com a direção sempre eletrizante e a câmera documental (cuidado, pode provocar enjoos) de Paul Greengrass, mesmo com a presença sempre bem-vinda de Tommy Lee Jones, o filme não consegue esconder a mesmice de seu roteiro e o seu chover no molhado. Sim, tudo o que se espera de um produto desta franquia está lá, incluindo as belas locações pela Europa, as fugas espetaculares, as traições e contra-traições da turma da CIA e tudo mais. Mas é indisfarçável a sensação de mais do mesmo. Principalmente na longa cena final da perseguição de carros pelas ruas de Las Vegas, que soa excessiva e abusa do direito da inverossimilhança cinematográfica. 

14 anos depois do primeiro filme, a franquia Bourne dá claros sinais de cansaço. A estreia é nesta quinta-feira, 28 de julho.



28/07/2016 10h04

A saga de 'Nahid - Amor e Liberdade' num Irã machista
Celso Sabadin

Se para uma mulher divorciada, com um filho adolescente rebelde e um ex-marido viciado, ganhar a vida e administrar os problemas do dia-a-dia já é tarefa das mais árduas em qualquer canto do mundo, imagine então num país de forte tradição machista. Este é o mote de "Nahid - Amor e Liberdade", vencedor do Prêmio do Futuro, na mostra Un Certain Régard, em Cannes. 

Nahid - Amor e Liberdade. Foto: Divulgação

A produção foi realizada no Irã, país cuja lei manda que, em casos de separação, a guarda do filho seja entregue ao pai. No caso do filme, porém, como o pai (Navid Mohammadzadeh ) tenta se reabilitar das drogas, quem tem a guarda do garoto Amir Reza (Milad Hossein Pour) é a própria Nahid (Sareh Bayat). A vida da protagonista é uma verdadeira gincana: leva o filho nas aulas da escola e do curso que inglês (que ele faz questão de cabular), trabalha freneticamente como digitadora (o que lhe rende uma lesão na mão) e ainda é obrigada a contar com a ajuda da vizinha para entrar no próprio apartamento que aluga, bloqueado pelo proprietário por falta de pagamento. A solução de Nahid pode estar nas mãos de Masoud (Pejman Bazeghi), um homem rico e apaixonado, mas um tanto grosseiro, que lhe promete uma vida de rainha, em troca de casamento. As leis do Irã, porém, não são fáceis para mulheres divorciadas, e a própria Nahid se questiona se o caminho para superar as dificuldades de uma sociedade machista estaria nas mãos de outro homem. 

"Nahid - Amor e Liberdade" faz parte daquela linha de "cinema iraniano que não parece iraniano", ou seja, que busca um pouco mais a estética ocidental e aproxima sua temática dos problemas contemporâneos urbanos, evitando as tendências do filme iraniano artístico, mais reflexivo, intimista, invariavelmente repleto de crianças, desertos e com títulos de uma palavra só. 

Trata-se do segundo longa da diretora e roteirista Ida Panahandeh, após "The Story of Davood and the Dove", de 2011, que não chegou a ser exibido comercialmente no Brasil. O filme também ganhou o prêmio para jovens diretores no Festival de Chicago e foi selecionado para várias competições cinematográficas internacionais. 

Estreia no Brasil nesta quinta-feira, 28 de julho.



27/07/2016 13h16

'De longe te observo' vê de perto a crueldade humana
Celso Sabadin

Coproduzido por Venezuela e México, "De Longe Te Observo" é a primeira obra latino americana a ter vencido o cobiçado Leão de Ouro, prêmio principal do Festival de Cinema de Veneza. Só isto já valeria a olhada. Mas o filme vale ainda mais que a importância de sua própria premiação: trata-se de uma obra intensa sobre vingança, manipulação de sentimentos e os limites da maldade humana. Tudo sob o tempero da violência gerada pela desesperança.

Em "De Longe Te Observo", o roteirista e diretor venezuelano Lorenzo Vigas estreia no longa metragem examinando o intrigante e gradual processo de sedução entre dois protagonistas: Armando (o chileno Alfredo Casto), o mais velho, um aparentemente pacato protético dentário; e Elder (Luis Silva), um jovem marginal da periferia de Caracas. De formas diferentes, ambos foram maltratados pela vida. Armando tem uma relação confltuosa com o pai, que não chegará a ser desvendada pelo filme (nem é importante que seja), mas que será o catalisador de toda a ação. E Elder, fruto de uma sociedade desigual, cresceu aprendendo a utilizar a volência como arma e escudo. 

De longe de observo. Foto: Divulgação

A cruel poética do filme reside em desvendar, camada por camada, o processo maquiavélico pelo qual Armando meticulosamente desmonta as carapaças de Elder para depois transformá-lo em sua própria presa e instrumento de vingança. Impossível não se estarrecer, terminada a projeção,  com os limites - ou a falta deles - da maldade humana.

E como se o tema já não fosse suficientemente perturbador, em determinadas cenas, Vigas ainda se utiliza de equadramentos pouco convencionais, levantando mais do que seria normal a parte posterior do quadro, como que degolando ou sufocando seus personagens.

Com argumento original do mexicano Guillermo Arriaga (o mesmo autor de "Babel", "21 Gramas" e "Amores Brutos") e montagem da brasileira Isabela Monteiro de Castro (de "O Céu de Suely" e "Praia do Futuro"), "De Longe Te Observo" estreia em 28 de julho.



25/07/2016 21h48

A inesgotável e histórica questão racial no vibrante 'Chocolate'
Celso Sabadin

Que medo! Ao final de uma das sessões realizadas para mostrar à imprensa o longa "Chocolate", surge a dúvida durante um bate papo: o filme poderia ser taxado de racista? Nestes chatíssimos tempos onde o politicamente correto parece ter mesmo chegado para ficar, tudo parece possível. Até considerar racista um filme de um diretor de origem árabe que retrata a trajetória verídica de um importante artista negro que fez história na virada do século 19. 

O diretor em questão é Roschdy Zem, francês de família marroquina, mais conhecido dos brasileiros como ator nos filmes "A Garota de Mônaco", "London River" e "Fuga Implacável", entre dezenas de outros. A partir de um roteiro desenvolvido por ele próprio e mais três roteiristas, Zem filmou a história real de Rafael Padilla, um escravo cubano foragido que conseguiu, graças às inúmeras e inacreditáveis volta que o mundo dá, reinventar-se como Chocolate, palhaço que revolucionou as artes circenses na sofisticada Paris do começo do século 20.

Filme Chocolate. Foto: Divulgação

Claramente direcionado ao grande público, "Chocolate" opta por uma narrativa das mais clássicas e tradicionais dentro do subgênero das "cinebiografias". Ainda que totalmente francês, ele traz toda a estética convencional das grandes produções norte-americanas deste estilo, apoiando-se para isso numa vistosa reconstituição de época e numa caprichadíssima produção de orçamento estimado em cerca de US$ 20 milhões, cifra bastante respeitável para o mercado da França.  

O roteiro também é cartesiano. O palhaço Footit (James Thierrée), tentando reverter a forte tendência de queda de sua carreira, tem uma ideia ousada para um novo número: usar um parceiro negro, Chocolate (Omar Sy, de "Intocáveis" e "Samba"), para fazer as vezes de palhaço "Augusto". Explicando: a tradição circense trabalha basicamente com dois tipos de palhaços, o Branco, mais compenetrado e pensador, geralmente vestido roupas e maquiagem claras, e o Augusto, mais libertário, irreverente, colorido e extravagante. O Branco seria a parte racional da dupla, enquanto o Augusto encarna o humor mais escrachado. E é justamente sobre esta dicotomia que o filme trabalha. 

Num primeiro momento, a plateia rejeita a novidade, mas logo se percebe que o público passa a reagir positivamente nos momentos em que Footit agride ou humilha Chocolate. E como no mundo dos espetáculos o que importa é a audiência, imediatamente cria-se na dupla uma relação de dominador/dominado, agressor/agredido, opressor/humilhado - com o negro obviamente sempre no papel submisso - que estoura como um mega sucesso popular. Paga-se cada vez mais para ver o negro apanhar. 

A questão - ou uma das questões - é que Chocolate não tem a menor percepção desta relação nociva. Pelo contrário, até gosta dela, na medida em que ele enriquece com o aplauso popular. 

As questões raciais e/ou preconceituosas que o filme pode eventualmente levantar residem no fato de "Chocolate" não construir seu personagem-título sob a formatação do herói. Pelo contrário, correndo o risco de dar spoiler, recai sobre ele a responsabilidade dos piores momentos da dupla. O que seria absolutamente normal não fosse o patrulhamento politicamente correto que permeia a sociedade atual, sempre disposta a acender luzes inexistentes de alerta.  

De qualquer maneira, relevando-se este aspecto, "Chocolate" trata com desenvoltura do tema da arte como profundo instrumento de transformação, ao mesmo tempo em que abre o viés político-social através de uma progressiva conscientização do protagonista. Uma conscientização, porém, que se por um lado lhe abre as portas de sua liberdade enquanto indivíduo, por outro também lhe mostra os caminhos de uma arrogância que se revelará destrutiva.

Confirmando ainda mais o talento e a versatilidade de Omar Sy, que aqui alterna com bastante eficiência momentos cômicos e dramáticos,"Chocolate" levou cerca de 2 milhões de franceses aos cinemas.  

A estreia no Brasil foi em 21/07.