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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



06/11/2014 00h03

Há trinta anos...
Dicá

Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Foto: Divulgação

Em 1984 nossa "Velha Academia", a Faculdade de Direito do Largo São Francisco foi para a Avenida Tiradentes com todo o esplendor e brilho de sua existência.

A responsável por isso foi a Sociedade Rosas de Ouro, da Brasilândia, e de seu carnavalesco Pedrinho, também autor do enredo.

Segundo Pedrinho, a São Francisco foi escolhida como enredo para o Carnaval de 84 por ser um tema original e por contemplar uma época da história e da literatura brasileira.

Naquele tempo, a história da Rosas de Ouro, era a história de uma escola nova, que em seus poucos anos de vida arrebatou sempre as primeiras colocações, ameaçando anualmente a hegemonia das escolas mais tradicional.

A Roseira foi fundada em 1971, desfilando oficialmente pela primeira vez em 1972 com o enredo "Brasil de ontem e de hoje", com um samba do mestre Toniquinho Batuqueiro.

Passou para o segundo grupo em 1974, após ter vencido 73, e foi campeã novamente com o enredo "Canto e encanto, os quatro cantos".

Depois de 1975, sempre na divisão principal, acumulou boas colocações. Até que em 1983, foi campeã pela primeira vez na elite do samba paulistano com o enredo "Nostalgia".

O Carnaval de 1984

No ano de 1984, o forte da escola, ou seja, onde o carnavalesco colocou toda a sua criatividade e esperança, foi a comissão de frente. Ela veio todinha fantasiada de formandos com uma beca estilizada, uma fantasia da realidade, "para dar o impacto visual necessário", dizia o carnavalesco Pedrinho.

Pavilhão da Sociedade Rosas de Ouro. Foto: Divulgação

A azul e rosa saiu com cerca de quarenta alas, divididas em quatro partes, que contaram a história da Faculdade e de ilustres alunos que por lá passaram.

A ala das baianas e a bateria homenagearam São Francisco.

Atual campeã, a Rosas desfilou sonhando com o bi, fato que se consumou.

Pedrinho, entre fitas, carros alegóricos e muita euforia, explica que deixou sua fantasia criadora para os blocos finais, onde entram as personalidades de D. Pedro I, suas amantes de espartilho, a princesa Isabel e outras que, de alguma forma, estão ligadas à fundação e a vida da Faculdade de Direito.

A garra dos componentes da época, o amadurecimento da escola no Grupo de Elite e a força da Brasilândia, brilharam naquela noite, e o destino nos fez viver um dos maiores desfiles da história da Rosas de Ouro.

Sobre o samba, notem a adequação, a simplicidade e o entendimento entre letra e enredo.

Compositores: Ideval e Zelão

Intérprete: Vino Santana

Lá no largo São Francisco
Bem no centro de cidade
Dia 11 de agosto
Pendura na faculdade

Rosas de Ouro
Para o povo vem mostrar
Há muito tempo
Um convento
Foi se transformar
Em faculdade que formou
Expoentes da nação
Ouro Preto o visconde
Rui Barbosa
Rio Branco o barão

Zingarela
Saudações para os Palmares
Navegando em verdes mares
Vem chegando o rei da vela

Arcadas
O seu nome está presente
Nos deu tantos presidentes
Comandando a nossa terra
Arcadas
Prima em todo movimento
Alerta em todo momento
Na paz e na guerra

Badalar
É movimento e tradições
Badalar
Do sino em nossos corações 

- Ouça o samba da Rosas de Ouro de 1984 

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22/10/2014 00h03

Súplicas...
Dicá

Escrever sobre o Carnaval de São Paulo, principalmente sobre as escolas de samba paulistanas, não é tarefa das mais fáceis. Muito porque grande parte dos que viveram os bastidores que marcaram a história dos desfiles já não estão entre nós.

Brasão da Sociedade Rosas de Ouro. Foto: Arte

Como se trata de uma data histórica para a Sociedade Rosas de Ouro, que comemorou recentemente 43 anos, resolvi falar sobre o desfile de 1979.

Com um belo samba do saudoso poeta Zeca da Casa Verde, desenvolvido através do enredo "Conversando com as flores", a nossa querida Roseira partia para mais um desfile. Lembrando que esse foi nosso último enredo antes da mudança de bairro, da Brasilândia para a Freguesia do É.

Alguns fatos históricos do mundo do samba a gente traz guardado na memória. Mas creio que não é justo não dividirmos com quem não viveu esses momentos ou com quem procura, de certa forma, conhecer o passado para entender o presente.

Os desfiles nesse ano ainda eram na saudosa Avenida Tiradentes. Nessa década, anos setenta, Mocidade, Camisa e Vai-Vai realizaram belíssimos Carnavais, tornando aqueles anos, em que foram campeãs, inesquecíveis.

Embora nossa querida Rosas de Ouro despontasse no Carnaval paulistano com um futuro promissor, esse ano acabamos ficando apenas com o sexto lugar.

Com a mistura da força de sua comunidade e a chegada de experientes sambistas à escola, a Rosas tomou corpo se transformando nos anos vindouros em um "osso duro de roer".

Voltando ao ano de 1979

Em todo Carnaval, as escolas tem fatos marcantes para contar. Neste desfile, a Rosas de Ouro com o "perfume de rosa" que foi exalado durante a apresentação, o samba no pé, a batucada do Catimbó, a evolução e sem dúvida, a organização da escola, merecem destaque.

João Nogueira. Foto: Divulgação

Para nossa surpresa, num belo domingo, nós paulistas tivemos uma grata surpresa ao ver aquele desfile da azul e rosa, em 1979, como fundo musical no lançamento do carioquíssimo "Hino do clube do samba", idealizado pelo saudoso João Nogueira, ao lado de Paulo Cesar Pinheiro e Clara Nunes.

Na época, João Nogueira, nos brindou com sua música "Súplicas", no programa fantástico da Rede Globo, o que nos deu muito orgulho, pois era o Rio de Janeiro reconhecendo o encanto da escola de Vila Brasilândia.

Hoje, passados tantos anos, é possível rever esse vídeo na internet. Ali, foi possível ver a bateria de mestre Valtão, a "Pretada da Brasa", mestre Ivan e sua ala de capoeira, batuqueiros, passistas e pandeiristas.

Entre tantos bambas, destaco Silvana, rainha de bateria, Catatau e Maria Helena, que junto aquele povo maravilhoso da Brasilândia, bordavam com ouro o pavilhão de nossa escola. Não tem como apagar, a história está gravada.

Súplica

Autor: João Nogueira

"O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pra'as trevas
O nome a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte
Venha a mim, oh, música
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Venha a mim, oh, música
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz"



01/10/2014 00h03

1984: o ano em que a Águia de Ouro se preparava para voar mais alto
Dicá

Embora o desfile não tenha sido dos mais felizes, essa é uma história de bastidores...

Bateria da Águia de Ouro. Foto: Acervo da escola

No ano de 1984, era tudo diferente...

A Paulistur organizava o Carnaval de São Paulo, e a Uesp reinava soberana. Não existia a Liga das Escolas de Samba e o desfile era na Tiradentes...

Havia cordas e familiares nas arquibancadas com seus piqueniques carnavalescos!

Dez escolas no Grupo 1, e nada era mais especial do que o samba, o artista principal da festa momesca.

É claro que cada escola nesse Brasil teve sua história, mas hoje é a vez da grande "Águia da Pompéia".

Em 1984, a Águia de Ouro, que já esteve no quarto grupo,  foi a única escola a desfilar no Grupo 1, Aos poucos, foi evoluindo, tendo alcançado no Carnaval do ano anterior, o segundo lugar, e automaticamente, subiu para o seleto grupo das grandes escolas de samba de São Paulo.

Nascida de um time de futebol, o "Faísca de Ouro", que disputava acirradas partidas, levando o nome de Vila Anglo, na Pompéia, a escola surgiu naturalmente para esquentar as comemorações das vitórias.

"Na época, era simples e natural, cantar e sambar após as partidas de futebol", comentava Walter, um dos seus fundadores e integrante da comissão de frente.

Disputando o quarto grupo em 1977, mesmo sem experiência, e convivendo com uma enorme falta de recursos, a Águia de Ouro levantou as arquibancadas quando entrou na avenida. Todo mundo cantava com empolgação seu samba-enredo, "Bahia de Jorge Amado", de autoria de Ditinho e sua bateria que, embora principiante, alcançou a nota máxima.

Desfile da Águia de Ouro em 1977. Foto: Acervo da escola

Com o samba enredo "Brasil, Paraíso original", de 1979, a escola conseguiu um novo segundo lugar e subiu de divisão novamente, permanecendo no então "Acesso", por quatro anos.

A estreia no grupo de elite

Preparando-se para a estreia na elite, a escola sofreu um grande susto. No mês de outubro de 1983, houve um incêndio que consumiu sua sede. Grande parte de suas fantasias que já estavam aguardadas foram perdidas.

"Não vai ser incêndio, falta de quadra e falta de dinheiro, que irá impedir a Águia de Ouro de mostrar seu talento na avenida. Nós vamos mostrar muito samba e muita beleza, pode conferir: é na Águia que desfilam as mulheres mais bonitas do Carnaval", afirmava o presidente da entidade, Sidnei Carriuolo.

O samba de 1984, "Mil Vidas - O teatro Através dos Tempos", de autoria de Royce do Cavaco, foi representado na Tiradentes dividido em quatro fases: Grego-romana, Idade Média, Idade Moderna e Contemporânea. As alegorias e os figurinos, ficaram nas mãos dos irmãos Sergio e Enio. As cores escolhidas pelo carnavalesco Gilson, foram azul, branco, prata e dourado. O comandante Sidnei dizia:

"Temos uma comissão de frente que em todos os Carnavais recebeu nota 10. Mestre-sala e porta-bandeira considerados os melhores de São Paulo. Nosso samba-enredo está sendo bem recebido, enfim, apesar das dificuldades, vamos para a avenida em condições de igualdade com todas as escolas, lutando por uma boa colocação". Essa era a mensagem de sonho de seu presidente , e assim foi...

"Trago a luz da riqueza
Que a história escreveu
Emoldurando os valores
Me banho nas cores
Que o teatro teceu
E a cortina se abriu
Sou o artista e represento vidas mil
Mostro a cultura e a arte
Que o mundo abraça de forma gentil

É ô ô ô
Na velha Grécia brilhou a raiz
É ô ô ô
Em Roma antiga eu fui feliz

Navegando, através do tempo encontrei
As maravilhas do teatro europeu
Com a nova era me encantei
Quando aqui cheguei
Vi a semente do teatro, ô germinar
Abraçando a magia e a poesia
Que a arte acalentou ôô
Devolvendo a cultura popular

E a lona azul e branco
Faz a noite colorida
Eu sou palhaço, sou fantoche, sou a vida"


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15/08/2014 01h50

'Tem japonês no samba'
Dicá

No ano de 1998, portanto há dezesseis anos atrás, a escola de samba do Bixiga, Vai Vai, trouxe para a avenida uma homenagem a colônia japonesa.

Vai-Vai 1998. Foto: Divulgação

Embora a escola do "Seo Fredericão" seja de maioria negra, é importante ressaltar que os "componentes" incorporaram bem o enredo.

A comunidade abraçou a ideia e quem pensava que é preciso ter cor, credo ou mesmo raça para mostrar um enredo, ficou decepcionado.

A escola de samba é um "Teatro Ambulante" onde é preciso interpretar o enredo. Não basta "passar" na avenida fantasiado, é preciso ter consciência do papel que representa, da fantasia e de sua importância no desfile, sem esquecer o samba que é alma do desfile.

Algumas comunidades parecem que já perceberam isso e tornaram-se um "osso duro de roer" (Beija Flor, Mocidade Alegre, Vai-Vai, Salgueiro, etc...) e mesmo quando não ganham, fazem um bom espetáculo.

Voltando ao assunto desse ano de 1998, a Vai-Vai trouxe Chico Spinosa, um carnavalesco perfeccionista. A Nenê falou da Mangueira, a Rosas de Ouro falou de Adoniram Barbosa com homenagem aos Demônios da Garoa e a X-9 (campeã do ano anterior) apostou em Beto Carrero.

Problemas, som ruim, chuva, venda de camarotes inexistentes, perdas de pontos de algumas agremiações e assim por diante. Porém, os "JAPONESES da Vai-Vai" e os "CARIOCAS" da Nenê, levantaram o público no sambódromo, deixando a pista com o grito batendo às costas de... É CAMPEÉO!

Os 90 anos da imigração japonesa e os 70 anos da Mangueira compartilharam o favoritismo ao título. Mas a Vai-Vai, partindo de um enredo cantado e contado sob um ponto de vista de um personagem fictício, "Criolé", que sonha ser o Imperador do Japão e acorda no meio do desfile da escola, tiveram a proeza de obter a nota 10 na maioria dos quesitos, somando 298,5 pontos, o que resultou na conquista do campeonato com 6,5 pontos de vantagem da segunda colocada, a Nenê da Vila Matilde. A Camisa Verde e Branco ficou em terceiro lugar com 290 pontos.

Desfile Vai-Vai 1998. Foto: SPTuris

Gaviões e X-9 perderam 5 pontos. A primeira desfilou com 28 baianas, e a segunda, com três casais de mestre-sala e porta-bandeira carregando pavilhões oficiais, o que era proibido pelo regulamento.

E assim a Vai-Vai vestida de japoneses obteve o seu nono título (como escola) brindando com a colônia japonesa o grande feito de tornar-se campeã do Carnaval de São Paulo!

Tem japonês no samba? Tem sim senhor...

Alguém dúvida?

Ah! Só para lembrar, no Rio de Janeiro a Mangueira foi campeã cantando Chico Buarque, com um samba do paulista Nelson Della Rosa (um dos compositores) provando que o samba não tem fronteiras.

A Barroca Zona Sul, não pode ser esquecida nesse mergulho na história devido a bela homenagem feita a também colônia japonesa no ano de 1983, falando sobre os 75 anos da imigração japonesa no Brasil, mas aí, é uma outra história...

Arigatô,

Vamos caminhando...


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24/07/2014 12h00

Um adeus em verde e branco
Dicá

Hoje perdemos o grande sambista Nelson Primo da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco.

Sabemos que quando morre alguma pessoa, acabamos perdendo uma bagagem preciosa de conhecimentos.

É como se perdêssemos uma biblioteca inteira, e com Primo não foi diferente.

Doravante muitos de nós perderemos aulas de samba, de vida, de família, de um bom papo e principalmente de cultura.

Quantas vezes não sambamos e cantamos vendo um show da Velha Guarda musical do Camisa?

É disso que falo!

É isso que defendo!

Pois uma Escola de Samba se torna verdadeira e grandiosa pelo "currículo" de seus mestres que quando partem nos põem a pensar...

Quem vem lá?

Quem são os novos formandos?

Qual bagagem que trazem?

Quem foram seus mestres?

O que poderão deixar como legado às novas gerações de sambistas...

A pergunta que faço é... Até quando os teremos?

Tristeza no mundo do samba!

Nelson Primo. Foto: Assessoria Camisa Verde e Branco

Hoje, "Já foi embora meu luar de prata" e não é possível cantar...

Missão cumprida!

- Camisa perde seu baluarte mais antigo


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23/07/2014 11h26

179 anos da revolta dos malês
Dicá

A vida é mesmo uma roda...

Fecha a todo instante os 360 graus.

Em termos de enredos das escolas de samba esse fechamento é fascinante e muito bom trazer a tona, principalmente quando se trata de histórias riquíssimas como essa.

Revolta dos Malês. Foto: Divulgação

Abaixo copiei parte da história da revolta dos Malês para reavivar a mente de muitos. Essa história é uma história que não é contada nas escolas tradicionais, as escolas das letras... Talvez através da lei 10639/03, que trata do ensino da cultura africana e afro-descente nas escolas isso possa ocorrer.

Lembrei do levante da época contra a barbárie da escravidão, mostrada pela grande Escola de Samba Mocidade Alegre em 1979, sob as baforadas do charuto do seo Juarez e a batuta do criativo Edson Machado, um carnavalesco que sabia como ninguém mostrar os temas afros.

Lembro com saudades dos meus primos lá da Brasilândia, Flavinho Peru, Zelão, Odilon, Vanderlei, Hamilton etc.. Que não desfilam mais, porem na época brilhavam com a ala "Anjos do Inferno", aquelas alas de passo marcado sumidas há muito tempo.

Os "Anjos do Inferno", como eram chamados, marcaram época no meio daquela gente bamba do limão e, vivendo aquele bom momento, não se cansavam de descer o morro da Brasilândia garbosamente como uma afronta aos primos da Roseira (Rosas de Ouro), escola que separava a família através da paixão no período de carnaval.

A Morada (Mocidade Alegre) nesse desfile ficou em segundo lugar, mas quem viu o desfile certamente levará a lembrança para "outras vidas"... "Sem dúvidas, uma grande história dos muçulmanos negros contada pelos sambistas da Morada", os negros de olhos verdes, lá da Bahia... Os tais Malês!

Os 179 anos da Revolta dos Malês

"Em 25 de janeiro de 1835, explodiu uma das mais importantes rebeliões de negros e negras da história do país: a Revolta dos Malês. raticamente omitida pela historiografia oficial, a Revolta é uma lição de garra e luta pela liberdade. Mas também da perversidade das elites dominantes".

Negro Muçulmano, Jean Baptiste Debret

Uma explosão pela liberdade e contra a intolerância. A Revolta foi planejada por um grupo de africanos muçulmanos, negros de origem haussa e nagô, chamados de malês, devido ao fato de que, em ioruba, muçulmano é imale. Formado, dentre outros, por Ahuma, Pacífico Licutan, Luiza Mahin, Aprício, Pai Inácio, Luís Sandim, Manuel Calafate, Elesbão do Carmo, Nicoti e Dissalu. A data escolhida, o amanhecer de 25 de janeiro, coincidia com um dia importante do ponto de vista religioso: o fim do mês sagrado muçulmano, o Ramadã, e dos tradicionais festejos religiosos dedicados a Nossa Senhora da Guia, que manteriam ocupados os católicos.

O objetivo da conspiração era libertar seus companheiros islâmicos e negros em geral e matar brancos e mulatos considerados traidores. Uma meta que traduzia a complexa combinação entre escravidão negra e perseguição religiosa, imposta pelos colonizadores católicos.

Revolta dos Malês. Foto: Divulgação

Dois aspectos singulares influenciaram todo o processo. Em primeiro lugar, diferentemente da grande maioria dos negros (que compunham mais da metade dos cerca de 20 mil habitantes de Salvador) os malês sabiam ler e escrever em árabe. Além disso, boa parte dos líderes da Revolta era formada por Negros de ganho (escravos que faziam serviços urbanos, artesanato ou vendas, recebendo algo por isso) o que não só facilitava sua circulação pela cidade, mas também possibilitou que muitos deles comprassem sua alforria e, nos meses que anteriores à Revolta, adquirissem armas.

Nos dias que antecederam o levante, notícias davam conta de uma intensa movimentação, sobretudo de escravos vindos do Recôncavo Baiano para Salvador. Viriam unir-se ao líder Ahuma, que havia sido preso e estava sendo brutalmente castigado. Além disso, o respeitado Alufá Pacífico Licutan, vítima de constantes maltratos por parte de seu Senhor. Também se encontrava preso na cadeia municipal. É certo que as agressões sofridas por esses dois mestres foi o estopim para por em prática a revolta há muito planejado.

O número de pessoas envolvidas na preparação da rebelião (entre libertos, escravos, islâmicos e gente que professa outras religiões) varia de acordo com a documentação entre 600 e 1.500, a grande esmagadora deles nascidos na própria África.

Traição e massacre

Antes mesmo de eclodir a Revolta foi denunciada por uma negra ao juiz de paz. A polícia invadiu, na noite de 24 de janeiro, a residência de Manuel Calafate, um dos locais de encontros e reuniões de africanos de fé islâmica. Resistindo à polícia, partiu dali um grupo de escravos que tentou assaltar a cadeia, ainda então instalada na parte baixa do prédio da Câmara Municipal. Outro grupo procurou avisar escravos e libertos malês que trabalhavam nas residências de cônsules e comerciantes estrangeiros. Reuniram-se cerca de 50 a 60 homens armados com pistolas, lanças, espadas e facas. Foram esses os que, primeiro, combateram com a polícia e atacaram o quartel que controlava a cidade.

De forma desorganizada, a Revolta tomou a cidade, mas, devido à inferioridade numérica e de armamentos, acabou sendo massacrada pelas tropas da Guarda Nacional, pela polícia e por civis armados que estavam apavorados ante a possibilidade do sucesso da rebelião negra.

Durante os confrontos, morreram cerca de 70 negros e aproximadamente 10 soldados das forças repressoras. Com a derrota, centenas foram presos, sendo condenados à deportação (muitos para a África, algo até então inédito no Brasil), a brutais castigos ou à pena de morte. Na seqüência do evento, instalou-se na Bahia, sobretudo em Salvador e Santo Amaro, a mais generalizada e cruel repressão contra os escravos que estendeu a perseguição a outros malês. O temor provocado pela rebelião foi tamanho que a corte imperial proibiu a transferência de qualquer escravo baiano para qualquer outra região do país.

Uma intifada negra

 

Revolta dos Malês. Foto: Divulgação

Muitas vezes apontada como uma rebelião de caráter puramente religiosa, a Revolta, na verdade, foi muito mais complexa. Como lembra João José Reis, autor Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, em uma entrevista publicada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, "com o risco do anacronismo, a revolta estava mais para Intifada do que para Jihad, embora a guerra santa tenha sempre algum lugar no coração de um muçulmano que se rebela".

Além disso, o processo só pode ser entendido dentro do quadro de rebeliões negras que sacudiam a Bahia, desde o início do século em sucessivos levantes (1807, 1809, 1813, 1826, 1828 e 1830), envolvendo as mais diversas etnias e grupos. Em relação à predominância dos malês, favorecida pelos aspectos mencionados acima, também é importante lembrar que vários documentos apontam para o fato de que eles viam os demais negros como aliados em potencial.

Acima de tudo, apesar de derrotada, a Revolta serviu como inspiração fundamental para as lutas contra a escravidão, não só pelo exemplo que forneceu, mas também pelo envolvimento de muitos de seus líderes e participantes, como Luiza Mahin em outros processos. Uma lição que para nós, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, continua viva na necessidade de travar uma luta sem tréguas contra o racismo, toda forma de intolerância e, particularmente, contra o sistema que alimenta estas práticas. O colonial, no passado; o capitalista, na atualidade.

Luíza Mahin: mulher guerreira

Esta africana guerreira teve importante papel na Revolta dos Malês. Pertencente à etnia jeje, alguns afirmam que ela foi transportada para o Brasil, como escrava; outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu a luz a um filho, Luis Gama, que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista e escreveria as seguintes palavras sobre sua mãe? Sou filho natural de uma negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã...

Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX, dentre elas a chamada Grande Insurreição, de 1835. "Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África".

Seo Juarez da Cruz. Foto: Divulgação

MOCIDADE ALEGRE - 1979

A REVOLTA DOS MALÉS

Samba de Enredo de autoria de Beto e Ademir Arantes

Surge em 25 de Janeiro
Um novo sol de esperança
Vindo da mãe África distante
Ostentada em toda fidalguia
Eles estavam em Salvador Bahia

É É É
Alauarcaba...ôôô
Alauacaba...ôôô

Num lamento triste e solitário
Negro pedia a Alá seu protetor
Forças e coragem nessa hora
Que a vitória seria em seu louvor

Iaô Iaô Iae Iae
Negro canta a liberdade
Na revolta dos malês

E na hora da razão
Foguetes alvorada e traição
Da revolta nada resta mais
Derrota foi a outra solução
E ma Bahia se comemora assim
Com festas e danças
Na lavagem do Bonfim


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10/07/2014 13h34

Quesito 'vaidade'
Redação SRZD

As escolas de samba tem um quesito chamado "vaidade", que aflora substancialmente em algumas pessoas que compõem os "teatros ambulantes" por hora chamados de "escolas de samba".

Nesses teatros, contamos histórias diversas, enriquecemos nossa cultura, nos divertimos, nos entristecemos, acalentamos nossos sonhos e nos tornamos apaixonados.

Ilustração. Foto: Divulgação

Dificilmente esse quesito é notado sob as luzes da ribalta, mesmo porque quando as "peças" são apresentadas escondem os "segredos do bolo pronto", a necessária receita. Porém, o tal quesito acaba cooperando sensivelmente para que na hora da "degustação", ou melhor, da apresentação, o sabor fique aquém do esperado.

É nos bastidores (preparação anual de uma peça para outra) que o fenômeno se torna latente e, como um bom fermento, cresce assustadoramente.

Essas "peças" apresentadas nas passarelas compõem-se de inúmeros figurantes, coadjuvantes, diretores, cantores, dançarinos, figurinistas, artesãos...que acabam esquecendo do artista principal, o galã chamado...Pavilhão!

Embora muitos nem estejam no roteiro, tem os que se julgam os "artistas principais", esquecendo por completo a "referência das partes". Esse tal "quesito", que deveria, mas nem sempre tira a merecida nota zero, (alguns insistem em valorizá-lo e às vezes até com notas máximas), nada mais é do que a VAIDADE.

A vaidade que em nossas escolas de samba, muitas vezes, acaba surgindo como o mais importante vilão, é multiforme ou seja manifesta-se de diversas formas criando inclusive dificuldades para administrá-lo. Embora não seja a estrela da festa, ou melhor, da "peça", essa tal vaidade nos tenta e às vezes consegue criar a falsa concepção de que estamos uns acima dos outros e de que somos realmente insubstituíveis ou melhores.

Alguns se tornam ditadores, avaros, invejosos, orgulhosos, irados. E ofuscam o bem maior. Outros chegam de mansinho, assumem cargos ou papéis importantes na preparação das peças e quando menos percebemos, mudam radicalmente, deseducam-se, não nos cumprimentam, fingem não nos conhecer, sentam-se bem pertinho do rei limitando-se a concordâncias, inflam-se no revés, reaparecem queixando-se das "dores do mundo" e de toda sorte de injustiças que por ventura tenham sofrido.

Infelizmente, ou felizmente (não sei onde está o erro) dentro desses teatros, chamados escolas de samba, há um convívio de diferentes níveis de formação, tanto educacional, quanto espiritual, e isso faz com que alguns de nós deixem vir à tona sentimentos mesquinhos, que mostram os defeitos de nossos espíritos embrutecidos e a clara necessidade de melhorias constantes.

Ilustração. Foto: Divulgação

Aquecidos pela "fogueira da vaidade" atravessamos a faixa amarela antes do tempo ou voltamos quando não poderíamos voltar ou quando não há mais tempo, perdendo pontos importantes no que é mais importante... A escola da vida.

Por isso é preciso nos policiarmos muito nas relações pessoais para a montagem dessas "peças"...Principalmente diante dos elogios, das traições, das criticas e da falsidade.

Precisamos sempre nos perguntarmos... Qual o nosso papel? Será que realmente temos o perfil ideal para executá-lo? Será que estamos indo bem? O que é importante nisso tudo?

O pior é que essas "peças" muitas vezes contém um ótimo enredo... Uma ótima história, que acaba se tornando medíocre em alguns de seus "atos" ofuscando o conjunto da obra. Mesmo construindo o sonho e apresentando-o no palco ou melhor na "passarela", repito... Nós tornamos as cenas medíocres!

Perdemos para nós mesmos, dando adeus a sonhos anualmente acalentados e que não conseguimos materializá-los por pura vaidade que nos induz ao egocentrismo.

Vamos caminhando...

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12/06/2014 03h06

Pai! A Copa do Mundo é novamente no Brasil...
Dicá

Nasci em 1955, ano em que o Santos foi campeão, mas papai sempre me lembrava que um ano antes o seu Corinthians havia sido campeão do quarto centenário.

Copa do Mundo. Foto: Divulgação

No ano de 2014 Papai, a Copa será no Brasil novamente e na verdade até que houve tempo para que a infra-estrutura para esse grande evento atendesse a contento a expectativa do mundo e também dos brasileiros, mas não foi bem assim.

O povo descontente com os altos investimentos na construção dos estádios e a falta de investimentos nas necessidades básicas do país e a politicalha exacerbada foi para as ruas estabelecendo o caos social.

Fez passeatas, greves e várias outras atividades contra a realização da Copa, buscando talvez uma forma de pressionar ou chamar atenção dos graves problemas sociais que o Brasil tem.

Copa do Mundo. Foto: Divulgação

A Copa do Mundo tornou-se um "bode expiatório", pois o problema vem de longe e se o restante do mundo não sabe, soube.

Dentre esses estádios, o seu Corinthians Pai, fez finalmente um estádio grandioso (rsrsrs). Desculpe o riso, é que no primeiro jogo em casa, acabou perdendo e sei que ficaria bravo.

Lá será a estréia da seleção brasileira. A construção desse estádio deu o que falar Pai, atrasou, morreram trabalhadores por lá e o Senhor que trabalhou muito tempo em obras, sabe o desgaste que isso gera.

Mas está chegando o dia da estréia da seleção brasileira. No ar, paira aquele sentimento de brasileiros apaixonados por futebol e claro pela seleção canarinho.

Demorou, mas as ruas finalmente começaram as ganhar as cores da nossa bandeira, as crianças dão o tom do espírito verde e amarelo e milhões de brasileiros seguem o cortejo na ânsia de viver sua primeira Copa do Mundo em casa.

É bem verdade que há aqueles que politicamente se aproveitam da situação, pois infelizmente vivemos também um ano político. Muitos se aproveitam da ingenuidade do povo e os usam como massa de manobra no intuito de estabelecer o caos e ganhar vantagens para a próxima eleição.

Embora muitas greves sejam legítimas, ainda continua aquele descaso que marca o Brasil como um país com inúmeros problemas, dentre eles, os mais graves como a saúde pública, educação, moradia, segurança e por ai vai...

As greves por aqui começam a "pipocar" principalmente em São Paulo e muitos desavisados acaba entrando no "oba-oba" político e como conseqüência, pagam o pato ao perderem seus empregos ou mesmo sofrerem perseguições pós paralisações.

Copa do Mundo. Foto: Divulgação

Mas tristeza e incredulidade a parte, sem esquecer nossa responsabilidade de cidadãos, vamos em frente torcer pela seleção brasileira.

Armistício! É uma oportunidade rara a Copa do Mundo em nosso País, portanto vamos vestir nossas camisetas, empunhar nossas bandeiras, enfeitar nossas ruas, cair no samba, sentir o coração batendo forte e gritar bem alto...

Vai Brasil!!!

Maracanazzo e Ghiggia nunca mais...



29/05/2014 00h10

A velha guarda é quem leva nossa bandeira
Dicá

A velha guarda tem uma importância fundamental, não somente para as escolas de samba, mas também, para a cultura do samba.



Entendo que sua principal função seja justamente manter viva as tradições, matriz fundamental que diferencia o Carnaval brasileiro do restante dos Carnavais que acontecem no resto do mundo.

Com o "crescimento das escolas de samba", se é que podemos chamar de crescimento, se prioriza a parte financeira para sua subsistência material, esquecendo-se do aspecto cultural, elemento fundamental para manter viva a riquíssima história das agremiações.

Hoje, com raras exceções, muitas agremiações tem desprezado essa camada do samba nacional, que são os nossos "cabeças brancas". Justamente eles, os que iniciaram e que mais contribuíram e contribuem para o enriquecimento cultural dessa manifestação nacional ainda chamada ESCOLA DE SAMBA.

A velha guarda numa escola de samba é de extrema importância para o desenvolvimento da agremiação, uma vez que é a guardiã das tradições da escola, velando para que ela não perca a sua identidade.

Ela faz parte do contexto da escola e é formada principalmente por seus fundadores e integrantes que se destacaram na agremiação como passistas, mestre-salas, batuqueiros.

Somam-se as nossas queridas baianas, que no início do século passado contribuíram para difusão do samba no Brasil.

Os membros das velhas guarda teoricamente deveriam participar ativamente da administração da escola, opinando, fiscalizando, mantendo as tradições da escola e do samba, além de serem constantemente consultados por seus dirigentes.

Assim é garantida a identidade do samba e do Carnaval. Infelizmente não é bem assim que vemos as coisas acontecerem, as velhas guardas andam distantes do centro das decisões.

Antigamente, a velha guarda vinha à frente dos desfiles, apresentando a escola e, após apresentá-la, retirava-se para as laterais aguardando a passagem da agremiação voltando ao final cumprimentando o público e encerrando o desfile.

Desenho de sambistas. Foto: Divulgação

Hoje, com o advento do "CARNAVAL SHOW", foi substituída, na abertura do desfile, pela comissão de frente. Talvez por não serem considerados como "QUESITOS", muitas escolas de samba não lhes dão o devido valor.

Sua importância no Carnaval tem levado a criação das associações de velhas guarda das escolas de samba, que deveriam zelar pelas tradições do samba, fazendo seus encontros, confraternizações, homenagens, batismos e rodas samba.

Aqui em São Paulo, são necessárias providências urgentes. Creio que possam ser resolvidas somente através de leis municipais, pois fora disso, não acredito que nossos queridos guardiões do samba possam ser contemplados.

Primeiro, destinando uma verba para subsistência das velhas guardas e depois, criando um lugar definitivo no sambódromo para que possam assistir aos desfiles.

Lembrando que as velhas guardas constituem-se no "pavilhão vivo", pois os anos de dedicação os tornam mais importantes que um pavilhão de pano, pois nada é mais importante que a vida.

Violão. Foto: DivulgaçãoLembrando que é inadmissível que uma velha guarda se apresente sem o seu estandarte!

Seja em qualquer lugar que vá, principalmente num desfile oficial, pois se o estandarte não estiver a "escola de samba" não foi...a "velha guarda" não foi...

O estandarte é a representação da origem da escola e sem ele denota-se que a escola, não tem critérios de ensinamento e, portanto, não pode ser considerada uma escola de samba.

Infelizmente, nos dias de hoje, lidamos com a visibilidade acima de tudo e os "doutos" do samba passam por cima de tudo, atropelam, desrespeitando e desconstruindo o que não criaram e dando mostras de que não respeitam a cultura popular e tampouco a tradição!

E lá vêm eles... Maravilhosos!

Primeiro os fundadores, (fundadores são todos que estiveram no momento da criação da escola, não são somente os que assinam ata de constituição como diretoria), depois os que conviveram com os fundadores e assim sucessivamente.  

Cada escola tem seus critérios básicos para formar uma velha guarda, mas em regra geral, os requesitos básicos para se tornar um "velha guarda" são:

- Idade acima de 50 anos;

- Ter uma história dentro da escola;

- Ter no mínimo 25 anos de serviços prestados a uma mesma agremiação;

- Conhecer a história de sua agremiação;

Salve a Velha Guarda!!!

RESPEITO!!!


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07/05/2014 15h02

Eleições no Camisa Verde e Branco: todos são vencedores
Dicá

Que as mãos de todos que amam, torcem, gostam ou são admiradores dessa grandiosa escola possam dar o que tem de melhor na recondução aos seus caminhos de glória, caminho esse que trilham desde 1914.

Pavilhões Camisa Verde e Branco. Foto: Divulgação

A meu ver nessa eleição todos são vencedores por possibilitar um exemplo tão necessário a sociedade brasileira da importância da democracia dentro de uma escola de samba, assim como qualquer organização democrática.

Não há mais caminhos que não sejam os caminhos da liberdade de poder escolher seus comandantes. Democracia é isso nem todos são contemplados através de seu voto, mas todos buscam o mesmo ideal de melhora para a sua organização no candidato escolhido pela maioria, somatizando!

Meu sincero apreço pelo processo político da escola que demonstrou honradez, dignidade e sobretudo respeito aos direitos democráticos de seus componentes.

Uma grande comunidade!

Parabéns a todos que trazem no peito um trevo.

Podem se orgulhar pois iguais a vocês no mundo do samba não se encontra facilmente!

Ontem o pavilhão do Camisa Verde e Branco brilhou no Orun..

Que Oxalá os guiem!

Um belo exemplo...


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23/04/2014 16h50

Fragmentos do Carnaval de São Paulo de 1989
Dicá

No ano de 1989 o Carnaval de São Paulo teve alguns fatos interessantes.

Camisa Verde e Branco 1989. Foto: Dicá - Acervo PessoalO Trevo da Barra-Funda completava dez anos sem levar para casa o título de campeã. Sua última conquista havia sido em 1979 (Louco.../Hoje é festa para o povo/Tem almondegas de ouro...) justamente quando recuperou o caneco da sua arqui-rival do Bixiga que na época havia quebrado sua histórica sequência de títulos, o tão sonhado penta campeonato.

A Unidos do Peruche, outra grande escola de sampa, em 1989, havia se preparado como ninguém. Para se ter uma idéia, o saudoso presidente Valtinho trouxe mestre Jamelão, Laíla e Joãosinho Trinta, que muito aprendeu com Pamplona, mestre em artes plásticas que no Salgueiro fez escola de carnavalescos e fora de lá influenciou muitos deles,  revolucionando assim a maneira de mostrar o Carnaval para o povo.

Há os que, como eu, tem algumas ressalvas dos reais benefícios que ficaram como legado do mestre para as escolas de samba, mas isso é realmente um assunto apaixonante e polêmico, que merece muitas linhas ou muitas horas de conversa, obviamente respeitando o ponto de vista de cada um.

Mas é bom  citar que  o mestre Pamplona, em  uma de suas entrevista que li, dizia que não era o culpado do Carnaval que se vê hoje, quase que esvaziado da real cultura popular.

"Em meu tempo, fazíamos uma troca de conhecimentos, eu com os demais integrantes da escola, o popular e catedrático, respeitando alguns conceitos que jamais descaracterizariam as escolas de samba e o segredo estava justamente nessa troca e nesse respeito", afirmou.
 
O Salgueiro é uma das escolas que mais inovou no conceito de escola de samba. Pois bem, a verdade é que a Beija-Flor de Nilópolis, escola de Joasinho Trinta, Laíla e Neguinho revolucionava.  
 
Há algum tempo mostrava um Carnaval no Rio que escolas como Mangueira, Império Serrano, Portela e Salgueiro mostravam-se preocupadas com os rumos que os desfiles tomavam. Os carros tornaram-se gigantescos, as fantasias grandes e luxuosas.  Os sambistas, começavam a se sentir em um segundo plano. Embora desfilassem, sentiam que sua arte estava tornando-se obsoleta naquele desfile que primava pela visibilidade. Tanto que Beto Sem Braço e Aluisio Machado descreveram "Super Escolas de Samba S/A, Super Alegorias/Escondendo gente bamba/Que covardia", em alusão ao gigantismo que assustava.

Voltando a Sampa, enquanto o sentimento de mudança exacerbada da escola de Nilópolis enfurecia os sambistas do Rio, na "terra da garoa"  havia um acordo, não sei se posso chamar assim, entre os presidentes das escolas, que a cada ano determinado presidente escolheria os jurados.

O comandante Tobias, foi ao Rio e escolheu os avaliadores, submetendo-os as apreciações dos outros presidentes, pois se julgaram é por que houve aceitação. É bem verdade que todos eram sambistas, músicos e ou artistas renomados e com grande capacidade.

Passado o Carnaval, na apuração o clima esquentou...

A verde e branca ficou com o título e era possível ouvir o descontentamento de inúmeros sambistas e presidentes achando que houvera armação.

Unidos do Peruche 1989. Foto: Dicá - Acervo PessoalNa verdade, a Peruche fez um Carnaval impressionante, deixando claro que era uma das favoritas. O seu enredo falava dos "Sete Tronos dos Divinos Orixás", com um samba primoroso do caneta de ouro Ideval Anselmo.

No comando de sua harmonia, havia vindo parte da lendária harmonia da Barra-Funda, Ademir, Amaral, Zé Carlos e Irineu para melhorar tal fundamento.

Mas não teve jeito, a escola do "Seo Carlão", Bonga, Dona Beth, Denise, Niquinho, Marcio Camargo e tantos outros bambas teve que se contentar com o vice, amargando um jejum impressionante.

Assim todo o grandioso Carnaval da Peruche, Jamelão, Trinta, Laíla, parte da harmonia de Ouro da verde e branca, a caneta de ouro do poeta Ideval Anselmo e a disposição e amor descomunal do Presidente Valtinho sucumbiram diante de um belo e tradicional desfile apresentado pelo Camisa e, sem dúvida, pelo sentimento contido nos jurados vindos da cidade maravilhosa.

Contrariados com o crescimento da escola de Nilópolis, estavam todos vingados em Sampa.

Aqui, o legado de Pamplona, a bagagem de Laíla e a genialidade de Trinta com suas idéias de visibilidade e gigantismo caíram por terra!

Pelo menos naquele ano...

Camisa Verde e Branco 1989. Foto: Dicá - Acervo Pessoal


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24/12/2013 00h01

O natal e o ano novo no desfile de nossas vidas
Dicá

Imagem de natal. Foto: J.R.Silva - SRZD

Se o seu Papai Noel não chegar na noite de natal trazendo seu presente, não chore e nem lamente por sua ausência. Talvez no ano que vem o "Bom Velhinho" venha e lhe traga todos as lembranças esperadas.

Conforte-­se com a presença do menino Jesus que está contigo a todo instante, principalmente nessa data tão especial, pois é NATAL o dia do seu nascimento!

Mesmo que não o perceba, Ele trará lindos presentes, como a paz, a esperança, a saúde e o amor tão essencial na edificação humana.

Quanto ao "Ano Novo", vamos imaginá-­lo como um grande desfile de nossas vidas em seu dia-dia através de uma história contada anualmente.

O SAMBA-ENREDO será escrito pelo senhor do destino.

A COMISSÉO DE FRENTE, representada pela VELHA-GUARDA apresentando sempre o ENREDO atual sem esquecer nossa ancestralidade com sua importância e contribuição no entendimento perfeito entre o enredo presente e os enredos passados.

A HARMONIA conduzida pelo livre arbítrio terá a missão de nos levar pelos caminhos mais acertados possíveis, sendo que os erros e acertos que surgirem nesse desfile da vida deverão ser sempre considerados a partir da experiência humana na busca da reparação espiritual. A nós competirá trilharmos a senda da verdade, da justiça e do amor.

A FANTASIA será formada por todos aqueles que passarem em nossa vida ajudando a tornar nossos sonhos realidade e a vida mais prazerosa de ser vivida, independente de nossa EVOLUÉÉO material.

Em nosso PAVILHÉO virá bordado o nome da escola, com letras garrafais "ESCOLA DE SAMBA FAMÍLIA" e haverá de girar pelo tempo com a proteção do MESTRE-SALA e com a graça e leveza da PORTA-BANDEIRA mostrando o valor dessa representatividade num desfile eterno!

A BATERIA trará a batida original! A batida do coração e somente irá parar após passarmos a linha amarela na dispersão da passagem humana!

As ALEGORIAS serão construídas através de nossos sonhos realizados.

Ao virarmos as páginas do dia-dia estaremos apresentando o melhor dos ENREDOS: A vida!

O CONJUNTO será as imperfeições que iremos corrigindo e as virtudes que iremos exercitando!

A todos,

Um feliz natal e que o ano de 2014 seja repleto de alegria, saúde e paz!

Um grande abraço,

Waldir Britto Dicá



06/12/2013 01h35

O empreendedorismo e a arte da mulher no samba
Dicá

Carnaval. Foto: Fernanda Queiroz

Para falar da contribuição das mulheres no samba é necessário voltarmos ao período pós-escravidão no Brasil e explicitarmos algumas características das mulheres negras da época.

Matriarcais, é justamente como matriz e motriz do samba que se deu o embasamento e o surgimento do samba em nosso país, bem como o exercício dessa cultura que se perpetua até os dias de hoje.

Na história do samba, as mulheres sempre contribuíram de forma fundamental, como no inicio através das baianas quituteiras ou as tias baianas como a famosa tia Ciata e tantas outras que aportaram no Rio de janeiro.

Sabemos que foram elas que faziam em seus terreiros de candomblé as rodas de samba tão proibidas na época em tempos de Donga, João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos prazeres e tantos outros.

A introdução da respeitada ala das baianas nas escolas de samba, não foi por acaso, foi justamente devido ao reconhecimento de sua importância na construção dessa cultura genuinamente brasileira.

Em São Paulo não foi diferente as pretas quituteiras tinham que buscar meios de sustento para suas famílias, devido a vários reveses, ou simplesmente devido a seus parceiros estarem sob a severa lei da vadiagem. Dessa forma, buscavam ajudá-los na provisão do lar com o mísero sustento que lhes era permitido.

Ao longo do tempo as mulheres sempre contribuíram trabalhando no samba, seja sambando e mostrando seu sensualismo, explorado por muitos que através delas até enriqueceram, o que ocorre até os dias de hoje. Além de sambarem nas escolas de samba blocos, bandas e afins, ainda trabalham como costureiras, bordadeiras, figurinistas, artesãs etc. Isso sem contar aparticipação nos ensaios, montagem e desfiles das escolas de samba em dias de Carnaval, na maioria das vezes, só por amor.

O trabalho de canto e dança em apresentações musicais de nossas heroínas, ocorrem de forma sistemática sendo uma ação artística, mas como forma de economia criativa nas escolas de samba, é onde ele se torna mais consistente, pois reúne um número grande de colaboradores nos vários segmentos da escola, trabalho esse muitas vezes explorado e não reconhecido.

Mesmo de maneira frágil, essa economia informal cresceu e com ela a mulher ganhou espaço de trabalho. Embora seja um trabalho digno como todos os outros, existe uma fragilidade muito grande na sua normatização, pois na maioria das vezes assim, como os homens, essas trabalhadoras não possuem vínculos empregatícios que lhe garantam direitos trabalhistas.

Os barracões onde são produzidas as alegorias e as oficinas de costura que confeccionam fantasias e adereços, em muitas escolas ainda ocorrem em ambientes precários e muitas vezes inóspitos, com pouca claridade, sem EPIS (equipamento de proteção individual), exposição á gases, cola, soldas e horas de trabalho infindo na execução de suas tarefas.

Espero que a construção do conjunto de barracões ou "Fábricas de Samba" como muitos chamam na cidade de São Paulo possa trazer uma melhoria nas condições de renda e trabalho a todos que para lá irão, principalmente as nossas admiráveis mulheres que trabalham no samba o ano todo.

Abaixo uma homenagem a esses trabalhadoras, tão bem exaltado nos versos do nosso grande poeta Martinho da Vila!

"Glória a quem trabalha o ano inteiro em mutirão
são escultores, são pintores, bordadeiras
são carpinteiros, vidraceiros, costureiras
figurinista, desenhista e artesão
gente empenhada em construir a ilusão
e que tem sonhos como a velha baiana
que foi passista brincou em ala
dizem que foi um grande amor de mestre-sala..."

Axé,

Vamos caminhando...



25/11/2013 11h37

Enredo, samba-enredo e patrocínio.
Dicá

Sambódromo do Anhembi. Foto: DivulgaçãoOs sambas de enredo, trazem em seu bojo a história que se desenrola durante um desfile de escola de samba.

Muita gente confunde o enredo de uma escola de samba com o samba-enredo cantado na avenida durante o desfile. Obviamente como o próprio nome diz, o Samba-enredo nasce de um enredo, ou da história que irá ser apresentada durante o desfile.

No surgimento das primeiras escolas de samba no final da década de 20 e inicio da década de 30 não existia o enredo, as escolas improvisavam cantando vários sambas de sucesso, sem desenvolvimento de um tema específico.

É sabido também que quando começaram a ser utilizado os enredos nas escolas de samba, os temas em sua maioria eram ufanistas e exaltavam fatos da história do Brasil.

A grande verdade é que embora ufanista, era possível aprender ou reforçar o aprendizado da história do nosso país e ainda se divertir, cantando e sambando. Durante muito tempo isso foi possível.

Falar de samba-enredo é fascinante, pois houve muitos e dentre eles, alguns se tornaram imortais, capazes de nos emocionar e nos remeter a saudosos desfiles de Carnavais. Se fosse enumerá-los, correria o risco de deixar muitos de fora. A escolha cairia no meu gosto, e não é essa minha intenção.

O que quero na verdade é estabelecer uma cumplicidade entre as partes: O enredo, o samba-enredo e o patrocínio.

Penso que muitas vezes se quando a agremiação "negocia" um enredo e o patrocinador determina alguns ítens que a escola irá mostrar em desfile, surge a pergunta inevitável: É bom ou ruim? Será que aprenderemos realmente algo nesses desfiles ? Será que os sambas originados ficarão bons? Será que os compositores conseguirão compor um hino de qualidade com imposições do patrocinador?

Sei que muitos dirão que trata-se de puro saudosismo pensar em sambas como, "Os Sertões", "Kizomba", "Aquarela Brasileira", "Narainã", "Quilombo", "Catopés e Milho Verde","As sete cidades", "Orun Ayê", entre outros, para analisar a questão atual dos sambas, mas é impossível não comparar.

Ás vezes me pergunto:

O que aconteceu?

Histórias direcionadas?

Fim das alas de compositores?

Embranquecimento das escolas?

Desconstrução do aprendizado?

Adeus às tradições?

As escolas de samba viraram comércio?

Éxodo dos negros das escolas?

Um grande negócio?

Fundamentos perdidos?

Talvez tudo isso! Talvez nada disso! Vai saber...

Outra coisa que me deixa indignado é como compreender as apresentações das escolas de samba diante das informações aos que chegam para assistir os espetáculos, pois faltam informações a respeito dos desfiles através da mídia eletrônica, televisiva, escrita e falada.

É necessário esclarecimentos nos locais de desfile que são imprescindíveis, como por exemplo, informações através de livretos contendo, não apenas os enredos e sambas, mas dados que está sendo apresentado, uma vez que muitos acompanham sem a compreensão devida do que assistiram, levando pra casa a sensação que faltou algo.

É bom frisar, que além de não existir informações na avenida, também não há nas quadras, nos ensaios técnicos e nem nos desfiles oficiais sobre o que as escolas irão mostrar. No máximo é distribuida a letra do samba para que o público acompanhe o canto, o que é muito pouco para uma festa tão gigante.

Pra finalizar, quem acompanha os preparativos para o Carnaval o ano todo tem certa compreensão, mas para os desavisados que chegam como turistas interno ou externos diretamente no sambódromo buscando, além do divertimento, um mínimo de entendimento fica difícil...

É pular, sorrir e acompanhar o canto...

Axé,

Vamos caminhando...



20/11/2013 11h35

Qual o significado deste dia?
Dicá

Mãos. Foto: DivulgaçãoEspero que um dia possamos realmente nos considerar como irmãos nesse País.
 
Esse dia na verdade terá que ser um grande dia em que ao olharmos nosso semelhante, possamos vê-lo igual, sem cor, sem credo e sem classe social.

Um dia em que possamos vê-lo na sociedade brasileira sem que seja em forma de cotas, como nos comerciais, nas empresas, universidades etc...

Mas que possamos vê-los de uma forma natural, simplesmente pelo processo de uma sociedade plural, uma sociedade que contemple a todos.

Talvez nesse dia possamos vê-los nas campanhas publicitárias atestando seu poder de consumo, porque são considerados pelo seu potencial de compra como cidadãos capazes.

Vê-los nas renomadas universidades pelo seu reconhecido desenvolvimento de base tão negado pelo estado brasileiro. Espero que não seja mais necessária, tampouco discutida e incompreendida por muitos as tão necessárias cotas buscando uma equiparação social básica para se galgar lugares melhores na pirâmide social. Embora saibam que é uma forma de reparação muito pertinente.

A sociedade brasileira somente será uma sociedade de fato quando tiver em todos os seus espaços oportunidades para todos os brasileiros. Espaços esses que não sejam de famílias seculares que exploram o destino político e econômico da vila, do bairro, da cidade e até do estado.

É preciso compreender que enquanto não houver uma lei igual para todos estaremos subjugados a um código penal para julgar os pobres e um código civil para julgar os mais abastados, mais influentes e talvez até os de famílias mais nobres.

Zumbi. Foto: DivulgaçãoIgualmente, é muito triste ver o extermínio da juventude negra nesse País chamado Brasil, pois quando observamos os índices de assassinatos da população brasileira, nos deparamos com um verdadeiro massacre da juventude negra, confinada a regiões com um alto grau de vulnerabilidade.

Um dia quem sabe talvez seja possível inverter a ordem das coisas e encontrá-los no rol dos grandes empresários, médicos, advogados e profissionais liberais de toda sorte oportunizados por uma sociedade mais justa.

Espero que um dia, quando pararmos nos faróis da vida e olharmos as grandes propagandas teremos a consciência que nelas há negros porque eles naturalmente estão inseridos nesse mercado publicitário, pelo seu poder de consumo, pela sua realidade de crescimento social.

Não tem sido fácil para a maioria dos negros desse País olhar os panfletos dos grandes lançamentos de imóveis, pois estão quase sempre fora desse "público alvo"...

Pra não dizer que não falei das favelas, das periferias, das quebradas, dos subúrbios e dos guetos!

VALEU ZUMBI!

Hoje é dia 20 de novembro, dia da consciência negra, estamos diante das batalhas, talvez um dia possamos comemorar de fato!

Axé,

Vamos caminhando...


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