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Francisco Ucha

Francisco Ucha

QUADRINHOS. Jornalista, desenhista, designer gráfico, publicitário e produtor cultural. Trabalhou no "Jornal do Commercio" e "O Globo". Reformulou o projeto gráfico do "Jornal dos Sports", em 1982, e do jornal "Folha Dirigida" e dos produtos de turismo do Grupo Folha Dirigida, em 2006. Trabalhou na Globo Vídeo, onde desenvolveu o "Jornal da Globo Vídeo", publicação mensal que chegou a alcançar 200 mil exemplares. Foi gerente de Comunicação e Marketing da Herbert Richers Video, e gerente de Marketing da Look Filmes. Editou o "Jornal da ABI", publicação oficial da Associação Brasileira de Imprensa, por 10 anos. Foi o curador da Mostra Quadrinhos'51 e do Festival Bruce Lee | 75 Anos. É gerente de Comunicação e Marketing da Sato Company.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



09/03/2016 17h28

Um mordomo pra lá de eficiente
Francisco Ucha

Estreou no Cine Joia (de Copacabana e Jacarepagua) no Rio de Janeiro, e chega nesta semana a Caeté (região metropolitana de Belo Horizonte), o filme Black Butler - O Mordomo de Preto, mais uma produção que adapta um sucesso dos quadrinhos para a tela dos cinemas. Neste caso, o mangá Kuroshitsuji, escrito e ilustrado por Yana Toboso, que foi lançado no Brasil pela Panini com o nome de Black Butler e já está no 21º volume.

O Mordomo de Preto. Foto: Divulgação

Kuroshitsuji foi lançado em 2006 no Japão e logo se tornou um sucesso. O sexto volume alcançou o primeiro lugar na lista de mangás mais vendidos no Japão, com um total de 359 mil cópias comercializadas. Não tardaria para que, em 2008, a versão animada da série chegasse às televisões do Japão, com direção de Shinohara Toshiya e produção da A-1 Pictures.
Para viver Sebastian, o mordomo diabólico - mais humano que os humanos -, foi escalado o ator, escritor e modelo Hiro Mizushima, que ficou famoso ao interpretar Souji Tendou e Souji Kusakabe, na série de televisão Kamen Rider Kabuto. Ele teve que emagrecer cerca de 50 quilos e, com isso, conseguiu dar alma ao personagem misterioso e superpoderoso, protetor da jovem milionária Kiyoharu. A moça teve seus pais assassinados misteriosamente e procura vingança, enquanto cumpre missões perigosas e secretas como "cão de guarda" da Rainha, num mundo do futuro, dividido entre Ocidente e Oriente.

Na história original do mangá, o enredo acontece na Era Vitoriana, Século 19, na Inglaterra. Mas os produtores acharam melhor criar esse mundo fantástico no ano de 2020, já que o filme seria interpretado por atores orientais e realizado no Japão. Porém, uma reclamação de alguns fãs do Mordomo de Preto, é que, no mangá, ele protege um rapaz chamado Ciel Phantomhive, e não a jovem herdeira de um império que tem que se disfarçar de menino. Mas, a verdade é que essa mudança foi muito bem vinda e o resultado final ficou bem atraente. Além disso, os diretores Kentaro Ohtani e Keiichi Sato realizaram um filme muito criativo, com direção de arte e fotografia de encher os olhos e cenas de luta empolgantes e muito bem coreografadas.

Para quem é fã de quadrinhos e, principalmente, para quem curte mangás, Black Butler - O Mordomo de Preto é um entretenimento obrigatório, repleto de reviravoltas e cenas divertidas. E para quem apenas gosta de ir ao cinema para se distrair, o filme é um prato cheio, servido por um mordomo muito eficiente!

O Mordomo de Preto. Fotos: Divulgação



08/03/2016 15h18

Wolinski, a liberdade do humor
Álvaro de Moya*

Não é de hoje que a censura persegue revistas que criticam o poder.  Na mesma França do ataque terrorista à Charlie Hebdo, há pouco mais de um ano, a revista La Caricature do desenhista Charles Phillipon foi apreendida em 1834, por ter publicado, também na capa, o Rei com cabeça de pêra. 

Desde o Egito antigo, se faziam críticas de costume em papiros. Em Roma um desenhista fez uma caricatura dum cantor de ópera e a charge política teve seu apogeu na França. Depois, vieram os quadrinhos.

Sem fazer diferença nessa história, os assassinos de Paris, que invadiram o jornal satírico Charlie Hebdo em 7 de janeiro de 2015, ofendidos por uma caricatura de Maomé (a revista sempre criticou os ?papas?), chamaram pelos nomes os ilustradores da revista, e os executaram. Eram Georges Wolinski, Cabu, Tignous, Honoré, Charb, que era também o editor. 

Wolinski. Foto: Reprodução

Wolinski. Foto: ReproduçãoWolisnky era o mais conhecido internacionalmente. Esteve na Amazônia para ser jurado do festival local. Eu o conheci nos tempos dos Salões Internacionais de Quadrinhos de Lucca, nos anos 70, e em Paris. No Brasil, seus quadrinhos provocantes foram publicados na revista Status e Penthouse. 

Nasceu na Tunísia em 1934, de pai polonês e mãe italiana que imigraram para a França em 1952. Tinha jeito para desenho mas estudou só para não ser deportado. Em 1960 começou a carreira na revista Hara Kiri onde criou a série Eles Só Pensam Naquilo e se solidificou como erótomano. Criou também as séries Hit Parades e Não Quero Morrer Um Idiota, incursionando pelos quadrinhos. Colaborou com o jornal satírico L'Enragé e participou das manifestações de maio de 1968 na capital francesa. Aqui arrasava com o "establishment".

Em 1970, foi um dos fundadores e primeiro editor de Charlie. Em 1977, virou chargista político do jornal comunista L?Humanité. Simultaneamente, colaborou no Libération e Paris Match. Também escreveu esquetes para TV, produziu teatro e, esporadicamente bandes dessinées para l´Echo des Savanes e no seu derradeiro Charlie Hebdo.

Na história da humanidade, ativistas sempre foram alvo da ignorância e do atraso, sejam jornalistas, cartunistas, quadrinistas, ilustradores, artistas e sonhadores por um mundo melhor e mais engraçado.

Wolinski. Foto: Reprodução

*em colaboração com o blog



07/03/2016 12h51

Shazam! Aqui está Álvaro de Moya
Francisco Ucha

A partir desta semana, o professor Álvaro de Moya passará a colaborar, eventualmente, com esta coluna de quadrinhos. Jornalista, professor aposentado da USP, desenhista, roteirista, produtor, diretor de tv e cinema, Álvaro de Moya é autor de alguns dos mais importantes livros sobre quadrinhos lançados no País, como Shazam!, um marco da bibliografia do gênero que está completando 46 anos de seu lançamento em 2016.

Moya. Foto: ReproduçãoAlém de Shazam!, Moya escreveu História da História em Quadrinhos, O Mundo de Disney, Vapt-Vupt e Glória in Excelsior, sobre a televisão que ele dirigiu nos anos 1960. Em 2001, Moya lançou Anos50/50 Anos, livro que comemorou os 50 anos da Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, que ele e cinco amigos realizaram em São Paulo em 1951.

Moya foi chargista e ilustrador do jornal O Tempo, de São Paulo, a partir de julho de 1950. Neste ano, participou também da inauguração da televisão no Brasil, pois foi o responsável pelos desenhos dos letreiros do programa de inauguração da TV Tupi, em 18 de setembro de 1950.

Álvaro de Moya com Pelé e Mauricio de Sousa. Foto: ReproduçãoDesenhou as adaptações para os quadrinhos de A Marcha, de Afonso Schmidt, Macbeth, de Shakespeare, e Zumbi, sobre a vida do Rei dos Palmares. A convite do Governo americano, estagiou na CBS TV, de New York, em 1958, quando aproveitou sua permanência nos Estados Unidos para entrevistar personalidades do cinema e dos quadrinhos para a Folha de S.Paulo.

Participou também da inauguração da TV Excelsior em 1960, na qual foi Diretor e produtor de programas que marcaram época, como Brasil 60, apresentado por Bibi Ferreira, Cinema em Casa e Teatro 9.

Em 1967 participou da inauguração de outra televisão, a TV Bandeirantes, onde produziu a novela Os Imigrantes. Foi diretor artístico da TV Paulista e TV Cultura, diretor de criação da Rede Tupi de Televisão.

A partir de 1966, foi Chefe das delegações brasileiras dos Salões de Comics de Lucca, na Itália, até 98. Entre 1970 e 1977 foi programador do Cine Marachá-Augusta com as famosas Sessões Malditas. Colaborador de enciclopédias na Espanha, Itália, França e Estados Unidos e da Revista Abigraf, além dos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Recebeu os prêmios Città di Lucca, Fábio Prado (União Brasileira de Escritores), Roquette Pinto, Tupiniquim, Ângelo Agostini, O Tico Tico, HQ Mix, Hall da Fama, Melhores do Ano e foi homenageado pela Assembléia Legislativa e pela Câmara de Vereadores de São Paulo.

Não é pouca coisa, não. Espero que curtam esta parceria!

Álvaro de Moya. Foto: Reprodução

 



16/02/2016 14h03

A guerra do enganador
Francisco Ucha

Quero abrir um parêntese nesta coluna de quadrinhos para comentar um grande fenômeno da atualidade, o tal "Despertar da Força", que faz parte da enorme e poderosa franquia de "Guerra nas Estrelas", que inclui games, animação, bonecos... quadrinhos e tudo o que movimenta o mundo nerd. E que já é a terceira maior bilheteria da História, só superado pelos dois filmes de James Cameron ("Titanic" e "Avatar"). 

Já faz um tempo que assisti a esse novo filme dirigido pelo queridinho dos moderninhos, J. J. Abrams, o destruidor de franquias; o maior enganador de Hollywood dos tempos modernos. Claro que não fui com expectativa alguma. Até porque gosto de ser surpreendido quando não espero nada de um filme e ele acaba me agradando. Obviamente não foi o caso desta produção da Disney.

Darth Vader não tem alguém à altura no novo filme. Foto: Divulgação

"Guerra na Estrelas - O Despertar da Força" é uma enorme bobagem para faturar em cima de incautos e de fãs, e não passa de uma reunião de clichês já apresentados no primeiro filme da trilogia. Ele é praticamente uma refilmagem do "Guerra nas Estrelas" original, com muito menos talento e mais efeitos especiais. Mas antes de continuar, quero esclarecer umas coisas:

1 - "Guerra nas Estrelas" é "Guerra nas Estrelas", tal como foi lançado originalmente, na década de 70, e não "Star Wars" como o marketing de George Lucas (quando ele era dono da franquia) e a Disney (atual detentora) tenta impor ao mundo (afinal, estamos num país onde se fala o português);
2 - A tal "prequel" que Lucas fez anos e anos depois da trilogia original é outra bobagem que nem deveria ser levada a sério.
3 - "Guerra nas Estrelas - O Retorno de Jedi", o terceiro filme da série, é quase uma refilmagem do primeiro filme, com alguns elementos a mais e a inclusão dos indefectíveis, insuportáveis e desnecessários Ewoks.

Dito isso, vamos relembrar o filme original:

Em "Guerra nas Estrelas", um rapaz vive insatisfeito num planeta desértico, consertando e vendendo robôs para o tio. Ele acaba se afeiçoando a um robô simpático que tem uma misteriosa mensagem que pode ajudar os Rebeldes. Por isso mesmo, ele é envolvido numa trama intergalática contra o maligno Império.

Há um vilão muito mau que tem o lado negro da força muito evoluído. Há uma Princesa que tem que ser resgatada de uma nave inimiga. Há um misterioso personagem que desapareceu há anos sem nenhuma razão aparente e é a chave para derrotar o vilão muito mau que se veste de negro. E os heróis estão à procura dele para entregar uma gravação da Princesa. Há um personagem simpático e independente, um renegado que só quer se dar bem, mas decide ajudar os Rebeldes e heróis. No ponto alto e dramático do filme, o vilão mau, muito mau mesmo, mau pra cacete, mata o personagem misterioso que não era mais misterioso e que estava começando a treinar o jovem herói nos segredos da "força". Esse vilão mau pra cacete e que conquistou uma legião de fãs, tinha uma arma secreta, a Estrela da Morte, que na realidade era mais parecida com uma Lua da Morte, e tinha a capacidade de destruir planetas inimigos. Os Rebeldes então tinham que destruir essa lua da morte? quer dizer, Estrela da Morte. Os Rebeldes descobrem que essa arma secreta tinha um ponto fraco, um único ponto fraco, que se atingido, ela explodiria. Então, nosso herói, já de posse de um pouco de sua "força", consegue atingir o ponto fraco depois de inúmeras tentativas. E Bum! O vilão mau pra cacete consegue fugir e os Rebeldes vencem!


Antes de ser assassinado pelo próprio filho, Han Solo entrega o sabre de luz do pai, Luke Skaywalker, à sua sobrinha, herdeira da Pois é. O resumo do resumo que acabei de contar não parece igualzinho ao novo filme da Disney? É uma cópia! Só com alguns detalhes diferentes. Por exemplo, o vilão mau pra cacete do primeiro filme, Darth Vader, é realmente o exemplo de como um vilão espetacular tem que ser. Já o vilão do novo filme, Kylo Ren, não passa de um garoto malcriado, pirracento e sem moral nenhuma. Muito longe da imagem do seu avô, Darth Vader. Mas, de modo geral, tudo o que acontece nesse filme é uma réplica do filme original, só que com outros atores: a mocinha presa na nave que tem que ser salva; o cara que não quer saber de lutar ao lado dos rebeldes e só quer ir embora, mas desiste e retorna para ajudar os heróis. E a cena em que o vilão Kylo mata o próprio pai, Han Solo? Tinha algo mais clichê e previsível do que aquilo? Lembrou muito a cena em que Darth Vader mata Obi-Wan Kenobi, sem a surpresa do filme original, claro.

A destruição da "Estrela" da Morte, então? Neste filme ela é gigantesca, bem maior que a original, mas foi bem mais fácil destruí-la! Rey, a moça que é filha de Luke Skywalker e sobrinha de Leia e Han Solo, faz o que Luke fez no primeiro filme. Ela, aliás, é a melhor atração desta nova "Guerra nas Estrelas"! Mas, realmente, esse é um filme chatíssimo.

Rey: um colírio no deserto de criatividade de J.J.Abrams. Foto: Divulgação

Mas uma coisa é diferente: na época do lançamento de "Guerra nas Estrelas", o vilão Darth Vader era o maior representante do Lado Negro da Força. Hoje em dia, substituíram "negro" por "sombrio". Mais uma sutileza idiota desses tempos onde o "politicamente correto" impõe sua implacável censura.

Mas, o que me espanta não é a Disney ter realizado essa produção. Afinal, o que eles querem é faturar de todas as formas possíveis. Nem me espanta o fato de os fãs adorarem o filme e não terem um sentimento de déjà vu. Afinal, fã é fã e não tem, necessariamente, visão crítica. O que me espanta é que tem gente inteligente e com um certo nível intelectual que GOSTOU do filme e já está esperando o próximo! Isso sim é um horror!



26/01/2016 16h22

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva
Francisco Ucha

Em julho de 1960, a Editora La Selva reuniu num almanaque alguns dos mais famosos comediantes do cinema em preto-e-branco: O Gordo e o Magro, Os Três Patetas, e Abbott e Costelo.

Os Três Patetas. Foto: Reprodução

Almanaque dos Cômicos Famosos. Foto: ReproduçãoEsses personagens já eram publicados em revistas avulsas da editora e agora passeavam pelas 104 páginas do Almanaque dos Cômicos Famosos que, para efeitos de expediente, foi uma edição especial da revista Cômico Colegial.

A bela capa trazia expressões populares da época, como "Que bola" ou "40 mangos" (informando o valor da revista numa gíria). Na última capa, tentativas de fazer humor em quadro charges não tão felizes. Pouco importa. O mais interessante desta revistona é a qualidade dos desenhos das 12 histórias que compõe a publicação. Principalmente as dos Três Patetas, que foram ilustradas brilhantemente por Norman Maurer, como se pode apreciar nos exemplos publicados neste texto.

Um detalhe bastante curioso, é que Maurer era casado com Joan Howard, a filha de Moe, o rabugento chefão dos patetas. Por conta disso, a vida profissional desse talentoso desenhista esteve intimamente ligada ao do grupo de comediantes, e seu estúdio foi o responsável pela produção das histórias em quadrinhos do trio.

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva. Foto: Reprodução

Maurer também produziu, escreveu e dirigiu diversos filmes dos Três Patetas depois que o contrato deles com a Columbia terminou, em 1957. E nos anos de 1965 e 66, foi o produtor executivo de uma série de desenhos animados com a trupe.

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva. Foto: Reprodução

Outro trabalho interessante é o de Reuben Timmins para as quatro histórias de O Gordo e o Magro publicadas na revista. Se você acha que o desenho de Reuben lhe é famliar, você tem toda razão! Ele foi um dos animadores do famoso estúdio de animação dos irmãos Max e Dave Fleischer, que produziram, entre outras pérolas, a sensualíssima Betty Boop. Mas Reuben trabalhou como animador também nos Estúdios Disney e realizou ainda a série de animação de Jornada nas Estrelas (Star Trek).

O Gordo e o Magro. Foto: Reprodução

Embora as histórias de Abbott e Costelo não estejam creditadas, a que abre o almanaque - O Caso do Ídolo Negligente - foi desenhada pelo casal Eric Peters e Lilly Renée. Talentosa, ela era a responsável pelos desenhos das mulheres sensuais que cruzavam o caminho da dupla atrapalhada, enquanto o marido desenhava os outros personagens. Veja do lado esquerdo a delicadeza do trabalho de Lilly Renée na finalização da personagem feminina (e fatal) dessa aventura.

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva. Foto: Reprodução

Na divisão das histórias deste Almanaque dos Cômicos Famosos, a dupla Abbott e Costelo foi contemplada com cinco aventuras, enquanto que O Gordo e o Magro ficou com quatro, e Os Três Patetas com apenas três. Mas o número de páginas destinado a cada um deles foi muito equilibrado. Isso aconteceu porque as histórias dos Três Patetas são mais longas e elaboradas, e somaram 36 páginas no total. Este foi o mesmo número de páginas destinado à dupla Laurel & Hardy; enquanto que Abbott e Costelo, com maior número de histórias, ficou com apenas 31 páginas.

Este almanaque é um raríssimo e valioso item de colecionador que vale muito a pena resgatar.

Abaixo, mais páginas desenhadas com extremo talento por Norman Maurer, além da terceira página do almanaque (com o índice das histórias e o expediente) e da última capa.

Os Três Patetas. Foto: Reprodução

                                           O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva. Foto: Reprodução



25/01/2016 12h06

Lavagem: um soco no estômago
Francisco Ucha

Resumir "Lavagem", do consagrado desenhista e roteirista (e também cineasta) Shiko, como uma história de terror é, no mínimo, deixar de lado toda a pungente crítica social inerente à obra.

Lavagem. Foto: Reprodução

Lavagem. Foto: ReproduçãoO roteiro nos mostra um dia na vida de um casal que vive (vive?) num casebre afastado dentro de um manguezal. O marido, uma pessoa grotesca, cria e fala com os porcos, e acha que a mulher o trai toda vez que vai à igreja. Ela é evangélica e treme quando o pastor grita nos cultos: "Tem hora que parece que é Deus passando a mão em mim", confessa a certa altura. Eles vivem no limite da sanidade, ou da insanidade.

Todos os dias, à noite, ela liga a televisão para ouvir a pregação do pastor, prepara o jantar, pede para o marido largar os porcos e entrar em casa antes que a maré suba. É uma vida de extrema pobreza, repressão e fanatismo religioso. Coincidentemente (ou não), nessa noite em particular, eles recebem a visita de um pastor que ficou preso no mangue por causa da maré alta, justamente quando ele ia pregar na cidade. Pede abrigo e se dispõe a ler "um pouco da palavra".

Lavagem. Foto: Reprodução

Ela aceita, contrariando o marido brutamontes. O pastor misterioso começa a ler a primeira carta de Paulo aos Coríntios, a partir do versículo 25 do primeiro capítulo, que descreve um Deus arrogante como uma criança cheia de vontades, "para que ninguém se vanglorie diante dele".

Lavagem. Foto: ReproduçãoMais do que a violência humilhante da condição humana mostrada até então, o que se vê a seguir é o resultado do conflito de uma verdadeira lavagem cerebral repressora que a mulher é exposta diariamente e que se contrapõe à brutal realidade de uma vida sem esperanças. Alucinação? Fanatismo? Assombração? Shiko nos mostra como a redenção pode ser tão assustadora quanto a loucura. Um verdadeiro soco no estômago.

Responsável pela edição de luxo, a Editora Mino caprichou no álbum de 72 páginas e capa dura, impresso em preto e branco, no excelente papel pólen bold, que valoriza o traço forte do artista. "Lavagem" foi baseada num curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio desenhista, lançado em 2011 pela cooperativa de "curtas de baixíssimo orçamento da Paraíba", Filmes a Granel. Mas a história em quadrinhos ganha novas nuances, se comparada ao filme.

Lavagem. Foto: Reprodução

Shiko, você já deve conhecer: ele é o responsável por obras-primas independentes como "O Azul Indiferente do Céu" e "Talvez Seja Mentira", além da adaptação para os quadrinhos do romance "O Quinze", de Rachel de Queiroz, para a editora Ática, e da releitura do personagem Piteco, de Maurício de Sousa, em Ingá, para o selo Graphic MSP. E se você não conhece o trabalho desse artista, comece já a ler sua obra.

Lavagem. Foto: Reprodução



22/01/2016 14h01

A primeira HQ de aventuras do mundo é brasileira!
Francisco Ucha

Um livro importantíssimo para o resgate da obra de Angelo Agostini na história da cultura brasileira é "As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora", de autoria do pesquisador Athos Eichler Cardoso, cuja primeira edição foi lançada em 2002, dentro da série "Edições" do Senado Federal. O livro recebeu o Troféu HQ Mix na categoria Valorização dos Quadrinhos e, justamente por isso, o livro, que estava esgotado, teve uma segunda edição lançada em 2005.

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

O álbum teve um esmerado trabalho de restauração digital para reproduzir com a melhor qualidade possível, os capítulos das primeiras histórias em quadrinhos brasileiras, criadas pelo mestre Agostini. São elas: "As Aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte", (abaixo) publicados em página dupla na Vida Fluminense, e "As Aventuras do Zé Caipora", publicadas na Revista Illustrada, em Don Quixote e, numa última fase, em O Malho.

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Dois momentos do atrapalhado caipira Nhô-Quim

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Folhear este álbum impresso em papel couchê e no formato A4 é voltar no tempo e descobrir um verdadeiro tesouro artístico, criativo e absolutamente pioneiro. É compreender melhor como era o Brasil, sua gente e seus costumes em fins do século 19. A recuperação desses documentos, portanto, é essencial para manter um registro iconográfico fiel desse período.

Publicada a partir de 1869, "As Aventuras de Nhô-Quim" é considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e Agostini foi o quinto artista do mundo a publicar uma hq. A primazia de ser o pioneiro coube a um caricaturista suíço, Rodolphe Topffer, que publicou em 1827 a história Monsieux Vieux Bois. Hoje o autor é considerado o pai dos quadrinhos, apesar de seus traços serem bem primários, quase infantis (como se pode ver clicando no link de seu nome). A história Monsieur Reac, criada em 1948 pelo fotógrafo e desenhista francês Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Tournachon, é considerada a segunda hq. A dupla endiabrada Max und Moritz, famosa criação do pintor e caricaturista alemão Wilhelm Busch - que inspirou a criação de "Os Sobrinhos do Capitão", de Rudolph Dirks -, chegou em 1865 e, dois anos depois Ally Sloper começaria a ser publicada regularmente na revista britânica Judy com desenhos de Charles H. Ross - que também escrevia as histórias - e a elegante arte-final de sua mulher, a cartunista francesa Marie Duval, pseudônimo de Emilie de Tessier.

Uma enorme diferença de 67 anos separa a história em quadrinhos de Topffer da criação do desenhista norte-americano Richard F. Outcault, The Yellow Kid, que era alardeado aos quatro ventos como sendo o primeiro personagem dos quadrinhos ("comics" dos Estados Unidos). Como se pode ver, não é! Yellow Kid só começou a ser publicado em 1894. Até o nosso Zé Caipora, de Angelo Agostini (páginas abaixo), estreou 11 anos antes do garoto amarelo lançado no New York World, de Joseph Pulitzer!

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Também não é dos Estados Unidos a primazia de ter lançado a primeira história em quadrinhos de aventuras. Tarzan e Buck Rogers, que os americanos consideram como os primeiros "comics" desse gênero, foram publicados pela primeira vez em janeiro de 1929. Ou seja, 46 anos depois que Angelo Agostini passou a publicar "As Aventuras de Zé Caipora".

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Quando lançou o primeiro capítulo do seu Zé Caipora, em 27 de janeiro de 1883, Agostini já era um quarentão famoso, dono da principal publicação ilustrada da Corte - a Revista Illustrada - e de um traço refinado. Zé Caipora começou cômico, mas o personagem ganhou nova dimensão criativa e gráfica logo nas primeiras páginas, quando embarca numa aventura pelas desconhecidas selvas brasileiras. A arte seqüencial de Agostini é dinâmica, ágil, elegante e, como linguagem moderna de quadrinhos, antecede em muito tempo seus congêneres Tarzan e Príncipe Valente, ambos de Hal Foster; e Flash Gordon e Jim das Selvas, de Alex Raymond.

Como ressalta Athos Cardoso em seu livro, "cabe a Angelo Agostini o título de avô das tiras de aventura, como precursor da temática e a Zé Caipora, o de primeiro herói brasileiro e universal do gênero". Realmente, "As Aventuras de Zé Caipora" pode ser considerada, sem sombra de dúvidas, a primeira história em quadrinhos de aventura do mundo. Que nos desculpe Hal Foster.

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

Nhô-Quim e Zé Caipora. Foto: Reprodução

 



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