SRZD


10/04/2011 18h46

Para viver um novo tempo
Luis Carlos Magalhães

A velha guarda é nossa luz!

Monarco nosso comandante...

Paulinho nossa referência.

 

Nossa alma são os componentes,

E seus pais, seus filhos, e seus avós.

Toda a gente de Oswaldo Cruz e Madureira.

 

Nossa esperança é tudo que passou:

Paulo, Caetano e Rufino; Manacéa, Candeia e Natal.

E todos mais que um dia construíram para nós o futuro.

Um futuro que um dia se perdeu.

 

Nossa esperança é o futuro que estarão sempre a iluminar;

Os caminhos por onde sempre nos ensinarão a caminhar.

 

Para trás... nossas tradições...

Para frente... nossas tradições;

E os ventos novos do futuro.

 

O resto... bem, o resto somos nós.

Nós que precisamos tudo e tanto de todos nós.

Porque queremos o mesmo que todos nós:

Nosso futuro de volta.

 

E-mail para contatos mais longos: [email protected]


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30/03/2011 20h40

Minha Portela querida
Luis Carlos Magalhães

A Portela não ganha títulos há muito tempo, todos sabemos.

O Presidente Nilo está lá há sete anos. Ou seja: a Portela não ganhar títulos não chega a ser nenhuma novidade.

O Carlinhos Maracanã não era exatamente um ganhador de títulos; ao contrário tirou algumas das piores colocações inaugurando este período de insucessos.

Por que se reclama tanto do Presidente Nilo?

Terá sido por menos que a sede da escola fora invadida em 2003 para destituir o grupo que lá estava?

O que estará querendo esse grupo de Portelenses promovendo encontros, reuniões, propondo claramente a mudança de rumos de sua escola querida.

De uns tempos para cá passei a disponibilizar um outro endereço para contatos mais longos que os "comments" normais . E foi assim que o [email protected] passou a ser um forum para longas e saborosas conversas carnavalescas, principalmente com Portelenses, ou não, daqui, de partes do Brasil e outros poucos residentes no exterior.

Nesse fórum fica claramente assinalada uma palavra nova e aterrorizante que jamais constou do vocabulário de nossas cores: rebaixamento.

Quem é Portelense sabe do que escapou em 2010. Não fosse o "suicídio" da Viradouro e os tradicionais pré-julgamentos da escola que sobe (Ilha) e da Porto da Pedra, ambas com desfiles superiores, a história já estaria escrita.

Então coloquemos de outra forma: o que terá sido feito de lá para cá no sentido de afastar esse fantasma de perto dos Portelenses?

Nesse sentido, nada como partirmos de uma demonstração concreta, explícita, desassombrada, escrita, para alcançarmos a avaliação que buscamos. Para tanto tomemos o texto postado pelo PORTELAWEB em 16 deste mês de março corrente.

Antes, no entanto, cabe aqui um parêntese. Ora, se é certo que tivemos por todo esse tempo pouquíssimos motivos para nos orgulhar, é certo também que essas duas instituições (Guerreiros e Portelaweb) só nos encheram de orgulho, nos diferenciando de tudo que conhecemos até aqui. 

Pelo pioneirismo e paixão de uns, pela paixão, qualidade e seriedade do trabalho de outros, não tenho a menor dúvida em me solidarizar, empenhar meu respeito pessoal com tudo que andam fazendo por aí.

Com tantos e tantos anos em torno do samba e das escolas, não hesito em destacar a importância histórica desse movimento não só pelo seu ineditismo como também pelo desprendimento e honestidade de princípios e objetivos.

É o tal "livro de nossas histórias" a que Monarco se refere. Um dia isto estará lá.

Fechado o parêntese, de que se queixam os Portelenses?

Na verdade trata-se de um rosário de queixas e lamentações que tentarei a sorte de resumir conjuntamente com relatos, queixas e preocupações expostas também por meus leitores em particular no LC2.

Vamos lá: ouço dizer que a LIESA está "por aqui" com a atual administração. Ouço que o prefeito anda muito contrariado também e sei que o presidente Nilo nega ambas as versões.

 Será verdade? Será mentira? Como saber?

O que sabemos é que houve uma reunião do prefeito com segmentos descontentes e um encontro no qual membros da torcida Guerreiros da Águia e membros do site Portelaweb foram recebidos pelo Presidente Castanheira.

 Não houve qualquer desmentido, tanto do prefeito quanto da Liesa, quanto a tal insatisfação. Não houve também nenhum desmentido convincente por parte da escola. Fica, pois, a dúvida no ar.

Falou-se muito no pré-carnaval que a escola mais atingida pelo incêndio fora a Grande Rio. Mais que a Ilha, mais que a Portela, certo?

Nada mais equivocado. Ilha e Grande Rio saíram engrandecidas do episódio, com suas comunidades orgulhosas e com sua história valorizada. A Ilha com um de seus melhores desfiles e a Grande Rio com imensa demonstração de superação. A Portela saiu enfraquecida, coberta de dúvidas quanto às reais dimensões de suas perdas, à gestão de seu carnaval  até ali e até de desconfiança quanto à utilização de recursos adicionais da Prefeitura.

Seu carnavalesco desapareceu de cena; seus principais componentes com um pé, ou ambos, fora da escola ou ameaçando sair. Sua tão orgulhosa torcida ouvindo brincadeiras, chacotas e insinuações sem precedentes.

E aqui um outro parêntese. Não tenho nenhuma relação pessoal com o carnavalesco Szaniecki. Alguns curtos e poucos encontros em passado recente foram suficientes para registrar a impressão de profissional sério, honrado e competente. Os Portelenses do LC2 e eu  estranhamos que nenhuma palavra sua tenha sido ouvida  em meio a tanta desinformação quanto às perdas reais e materiais da escola.

Vejam - e queixam-se os leitores - que nem a assessoria de imprensa da escola se manifestou com a clareza necessária à eliminação definitiva das dúvidas e controvérsias.

Será que ainda desta vez será o carnavalesco a sair com sua reputação atingida, com fama de deixar carnavais incompletos? Ou desta vez virá a público esclarecer as reais condições de trabalho oferecidas por boa parte de nossas escolas, inclusive a Portela?

Como seria bom para todos, para o carnaval, para este momento, se o carnavalesco Szaniecki pudesse ser ouvido.

Pergunto: será que é tão difícil assim trazer a público a direção do carnaval da escola, assessorada por seu carnavalesco, sua direção financeira e expor clara e peremptoriamente de que forma foram gastos 750 mil pratas. E fazer isto sem deixar uma única só dúvida? Será que isto é tão difícil assim?

Será que tais recursos já foram integralmente liberados? Muita gente está certa que sim, outros não têm tal certeza. O quê a escola, considerando tanto disse-me-disse, fez para esclarecer? Que iniciativa tomou para não deixar dúvidas no ar, considerando - repito - tantas insinuações?

E aí voltamos lá para cima: alguém aí ouviu qualquer notícia, qualquer insinuação, por menor que tenha sido, de que os recursos adicionais da Ilha e da Grande Rio não foram adequadamente aplicados?

Repito: qualquer insinuação, por menor que tenha sido? Por que razão essas coisas estão acontecendo com a Portela?

Alguém aí ouviu alguém colocar em dúvida a quantidade de fantasias perdidas pela Ilha e Grande Rio?

Enquanto isto não aconteceu, enchem minha caixa postal de perguntas que não sei responder e que não sou eu que tenho que responder.

Queixam-se leitores, e eu também, dos enredos apresentados pela escola. O texto da Pweb foi muito claro.

E aqui - e peço paciência - cabe mais um parêntese. Minha divergência maior com o presidente nos remete `a  complicada questão dos enredos patrocinados. O presidente, como sabemos, e como tantas vezes já declarou, entende e dirige a escola  a partir do dogma de que é impossível fazer um desfile competitivo sem patrocínio.

Reforçando: Toda a estratégia de planejamento e execução dos desfiles está atrelada a essa convicção: impossibilidade de carnaval sem patrocínio.

De minha parte acredito ser esta a armadilha maior no caminho da escola.

A exemplo da Grande Rio neste carnaval, quantas escolas ficam de pires na mão e não recebem um único centavo de patrocínio para o enredo que se projetou patrocinado? Vejam que o prefeito de Florianópolis sequer esteve na Sapucaí para ver a homenagem à capital que governa.

O patrocínio mais uma vez foi de uma empresa chamada "KINONVEN S.A", que engana tantas escolas cariocas.

 Quantas vezes a Portela, como tantas outras, ficou nesta situação? Quantas vezes a Portela foi em direção à possibilidade de patrocínio, empresarial ou institucional, e não conseguiu nada?

Quantas escolas temos visto com desfiles formidáveis, até campeões, sem qualquer patrocínio empresarial ou institucional? Sem babaovismo de nenhuma autoridade, sem chapabranquismo?  E aí vamos para a pista com enredos insípidos, inodoros e incolores como: "Oito Metas Para Mudar O Mundo"; "Os Deuses do Olimpo Na Terra do Carnaval"; "Derrubando Fronteiras (...)Rio de Paz", respectivamente em 2004, 2007 e 2010; respectivamente 13º lugar, 8º lugar e 9º lugar.

Carnavais para serem esquecidos.

Curioso notar que esses enredos patrocinados, pretensamente patrocinados ou chapa branca, tiveram piores classificações do que os enredos de 2008 e 2009 cujos temas, sem patrocínio, possibilitaram bons carnavais, bons sambas e bons resultados.

E aí pego carona no texto da Portelaweb.

 A escola trabalhou no sentido de apostar, de investir em algum desses carnavalescos? Como terão sido as relações profissionais? Será que a escola cumpriu seus compromissos financeiros com esses profissionais? Ou será que o maior mérito alcançado foi promover um deles - o então jovem promissor Cahê Rodrigues - de Júnior para sênior, enchê-lo de moral, auto confiança e auto estima e pousá-la no colo agradecido da Grande Rio?

E em relação a outros profissionais? Será que a direção de carnaval da Portela e sua administração financeira mantiveram uma relação de cumprimento de obrigações ou ficou devendo a deus a ao mundo, tal como se diz por aí?

Será que sim, será que não? Como saber?

Há alguma outra escola do porte e tradição da Portela que tenha a fama de inadimplente contumaz? Por que a gente tem dúvidas com a Portela, e só com pouquíssimas outras?

 A culpa não é minha e nem dos meus leitores. A Portela tem sido assim, envolta em dúvidas e  disse-me-disse.

Por que a escola não sai proativamente para exigir o depoimento pessoal de tantos alegados credores? Será que fazer isto será se amiudar já que outras escolas não o fazem? Ou será que as demais escolas não procedem assim por que, em sua grande parte, nunca são acusadas?

Por que a escola não adota uma postura agressiva de relações públicas de forma a apagar essas dúvidas que tanto inquietam os Portelenses e, pior, muito pior... muitíssimo pior, afastam qualquer eventual patrocinador que tenha tal intenção.

Que mudanças a escola tem feito - de ver-da-de! - que efetivamente possam corrigir descaminhos de forma a afastá-la do insucesso e da ineficácia? O quê tem sido feito senão esperar o outro carnaval chegar e repetir comportamentos?

 Mas, voltando aos enredos patrocinados. Tá certo, vamos lá... enredos patrocinados...

 A escola dispõe de um mecanismo profissional proativo de atração e captação de recursos? Ou restringe-se ao voluntarismo amador-otimista de imaginar um enredo supostamente patrocinável para correr atrás?

A escola dispõe de mecanismos alternativos e profissionais de captação de recursos extras?

A exemplo do Salgueiro, da Tijuca, dispõe de uma quadra que possibilite aluguel de camarotes, venda de salgados nas noites de ensaios? Oferecer o mínimo de conforto a quem tenha a intenção de "ir ao samba"?

Dispõe de alguém tecnicamente qualificado para vender a poderosa marca "Portela" pelo Brasil, tal como faz a Unidos da Tijuca?

Por que a escola não adota uma postura agressiva de relações públicas de forma a apagar essas dúvidas que tanto inquietam os Portelenses e, pior, afastam qualquer eventual patrocinador que tenha tal intenção. Que mudanças a escola tem feito que efetivamente possam corrigir descaminhos que a afastam do sucesso e da eficácia?

Que profissionais a escola foi buscar ontem e buscará hoje, dentro e fora do carnaval, que tenham apetrechamento, currículo, experiência prática comprovada e suficiente para gerenciar seu carnaval profissionalmente? Embora tenha formado uma jovem geração de profissionais do samba, fica a dever neste item mais-que-determinante para vitórias.

Quem é que faz isto em uma escola que persegue títulos, como a Portela? Como é o nome? Tem experiência necessária para exercer esse papel neste momento tão delicado da escola?

Não conheço nomes. O único nome é o do presidente. Bate o "corner" e corre para a área para cabecear. Até quando vai ser assim? A questão maior não é até quando vai ser assim?

 A questão maior, fatal, mortal é o "por quê"  que tem que ser assim?

 A quem interessa que seja assim? A quem agrada que seja assim? Qual a necessidade  de que seja assim?

Vejamos o exemplo atual. Depois de buscar para 2010 um carnavalesco ainda inexperiente e jogá-lo às feras com um enredo prá lá de heterodoxo, improvável, impraticável, com parcos recursos, no pior carnaval de uma história tão vitoriosa, a escola foi buscar para 2011 um profissional de porte, é verdade. Mas quais condições lhe foram dadas fazendo-o participar de uma "forma-de-fazer-carnaval" única e inimitável, com atrasos permanentes e constantes, diferentemente de todas as outras escolas do grupo.

Será que algum profissional-capaz-de-levar-a-Portela-ao-título vai se submeter a trabalhar com chance zero de um enredo seu, autoral? Ou participar de uma escola que às vésperas do carnaval não consegue ver seu cronograma físico-financeiro razoavelmente executado?

E voltando ao texto da Portelaweb, aos Guerreiros e aos leitores, destaco a grande questão que se apresenta e que resume tudo que está exposto aí em cima. Qual, afinal, a grande questão que emerge neste pós-carnaval, mais um, para ser esquecido?

Que estrutura pós-incêndio a escola estará montando nesse sentido? Estará montando mesmo? Será uma estrutura técnica e profissionalmente montada de forma a deixá-la em escala de competição com as demais?

Ou será uma estrutura "ajeitadinha", remendada, capaz de deixar a escola na risca do rebaixamento?

Se a resposta a essas perguntas for positiva, acho que o presidente eleito estará no  seu direito de tentar um melhor resultado para a escola e reconquistar seus componentes e torcedores.

Mas se a resposta for negativa estará apenas representando mais uma inconsistente e insuficiente mexida e, mais do que isto, mais uma tentativa de que a inocência triunfe sobre a boa fé e a esperança dos Portelenses?

E aí, caberá legitimamente aos Portelenses perguntar: qual o nosso papel nisso tudo?

O que se busca saber é que tipo de profissionais do carnaval, com comprovada experiência, a escola buscará para gerenciar fluxos financeiros e corrigir esta distorção que é a mais apontada por torcedores e componentes a cada véspera de carnaval atrasado?

Distorção que só perde em intensidade para a insatisfação na escolha do samba enredo.

Que esforços a Portela faz no sentido de atrair seus melhores compositores a uma disputa em que lhes seja garantido que o melhor samba vencerá? A escola é hoje uma das poucas em que já se entra na disputa sabendo-se o vencedor com enormes chances de acerto

Sou eu que digo isto, são os Guerreiros, são os da Portelaweb? Claro que não! Até porque só acompanho as disputas em sua reta final, impossibilitado, portanto, de fazer tal julgamento.

Quem ouve isto são vocês aí, ou não é? Quem diz isto são os leitores, os internautas, todos enfim que acompanham o dia a dia das disputas.

 E quem é culpado por esse disse-me-disse?

É a escola que não vem a público, a exemplo do que fez o presidente da Mangueira, e, mais do que falar, toma medidas para que a disputa seja a mais justa possível e o melhor samba possa despontar e vencer.

A ala de compositores da Portela precisa acreditar que a disputa será para valer! Precisa voltar a acreditar...

Que compositores hoje se dispõem a dedicar tempo para a composição de um samba de qualidade sabendo o que lhes espera?

Essas perguntas se multiplicam por aí. Essas e outras que se somam e assumem dimensão de combustível para pequenas fogueiras e se potencializam quando um grande incêndio ocorre.

Chega a ser curioso que o incêndio tenha trazido tantas perguntas à tona. Perguntas sem resposta, ou com respostas esquisitas. Esperar que o torcedor apaixonado supere tantas dúvidas e siga confiando é apostar  mais uma vez no triunfo da  tal inocência sobre a esperança.

A Portela não voltará a seus dias de glórias se for, ou se é, uma escola composta de inocentes. Não foi essa a lição que aprendemos, não foi assim que construímos uma história tão forte, tão bonita.

Como acreditar que essa direção pode fazer em 2012 algo diametralmente oposto ao que vem sendo praticado? Mesmo que todos que já estavam permaneçam, ou profissionalmente ou por amor à escola, ou as duas coisas, pouco adiantará se não houver, isto sim, mudança de atitude gerencial, atitudes claras, convincentes e comprováveis.

Como acreditar em mudanças e-fe-ti-vas? Como ter a certeza que "mexidas" serão operadas ú-ni-ca-men-te para deixar a impressão de "alguma mudança" apenas para calar inconformados.

Pode-se até procurar o que dizer dos que estão mais diretamente envolvidos, nunca que são "fofoqueiros", inventadores de histórias e destemperados.

Os Guerreiros e a Portelaweb  e os outros são inconformados não por serem intrinsecamente rebeldes ou insensatos. Meus leitores não são intrinsecamente pessimistas. Uns ou outros se rebelam, ou se amedrontam por que há uma história grandiosa alimentadora de suas paixões.  

Uma história grande e bela o suficiente para jogá-los nas ruas em busca de verdades e de mudanças.  Mudanças nas quais possam crer verdadeiramente, que lhes traga a esperança.

 Mais do que isto: a confiança.

O que os Portelenses aqui citados querem é se orgulhar de seu passado, sim. Mais, muito mais do que isto, querem olhar para frente, para seu futuro.  Enfrentar o carnaval de agora, encarar os novos tempos com as forças e mecanismos adequados.

E - muito mais importante - que se crie um ambiente eleitoral democrático, incentivador e encorajador de novas lideranças.

Que o debate, a luz, se instaure em nossa quadra e a ilumine de idéias, gestos e atitudes.

Luz! Isto é o que precisamos agora.

A luz dos novos tempos que todos esperamos.

 

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17/03/2011 20h48

FUI!!!
Luis Carlos Magalhães

Recebo o seguinte e-mail do leitor-internauta-ex aluno Thiago Azevedo,  jovem leitor antigo de minhas crônicas:

"Luis Carlos, te acompanho desde os tempos do odianafolia. Alguma coisa está errada, meu caro. Que desfile é esse do acesso que você viu no sábado, tinha tomado uma (s)?

O Imperinho, escola que você mais gostou em vibração e enredo e que teve os carros que você mais gostou, tirou um medíocre 7º lugar. Praticamente empatada com o Império Serrano que você achou muito ruim e com a Inocentes que você não demonstrou qualquer entusiasmo.

Já sobre a Rocinha você escreveu: 'Se houve uma escola que deu aula nesse desfile do acesso, essa escola foi a Rocinha. E a aula foi de desenvolvimento de enredo (...)'. A escola ficou apenas em 9º lugar atrás do pior desfile que você viu do Império Serrano e um pouco na frente da Caprichosos que, segundo você, foi o pior desfile que você viu na vida.

A Renascer foi campeã. Você no dia não apontou nenhuma crítica e nem qualquer entusiasmo. E a escola tirou 10 em quase tudo".

Diante disso, em respeito a meus queridos leitores-internautas, e em respeito a mim mesmo, declaro que não entendo nada do que se passa nos desfiles do Grupo de Acesso A, me retiro da cena e deixo de escrever  e opinar sobre  os desfiles desse grupo, inclusive durante o carnaval, até que as coisas ficarem mais claras em minha mente.


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10/03/2011 21h47

Carnavalzinho pra lá de esquisito!
Luis Carlos Magalhães

Eu sei que muito pouca gente percebeu, mas acabei ficando fora da Sapucaí no carnaval. Deu zebra com minha credencial e preferi ficar em casa.

Minha mulher ficou muito contrariada e estranhou muito a passividade com que eu aceitava aquele fato que, antes, teria assumido proporções de tragédia.

Fiquei ali, uma cervejinha aqui, uma comidinha gostosa depois, escola por escola. Fazia muito tempo que não assistia o desfile pela Tv. Sei que é muito ruim, mas não foi tão mal assim, meu "camarote" acabou ficando muito acolhedor.

Acho que minha escola chamuscada e excluída da disputa amenizou a decepção por minha ausência da festa. Uma festa que espero chegar como o menino que fui esperava o natal.

Vi o desfile de sábado, naquele dia minha credencial "PRESS" valeu. Achei que a Cubango ia vencer, ou a Viradouro. A Rocinha me encantou, mas... gostar mesmo, de verdade, gostei do Império da Tijuca.

Antes do desfile de domingo dei uma relida em minha coluna postada imediatamente após o carnaval passado. Na verdade foram duas: uma delas em 18 de fevereiro, "Aquele Carnaval Que Passou", na quinta-feira posterior aos desfiles, e a outra duas semanas depois já com resultados digeridos à qual dei o título "Vitória Retumbante" ao me referir à vitória da Tijuca.

A Tijuca não perdera mais que um décimo em nenhum quesito. Ali eu dizia que não me lembrava de uma vitória tão imediatamente aceita, antes e depois da apuração. Criei até o termo "paulobarrização do carnaval", preocupado com o efeito daquela "maneira de fazer carnaval" sobre as demais escolas e seus carnavalescos. Ali víamos "uma arte específica que nem todo carnavalesco domina ou dominará". Uma maneira muito pessoal de "narrar e de expor".

Meu receio era de que vitória uma tão retumbante desencadeasse uma contaminação daquela maneira tão pessoal de fazer carnaval, de conseqüências não imagináveis.

Dali saia vitorioso o carnavalesco que evidenciava o grande desafio do carnaval: a comunicação com o público. "Um desafio que tem em Paulo Barros seu maior desafiador", (...) e, pelo impacto criado, "(...) que tem nele o maior desafiado".

Citei naquela oportunidade três frases, todas pós carnavalescas: "antes de conquistar o júri, temos que conquistar o público", dita pelo próprio Paulo; " É...pegou na veia", dita por Renato Lage; da outra não consigo me lembrar, mas veio de Laíla que acusava o golpe e anunciava uma Beija Flor mais leve, mais solta.

E a Grande Rio fez aquele carnaval todo.

E esse carnaval de 2011 se aproximava com uma Tijuca divulgando aquele enredo anunciadamente arrebatador, e a Beija-Flor com Roberto Carlos. E eu achando que ia pegar fogo (desculpem, esse incêndio não me sai da cabeça).

Quem arrebataria mais a platéia? Essa a aposta das escolas por mim nominadas favoritas.

Correndo por fora o Salgueiro e a Grande Rio se impunham a cada dia e sendo logo incluídas entre as favoritas.

Depois veio aquele incêndio e o carnaval começava a começar: Uma favorita ficava de fora. E quando começou para valer uma outra favorita ficou também de fora. Restaram as duas favoritas iniciais que acabariam e acabaram por decidir o título.

E quem venceu afinal? A que mais arrebatou? A que mais emocionou, a que mais surpreendeu? Ou deu NRA?

Da sala da minha casa não vi nem uma coisa nem outra. Me baseando no título e na sinopse acabei perdido no enredo da Tijuca. Me baseando na sinopse da Beija Flor, em muito focada no repertório do "rei", senti a emoção passar longe, restrita ao único momento do último carro.

Ainda inconformado com o efeito "King Kong" da escola que mais me encantara, e enquanto a chuva batia forte na vidraça de minha janela, confesso que não me arrependi da opção que fiz no dia anterior. Pior, não me arrependi nem um pouco.

Quem venceria não me importava. Achava que os quesitos de samba, de chão, definiriam a parada. Se uma esbanjara força nesses quesitos no ano anterior, a outra não ficara atrás. Tanto que me recusei, por todo o ano, a acreditar no que muitos diziam sobre vitória tijucana atribuída unicamente à comissão de frente.

Não considero que o carnaval de uma tenha sido superior ao da outra, cheguei a achar que a Vila surpreenderia.

E aí veio o resultado. A tijuca perdeu tanto em tantos quesitos que está me convencendo a achar, como tantos leitores, que aquela outra comissão de frente, a de 2010, realmente contaminou os quesitos e fez a diferença final. Que aquela CF fora a maior responsável por aquela vitória.

O enorme impacto da atual comissão ficou ali, fez o seu papel. Penso que com todo seu impacto, a nova CF não chegou a contagiar a escola e não foi suficientemente forte para contaminar quesitos e contagiar julgadores. Cumpriu magnificamente bem sua função e pronto.

A Beija Flor veio mais leve, mais solta, é verdade. Mas não a reconheci. Não reconheci algumas fantasias, alguns setores em harmonia, não reconheci a comissão de frente. Mas sabia que no chão era a mesma escola, no canto era a mesma escola, no samba era a mesma escola, o casal era o mesmo casal. Por isto cheguei apostar mais nela como vencedora.

E aí veio o resultado. Aquela diferença toda me assustou, ainda que até prevista a ordem de classificação. Um julgamento excessivamente severo em relação às outras e benevolente com a campeã.

Terá sido uma pré disposição contrária dos julgadores àquela forma tijucana de fazer carnaval ? Mas e quanto ao Salgueiro nos quesitos off atraso, só para citar a que mais me impressionou?

Um fato em especial me chamou a atenção: o quê houve com o julgador Carlos Alberto? Será que eu não fui capaz de perceber tanta diferença entre a escola que tirou dez e as demais que beiraram a nota zero, ou oito, a nota mínima? Que desfile aquele senhor viu e que eu não vi?

Um julgador rejeitou a "paradona". De minha parte gostei muito, até por deixar no ar, e nos fazer ouvir a voz do canto das arquibancadas. Mostrou assim que o sambódromo não é tão frio como pensamos. Aquele som, naquele volume, não deixa o canto geral ser ouvido. Considero o samba do Salgueiro julgado com muito rigor, só para citar dois exemplos mais claros. Mas respeito qualquer critério, inclusive os de maior rigor e caneta mais pesada, desde que seja para todos.

Como pode um julgador ter sido tão rigoroso com as alegorias de quase todas as outras escolas sem ter visto a avaria no navio do "rei"?

Como disse, não estive lá para ver isto, mas recebi vários e-mails de leitores presentes que acusaram o problema, inclusive um torcedor insuspeito da escola.

Aquele conjunto de notas foi claramente destoante de todos os outros, de todos os julgadores, ainda que, quase todos, destinados ao descarte.

A dúvida maior que me fica, e são tantas, eu divido com vocês, com a abstração da tal gritante diferença de pontuação, pelo menos neste momento: será que neste ano a presença do "rei" foi "aquela comissão de frente do ano passado", mesmo vindo atrás e vindo de outra escola?

Outra: uma coisa é uma vitória normal, por assim dizer; outra coisa é uma vitória avassaladora numericamente. Será que o objeto do julgamento foi Roberto Carlos e não a Beija Flor? Será que alguns julgadores estavam na verdade fantasiados de tietes? O ídolo foi julgado e não cada um dos segmentos da escola?

Que terá feito a diferença no comportamento diferenciado dos julgadores?

Terá havido contaminação de quesitos a partir do ídolo? Terá havido contaminação de quesitos em 2010 a partir da comissão de frente? Será que os julgadores são suficientemente orientados, a cada carnaval, quanto ao risco de tal contaminação?

Agora o carnaval acabou. Esperei tanto e fiquei de fora da festa. Ainda bem que curti muito os ensaios técnicos e os ensaios de minha escola em Madureira, quando o sonho ainda não havia acabado.

Foi mesmo um carnaval esquisito. Antes, durante e depois. Adorei ter ficado em casa. Tanto que fui barrado no domingo e nem tentei entrar na segunda.

Me confesso meio desanimado com tudo isso aí em cima. Também por ter vivido o carnaval o ano inteiro e ter recebido uma credencial "PRESS" que só me deixava circular por corredores.

E viver um carnaval cujo vitorioso não é contestado e sim o tamanho de sua vitória.

Nunca imaginei que um carnaval tivesse acabado sem que eu sentisse falta de ter pisado na Sapucaí. E olha que não falei, ainda, do resultado do acesso e nem do, moralmente, pior incêndio que foi o da Alegria da Zona Sul.

De minha parte a alegria que tive ao vivo de ver a rapaziada da Formiga mostrando tanto carnaval com tão poucos recursos. Daqui do meu camarote particular a alegria de ver na Ilha que ainda há beleza possível neste carnaval espetacular. Da Mangueira a alegria de sentir que o samba está aí mais forte do que nunca.

Do Salgueiro por ter resumido e concentrado isto tudo. Ter provado que a beleza do desfile está no equilíbrio de forças entre a cultura do carnaval, do espetáculo e da cultura do samba.

No mais, parabenizo a RIOTUR , a Liesa e a Tv Globo. Mais uma vez ficaram com o peso maior da balança.

O carnaval despejou na economia carioca importantes 1.5 bilhão de reais. O carnaval fica cada vez mais atraente para a economia, para o turismo e para os anunciantes, de agora e do natal.

Cada um cumprindo competentemente seu papel e sua parte.

Já a face cultural ... enredos, sambas, alegria ... tá ficando esquisita...

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05/03/2011 15h08

Cordão da Bola Preta arrasta multidão no Centro do Rio
Luis Carlos Magalhães

Manhã, tão bonita, manhã...

E nem era manhã tão bonita assim, mas quem se importava...

Chovia, sim; mas o cenário era mais que perfeito.

Mais uma vez... mais um carnaval ... mais um Bola Preta.

Mais uma vez fico me perguntando: por que razão gosto tanto disso, por que razão isto me faz tão bem? Me revigora, me traz tanta energia?

* Veja galeria de fotos do Cordão da Bola Preta 2011

Sabemos que o carnaval para uns tem suas origens há milênios vinculadas à agricultura e à alegria e comemoração de colheitas bem sucedidas. Para outros
tem origens mais recentes, alguns séculos atrás, quando a igreja definiu datas que acabaram por direcionar o comportamento dentro do universo da fé cristã.

Será que uns ou os outros sabiam o que estavam inventando. Que proporções tudo isto ia alcançar?

De uma maneira ou de outra, desde essa ou aquela data, o carnaval ganhou o mundo e está por toda parte. Mas em nenhum outro lugar expandiu-se em dimensões continentais e tão vibrantes como aqui, entre nós.

Foto: Ricardo Almeida/Divulgação

Por todo país vemos os espetáculos das escolas de samba. Regionalmente mais diferenciada na Bahia e em Pernambuco a festa mostra ao mundo a cara multifacetada culturalmente que temos mostrada ao mundo com a cara monofacetada da mesma alegria de brincar o carnaval.

Que outro país, que outro lugar poderia proporcionar uma festa tão singular, tão generosa, tão intensa quanto a que faz o Cordão da Bola Preta?

Por mais que me orgulhe, que goste tanto, que pense e escreva sobre ele por todo o ano, nunca deixei que o desfile das escolas de samba monopolizasse meu carnaval. E nunca vou deixar.

O cortejo do Bola Preta para mim ainda é o momento insuperável, maior da festa. Será que era a isso que o Didi, da Ilha, queria dizer com o tal "porre de felicidade"?

Aquela multidão, aquela avenida, aquelas marchinhas e sambas atemporais para mim são mais significativos do que o mais bonito e mais vibrante desfile que eu possa ter vivido.

É claro que há um enorme componente pessoal, familiar, emocional nisso tudo. Não posso, não me interessa e não vou negar.

Se o desfile para mim é uma mistura da cultura do samba e de carnaval, o cortejo do Bola é mistura de samba, de carnaval, temperado e apimentado com marchinhas que nunca vou poder esquecer e de sambas de carnaval que nunca vou poder esquecer.

E tudo isto com gente, com muita gente. Gente como eu que ama o carnaval, que ama a cidade, que se orgulha de ambos, e que vive e deixa transbordar em cada um o verdadeiro espírito carnavalesco, coisa que as escolas de samba, cada vez mais bonitas, vão deixando progressivamente para trás.

Será aquele momento, aquele sábado, aquela manhã de carnaval, é um momento mágico!? No sentido exato da palavra?

Isto mesmo, momento mágico. Ali não é a vida real, não é o dia a dia; ali não é o carnaval de 2011.

Essa a magia do BOLA, por isso me faz tão bem.

Aquilo não é verdadeiro, não é real. Aquela massa humana, aquela massa musical, todo mundo igual, com a mesma cara, ou mesma expressão, só existe ali, naquele momento; só existe para quem está ali, agora. Não adianta ver pela televisão.

Se na vida real as marchinhas morreram, sob a fúria comercial dos sambas-enredo, se no dia a dia os sambas são tão "corretos", "suficientes", "mecânicos", se no carnaval de 2011 ouvimos tão poucos sambas que nos induzem a cantar e dançar, no mundo irreal, único, mágico do Bola Preta tudo isto está de volta.

Está de volta, uma ova! Nunca foi embora!

Vi um rapaz ainda imberbe, fantasiado de árabe, brincando com uma moça de idade semelhante vestida de cigana só na cabeça. Naquela hora a banda tocava "A Jardineira". Não sei se conheceram ali. Ele fez ar de apaixonado e perguntou "por que ela estava tão triste"? E ela,com ar mais apaixonado ainda, respondeu aquelas coisa coisas da Camélia caída do galho para morrer em seguida. Não deu para ouvir direito, mas acho que ele estava querendo dizer a ela "que este mundo era todo dela, e que ela era muito mais bonita que a camélia que morreu"

Ali não eram jovens americanos dirigidos pelo "american way of life". Lá só o futuro importa: o futuro está no futuro! O cordão do Bola, naquele momento irreal, me dá a infinita certeza de que aqui as coisas são diferentes. Se o futuro está no futuro, no passado está nossa alma. A alma do povo brasileiro com todas as suas paixões.

Sabemos que o carnaval, pela importância cultural, pela ancestralidade em nossas vidas, é terreno profícuo para o saudosismo, assim diz sempre Sergio Cabral com saudades os carnavais imortais da Cascadura de sua infância.

Quem é que vai tentar me convencer que o maior sucesso do carnaval foi "Tengo, Tengo", "Máscara Negra" ou "Jardineira"?

Cada um de nós tem seu jardim de carnaval. Nele suas melhores lembranças, suas ruas de infância, a presença terna e amiga de pais, irmãos, avós... e de tantos amigos, todas e tantas namoradas mesmo que nunca tenham sido verdadeiras namoradas.

Que outro povo terá isto?

Que outro povo faz de sua festa maior, mais exuberante, o repositório de suas saudades, de suas alegrias, da busca do remédio para as adversidades e descaminhos de uma vida que tomou rumos muitas vezes tão doloridos?

Tantas tristezas por aí, tantas perdas pelo caminho.

Pois saibam que para mim o maior carnaval do mundo, maior que da Sapucaí, maior que do Bola Preta era o carnaval da casa de D. Vilma. D. Vilma, a Tia Ciata da rua Cabuçu, a tia festeira, acolhedora, amiga que deixava fazer acontecer em sua pequena sala, ao som de frevos, marchinhas e sambas carnavalescos, as maiores ilusões de nossa vidas infanto-juvenis.

Pois saibam vocês todos que a música de carnaval que mais me toca é o hino do América.

Como é que vocês querem nesses dias de hoje que eu consiga dimensionar para vocês o que era o baile começar e depois terminar nos salões do América ao som daquele hino?

Como é que eu posso conseguir dizer para vocês o que era ouvir aquele hino ao final do baile, sabendo que estávamos na terça-feira. Saber que era, enfim, o fim daquele carnaval.

E ver a Sandrinha, a maior de todas as minhas paixões de carnaval, com aquela pele tão morena, sair do baile com um cara muito mais bonito do que eu, muito mais velho do que eu? E tudo aquilo que aconteceu na casa de D. Vilma, será que não valeu nada? Será que a vida é isso?

O carnaval do Boulevard, de Vila Isabel.

As cadeiras na porta da Vila Cortez, que está lá até hoje, casa da avó de meu pai. Estávamos todos ali e éramos tão felizes. Puxa, queria muito que vocês soubessem como éramos tão felizes naqueles carnavais.

Aí eu vou para a Sapucaí hoje e sinto o maior orgulho daquilo lá. Puxa, eu sinto como se fosse o meu povo contando a sua história, uma história que eu acho tão bonita, apesar de tudo. E  contando de uma forma como nenhum outro povo é capaz de contar.

Mas quando estou no Bola Preta é diferente. Muito mais que a história musical de meu povo, ali está passando também o carnaval das marchinhas da minha vida. Os sambas que meu pai cantou um dia, naquela mesma rua.

Ali, com o Bola Preta, muito mais que um carnaval tão bonito, passa a trilha sonora da própria vida de cada um de nós.

Assim como se soubéssemos, ou mesmo que tivéssemos por ilusão, do quanto fomos tão felizes e nem sabíamos quanto.

Esta crônica é dedicada a Olivier Desart e Emilie Bottldoorn, companheiros de hoje do Bola, foliões do carnaval do mundo inteiro.

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02/03/2011 00h00

Quem é você, carnaval?
Luis Carlos Magalhães

O Bigode não quer nem saber. Quando vira o mês de fevereiro o bicho entra em mutação. Os olhos cintilam, fica atento como a ave que rapina uma presa futura.

Bigode é o porteiro do meu prédio, que adora carnaval como ninguém. Já foi passista da Aprendizes de Lucas e da Unidos da Capela mas não gosta mais de escolas de samba. Não é que não goste, com a maturidade passou a apreciar outras possibilidades naqueles três dias. Virou rei do Terreirão do Samba.

É só o carnaval chegar que o velho passista some na pista.

Mas há muita gente que quer saber sobre carnaval. Que história é essa, essa maluquice toda, como terá começado tudo isto?

Acho que não há um só folião carioca que não tenha, pelo menos uma vez na vida, ouvido a minuciosa palestra de Dr. Hiran Araújo, diretor cultural da LIESA, sobre as origens da folia. Ou seja, a sua visão, resultado de suas pesquisas sobre a gênese do Carnaval.

Segundo tais estudos a coisa vem de muito longe, cronológica e geograficamente. Nos fazem viajar até, no mínimo, 10 mil anos atrás, a.C.; mais antigo ainda que Raul Seixas nascido nos últimos 10 mil.

Refere-se a seres com rostos mascarados e corpos pintados e adornados a promover rituais de verão destinados a afastar demônios da má colheita. A reclusão e o frio dos invernos ficavam no esquecimento.

Um pouco mais para cá no tempo, ou menos para lá, surgem as homenagens à deusa Isis e ao touro Ápis entre os egípcios; entre os teutões a deusa Herta e as bacanais, saturnais e lupercais entre gregos e romanos.

Sempre rituais e celebrações decorrentes de ciclos naturais. Vinculados à agricultura e pastoreio.

Com a evolução e normatização da convivência humana, regras e leis, a libertinagem em maior ou menor grau passaram a representar momentos de fuga em determinados momentos de menor observância de tais regramentos. Assim foi entre egípcios e hebreus e depois entre gregos e romanos.

Mas como eram essas festas? Dr. Hiran explica e eu faço o resumo:

Saturnais homenageavam o deus Saturno, ele que ensinara a agricultura aos romanos. Comemoravam a volta ao trabalho no campo. Escravos eram alforriados, escolas e tribunais não funcionavam e tudo era canto e dança pelas ruas de Roma em três dias de "bundalelê" e "líberôgeral".

Nos cortejos inaugurais do período havia grandes carros imitando navios,os CARRUM NOVALIS, conduzindo homens nus dançando ... digamos... obscenamente. Daí resultaria a expressão italiana "CARNEVALE".

O pesquisador Osmar Frazão é citado por Hiran ao informar que esse ritual seria adotado pelo Cristianismo com exclusão dos CARROS NOVALIS e suas danças obscenas, deixado ficar, entretanto, aquele sentido de igualdade ou inversão social, admitindo-se...huummm!, digamos, algum grau de licenciosidade. Na idade média já se notava eventos extravagantes como corrida de corcundas e guerra de ovos, a noite sob luz de velas.

Ainda em Roma, depois das Saturnais chegava o tempo das Lupercais. Assim com um jeitão de ...digamos... purificação. Purificação e celebração da fecundidade... fecundidade da terra, bem claro. Louvavam o rei Pã cujos sacerdotes, banhados em sangue de cabra, depois banhados em leite e cobertos por capas de bode, munidos de correia de couro perseguiam romanos em disparada pelas ruas repletas.

As bacanais aumentavam o teor de licenciosidade. Celebravam o retorno do sol, a chegada da primavera. E aí, já aparecia a figura de Momo (daquele jeito como a Ilha contou inesquecivelmente: "você pensa que esse vinho é água").

Outro pesquisador, Felipe Ferreira, Coordenador do Centro de Referência do Carnaval do Instituto de Artes da UERJ, já vê a origem da festa por um outro enfoque.

Segundo Felipe a origem dessa versão, a que chama milenarista, está baseada no princípio de que os sinais definidores do carnaval são a inversão de valores e status social, exageros, caricaturas além de momentos de loucura. E prossegue lembrando que tais sinais podem estar presentes em qualquer momento da história da humanidade. Em qualquer lugar onde tenha havido farra, exagero, bebedeira, descontrole e inversão.

E assim as Saturnais, Lupercais, e Bacanais do universo greco-romano adquiriram status de origem da festa carnavalesca. A descrição dessas celebrações, orgias, inversões e exageros passaram a significar provas das festas carnavalescas.

Avança em sua argumentação. Assim sendo, qualquer manifestação que tenha tais elementos presentes poderá, por isso, ser definida como carnaval. Exemplifica os bailes funk e festas juninas do nordeste. E opõe a esses exemplos duas das mais expressivas manifestações carnavalescas atuais em que tais elementos estão ausentes: o organizadíssimo desfile das escolas de samba cariocas e o atual carnaval da orla de Salvador.

Para o professor Felipe Ferreira este carnaval que está aí, esta programação de eventos para um período certo e previamente conhecido, é produto da sociedade ocidental cristã. Foi esta sociedade que estabeleceu este período certo de penitências (quaresma), antes do período do calvário do Cristo (semana santa). A igreja marca então a 4ª feira como início das privações. O adeus à carne, o carne vale... o carnaval.

E o quê que o Bigode tem com isto?

O Bigode nada, o negócio dele é outro... o Baco dele é outro, suponho. Mas nós temos.

As duas correntes de pensamento aqui enunciadas estarão presentes e expostas neste carnaval. Serão desenvolvidas em enredos de escolas de grupos diferentes representando uma atração a mais para quem é chegado a este tipo de viagem.

A Mocidade contará a "Fábula do Divino Semeador" passeando pelo tema da aventura humana em busca da subsistência, das plantações e, consequentemente, das celebrações e comemorações das colheitas. Ou seja, aqueles carnavais milenares do Dr. Hiran até os dias de hoje quando Pã, Saturno, Baco darão passagem a Fernando Pinto, deus mais moderno, senhor de alguns de nossos melhores e mais vibrantes carnavais.

"Vou voltar, um dia ao espaço sideral

                        E reviver o meu ziriguidum, em alto astral"

No acesso, a valente Império da Tijuca, rainha da Muda, trará o enredo "O Mundo em Carnaval" em que mostrará as diferentes manifestações em torno do mundo nas mais diversas condições geográficas e climáticas, não sem antes, bem no comecinho do desfile, contar aquela história a que se refere o professor Felipe Ferreira, tal como consta da sinopse, logo no primeiro setor sob título bastante sugestivo e esclarecedor:

"1º SETOR
O COMBATE ENTRE O CARNAVAL E A QUARESMA"

De forma bastante rudimentar, na Idade Média européia, as pessoas já se divertiam pelas ruas no período carnavalesco, incentivadas a partir da instituição indireta do Carnaval pela Igreja Católica, a qual determinou à população a proibição dos prazeres mundanos durante quarenta dias, a quaresma, em referência aos dias de penitência de Cristo no deserto, para dedicarem-se somente à reflexão espiritual.

Antes de iniciar essa difícil abstinência aos deleites proporcionados ao corpo, o povo começou a realizar festas em que imperavam a comilança, a bebedeira, as cantorias e outros divertimentos considerados pecaminosos. Mãos em movimento, partilhando, dividindo e criando coletivamente o brincar carnavalesco".

Para quem gosta, como já disse, uma bela atração a mais. De minha parte, não vejo a hora.

Quando ia enviar o texto para postagem encontrei o Bigode na porta do elevador, já dando um "trato" em seu "quepe" da marinha de tantos carnavais. Na outra mão levava um cordão feminino de odalisca que ele ia oferecer para a morena que é balconista da loja de rações ao lado.

Aproveitei e perguntei a ele:

- E aí Bigode, quê que tu acha? O carnaval é milenar ou secular? Quem está com a verdade. Dr. Hiran ou o Professor Felipe.

Perguntar, bem que eu perguntei, mas Bigode nem quis ouvir direito...

Referências bibliográficas:

Memória do Carnaval, Riotur, Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1991.

Revista do Centro Cultural Cartola: Samba em Revista. Agosto/2009, ano I,nº 2. Artigo: Carnaval Como Fenômeno Social (pg. 53), Felipe Ferreira.

Livros sugeridos:

Araujo, Hiran. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2000.

Ferreira, Felipe. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

Ferreira, Felipe. Inventando Carnavais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

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21/02/2011 02h15

Mais fumaça, menos luz no barracão da Portela
Luis Carlos Magalhães

Todo mundo que já trabalhou pelo menos um dia em alguma empresa, em algum órgão público, já teve algum contato com a "Rádio Corredor". Ali se conhecem mentiras e verdades, meias mentiras e meias verdades, quase mentiras e quase verdades. Ali reputações são confirmadas, reafirmadas ou demolidas.

Assim é no carnaval. Os sites carnavalescos dão notícias "quase" até antes de elas acontecerem, as salas de relacionamento são mais rápidas ainda. O advento dos ensaios técnicos criou o ambiente de camaradagem e confraternização para quem trabalha em torno do carnaval e para sambistas de ontem, de hoje e de amanhã.

E é neste clima que surge a "Rádio Sapucaí". Aquilo que é verdade intuída, ou não, sai nos sites. Aquilo que ainda está no estágio anterior é dito, sussurrado ou insinuado na "Rádio Sapucaí".

Sábado havia uma enorme expectativa em torno do primeiro ensaio técnico da Portela após o incêndio ocorrido semanas antes na Cidade do Samba.

De alguma forma, por alguma fonte, seja pela própria escola, por testemunhas, pela imprensa escrita, pelos sites e pela Rádio Sapucaí se tomou conhecimento indubitável do que ocorrera à Ilha e à Grande Rio.

Da mesma forma, por nenhuma fonte, seja pela própria escola, por testemunhas, pela imprensa escrita, pelos sites e pela Rádio Sapucaí não se conseguiu tomar conhecimento concreto do que VERDADEIRAMENTE ocorreu no barracão da Portela; nem a dimensão real de suas perdas, nem a magnitude dos danos causados ao carnaval da escola.

No sábado a Rádio Sapucaí esteve impiedosa. Quem é, aí desse lado, que não ouviu pelo menos três vezes que a escola foi a maior beneficiada com o incêndio. E que nem uma única alegoria estava razoavelmente montada, ou "forrada" como diz tia Dodô, e que mesmo assim nenhuma delas fora atingida.

Quem é que ainda não ouviu que uma quantidade enorme de fantasias estava fora do barracão e que a "tal tragédia" não passava de seiscentas fantasias. Que as roupas da bateria, da porta-bandeira estavam salvas.

Quanto de verdade há nisso tudo? Quanto?

É duro para um Portelense orgulhoso - e são tantos e por toda parte - ouvir que não tinha nada pronto, que os carros estavam "no osso", que a exclusão do julgamento foi providencial e que o não rebaixamento foi uma dádiva. Pouca, alguma e muita maldade da "Rádio Corredor" de sábado.

A escola, no entanto, fez sua parte. Ensaiou, cantou e dançou como sempre, como se nenhum incêndio tivesse havido. Bateria 10, Gilsinho 10, Nilo Sergio e a rapaziada 10, Lucia e Rogério muito 10.

Baianas 10, harmonia 10 e samba ... hummm!, digamos ... quaaase 10, vá lá.

Meu texto desta semana já estava pronto para ser postado, mandei ontem para o editor, juro. Acordei no dia seguinte com meu irmão, ao telefone, querendo saber a verdade após ler a revista de domingo de O Globo.

Levantei, tomei um cafezinho, peguei a revista e li. E só me restou suspender a postagem e mudar o tema de minha crônica semanal.

Todos sabemos que a revista tem um público alvo variadíssimo que acompanha muito, pouco ou nada o carnaval e as escolas de samba. Cada um desses públicos leu, digeriu e assimilou à sua maneira o conteúdo da matéria.

Para o povo do carnaval em geral, e para a nação Portelense em particular, a revista jogou mais cinzas, mais fumaça nessas coisas ditas aí em cima. Se não jogou mais gasolina, não trouxe nenhuma luz, nenhuma informação esclarecedora quando tratou do incêndio e dos danos causados ao carnaval da escola.

Especificamente naquela questão que mais incomoda, que mais preocupa o Portelense, a matéria chega próximo à desinformação, ou melhor... aumenta a confusão.

Uma confusão já existente desde a segunda-feira do incêndio. Ora a informação de que a escola perdera tudo. Ora de que salvara os carros e perdera as fantasias. Ora de que das fantasias 2800 viraram cinzas, ora que delas, na verdade, somente 600 viraram pó.

Ao saber da reportagem imaginei ver todas estas questões esclarecidas. Ao invés disso, logo na parte inicial, ao invocar a garra da escola, Tia Surica mandou: "Perdemos algumas fantasias. Mas no desfile, vamos cair pra dentro deles (...)". Ainda ali, logo na primeira parte o texto a matéria informa que " O incêndio da Cidade do Samba, que consumiu duas mil fantasias da agremiação, é mais um capítulo da árdua trajetória dos portelenses".

Fiz uma conta rápida: das 600 fantasias informadas pela "Rádio Sapucaí" para as duas mil informadas pela revista há uma diferença exatamente 70% . Para o comum dos leitores da revista tal diferença não chega muito a importar, mas para costumeiras vítimas da Rádio Sapucaí... como dói.

Será que a matéria saiu com erro? Será que alguém se enganou? Será que a Rádio Sapucaí exagerou? Será que a escola está ocultando algo?

Uma pena que o carnavalesco da escola, sobre quem recai o peso da reconstrução, não foi ouvido. Por que a direção da escola não vem a público com seu carnavalesco e esclarece de-fi-ni-ti-va-men-te tanta desinformação, tanta dubiedade.

Tardia, sim, mas ainda saudável, só a informação transparente, límpida, precisa, clara, objetiva poderá evitar que as 'verdades' da Radio Sapucaí restem como 'verdadeiras' e manchem o livro de nossas histórias... aquele mesmo repleto de tantas conquistas a valer.

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12/02/2011 01h48

Que carnaval, hein?
Luis Carlos Magalhães

Até a minha crônica de poucos dias atrás eu supunha que a maior atração deste carnaval seria a disputa Beija-Flor X Tijuca na captura da emoção das arquibancadas: uma com Roberto Carlos e a outra com as inimagináveis surpresas escondidas no escuro de uma certa sala de cinema.

Doce ilusão. Até parece que os deuses do carnaval toleram que se faça previsões com tanta antecedência.

Olha! Eu não duvido nada que tenha gente aí torcendo por um novo incêndio que beneficie sua escola. Beneficie emocionalmente, claro!

Esta semana pouquíssimo ouvi falar no Salgueiro, Vila, Mocidade; nem na Mangueira ou em qualquer outra. Já estou achando até que ninguém mais virá buscar minha alma.

Ninguém mais, por enquanto, imagina ou fica supondo se vai rolar a química do povo com seu rei; ou de quanto a Tijuca será capaz de corresponder à expectativa que criou. O que se fica supondo agora, imaginando é o quanto a Portela, a Ilha e a Grande Rio serão capazes de arrancar em solidariedade e emoção do público.

Não que eu acredite que vá ser exatamente assim. As escolas "escapadas" continuam fazendo seu dever de casa. Mas do ponto de vista da Portela estamos assistindo a algo absolutamente inédito e rico na tão rica história da escola. Pode ser que esteja enganado, mas não me lembro de ter visto, ouvido, lido, percebido qualquer restrição da Ilha e Grande Rio em relação ao fato de estarem excluídas do julgamento.

Na verdade o incêndio impressionante gerou em relação a cada uma das escolas um diferente tipo de impacto. Na Grande Rio uma fortíssima reação de sua direção e de seus componentes pelo o fato de ter seu barracão e seu atelier completamente arrasados, fez nascer no seio da escola um novo símbolo: a Fênix, no sentido exato... grego, mitológico da palavra.

A Ilha, salvada da perda total, viveu naquele momento imediato a mais perturbadora dualidade. Ao receber a notícia da impossibilidade de rebaixamento livrou-se do absurdo fantasma que acompanha as escolas recém vindas do grupo de acesso. Escapou por pouco quando era a "bola da vez", passando raspando, mesmo tendo feito um desfile de alta qualidade e de ter sido julgada com rigor desmedido.

Por outro lado o sentido lamento de seus componentes por verem atingido todo o projeto do belo carnaval preparado, já quase pronto para entrar na pista, um projeto no qual todos tanto acreditavam.

Caberá à Ilha, portanto, não renascer das cinzas como a Fênix, mas passar ao largo delas reafirmando sua condição de escola com lugar mais que marcado neste carnaval cada vez mais anti-ilha.

Mais do que em toda sua bela, colorida e carnavalesca história, será hora de "...brindar a Ilha"; mais do que nunca será hora de celebrar a vida.

Isto, celebrar a vida: isto que a Ilha vai fazer. Ela que sempre fez isto, não vai ser agora que fará diferente.

E quanto à Portela: Fênix ou Águia?

Não, nada de Fênix. Para quê se podemos voar mais alto ainda.

Já com a Portela a reação foi ainda diferente. Como disse lá em cima, a escola vive um capítulo inédito de toda sua marcante trajetória. Nunca se viu na história do carnaval, das escolas de samba, tamanha reação de componentes e torcedores contra uma decisão que atingisse suas cores. Um barulho ensurdecedor na web.

Se não se pode falar em unanimidade, pode se falar na energia, auto-confiança e auto-estima demonstradas por enorme contingente de manifestantes, querendo por tudo submeter-se a julgamento, mesmo mutilada, mesmo sabendo que grande parte de sua torcida estará ausente em razão do remanejamento.

A emoção tomou conta do ensaio. Não creio que os aplausos a seu Presidente, durante o ensaio na quadra, fossem de aprovação por esta ou aquela atitude.

Para mim naquele momento os Portelenses não estavam a aprovar ou desaprovar qualquer outra coisa. Considero, isto sim, que ali os componentes aplaudiram muito mais a si próprios pela superação que precisarão ter e demonstrar em contraposição às perdas e danos do incêndio.

Aplaudiram "até" o Presidente, e não "o" Presidente, afinal caberá a ele ser o "comandante" dessa superação e da afirmação de toda nossa força e de toda nossa tradição.

Bem, agora ainda falta pouco menos de um mês. Acho que está de bom tamanho. Resta saber quem será o vencedor, se é que se pode decifrar o que significa "vencedor" neste carnaval tão incensado pelos deuses.

Tenho para mim que a Grande Rio terá a oportunidade de viver seu maior momento, ainda que nem esteja competindo. Ela que tanto tem batido na trave, que tem derrotado a si mesmo. Logo ela que tem o enredo que, no papel, não me agrada, que tem um samba que ainda não me seduziu; ela que arregimentou toda uma equipe afiadíssima além de ter apostado no carnavalesco "Junior" que melhor aproveitou o "bonde" para se tornar "top" entre seus pares.

Mas, nem tanto por isto; por mais ainda, muito... muito mais além disto.

A escola tem a oportunidade de reafirmar uma nova imagem, uma outra cara. A imagem de escola de celebridades, de artistas, que certamente lhe faz colher frutos certamente traz alguma antipatia pela ação de alguns de seus estrepitosos membros, muito mais interessados em "representar na escola" do que "representar a escola".

Agora, por todo seu passado recente aliado ao esforço que fará para elevar o vôo da Fênix, certamente e escola deixará uma outra marca. Agora de superação, de garra e da força de sua gente humilde e trabalhadora da baixada fluminense, uma marca que ninguém mais esquecerá.

A Grande Rio virou cinzas. Da lembrança daquele incêndio fica para mim a imagem da expressão de seu dirigente,repito, mal conseguindo balbuciar uma só frase toda, incrédulo olhando a fumaça, buscando forças para passar para sua gente algo que assim imagino: "fomos arrasados, não sobrou nada, estamos fora da disputa, então vamos desfilar como se fosse a última vez, como se fôssemos morrer na quarta-feira, esta sim, de cinzas".

E para nós que tanto sonhamos, fica a esperança de que, afinal, os deuses do carnaval tenham castigado essas escolas na sublime conspiração para que o grande vencedor seja o próprio carnaval. Que conspirem para que, disto, daquele fogaréu, surjam e ressurjam belezas ocultas e ocultadas que sejam mais belas ainda que as belezas que já não estão assim tão belas.

Quem sabe um carnaval ajustado. Talvez gastar menos, ou gastar mais em criação do que em material, investir mais no elemento humano, exemplo do que passamos a ver nos ensaios técnicos.

Um carnaval que valorize a arte humana, o positivo, os acertos. Muito mais do que caçar erros, falhas humanas para escolher campeões.

Quem sabe surgirão belezas que valorizem a alegria do carnaval, a ancestralidade do samba, a cadência das baterias, o gingado dos passistas, a graça das porta-bandeiras e seus pares e a magia das baianas.

Uma beleza ressurgente que nos emocione através da valorização da alma de todo um povo, do reconhecimento de quem faz a festa na pista...

De quem faz a festa maior naquelas arquibancadas pegando fogo.


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08/02/2011 12h18

Portela em chamas
Luis Carlos Magalhães

Estranha sensação de alívio na desgraça.

Depois de um ensaio técnico "daqueles" no domingo a viagem, ainda que curta, na segunda-feira de manhã. Só então, já na estrada vi a caixa postal cheia de torpedos. Um deles lacônico: "PORTELA EM CHAMAS".

Só no terceiro aberto dei conta do incêndio. Portela, Ilha e Grande Rio: lambeu tudo, não sobrou nada! Incrédulo, segui viagem até uma parada na Tv, já com outras notícias: Grande Rio perdera tudo, Ilha só um carro e fantasias e Portela as fantasias.

Um alívio para quem imaginava a perda total para as três escolas, mesmo lamentando muito o fato de uma das favoritas ter sido deixada fora de combate.

Ninguém cai e Portela, Ilha e Grande Rio ficam sem julgamento. Do ponto de vista da Portela, nenhuma novidade. A escola desfilou sem julgamento em
1952, em razão das chuvas que prejudicaram as escolas,em plena guerra Império X Portela pelos campos de batalha de Madureira; e também no carnaval de 1938 quando a comissão julgadora correu da chuva.

Naquelas situações a Portela estava pronta, orgulhosa e poderosa. Ao saber da decisão, confesso aqui minha decepção com relação à exclusão do julgamento.

Esperava sim, o bom senso demonstrado em relação ao rebaixamento. E aqui falo exclusivamente em relação à minha escola. Não vi ainda o tamanho do estrago parcial, sua dimensão; mas não pude deixar de lembrar o texto de minha crônica recente quando me dirigi aos guerreiros portelenses por ocasião da
inauguração do busto de Clara Nunes: "Que bom que você voltou. Para que nos mantenhamos assim como somos, para sempre. Quem sabe para tornar nosso caminho, nossa busca, mais corajosa..."

Será que é este nosso caminho, desfilar sem avaliação? Terá sido a mutilação verdadeiramente tão grande? Ou será que não estamos sendo corajosos. Temos uma missão pela frente, um desafio que a cada ano se torna maior para cada um de nós: o desafio da vitória.

Considero, e já disse isto muitas vezes aqui, que se vencermos em muito deveremos a atitudes da atual direção que fizeram a escola retornar aos trilhos da competitividade. Se perdemos, em muito devemos a erros e descaminhos da atual direção, com carnavais que beiram ou mergulham no chapabranquismo.

Se o incêndio destruiu a ilusão da vitória de hoje, tenho a convicção de que um desfile ousado, corajoso, valente e emocionado será um capítulo a mais na marcha para a vitória que virá amanhã.

Deixamos para trás o último e pior carnaval da história da Portela. Um festival de equívocos. Hoje temos um enredo que, embora não unanimemente desejado, conquistou a confiança de todos nós. Temos um carnavalesco experiente, com competência já demonstrada em enredos dessa natureza.

Temos uma bateria que é nosso orgulho, um cantor que só nos dá alegria, uma porta-bandeira na exuberância de sua vitoriosa carreira e seu parceiro formando um par de grande força competitiva.

Nossa harmonia comandada por jovens que só nos trazem orgulho. E, acima de tudo, nosso chão que está lá em Madureira às quartas-feiras para quem quiser ver,
ainda que não tenha ido tão bem na Sapucaí. Temos nossa imensa e aguerrida nação torcedora que, certamente, estará nas arquibancadas mais nossa, mais aguerrida do que nunca desde que o desfile se dê naquele mesmo dia para o qual nossa galera comprou seus ingressos.

E se nossos carros se salvaram, a pergunta que não me cala: será que estamos tão mutilados assim? Será que não podemos enfrentar a adversidade, enfrentarmos o julgamento e mostrar nossa verdadeira força alicerçada em toda nossa majestade e em tudo isso mostrado acima?

Será que aceitar o não julgamento não é um ato de se apequenar? Não é o sentido inverso da afirmação, da dignidade, da altivez em direção à vitória futura?

Não sei! Não vi o tamanho do estrago. Não sei nem se alguém sabe suas reais dimensões. Não tanto pelo que perdemos, muito mais pelo que não conseguiremos reconstruir e pelo que não conseguiremos concluir a tempo por falta de tempo e espaço próprio.

A decisão tomada pela Liesa é sensata? Sim, é sensata.

Que se garanta às escolas atingidas o direito de competir em igualdade de condições para fugir à derrota maior do rebaixamento. Da mesma forma acho que se deve garantir às escolas o direito de preferir não serem julgadas em razão das mutilações respectivas. Tudo isto é sensato.

Acho, porém, precipitado excluir a Ilha e a Portela do julgamento. Isto deve ser um direito, não uma obrigação.

Muito bem foi-lhes garantido tal prerrogativa. Falta-lhes agora garantir o direito de "querer competir". Esta decisão deve caber às próprias escolas, e a seus componentes. Exclusivamente a eles.

De minha parte estarei torcendo para que nos próximos dez dias, feito o real balanço dos estragos, ocorridos e por vir, o polonês erga o polegar para o Presidente e este acene para todos os guerreiros da Portela:

Vamos ao combate!
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04/02/2011 17h05

Guerreiros e Guerreira
Luis Carlos Magalhães

Falta muito pouco, mais uma vez.

Alguns dias a mais e chega o carnaval.

Tantas e tantas vezes faltou pouco, depois o dia chegou e nada aconteceu.
Não conseguimos vencer.

Houve uma vez que vencemos. Cantamos Clara, Paulo e Natal.
 
Clara foi Iansã, Paulo Oranian e Natal foi Oxóssi.

Não erramos nada.

A Mangueira é a escola do povo. E quando ela canta um filho do povo e pega na veia, sabemos bem o resultado. Mangueira venceu a nossa vitória, e não dá para esquecer.

E vida que segue, quantas vezes fizemos isso com ela ao longo de tantos desses anos?

Mas ali faltou muito pouco.

Paulo, Natal e Clara.

Agora Clara está de volta para casa. Ao ser inaugurado, seu busto estará ao lado de Paulo e de Natal; juntos como naquele ano distante.

Quando chegar o carnaval a Mangueira mais uma vez cantará um filho seu, um filho do povo.

A nós, caberá cantar o mar; azul como somos... imenso como somos...

11Cantaremos também o céu; azul como somos... maior do que somos.

E vocês estarão lá, com suas bandeiras, suas faixas.

Parece um sinal: os três ali na entrada principal...

A última vez que a vimos já faz quase 30 anos. Quase 50 mil pessoas, no Portelão, dizendo aquele adeus tão dolorido. Todo mundo sem saber direito, se perguntando, o que havia acontecido.

E você virou então para nós "Portela na Avenida".
 
Virou "Sabiá": "que falta fez sua alegria!".

Parece, Guerreiros, que a Guerreira voltou com uma missão. Como aqueles guerreiros das arquibancadas que vocês são. Como aqueles guerreiros da web que estão a seu lado.

Trazer a luz! Luz, pois é ela que nos falta. Para identificarmos nossos erros, fortalecer nossos caminhos à vitória e a guarda e defesa de nossas tradições.

Não paramos de cantá-la, nunca, Guerreira. E não vamos parar nunca.

Em cada "esquenta", cada feijoada, em cada roda de samba de nossa cidade. Parecendo invocar sua alegria, sua presença, seu sorriso pequeno... tão grande.

Os Guerreiros, todos, acreditam sempre, a cada ano. Mesmo quando é tão difícil acreditar.

Vai ser bonito, Guerreira.

Ver você, Paulo e Natal juntos em nossa casa.

Tomara que os Guerreiros façam a bandeira mais bonita de todas.
 
Como aquele manto azul da padroeira do Brasil.

Paulo, a racionalidade, a visão de longe, de cima; Natal a paixão, a entrega, o arrebatamento a qualquer preço.

Você... a nossa alegria. Uma alegria que já não temos tanta.

Que bom que você voltou.

Para tornar a entrada de nossa casa mais radiosa; iluminá-la mais ainda.

Para que nos mantenhamos assim como somos, para sempre...

Quem sabe para tornar nosso caminho, nossa busca mais corajosa...

Ou nos trazer alegria de volta...


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31/01/2011 23h59

Samba para um mestre da cuíca
Luis Carlos Magalhães

Muita gente do mundo do samba ainda não acredita na morte de Ovídio Brito, no final do ano.
 
Pelo ser humano que foi e pela qualidade musical que fez dele acompanhante fiel de gente como Baden Powell, Wilson das Neves, Clara Nunes, João Nogueira, Martinho, Beth Carvalho, Elza Soares, Arlindo Cruz e tantos outros.
 
Melhor que seja assim.
 
E é pensando assim que o bloco SORRI PRA MIM , de Via Isabel, e três de seus amigos mais próxinos,  Armando Marçal, Marcos Esguleba, Marcelinho Moreira, percussionistas como ele, partem para homenageá-lo como se estivesse vivo.
 
Um grande acontecimento no mundo da percussão brasileira.
 
No primeiro de três encontros estarão reunidos nomes mais expressivos da percussão carioca e brasileira: Wilson das Neves, Paulinho da Aba,  Nenem da Cuíca, Jaguara, Felipe d'Angola, Belôba, Zeca da Cuíca, Trambique além de outros que virão.
 
O primeiro encontro será no próximo dia 3 de fevereiro, com início marcado para às 14h. com programação até às 21h. Ingresso a R$ 5,00. Os demais dois encontros estão programados para os dias  10 e 17, sempre no Renascença, na rua Barão de São Francisco, nº 54.


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23/01/2011 03h30

Ninguém foi mais feliz no carnaval que Beth Carvalho
Luis Carlos Magalhães

A primeira vez que vi Beth Carvalho foi no Cacique. Uma mulher linda, sensualíssima, ali no meio daquele monte de 'pegadores'. Já tinha assento à mesa que ainda não se revelara tão sagrada como hoje. Outra vez a vi já com um cavaco. Ficava mais bonita ainda.

Não sei direito que ano era isso. Anos 70, com certeza. Beth , hoje sabemos, bebia tudo que se cantava ali. Tal como faz ainda hoje, arrumou ali diversos afilhados. Usava seu prestígio de sambista e intermediava aqui e ali a gravação de um samba ou até suas gravações diretas. Ninguém terá feito isso mais que ela na história moderna da nossa música.

Estive lá na quadra reinaugurada. Uma obra limpa. Necessária, precisa. Ninguém inventou nada ali. A antiga quadra improvisada
virou quadra de verdade. Uma parte coberta que garantirá que nenhuma roda vai mais ser interrompida por São Pedro. Um palco, uma mesa fixa, banheiros decentes.

E ela: a tamarineira, protetora. Fiquei ali, bem naquele ponto, me lembrando do impacto que me causou a imagem daquela
mulher tão bonita, com aquele sorriso cativante, cantando tão bem, com tanto gosto, sambas tão bonitos.

Depois... vida que segue. Outras cidades, trabalho duro, filhos. Veio o ano de 1984. Beth já havia construído uma história. De sucessos, de consolidação de talentos. Tivera sua filha Luana.

Beth não pediu para construírem o sambódromo. Não pediu para a Portela homenagear Clara Nunes. Nem pediu para que o desfile daquele ano fosse dividido em dois campeonatos e muito menos que a decisão viesse em um supercampeonato.

Nunca pediu que o Cabuçu a homenageasse, muito menos justamente naquele ano. Em condições normais, naquele ano de 1984, Beth quereria mesmo era desfilar por sua escola, desfilar no Cacique na Rio Branco, curtir sua filha.

Nada disso. Os deuses do carnaval estavam a preparar naquele ano algo nunca visto antes. Nunca em toda a história dos carnavais algum sambista foi tão bafejado pelo triunfo, pelo júbilo, tantos prêmios. O que se viu ali foi uma verdadeira homenagem prestada a ela pelos deuses do carnaval.

Sambista brasileira, carioca, Beth teve a suprema alegria de ter sua história de vida transformada em enredo pela escola Unidos do Cabuçu. Logo ela, a Cabuçu, que seria a primeira escola a pisar e desfilar no novo templo do samba.

Olha que marca, que presente dos deuses. Ela, a Beth, ser o primeiro enredo mostrado na Sapucaí nova. Um samba enredo só para ela, falando só sobre ela, inclusive sobre sua filha.

Este presente alcança outra dimensão quando sabemos que a escola do Lins seria a campeã daquele ano, sagrando-se a primeira campeã da passarela. Consequentemente ela, Beth, faria história, tal como a própria escola, sendo a primeira campeã daquele novo momento que se iniciava. Como componente e como homenageada.

E veio o domingo. A Portela homenageava Clara Nunes em Contos de Areia, juntamente com Paulo e Natal. Como amiga de Clara, Beth estava lá. Sagrava-se assim, com a vitória da Portela, campeã no primeiro desfile do grupo especial do sambódromo.

Mas o desfile de segunda-feira lhe reservava mais emoções e surpresas. Sua escola Mangueira encantava a todos contando a vida de Braguinha e sagrando-se vitoriosa naquele segundo campeonato.

Não bastasse isto, no sábado seguinte, ao desfilar pela Mangueira, venceria com sua escola o inédito e único supercampeonato com dois pontos a mais que a Portela.

Não me lembro de na época Beth ter comemorado tanto. E nem mesmo que os sambistas, ela e a imprensa carnavalesca terem apontado o ineditismo de tantas vitórias em tão pouco tempo.

Agora, neste carnaval, atravessando o momento mais difícil de sua vida, Beth está de volta na co-autoria do enredo de sua escola. Deixa para trás aquele incidente tão evitável do dia do desfile, em passado recente, que tanto constrangeu a ela e a todos.

Vai Beth. Veste sua fantasia e cante o "seu velho" que tanto você engrandeceu, curtiu e amou. Volte para seu lugar, no chão, se der, ou no carro provisoriamente. Mas vem para junto de nós, em nossa direção, no carro ou no chão. Estaremos ali ouvindo, sua voz ainda insegura, rouca, forte, orgulhosa e cheia de esperança. Na vida e na Mangueira. E nós ali, estaremos aplaudindo você. A você e a ela. A você, à vida e à Mangueira. Querendo vê-la tão feliz como naquele carnaval que já vai tão
longe.

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15/01/2011 01h26

A presença do Ronaldinho Gaúcho no carnaval
Luis Carlos Magalhães

Das poucas novidades surgidas nos últimos carnavais duas delas merecem saudação especial. Uma por ser a maior de todas e a outra por ser delas a mais importante.

Estamos assistindo a explosão da maior dessas novidades. O ensaio técnico do último domingo, o primeiro da temporada, com a linda homenagem às baianas, deu mostra clara do que vem aí pela frente: apertem os cintos. Já ouço gente dizendo por aí que o ensaio técnico é melhor que o desfile oficial. Menos, pessoal, menos um pouquinho.

Com razão ou não essa turma aí sinaliza uma verdade. Melhor ou não é outra conversa, mas a verdade que surge é que temos ali, isto sim, um outro carnaval. E por ser "um outro carnaval", não sei que fórmula a turma da Liesa vai encontrar para disciplinar o acesso à pista. Por ser "um outro carnaval" não há ingressos vendidos, esta sua maior virtude. Por não ser como aquele outro carnaval, não há credenciamento algum. E nem convites.

Por não ter o clima do outro, este carnaval dos ensaios acaba por se transformar em imenso ambiente de encontro de pessoas ligadas ao carnaval e que só se vêem no carnaval. Não se encontram durante todo o ano.

Como evitar tanta gente na pista a ponto de afunilar o desfile em alguns pontos? Como selecionar, como definir quem terra acesso à pista? Eu é que não queria estar lá decidindo isso.

Mas, tudo isto aí para registrar que, mesmo com tanto sucesso, tais eventos nem de longe representam a novidade mais importante do carnaval. Perdem em importância para o movimento progressivo nas escolas, nem tão recente assim, consistente no custeio cada vez maior das fantasias para suas comunidades.

Duas questões daí surgem. É justo afastar pessoas, sambistas, ou mesmo ou sambeiros, que gostam de desfilar, apenas porque não são pobres e não moram em uma determinada comunidade? É uma questão tão complicada que vou fingir que ela não existe, por enquanto, e passar para outra que é mais complicada ainda.

É o seguinte: eu, aqui do meu cantinho, assim como considero esse "retorno", esse "reequilíbrio", o que há de mais positivo para os desfiles, considero, do mesmo cantinho, a questão dos enredos patrocinados o que há de mais nocivo para a nossa festa. Mais até do que o fato de uma só emissora transmitir as imagens televisivas.

A busca de enredos patrocinados como fator que mais contribuiu, direta ou indiretamente, entre outros, para o que há de mais negativo nos carnavais. Tanto a aridez dos sambas-enredo quanto a aposta em enredos descarnavalizados e a conseqüente exibição do belo pelo belo, na ausência de enredos mais interessantes.

A tal "exuberância volumétrica de materiais" a que já me referi antes. Mas e a relação de uma das novidades com a outra. Uma é possível sem a outra? Como conseguir recursos para custear as fantasias gratuitas sem patrocínio? O que é mais positivo/negativo, como encarar a equação custo/benefício? Qual a medida certa da relação ÉNUS/BÉNUS?

Resumindo: é melhor assumir o ônus de um enredo patrocinado e trazer a comunidade de volta ou deixar a comunidade de fora e fazer enredos autorais, propostos pelos departamentos culturais das escolas ou seus carnavalescos?

Mas, peraí! O quê que o Ronaldinho Gaúcho tem com isto? Vamos lá... vamos lá. Não sabemos se o cara vai desfilar na Portela, Salgueiro ou Beija-Flor. Há controvérsias. Mas a questão com ele aqui é bem outra. O mesmo jornal onde leio que o Flamengo fechou a compra dá a notícia de que os demais jogadores não recebem há três meses.

Como é que é isto? Como é esta engenharia financeira? Há muito em comum entre o Carnaval das escolas e o futebol dos clubes. O carnaval só perde em paixão porque é uma só vez ao ano. O futebol é quase o ano inteiro. No futebol todo mundo recebe, mas no carnaval só as estrelas e em algumas escolas.

Ronaldinho, agora, e Ronaldo Fenômeno, antes, trouxeram para perto de nós, simples mortais do carnaval, o que é possível rolar nesse mundo do marketing. O mundo em que quem tá duro (Flamengo) compra, que já tem muito recebe (Ronaldo), quem viabiliza tudo é a "marca" (Flamengo).

A questão que eu, simples mortal, busco entender é porque situações tão semelhantes (carnaval e futebol) vivem realidades tão diferentes. Que são diferentes eu já sei, mas que sejam tão diferentes, não sei.

Ambos estão submetidos a cláusulas contratuais de exibições de imagens ao vivo, no Maracanã e no Sambódromo, em universo de venda de espaços comerciais para anunciantes, com ou sem exclusividade.

A Tv, até onde posso imaginar, impõe a exclusividade de um anunciante impossibilitando que os espaços do Sambódromo possam exibir outras marcas tal como acontece no Maracanã e em qualquer estádio do mundo, em qualquer competição do mundo, inclusive na Copa.

No futebol, não é só o espaço da Tv que é comercializado. É também o espaço dos estádios e o espaço dos uniformes.

O espaço nobre do dito "manto sagrado", o peito do jogador, na camisa, fica para o patrocinador Master, com resultados comerciais de venda de camisas distribuídos pelo Fla e seus parceiros até um determinado valor. Acima desse, Ronaldinho embolsa 50%, a Traffic 40 e o Fla 10; a manga da camisa, em menor proporção, tem o valor estipulado dividido com outros parceiros. Até o valor de oito milhões, dividindo-se o "plus" na mesma proporção. Assim com a barra da camisa e o espaço do calção. (curioso é a camisa, que antes ficava obrigatoriamente para dentro do calção, agora ficar com a barra exposta para que nela caiba mais um anúncio)

Isto tudo só na parte da frente. Quando Ronaldinho virar de costas, no número da camisa, o valor obtido cai cinquentaporcentamente no bolso gaúcho, 40 no da Traffic e 10 no de quem sacraliza o manto. O fabricante da camisa terá seu custo significativamente aumentado para que possa cair nos bolsos citados a mesmas proporções acima.

E já que indicamos o os bolsos-destino de toda essa grana, não custa lembrar aqui de que bolsos essa grana toda sai: o meu, o seu, o nosso que compramos camisas e vamos ao Maraca assistir ao tal Mengão, seja ele ou não o nosso time.

Alguém aí desse lado me explique: por que o Flamengo para trazer o Ronaldinho comercializa sua marca e as escolas, para pagar suas fantasias, precisam vender seus enredos? Claro que a Mangueira não vive de venda de camisas, e nem queremos que a fantasia se transformem em uniformes de Fórmula 1. Claro que não!

A pergunta é se o mundo das escolas de samba está convenientemente apetrechado para enfrentar esse desafio? Estou apenas perguntando, como comum mortal: há profissionais do ramo pensando isto?

Será que as paredes de algum lugar do sambódromo não podem ser disponibilizadas proporcionalmente para que cada escola busque seu patrocínio sem interferir em seu enredo, mesmo com menor valor.

Não é possível que um potencial dessa ordem fique preso, emparedado, sem qualquer utilização. Pra mim toda essa história soa tão anacrônica e contraditória que fico a pensar que os obstáculos são verdadeiramente intransponíveis e eu, por ignorância, esteja aqui a pagar o mico da desinformação.

Arrisco até uma "peruada" de leigo por uma alternativa que atenda às escolas sem ferir a exclusividade nas telas da Tv: a própria escola disponibilizaria um espaço no desfile, um carro ao final, por exemplo, para explicitar a marca de seu parceiro. Caberia à televisão afastar o foco de suas as câmeras daquele carro para não ferir seus interesses.

Para finalizar, peço a algum leitor desse ramo de negócios que amenize a ansiedade deste comum mortal e mostre as razões das impossibilidades.

Se isto acontecer, prometo nunca mais tocar nesse assunto, juro!

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06/01/2011 18h33

A exuberância volumétrica de materiais
Luis Carlos Magalhães

Para nossa alegria começam enfim os ensaios técnicos.

Para mim significa dizer: começou o carnaval.

Houve um tempo em que, como bem sugere o Delezcluze, o carnaval começava quando os discos de sambas-enredo chegavam às lojas. Na minha memória, eu que gostava de almoçar diariamente na Rua Gonçalves Dias, a marca do carnaval estava em cada uma das inúmeras lojas de discos da Rua Uruguaiana, e suas caixas de som a toda, mostrando para todo mundo a nova safra.

Mas isto já foi há muito tempo. Hoje já não há lançamentos retumbantes e nem mesmo lojas de discos pelas ruas da cidade.

São outros os tempos.

E o carnaval foi e vai por aí; antes pela Ouvidor, depois pela Rio Branco e tantas outras ruas e avenidas de nossa cidade em busca de seus caminhos. Enfrentou e enfrenta por aí imperativos de classe, econômicos, culturais e mercadológicos.

Cada um desses com suas bandeiras conduzidas por tipos diferentes de gente, de interesses e até de pontos de vista.

Sabemos que o carnaval em sua secular trajetória, de onde quer que se veja esse marco inicial, seja das colheitas do Nilo, das vinhas de Baco ou das manifestações da idade média, nunca precisou do samba para nada.

No relógio da trajetória do carnaval a presença do samba talvez fique contida apenas no minuto final, até aqui, tão jovem que é.

Mas se invertemos a lógica para contar a mesma história a partir das primeiras manifestações dos sambistas nos morros e periferias da cidade, da Praça Onze, dos primeiros desfiles, o relógio é outro.

É certo que paulatinamente o carnaval das escolas vai 'roubando' algo dos cordões, dos ranchos, dos blocos. Incorpora aqui e ali elementos de outras formas de fazer a folia, ainda que diferentes daquelas com matriz européia.

Por pouco tempo.

Logo, logo as alegorias cresceram, se sofisticaram e as fantasias acompanharam seu ritmo. A presença de profissionais e artistas de outras formações atraiu a televisão, outros palcos, de forma a alcançar inimagináveis proporções.

O carnaval das escolas de samba, a junção do carnaval-do-samba com o carnaval-carnaval, vem superando todas as barreiras e não há sinal de inversão desse ritmo.

Que seja assim, que avance, que evolua, desde que seja sempre ESCOLA DE SAMBA.

A evolução foi rítmica, temática, estética. Acima de tudo comercial e financeira, e midiática consequentemente.

Em toda essa dinâmica a questão que surge, a pergunta que emerge é: o quê vem por aí?

Que marcas novas virão? E das que virão, quantas ficarão?

A vitória da Unidos da Tijuca, com a marca de seu carnavalesco Paulo Barros, da forma retumbante como foi obtida, trouxe para a escola a condição de alvo da artilharia de todas as demais para que a vitória seja alcançada.

Não foi uma vitória 'natural',decorrente, como a do Salgueiro de Tambor. Nem como a da Vila de "Soy Loco" ou como tantas da Beija Flor, da Mangueira invadindo o nordeste e Imperatriz com todas as canas, só para ficar neste século.

Muito menos vitória bombástica e episódica como a inesquecível "Kizomba".

Ali o que vimos foi a vitória de uma concepção de carnaval. E olha que nem estou falando de uma ou outra alegoria, como a do DNA, tão marcante do passado recente. Estou me referindo a algo muito mais significativo que é a "capturação" da platéia, do público, da assistência, ou dos espectadores de casa.

Aquilo que se viu ali foi tão marcante que uma das maiores estrelas dos desfiles sentenciou em cima do lance: ´"é, pegou na veia !", disse soberanamente Renato Lage. Outra grande estrela do carnaval, Laíla, antecipou a nova forma de sua escola, mais leve, mais alegre e tudo mais. E incluiu ali um cuidado maior ainda com a comunicabilidade do samba enredo.

Na minha cabeça, por tudo que venho sentindo, fico me perguntando se a evolução da forma de desfile brilhantemente iniciada por Joãozinho Trinta estaria chegando agora a uma encruzilhada.

Certos desfiles de hoje tantas vezes parecem u'a massa contínua de alegorias e fantasias. Massa belíssima, sim, coloridíssima, é verdade, mas nem por isso livre de riscos de se tornar repetitiva e algumas vezes monótona e cansativa.

O componente humano, o sambista, desmedidamente transformado em componente, mal pode ser visto, sentido em sua emoção de cantar e dançar em meio a madeiras, ferragens,
tecidos, arames, braçadeiras, esplendores... ufa ! ...isopores e borrachas.

Na verdade o exagero que muitas vezes vemos na avenida nada mais é do que algo que podemos classificar como mera "exuberância volumétrica de materiais".

Hoje, quando uma escola exibir tal "exuberância" como receita para agradar julgadores, estará fazendo ecoar a frase-sentença de Paulo Barros: "antes de conquistar o júri, temos que conquistar o público".

A Beija Flor foi a que pegou mais pesado. Acusou o golpe e partiu para cima. "Pegou pela gravata" nada menos que o maior ídolo da história recente da música brasileira, capaz de envolver todas as idades, gêneros e classes sociais, e o cantará emocionadamente para fazer frente ao impacto que se espera e que é anunciado pela escola campeã.

Guerra é guerra.

A emoção da presença do "rei" poderá ter o efeito e o impacto "daquela" comissão de frente?

Agirão os deuses do carnaval em favor dessa química?

Pegará na veia?

Quem saberá?

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21/12/2010 12h46

Brincando de samba-enredo IV: encerramentos memoráveis
Luis Carlos Magalhães

Bem, continuando nossa brincadeira, vamos agora eleger a parte final do samba. Aquela que encerra com "chave de ouro" o samba e levanta a bola para o recomeço.  Em nossos dias quase sempre este encerramento se faz por um refrão, mas nem sempre foi assim. Escolhi para dar o "pontapé inicial" quinze sambas dentro do universo  só das quatro escolas pilares e de tempos mais antigos: Mangueira, Portela, Império e Salgueiro. Deixo para vocês as demais, para vocês deitarem e rolaremâ?¦

Vamos começar por uma obra prima de encerramento, do Salgueiro só para variar.

CHICO REI:

"Mandou construir uma igreja
E a denominou
Santa Efigênia do Alto da Cruz"

Mas o que eu gosto mais é este aí,

PERNAMBUCO LEÉO DO NORTE:

"Evocando os Palmares
Terra dos Bamborikis
Ainda ouço pelos ares
O retumbante grito
De zumbi"

E por aí vai.

Mais uma vez, SINHÁ OLÍMPIA:

"Sinhá Olímpia
Quem é você
Sou amor sou esperança
Sou Mangueira até morrer"

PASSÁRGADA:

"E lá vem ela na avenida
Cinqüentenária tão florida
Portela, Portela
Na vida és a Passárgada mais bela"

TA? CARMEM MIRANDA:

"Cai,cai,cai,cai
Quem mandou escorregar
Cai,cai,cai,cai,
É melhor se levantar"

SANTOS DUMONT:

"Hoje  todo mundo reconhece
Que você também merece
A glorificação"

DONA BEJA:

"Até, é
O fim da viiida
D. Beja ouviu falar
Do seu nome figurar
Nas histórias de Araxá"

HISTÉRIA DA LIBERDADE NO BRASIL:

"E assim
Quando a aurora raiou
Acenando a república
O povo aclamou"

CHIQUINHA GONZAGA:

"É abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Rosa de Ouro é quem vai ganhar"

ILU AYÉ:

"negro é sensacional
É toda a festa de um povo
É dono do carnaval"


HERÉIS DA LIBERDADE:

"Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade"

MONTEIRO LOBATO:

"E assim
Neste cenário de real valor
Eis o mundo encantaado
Que Monteiro Lobato criou"

PIZINDIN
"E ele
Que era um poema de ternura e paz
Fez um buquê que não se esquece mais
Em notas musicais"

CINCO BAILES:

"Algo acontecia
Era  o fim da monarquia"

BAHIA DE TODOS OS DEUSES:

"zum, zum,zum
Zum,zum,zum
Capoeira mata um"

NORDESTE...

"Quando a lua se alteia
Cantador canta a vitória
Viola afinada ponteia
O canto de um povo em glória"

QUATRO ESTAÉÉES:

"Oh!  Primavera adorada
Inspiradora de amores
OH! Primavera idolatrada
Sublime estação das flores"

E para terminar...

MEMÉRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS:

"Se meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar"

Semana que vem tem mais um capítulo.
E-mail para contato: [email protected]


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