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Nyldo Moreira

Nyldo Moreira

TEATRO E MÚSICA. Jornalista, especializado em cultura e economia. Ator e autor de peças de teatro. Apresentou-se cantando ao lado de artistas, mas não leva isso muito a sério. Pratica a paixão pela música em forma de textos e críticas. Como diretor, esteve a frente de dois curtas, um deles que conta a vida no teatro. 

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



18/10/2016 13h47

Anitta e Paula Fernandes: o novo temor dos tenores!
Nyldo Moreira

Os dois dias de shows do tenor Andrea Bocelli em São Paulo tiveram a grandiosidade de todos os seus espetáculos ao redor do mundo. Em tour com o álbum "Cinema", o italiano recheou de sucessos o encontro com os brasileiros e deixou as novidades um pouco de lado. Anitta e Paula Fernandes foram o assunto do show, a funkeira desafinou ao fazer dupla com Bocelli, e Paula Fernandes calou-se, ao invés de cantar.

Andrea Bocelli. Foto: Nyldo Moreira

 

O fiasco das participações das cantoras brasileiras não deteriorou o show de um dos tenores mais populares do mundo. Aliás, nem mesmo a chuva que caiu na quinta-feira, segundo dia de show, conseguiu desarmar o que estava programado. Tudo estava lindo até que Anitta tomasse o microfone. Sozinha ela cantou "Somewhere Over The Rainbow" e nem escorregou tanto assim, mas quando resolveu partir para o repertório do dono do espetáculo aí a coisa ficou feia. Tentando alcançar notas impossíveis para sua extensão vocal, Anitta buscava reproduzir o gestual de uma soprano, impulsionava braços, peito, diafragma, tudo... e só piorava. Foi horrível! Eu a acho uma boa cantora, de verdade... mas, cantando o que ela canta. Talvez uma bossa nova tivesse sido uma boa.

No segundo dia foi a vez de Paula Fernandes ganhar o alvo dos comentários! Cantou sozinha "Além da Vida", que permitiu demonstrar a beleza que tem na voz... isso quando ela não parece travar os dentes pra cantar. Enfim... chegaria a hora de cantar com Bocelli. Foi ao seu lado e nem abriu a boca - também em uma canção do repertório do tenor, certamente sabendo a impossibilidade de atingir as notas, abandonou o microfone, mas ficou de corpo presente. Bocelli desconcertou-se e desconsertou-se! Onde caberiam as entradas de Paula, a imensidão da Orquestra Jovem do Estado preenchia. O Coral Jovem do Estado e o Coral do Guri deixaram tudo mais bonito. Não sabe-se de onde vieram as escolhas de Anitta e Paula Fernandes para o show, mas, realmente para esse número foi um péssimo negócio - sobretudo em um país de Zizi Possi e Bibi Ferreira, por exemplo, que dariam tudo num repertório desse. E elas têm esse tudo pra dar!

Andrea Bocelli com Paula Fernandes e Anitta. Fotos: Nyldo Moreira

Essa mania de misturar ritmos só para infiltrar artistas que estão na "crista na onda" é de uma estratégia de marketing tão furada que só poderia resultar em fiasco!

Mas, ainda bem que a grande estrela era o Bocelli! Um cantor de acertos, de uma limpeza impecável na voz e um olhar totalmente notável que é exprimido pelo som que sai de sua boca!

Confira um compacto que gravamos dos dois dias de shows de Andrea Bocelli no Allianz Parque, em São Paulo. Neste vídeo você poderá ver e ouvir as participações de Anitta e Paula Fernandes, além de duetos com a violinista Caroline Campbell e com a soprano Maria Aleida Rodriguez, que faz um ótimo trabalho, mas com ressalvas também.

Infelizmente parece ter faltado ensaio com as cantoras, porque todo defeito já teria sido identificado. Já com o coral e a orquestra, tudo impecável e belo! Confira o compacto no vídeo abaixo:

 


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13/10/2016 14h48

Rita Lee está de volta e já lança autobiografia em novembro em SP
Nyldo Moreira

Há algum tempo venho ensaiando um retorno aos textos após um período sabático em que fiquei afastado. Mas, nunca parado. Gravando, sempre gravando e planejando esse novo projeto que iniciei de entrevistas. Mas, a volta tinha de ser com beleza. Voltar com simplicidade, falando pouco, mas ao mesmo tempo falando muito. Falar de outra volta, a de Rita Lee!

Rita Lee lança autobiografia. Foto: DivulgaçãoSem dúvidas, um dos mais importantes nomes da nossa música, compositora das canções inéditas do rock'n roll brasileiro. Eu estava morrendo de saudades da nossa Rita Lee! Ela estava quietinha, em seu sítio, escrevendo, escrevendo e escrevendo sobre sua própria história de vida! Tem muita coisa pra gente ler... e a capa do livro também foi feita por ela!

A autobiografia é um lançamento da Globo Livros e Rita já anunciou em sua página do Facebook: 16/11 ela estará na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo, a partir das 17h para autografar sua obra para nós, os seus fãs.

Eu, que já estive em inúmeros shows da Rita, estou roendo as unhas para ler esse livro! Hoje, a Rita dos cabelos brancos deixa descaradamente vazar sua imagem de avó, e isso tem uma beleza inenarrável e obviamente premeditada por ela, que anda amando ser vovó!

Quem pensa que Rita está voltando como cantora pode ir tirando o cavalinho da chuva! Por enquanto, ela é autora, mas nos nossos corações será a eterna Rita Lee dos palcos, dos discos... que bom que ela voltou pra gente em um formato dos mais belos: em palavras!



19/07/2016 15h38

Lenine: 'Eu não acredito em Deus, mas sou completamente apaixonado pelo Divino'
Nyldo Moreira

Em turnê com o novo projeto chamado "Carbono", Lenine conta mais detalhes e como chegou no título do show.

Lenine. Foto: Nyldo Moreira

 

Ele estudou Engenharia Química, sabia?

Lenine também explica como acontece o processo de composição de suas canções, a influência dos filhos e parcerias com nomes como Maria Bethânia e Elba Ramalho. O cantor fala ainda sobre religiosidade e o quanto seu pai o inspirou nisso.

Confira a entrevista dando play no vídeo abaixo! E não deixe de se inscrever no canal do YouTube...

 



24/06/2016 13h49

Entrevista: Viviane Araújo fala sobre espetáculo que está em cartaz no Rio
Nyldo Moreira

Viviane Araújo está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Leblon, de sexta a domingo, com o espetáculo "Até que o Casamento nos Separe", com Eduardo Martini. É sobre a peça que a atriz conta nessa entrevista, além de confirmar o casamento com o jogador Radamés, que será transmitido pelo "Domingão do Faustão". O pedido aconteceu no palco do próprio programa, depois de Viviane vencer a "Dança dos Famosos".

Dê o play no vídeo e também inscreva-se no canal por meio do YouTube!

Viviane Araújo. Foto: Claudia Martini

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24/05/2016 11h54

'Ângela Maria, te agradeço por cantar tanto', diz Fabiana Cozza em entrevista exclusiva
Nyldo Moreira

Consagrada no samba e aproximando-se dos 20 anos de carreira, Fabiana Cozza abre o coração ao falar de suas inspirações na música. Ângela Maria é uma das grandes vozes que enchem os olhos de Fabiana, além de Maria Bethânia e de artistas que já foram homenageados por ela em shows.

A cantora conta sobre os espetáculos que fez para Clara Nunes e Edith Piaf, além de dar detalhes da criação de um espetáculo em cartaz na Sala Olido, em São Paulo, onde canta canções do Bola de Nieve, cantor e compositor cubano. "Canto para Bola de Nieve" é dirigido por Elias Andreato e une textos e canções. Confira a entrevista dando o play no vídeo aí embaixo e aproveite para fazer sua inscrição no canal (é gratuito e rápido)!

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16/05/2016 13h13

Cauby Peixoto deixa os palcos!
Nyldo Moreira

Um dia esquisito de acordar, seria ótimo poder pular dias como esses e que tudo aquilo que estava programado de acontecer naquele mesmo dia fosse deletado e programado como são programadas as coisas aqui no Brasil, à demora! Cauby Peixoto morreu! A temível palavra de todas as esferas, que nenhuma família quer presente, que nenhum da arte quer reproduzir, ninguém, ninguém! Meu mestre fez a passagem. Fiquei quieto ao acordar, liguei o computador e nas redes sociais estavam os compartilhamentos com imagens do professor, do Cauby. Eu resolvi comigo mesmo que não escreveria nada sobre. Neste instante vi uma publicação de um amigo no Facebook: "Que todas as manchetes dos jornais sejam sobre Cauby". Senti-me espetado, intimado e grato por ler tal estímulo e bronca! Levantei-me, coloquei em alto as músicas do cantor, cantei junto, chorei, enxuguei as lágrimas, voltei ao computador e lembrei-me do primeiro instante com Cauby.

Este instante foi justamente cantando com Cauby, a primeira vez que estive ao lado de um cantor e ouvindo a minha voz junto a dele. Neste dia estava comigo o mesmo amigo que escreveu hoje sobre as manchetes, o amigo da bronca, duas vezes o mesmo amigo. Exatamente, também neste dia, nasceu minha primeira coluna sobre música. Este, aquele mesmo amigo, o caríssimo Luiz Felipe Carneiro, disse-me: "escreva uma coluna sobre seu encontro com Cauby, estreie assim". Duas estreias no mesmo dia, escrevendo e cantando. E o melhor, com o meu mestre, Cauby!

No jornalismo é abominável um primeiro parágrafo imenso como o deste texto, mas, para mim, fragmentá-lo neste instante é ainda mais abominável. Eu poderia deixa-lo apenas, neste texto. É o mais simbólico que pode traduzir minha admiração, respeito e gratidão por Cauby.

Aqui está minha primeira foto com Cauby, no momento que contei, sobre quando cantamos juntos.

Foto: Nyldo Moreira

Cauby Peixoto andava com a cereja na cabeça. Sabe quando falam que fulano deixou a cereja do bolo para o final, então, Cauby andava rotineiramente com essa cereja. Todo o instante no palco via-se brilhando a cereja do bolo! Ele foi, inegavelmente, o maior cantor do Brasil.

Foto: Nyldo Moreira

Guardei algumas fotos que fiz de Cauby Peixoto em seu último show no Teatro Bradesco, em São Paulo. Guardei para ainda escrever minha entrevista dos sonhos, com o meu ídolo! Estou publicando algumas aqui, com os olhos cheios, quase incrédulos. Eu achava que Cauby era eterno!

Cauby Peixoto deixa os palcos? Hei de contrariar meu próprio título: não, acho que Cauby jamais deixará os palcos! E faço das palavras do meu amigo Luiz Felipe, também jornalista, as minhas: que todas as manchetes sejam para Cauby!

Foto: Nyldo Moreira

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13/05/2016 14h19

Ponto de Equilíbrio fala sobre novo trabalho em entrevista exclusiva
Nyldo Moreira

Em um intervalo no "Encontro das Tribos", que aconteceu recentemente na Estância Alto da Serra, em São Bernardo do Campo, a banda Ponto de Equilíbrio, referência na arte de fazer reggae, bateu um papo comigo pra falar sobre carreira, o atual trabalho com o álbum "Essa é a Nossa Música" e suas influências musicais. Eles falam sobre Burning Spear e as parcerias com Ivete Sangalo e Emicida, além de muito mais papo, como um projeto realizado dentro de um presídio no Rio de Janeiro. Aperte o play no vídeo abaixo e confira!

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28/04/2016 09h15

Lenine, Carminho, comédias de Edu Martini e Daniela Mercury, que pode virar nome de circuito
Nyldo Moreira

Lenine "carbonizando"...

No último feriado, o cantor e compositor Lenine apresentou o show "Carbono" no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O show é o mais atual projeto que reúne canções inéditas com uma pegada mais "pesada", algo que belisca o rock, por explorar bastante as cordas de guitarra e batidas de percussão. Mas, não fica apenas por aí - a versatilidade de Lenine traz um show excepcional e sem "barriga". (Barriga é quando um espetáculo começa a chegar na metade da duração e fica meio chato, enchendo linguiça). Isso não acontece! Alguns de seus sucessos entram no repertório e é claro que o público solta a voz nessa hora. O cantor chegou a estudar Engenharia Química, e é dessa alquimia que pode ter nascido o nome do show... Será? Eu entrevistei o Lenine no dia do show e ele contou sobre isso e muitas outras coisas. Acesse meu canal no Youtube clicando no link: "Nyldo Moreira Entrevista" e confira as entrevistas que já foram ao ar. Com o Lenine entra na próxima semana. Nem preciso dizer que o Sesc marca sempre um golaço ao trazer esses impecáveis espetáculos com ingressos a valores bem abaixo do que vemos em casas de show.

Foto: Nyldo Moreira

Carminho, a fadista do momento, faz show em São Paulo na sexta-feira

Ser fadista depois de Amália Rodrigues é algo bastante difícil e de uma responsabilidade absurda. Mas, Carminho ganhou o espaço da tradicional música lusa. Eu, por exemplo, estou sempre ouvindo uma das vozes mais impecáveis da música na atualidade. Carminho é de ouvir e derrubar! Em comemoração aos 80 anos da Casa de Portugal de São Paulo, a fadista vai cantar na noite do dia 29, na próxima e última sexta-feira de abril. Os ingressos custam a partir de R$ 50,00 e podem ser comprados neste link: www.ingressorapido.com.br. O valor é completamente inferior à magnitude do que é ouvir Carminho cantar!

Recomendo!

Eduardo Martini estende temporada de comédias no Teatro Itália, em São Paulo. Em cartaz com três espetáculos, o ator interpreta entre homens, mulheres e anjos! O grandioso, dentre os três textos, é, sem dúvidas, "O Filho da Mãe", escrito por Regiana Antonini. Com a atriz Viviane Araújo, Martini interpreta "Cada um tem o Anjo que Merece" e "Até que o Casamento nos Separe". Fiquem de olho nas redes sociais deles dois, pois sempre há promoções! Ou então chega lá e fala: "Vi na coluna do Nyldo Moreira e quero desconto!" Eu me responsabilizo!!! Mas, todo milhão vale a pena para "morrer" de rir com o Eduardo Martini. Ou melhor, "viver" de rir!

Foto: Claudia Martini

Daniela Mercury pode ser nome de circuito em Salvador

A intenção do projeto da vereadora Vânia Galvão não é retirar o nome do circuito Dodô, que é onde circulam os trios elétricos entre a Barra e Ondina, bairros de Salvador. O nome Dodô deverá juntar-se a Osmar no circuito do Campo Grande, que hoje chama-se circuito Osmar. O projeto, que altera o nome do circuito carnavalesco Dodô, para circuito Daniela Mercury, agora segue para o prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto, já tendo sido aprovado ontem (27) pela Câmara de Vereadores de Salvador. Eu não vejo o porquê da não aprovação! Acho interessantíssimo o circuito ter o nome de alguém que carrega nas costas boa parte da história do Carnaval baiano. Daniela não é nenhuma menininha, apesar da bela jovial aparência! Ela já cantou muito naquele Carnaval. Será merecido!

Falando de mim...

Vou usar meu espaço, que na verdade é do teatro, da música... e etc... para falar de um novo projeto meu. Estou ensaiando um espetáculo delicioso que terá única apresentação no Teatro Augusta. Construí um roteiro que costura diversos poemas e canções de compositores e poetas incríveis e que todo mundo adora. Coisas do tipo: Fernando Pessoa, Castro Alves, Noel Rosa, Pixinguinha... enfim! Chamei o Tiago Pessoa para dirigir e o Rafael Altro para dirigir a parte musical e tocar violão no palco. Os poemas e as canções serão interpretados por mim e juntos eles acabam formando uma história só. Uma história de amor, aquele amor que a gente sofre e que a gente lembra antes de morrer. Será que vamos lembrar antes de morrer? Não parei bem para pensar nisso. Nem sei se quando for morrer terei como parar e lembrar disso. Enfim...! A gente faz uma bela homenagem ao professor e incentiva a leitura e valorização dos poetas nas salas de aula. A apresentação vai acontecer apenas no dia 14 de junho, na agenda das terças musicais do Teatro Augusta. Levando um livro novo ou usado em bom estado que tenha teor literário você paga só metade do ingresso, que vai sair por apenas R$ 20,00. Vamos doar os livros para uma instituição. Espero vocês lá! Acesse este link e garanta seu ingresso!

Foto: Divulgação

Entrevista com Pitty Webo

Eu entrevistei a atriz Pitty Webo em meu programa no Youtube. Ela conta sobre o processo de criação do espetáculo que está em cartaz, "Mulheres Solteiras Procuram", uma comédia em que o próprio nome já diz tudo. Ela também conta sobre a participação que fez no programa "Por Toda Minha Vida", em homenagem a Cazuza. E sua personagem na novela "Mulheres Apaixonadas", na TV Globo. Foi bem legal, confira dando o play aí embaixo e não deixe de fazer sua inscrição no canal, apertando o botãozinho "inscreva-se". É gratuito e importante para nossa comunicação e para o projeto de entrevistas continuar acontecendo!

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14/04/2016 09h03

Nyldo Moreira entrevista Miúcha
Nyldo Moreira

Este é o começo desse meu novo projeto. Além de escrever aqui no SRZD, também farei entrevistas com pessoas ligadas ao mundo da arte.Vamos conhecer melhor a vida desses artistas, a rotina, os trabalhos e coisas que vocês também poderão perguntar enviando pra gente. Hoje o papo é com a cantora Miúcha.

Ela fala sobre seus 40 anos de carreira, o casamento com João Gilberto, a filha que teve com ele, Bebel Gilberto, a amizade com Tom Jobim e Vinícius de Moraes e sobre ser filha de Sergio Buarque do Holanda e irmã de Chico Buarque. Vocês também vão se apaixonar pela Miúcha. Aproveite para fazer sua inscrição no canal (abrindo o vídeo tem um ícone escrito 'inscreva-se' abaixo do vídeo no Youtube) e também compartilhem a entrevista. Isso é muito importante para a continuidade desse trabalho delicioso.

Agora, assistam à entrevista dando o play aí abaixo:

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11/04/2016 13h10

Enterro no Augusta, cinco de Edu Martini, Miúcha e o encontro de Salmaso, Fabiana Cozza e Ceumar
Nyldo Moreira

Acabou, mas vale remontar: "Diga que você já me esqueceu"

Encerraram-se as apresentações da peça "Diga que você já me esqueceu", no Teatro Augusta, em São Paulo. O texto e a direção de Dan Rosseto acertam e erram ao mesmo tempo, é o risco de assinar as duas funções. Dizem que o espetáculo explora o universo de Nelson Rodrigues, mas acredito que apenas dá "bicadas". É muito complicado comparar qualquer coisa a Nelson Rodrigues, onde tudo é muito bem aplicado. "Diga que você já me esqueceu" é um bom espetáculo, sem dúvidas, é um tanto claustrofóbico e atordoante, por sua atmosfera mórbida. O roteiro gira em torno de um casamento e um enterro na mesma família, são inúmeras tragédias bem desenhadas em diálogos e interpretações. Todas as interpretações são bem dirigidas. O espetáculo começa antes mesmo do público entrar e os atores mantém-se no palco durante a entrada das pessoas. A iluminação é muito bem praticada e o figurino impecável. Há alguns trechos da peça que tornam-se desnecessários, diálogos e explicações demais para desenrolar a história. E o final da peça não agrada. O início é muito, mas muito melhor! Isso é um erro gravíssimo! Destaque para a interpretação impecável de Ângela Figueiredo. No elenco, Adriano Toloza, Luciana Garcia, Pedro Bosnich, Renata Maia, Thalyta Medeiros, Thais Boneville e Tiago Pessoa. Cenário super funcional de Alcides Peixe e a incrível e memorável trilha sonora pesquisada pelo próprio Dan Rosseto. Espetáculo que vale ser remontado, com cuidado aos excessos, sobretudo de diálogos desnecessários.

Mulheres de 90. Super encontro entre Mônica Salmaso, Ceumar e Fabiana Cozza

No último final de semana o Sesc Vila Mariana, em São Paulo, promoveu um encontro delicioso entre cantoras que alavancaram suas carreiras na década de 90 e estão ai até hoje. Mônica Salmaso, Ceumar e Fabiana Cozza completam seus timbres, unem a diferença de seus repertórios e tornam a coisa mais linda que assisti essa semana. Lívia Nestrowiski e Fred Ferreira assinam a direção do show. Lívia dividiu uma canção com Mônica, mas seu timbre é um pouco distante das aveludadas e acariciadas vozes do trio de 90. O deleite mais carnal do espetáculo ficou na interpretação de Fabiana Cozza, que sozinha cantou "Canto de Ossanha", de Baden e Vinícius. Uma cantora enorme emergiu das vísceras da intérprete de vasto repertório do samba. Mônica e Ceumar também deram o sangue nas interpretações solo e de fato são imensos fenômenos da música contemporânea. As canções saíram do repertório das próprias cantoras. A "Gírias do Norte", canção de Jacinto Silva e Onildo Almeida, incendiou o público na voz de Ceumar. E o "Canto pra Xangô", também de Baden e Vinícius, embelezou-se sublime na voz de Salmaso. O Sesc Vila Mariana sempre com uma agenda disputadíssima pelo público e um teatro de acústica maravilhosa.

Foto: Nyldo Moreira

Eduardo Martini estreia entre várias estreias

Com cinco peças em cartaz, o ator e diretor Eduardo Martini estreou a comédia "O Filho da Mãe", texto de Regiana Antonini dirigido pelo próprio Martini. Ao lado dele, Bruno Lopes da vida ao filho de Valentina, mais uma mulher interpretada por Eduardo. Valentina é daquelas mães superprotetoras. Na verdade, Valentina é hiperprotetora! O espetáculo é daqueles que a gente sai com dor na mandíbula e chora de rir e de emoção também. O texto é muito bem escrito por Regiana, tem, de fato, um toque de mãe. Trilha sonora na voz de Tim Maia, ídolo da mãezona. O ritmo da peça é muito bem sincronizado, o figurino é lindo, fruto do zelo de Martini, que faz questão de cuidar de seus personagens e torná-los vivos. O ator está em cartaz com quatro comédias no Teatro Itália, em São Paulo, duas ao lado de Viviane Araújo, uma nova parceria. A quinta peça está viajando por aí, em que Eduardo Martini divide a interpretação com Fernando Vieira em "Sexo dos Anjos". Todas super recomendadas!

Foto: Nyldo Moreira

No mesmo Teatro Itália...

A atriz, diretora e autora Pitty Webo também está em cartaz no Teatro Itália. Aliás, que belo teatro, super bem cuidado pelo estimado Erlon Bispo, e revigorado pela Drogaria São Paulo. Enfim... Pitty Webo está com "Mulheres Solteiras Procuram", ao lado de Guilherme Chelucci. Ele vem crescendo bastante no cenário cênico, ganhando destaque pelo ótimo ritmo e postura de seus personagens, a gente acredita muito na vida de seus personagens. Pitty tem um ritmo incrível, troca-se no palco dando voz a várias personagens que saem de histórias reais. A interação com o público é muito bacana, mas acho perigosa. A direção também é da Pitty, e acho que por isso ficou um acúmulo de cargos. Quero muito ver a Pitty também dirigida por outra pessoa, em um texto que pode ser seu mesmo. A peça acaba parecendo um discurso, uma palesta, o que não descarta o humor do roteiro, mas deixa-o nada inovador. Não curti muito a iluminação, acho que algumas coisas estão no time errado, mas, pode ter acontecido naquele dia. Enfim...

Bossas e histórias de Miúcha, em 40 anos

A cantora, que acredito colecionar o livro mais valioso de histórias da música brasileira, comemora 40 anos de carreira. No último final de semana, no Sesc Pompéia, um lugar super delicioso e de pura concentração cultural, Miúcha apresentou um repertório de platina! Sucessos de sua jornada na música divididos em copos de uísque com Vinícius de Moraes. Composições da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro, Chico Buarque (seu irmão), o valiosíssimo Tom Jobim e Baden Powell caem serenamente na voz da pequena e notável cantora. Ok, essa denominação era dada a Carmem Miranda, mas cabe também à Miúcha. Vê-se carinho nos olhos da artista e uma tremenda doçura em cada solfejo. Memórias e canções são destiladas à goladas de uísque compartilhadas por Miúcha. Grande e importante Miúcha! Ah, não posso esquecer de destacar a participação de Renato Braz, com uma voz que parece ser tratada nas próprias cordas vocais.

Novidade!

Um novo projeto está nascendo. Agora, além de escrever aqui no SRZD, vou entrevistar pessoas que estão ligadas ao funcionamento da arte. Músicos, cantores, atores... gente que faz a arte acontecer! Já criei um canal no Youtube chamado "Nyldo Moreira Entrevista". Inscreva-se lá para receber novidades, dar sugestões e fazer comentários. Já tem vídeo de entrevista com Eduardo Martini e logo Miúcha, Mônica Salmaso e por ai vai. Vamos conhecer a intimidade, o trabalho e o coração dessa gente que a gente ama! Assista ao vídeo ai abaixo e aproveite para clicar e acessar o canal e fazer sua inscrição, que é gratuita...

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12/02/2016 13h15

Carnaval em Salvador: das ruas ao Expresso 2222
Nyldo Moreira

Em pleno ano em que Maria Bethânia foi vitoriosamente homenageada pela Mangueira resolvi passar o carnaval em Salvador. Sem qualquer arrependimento, mas com o cotovelo doendo de estar longe daquela linda farra na Sapucaí, tomei o caminho para o primeiro dia em ruas baianas. Na quarta-feira os blocos comandados pelas tradicionais fanfarras tomaram o circuito Barra-Ondina. O Carnaval de Salvador estava oficialmente aberto. Os camarotes testavam o som, as luzes, para no outro dia abarrotarem seus metros quadrados do máximo de gente possível. Eu, no Expresso 2222, de Gilberto e Flora Gil, acompanhei o bom e o ruim dessa famosa festa popular.

Foto: Alexandre Nicotelli

O carnaval de Salvador, na verdade, está voltando a ser popular. Longe de observações políticas, acredito que uma festa de rua não pode custar tão caro para o folião. Pular no delimitar das cordas que cercam os trios custa muito caro e para contrariar isso, nesse ano, inúmeros blocos saíram sem cordas, ou seja, de graça para quem queria correr atrás. Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Saulo Barbosa e Margareth Menezes foram alguns que percorreram os tradicionais circuitos sem cobrar nada de seus foliões.

O Expresso 2222 é um dos mais conceituados camarotes defronte a beleza da orla da Barra. Muito organizado, limpo e confortável. Muito diferente do que é possível observar dos vizinhos. Varandas lotadas, salões abarrotados e filas para se hidratar e acessar os sanitários. Falando em sanitários, as ruas estavam tomadas de banheiros químicos, mas naquele esquema: o mais fedido possível! Sobrou para as areias das praias e os muros receberem a rebordosa.

Foto: Fabio Couto

Chegar aos circuitos do carnaval de Salvador é uma das tarefas mais tortuosas da folia. A prefeitura disponibilizou linhas especiais de ônibus para levar os foliões. A ida e a volta juntas custava R$ 25,00. Um tanto absurdo, né? Total falta de organização no trânsito. Vias que não comportam o fluxo que triplica nessa época do ano. E mesmo após muito tempo de tradição o governo baiano não aprendeu a organizar o carnaval.

"As Vingadoras" e sua música, aquela do "tra tra tra tra tra, as que comandam vão no tra", tocava em qualquer esquina. O cachorro na rua sabia cantar!

É imprescindível aplaudir cada vez mais o desempenho dos artistas que passam horas em cima dos trios. Ivete, Daniela e Margareth como sempre imperam nesse quesito. A beleza e energia dos Filhos de Gandhi e a irreverência das Muquiranas, em que os homens saem de mulher.

Mas, o carnaval de Salvador vem enfiando goela abaixo algumas coisas que considero desnecessárias. O povo até gosta, mas acho que nada tem com a festa. Trios com duplas, bandas que precisam se apoderar da música baiana para estarem característicos ao lugar. Acho que cada coisa tem que estar no seu barco!

Foto: Alexandre Nicotelli

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15/12/2015 13h52

O claustrofóbico e pontual 'Oleanna'
Nyldo Moreira

Foto: DivulgaçãoOs atores do espetáculo abrem, aos finais das apresentações, um diálogo com a plateia para discutir sobre o que foi visto. "Claustrofóbico", foi como um espectador descreveu "Oleanna". E realmente, com todo o louvor, é essa a palavra representativa. "Oleanna", o texto de David Mamet, dirigido por Gustavo Paso, incita, agonia, incomoda demais, por ser impecavelmente estruturado. As cenas adentram ao nosso pensamento e nos acorrentam nas poltronas, para causar uma profunda reflexão a respeito da incomunicabilidade entre os humanos. Como pode em um diálogo de dois personagens haver tanto déficit de comunicação, tantos equívocos? Há, sim! Em nosso cotidiano isso é recorrente e problemático! Em "Oleanna" tem um final destruidor.

Fernando Vieira interpreta um professor universitário, com toda sua atmosfera de provedor da educação e detentor de seu tempo e intelecto. Luciana Fávero dá vida a uma aluna que dificilmente consegue compreender as aulas de seu docente. Pouco conseguiu absorver da leitura do livro escrito pelo professor e sua resenha acabou prejudicada. A problemática da comunicação entre o professor e a aluna extravasam as aulas e os dois passam a não se compreenderem no próprio gabinete do docente. O que o professor diz é amplamente deturpado pela aluna, que tira o controle do professor ao denunciá-lo para um comitê na Universidade Oleanna.

O texto funciona muito bem cumprido pela equipe de produção e pelos atores como uma válvula de espasmo injetada no público. O diálogo vai nos deixando inquietos, com as pernas balançando, com vontade de subir ao palco e esclarecer os problemas naquela conversa. A costura do texto não tem fio sobrando, não tem fio faltando. É exata! E apesar de ser atemporal cai como uma luva nas mãos da atualidade.

Durante a temporada em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo, dois atores intercalaram o personagem do professor. Em algumas apresentações, Miwa Yanagizawa, e em outras Fernando Vieira. Assisti a última sexta feira em cartaz, com Fernando Vieira.

Luciana Fávero sabe como usar seu tempo em cena, sua marcação nas cenas é resultado de um profundo trabalho de imersão no texto e de uma consistente direção, que também coloca-se como público para direcionar seus atores. Luciana é a grande responsável por espetar no público as agulhas da incomunicabilidade, de sua maldade e até de sua sucinta razão sobre aquele professor afoito para resolver seus problemas externos.

Fernando Vieira, o professor afoito para resolver seus problemas externos (que giram em torno da compra de uma nova casa com sua esposa), descarrega junto ao texto uma genuína carga dramática. Abusa das expressões selecionadas na gaveta de um impecável ator de teatro. Fernando respeita os tempos do texto e insere neles desenhos faciais como se os descrevessem em palavras.

A luz é de uma simplicidade luxuosa, o cenário é funcional e parte importante do diálogo, pois um depende do outro para a dinâmica das cenas. Toda a produção, direção e atuação adentram como uma fina linha dentro de um furinho de agulha e saem espetando sem medo, porque sabe que vai costurar muito bem!

'Oleanna' esteve em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo, e terminou sua temporada na capital no último final de semana.

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12/11/2015 15h24

Eduardo Martini e Kito Junqueira vivem mesmo personagem em 'Sexo dos Anjos'
Nyldo Moreira

Iniciou-se a temporada de adaptações aos textos de William Shakespeare. Nada contra, mas também nada a favor. Essa exploração desenfreada é até chata, porque já vi adaptações bizarras e algumas que só o título e a arte já são de espantar. Mas, ainda não tinha visto nada como "Sexo dos Anjos", que está em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo. O espetáculo, que vem dirigido por Eduardo Martini, também integrante do elenco ao lado de Kito Junqueira, aborda Hamlet de maneira muito suave e usa-o como pretexto para desenrolar a passagem de um ator, dos palcos para o céu.

Peça Sexo dos Anjos. Foto: Claudia Martini
Fotos: Claudia Martini

Ambos, Eduardo e Kito, interpretam a mesma pessoa. Um é uma parte, o outro é a outra parte. As duas precisam se entender para passar pro "lado de lá". No "lado de cá", enquanto encenava Hamlet, o ator morreu no palco e para ascender ao céu era preciso entrar em um acordo. O texto, de Flavio de Souza, revela a proposta do título de uma forma sutil. Não consegui encontrar muito bem um elo entre o texto e o título, e a explicação pode ficar um pouco confusa. Inclusive o texto começa um tanto confuso, dá um nó na cabeça, e depois vai desenrolando.

Peça Sexo dos Anjos. Foto: Claudia Martini

Essa proposta de texto muito me fascina, pois há um delírio pelas palavras e a direção de Martini embarca muito bem nessa proposta. A PALAVRA está soletrada na boca de cada ator, Kito Junqueira desenvolve com uma delicadeza, que chega a ser bela, o ato de transmitir a palavra. Tudo é bem cursivo, bem delineado. Os dois atores dão sentimento ao texto, abusam das expressões e do que o corpo é capaz de falar.

O espetáculo é denominado como uma comédia, mas eu colocaria uma barra ai do lado e incluiria drama: comédia/drama! É um novo e sensacional caminho para Martini, que vem de temporadas incansáveis de comédias. Tudo muda no ator com essa peça, seu jeito de expressar o texto é algo muito novo. Ficou realmente lindo! O texto tem um discurso singelo, que até parece óbvio... mas, é nesse campo que uma direção e atuação confabulam com o roteiro, e tornam tudo aquilo genial.

A proposta do texto é discutir a respeito do que nós fazemos com a nossa vida. E nada melhor do que utilizar um personagem que é um ator, aquele que vive diversas vidas, diversos papéis, além de ter que viver seu próprio personagem na vida real. Em todo o roteiro, Hamlet esbarra na realidade desses personagens. E é como se um texto de Shakespeare fosse traduzido para o público, com uma linguagem bem tangível.

A iluminação cumpre um papel importantíssimo no espetáculo, e ela é um belo trabalho artístico. Luz clara, bem desenhada e tudo no tempo certo. Realmente é algo que não passa batido no conjunto da peça. A trilha sonora também ambienta muito bem os diálogos.

Martini e Junqueira pode parecer o nome de um escritório de advocacia, mas na verdade é uma dupla muito forte que começa a construir algo muito belo no teatro! Os dois usam o texto e o palco da forma mais proveitosa que um ator pode fazer.

O "Sexo dos Anjos" está em cartaz às terças-feiras no Teatro Itália, que por sinal é belíssimo, aconchegante, bem no coração de São Paulo. Qualquer ator estaria deslumbrado em pisar em um lugar que respeita o teatro. Os ingressos custam R$ 50,00.



29/10/2015 15h10

'Roteirizados' estreia texto leve e elenco afiado em SP
Nyldo Moreira

Estreou nesta quarta-feira (28), no Teatro Augusta, em São Paulo, o espetáculo "Roteirizados", com seis atores no elenco e dois diretores. Parecia ser muito, para quem lê no cartaz, mas essa impressão ficou pra trás quando abriram as cortinas. O talento lapidado de cada ator, feito um pelo outro, já escancara o altruísmo da produção. As cenas acontecem na medida certa, como se aquela receita enorme para um bolo simples fosse seguida à risca, sem jogar tudo de uma vez no liquidificador. O texto de Mark Harvey Levine é bem leve e generoso com cada ator.

Não acho que o título seja lá dos melhores, e tampouco comercial, mas, "Roteirizados" talvez seja o que mais traduz o enredo da peça. Um casal, até então comum, daqueles que acorda cedo para trabalhar, volta do trabalho, janta e dorme, nota que sua rotina está toda escrita em um roteiro um pouco chato, que surge inesperadamente na cabeceira de sua cama. Não seria uma história de grande bilheteria para um espetáculo, ou cinema, porque é simplesmente muito monótona. Eles resolvem então reescrever partes desse roteiro, mudar o início, o fim e o meio. Evidentemente isso seria trágico, ou tragicômico. A proposta do texto é muito bem sacada, lógico que similar aos enlatados americanos do tipo: "tenho um controle remoto que faz parar o tempo" - mas, graças aos deuses do teatro o script foge um pouco disso. O texto tem uma moral bacana: o nosso destino é imprevisível, podemos mudá-lo, mas não do início da vida, e temos de vivê-la.

Foto: Divulgação

André Di Paulo e Tiago Pessoa compartilham a direção do espetáculo, que foi arquitetado em apenas onze dias. Mas, independente do tempo, a lona tem que estar em pé e impecável, é a obrigação de quem se aventura no teatro. E a tarefa foi bem cumprida. Os dois conseguiram transmitir aos atores a beleza que há na proposta do texto, e sapecar a cada ator o limite do humor escalado no roteiro. Nenhum personagem funciona sozinho, e nenhum brilha sozinho. Há pequenos apontamentos, sim, mas que não desfiguram a concepção geral da peça.

A cereja do bolo, que é a reconstrução da vida dos personagens, Elaine e Simon, acontece em formato sitcom, e o casal assiste sua própria história, reescrita por eles, encenada pelos outros 4 atores. Essa cereja é colocada desde o início do espetáculo, mas ela começa a cair do meio para o final. O final não é tão bom quanto o começo. O texto acontece como uma pirâmide invertida e não é prejudicado porque a peça é curta e coube dentro de menos de 60 minutos, o que faz o início ficar próximo do final. Dessa forma o final não compromete o brilho do início, e o ritmo não fica perdido.

Os seis atores encontram-se no palco apenas no começo e nos agradecimentos finais, e essa é a estratégia pontual para não bagunçar as cenas. Renata Maia e Tiago Garcia interpretam os personagens que tentam reescrever suas histórias. Ela desenvolve impecavelmente o tom da voz e cria uma identidade para o papel, utiliza muito bem seu espaço e aproveita o olhar e a naturalidade de suas falas. Tiago tem falas mais engessadas, e cai na armadilha de engessar mais ainda o personagem. Ele fica rendido ao texto e desequilibra algumas cenas com a parceira. Falta nele o essencial para qualquer ator: naturalidade.

Paulo Tardivo e Gabriela Zenaro é um dos casais que encenam a vida reescrita de Elaine e Simon. Paulo vem crescendo gradativamente em seus papeis, mas ainda mantém oscilações. Ele brilha muito interpretando papeis mais caricatos, personagens totalmente diferentes dele mesmo. Quando precisa interpretar um cara comum, eis a pedra em seu sapato. Mas, essa é a cilada de muito ator. Ele usa muito bem o corpo e tom da voz. Foi responsável por grande parte do humor da peça, interpretando a versão paranormal de Simon. Gabriela alinha seu papel ao das outras duas atrizes, e as três funcionam juntas, com o mesmo tom de voz, com o mesmo jogo de corpo e a mesma graça. Ela arma a cama para o companheiro de cena como qualquer ator gostaria de ter. Permite que o parceiro se esbalde na cena, enquanto ela, finamente, delicia-se de seu texto.

Tiago Luchi e Luciana Garcia interpretam mais uma das hipóteses de como seria a nova história de Elaine e Simon. Mas, também vivem personagens de apoio, como garçons de lanchonetes. Luchi tem o ponto alto de sua participação, ele faz a versão de Simon como namorado de aluguel e insere uma lupa pontual em seu texto, destacando os pontos mais interessantes do personagem. Luciana entra no mesmo jogo de Renata e Gabriela, e as atrizes caminham na mesma atmosfera. Luciana tem uma elegância muito bela em cena, a dicção perfeita e um brilho discreto, que permite o alinhamento de todos os personagens.

A iluminação é certeira, e envolve climas aos quadros divididos no texto. A trilha sonora também é muito agradável e liga o texto às cenas. O cenário é feito com alguns praticáveis de madeira e mantém os tons azulados e amarelos que acompanham todos os elementos de cena, como também acontece com o figurino. Esse tom é importante, ele cria uma identidade ao espetáculo e parece que estamos vendo uma história milimetricamente cuidada e inédita.

"Roteirizados" está em cartaz no Teatro Augusta, em São Paulo, quartas e quintas, 21h. Os ingressos custam R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada).

Foto: Divulgação

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26/10/2015 12h50

O impávido samba de Beth Carvalho
Nyldo Moreira

Uma vez, invocaram comigo porque chamei Beth Carvalho de "rainha do samba", ao invés de madrinha. Acharam até que eu havia errado a palavra. Não, eu não errei! Não vejo diferença nos títulos: madrinha e rainha. Acho que as duas coisas são grandes. E ainda que o nome de Beth viesse sem o título antes, isso já bastaria. Beth Carvalho é um tremendo adjetivo! Essa sambista, seja lá rainha ou madrinha, carimbou 50 anos de muito sucesso no Citibank Hall, em São Paulo, na última sexta-feira (23). E antes que chamem minha coluna de atrasada, eu tenho por hábito escrever depois. Quando a coisa está bem digerida, para fugir das pobres notinhas que dão para espetáculos dessa nobreza.

É indiscutível que Clara Nunes, enfeitada de belíssimas composições, transformou o samba em um patrimônio desse país, ela criou uma identidade ao samba com um timbre impecável. Não há o que comparar com Clara, até porque seu legado está irretocável. Mas, como vivemos em um país cheio de predicados, e que nomes são substituídos por substantivos - Pelé é Rei, Roberto Carlos é Rei - enfim... Beth é uma diva do samba. Assim como também são: Elza Soares, Ivone Lara e Alcione. Um vídeo, que resume qualquer palavra à Beth, foi exibido antes do show, em que nomes como Maria Bethânia e Bibi Ferreira exaltavam a figura da sambista como imprescindível para a ascensão de qualquer compositor e para dar voz ao mais brasileiro dos ritmos.

Essa história de que a Beth dá voz aos compositores é a mais pura verdade. O título de madrinha nasceu daí, foi de suas interpretações que muitos sambistas ficaram conhecidos. Zeca Pagodinho é um deles. A cada canção, no show, ela faz questão de dizer o nome dos compositores. Difícil ver isso. Basta cantar para reverenciar. Não, para Beth tem que dizer o nome, isso é lindo!

Colecionadora de prêmios, a comemoração dos seus 50 anos de carreira veio com um DVD gravado no Parque Madureira, cenário ideal para o ritmo. Com esse show, ela desembolsou um arsenal de sua jornada na música. Claro, não durou muito o público sentado, bastou esquentar o tambor que todo mundo já estava fazendo do Citibank Hall uma quadra de escola de samba.

Como quem arrebentava a casca de uma ostra, Beth deslizou sob um palco móvel tornando ápice logo o início do espetáculo. Ela entrou cantando "O show tem que continuar", de Sombrinha, Luiz Carlos da Vila e Arlindo Cruz. Talvez seja realmente a canção que biografe muito bem o retorno dela aos palcos. Após um ano internada por complicações na coluna, nada soaria mais ela do que essa canção.

Não acabou por aí. Como se uma escola cruzasse a avenida, contando a vida de Beth, saiu dos repiques e balangandãs da cantora "Coisa de Pele", de Jorge Aragão e Acyr Marques, "Lucidez", também de Aragão e Cléber Augusto, "Andança", de Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, e "As Rosas não falam", do imensurável Cartola. E, lógico, dessa cartola saiu mais sucessos, "Camarão que dorme a onda leva", "Coisinha do Pai" e inéditas que estão no recente álbum. Com uma relíquia nas mãos, o cavaquinho de Nelson Cavaquinho, Beth soltou "Folhas Secas".

Foi uma noite muito bonita, e poder assistir Beth Carvalho num palco me emociona. A força que ela tem e o brilho que empresta a cada música é realmente muito comovente. Cantar samba com o envolvimento emocional que ela tem é bem raro.

Seja por Beth Carvalho, ou por Clara Nunes... vou sempre ter predileção em ouvir samba nessas duas vozes! 

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