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Nyldo Moreira

Nyldo Moreira

TEATRO E MÚSICA. Jornalista, especializado em cultura e economia. Ator e autor de peças de teatro. Apresentou-se cantando ao lado de artistas, mas não leva isso muito a sério. Pratica a paixão pela música em forma de textos e críticas. Como diretor, esteve a frente de dois curtas, um deles que conta a vida no teatro. 

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



19/10/2015 11h59

Simone faz turnê com show irretocável a R$ 1
Nyldo Moreira

Na última sexta-feira (16), Simone apresentou um repertório saudosista no palco do Tom Brasil, em São Paulo. Patrocinada pelo Bradesco Seguros, a turnê "É Melhor Ser" vêm distribuindo ingressos a R$1,00 em todos os setores, e a isso temos que aplaudir de pé. É incrível que o sonho da artista, como ela mesma disse, seja aproximar tanto assim a música do seu público. A voz é impecável, parece passear pelo corpo inteiro com uma incomparável sutileza, até deixar a boca para passear pelo nosso corpo. Um desfile intrépido de compositores viscerais.

O carisma de Simone provoca uma ternura de brilhar os olhos, há uma doçura muito mais do que qualquer coisa em seu semblante ao interpretar a melancolia que beira algumas das músicas de seu repertório. E há muita felicidade em cantar, fora de qualquer obrigação do ofício, a cantora deixa-se inundar pelo contentamento de dar voz a sentimentos. Bastou entrar, com o branco rotineiro sobre a brancura do palco, solfejando "Começar de Novo", de Ivan Lins, que era possível afirmar a arquitetura de uma das mais belas vozes deste país.

Foto: Nyldo Moreira

Simone traz de volta a irresvalável Dolores Duran, em "A noite do meu bem", uma das coisas mais lindas já feitas na música brasileira. "Mutantes", de Rita Lee e "Jura Secreta", de Sueli Costa e Abel Silva também embelezaram ainda mais o show, dirigido por Cristiane Torloni. Das mãos de Fagner, a cantora interpretou "Canteiros", canção extraída do poema Marcha, de Cecília Meireles. De Chico Buarque, Simone descascou "Sob Medida" e a memorável "Iolanda". E a baiana tascou samba, com "Acreditar", de Dona Ivone Lara e arriscou um belíssimo samba de roda emendando canções.

A cantora não deixa uma aresta sequer para que algo aconteça errado, a voz muitíssimo afinada transporta qualquer um para a atmosfera vivida por ela enquanto interpreta cada estória. As músicas na voz de Simone tornam-se coisas reais.

Depois desse show, ouvir Simone é um bem ainda mais necessário. A música brasileira, se não embebedada por sua voz, é algo faltando! Simone, não é só musicas de natal... essa definição é pra pobres de espírito.

No dia 23/10, Simone apresenta o show "É Melhor Ser" no Vivo Rio, mas os ingressos já estão esgotados.

Foto: Nyldo Moreira

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08/10/2015 11h02

A voz cantando a voz; Bibi Ferreira interpreta repertório de Frank Sinatra
Nyldo Moreira

Um salto enorme, como de costume, suporta o peso de uma das mais incríveis carreiras do Brasil. Seus passos acompanham os primeiros acordes da orquestra, quando os aplausos do público, em pé, adentram a sinfonia dirigida por Flávio Mendes. Bibi Ferreira solta a voz e joga-nos contra as poltronas, rendendo todos ao seu impecável timbre. A cantora, que também é atriz, e a atriz que também é cantora fundem suas natas habilidades e fazem renascer o mais célebre dos repertórios estrangeiros - Bibi Canta Sinatra, em temporada no saudosista Theatro NET São Paulo.

Há algum tempo, Bibi vinha expondo seu forte desejo em apresentar um espetáculo só com canções de Frank Sinatra. A cabeça que já decorou 75 anos de textos e repertórios, combinados a lucidez e rigidez de seus 93 anos, escancara músicas do orgulho norte-americano, emprestado ao mundo todo. Sinatra já não era mais dos norte-americanos, era, como diziam, A Voz para o mundo. Assim está Bibi, não é só um patrimônio nosso. Sua sensibilidade para o palco, para domar uma arena, está lançada ao mundo. Cantando a história de um dos maiores artistas do planeta, ela emociona, ainda que sempre irreverente.

Foto: Nyldo Moreira

Bibi estava preparada para ferroar com os olhos, riscados com uma tinta preta que lançavam suas pupilas para dentro das nossas. Sua carga de interpretação é descarregada ao método intravenoso, lentamente, para que o sulco de sua voz faça a mesma valsa que o timbre de Sinatra faz pelo corpo antes de desembocar nos ouvidos do público. Enquanto a orquestra dava introdução ao espetáculo com "Strangers in the nigth", a artista apontava ao palco acompanhada de Pedro Gracindo, para deixar toda aquela atmosfera com um choque de heranças ainda mais pesado. Bibi de Procópio, Pedro de Gracindinho.

Juntos, banda, cantora e o cicerone desferem Sinatra pela noite. Bibi engata "Nigth and Day", e não esquece de tascar o bom humor para arrancar sorrisos da plateia. Segue cantando e sapeca "Nature Boy", tudo como se arrancasse as canções de suas próprias vísceras. Pareciam que as cordas vocais iam compondo cada verso. Era como se cada fio dos instrumentos fossem feitos do mesmo material que as veias de Bibi. Pedro intervém em alguns trechos para falar sobre Sinatra e contar sua história, que ainda diz menos do que as próprias músicas que cantava.

Em "Ol? Man River", a incontestável filha de Procópio Ferreira exacerba sua voz e inunda o teatro, como se uma comporta estourasse diante da seca. Não muito depois disso, as peças de Tom Jobim começam a aparecer no repertório. Foi neste momento que a bossa nova ganhou expressão no mundo todo. "Se todos fossem iguais a você" e "Dindi" são desenhados em inglês e acompanhados de versos originais da composição brasileira. Mais ao final, Tom estaria de volta, e o coração de Abigail era visivelmente mais retumbante nestes momentos. "Água de Beber" e "Corcovado", também na versão americana anunciam o quase fim do espetáculo. Sinatra dedicou um álbum às canções de Jobim.

Foto: Nyldo Moreira

O norte-americano, ainda que sob os holofotes de maior estrela, teve seu período nebuloso. Tentou suicídio e ficou às margens do talento. Mas, voltou à tona e com um selo próprio reconquistou o mercado fonográfico. O rock foi uma forte ameaça, pelo qual ele teve grande aversão. Com um ar repleto de irreverência, Bibi duelou com a orquestra "Rock around the clock", um estouro que poderia deixar em silêncio a voz de Sinatra. Mas ele voltou, ainda maior!

Com Bibi pode ter ocorrido algo similar, mas pouco comparativo. O que acontece por aqui é que faltam bons textos para levar ao palco um grande artista. Músicas têm de relíquias, e ela não saberia viver longe das arenas. Bibi fica nos palcos com a graça das músicas. A atriz não desaparece pela falta de textos teatrais, ela fica nos olhos da cantora. Ela, que já cantou Piaf, Amália, inclusive em seus territórios, ainda apresentará Sinatra em Nova Iorque. E pensa em um novo musical com o repertório de Dorival Caymmi. Ela não para, porque a arte e seu próprio cotidiano podem empobrecer muito!

Antes de terminar, "Fly Me to The Moon" e como se rasgasse a garganta, "My Way" e "New York, New York", que viriam emparelhadas a incomparável interpretação de Sinatra. Como fez com todos os outros shows, de Piaf e Amália, e disciplinadamente sem intenção, Bibi sobe degraus que nenhum deles subiu. Sinatra foi A voz. Bibi é A voz, O texto e A cena!

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01/10/2015 14h10

Eduardo Martini e Suzy Rêgo dão gás à comédia 'Valham-me Deuses'
Nyldo Moreira

Aquilo que dá certo, a gente tenta outra vez. Ou, em time que está ganhando não se mexe. É mais ou menos assim que acontece com Eduardo Martini e Suzy Rêgo, a dupla deu tão certo que inseriram na programação do Teatro União Cultural mais um espetáculo estrelado por eles. A comédia "Valham-me Deuses", de Perito Monteiro, vem dirigida por Neyde Veneziano, e só é comédia graças aos atores, que parecem "dar o coro" para fazer o público rir, já que foram assistir algo de humor. Falta texto e a direção é inconsistente, consegue manter poucos pratos no equilíbrio!

Muitas vezes a gente lê uma sinopse e tenta entender o que ela tem a ver com o espetáculo. Logo, tem alguma coisa errada nisso, ou na sinopse, ou no espetáculo. Por isso, eu prefiro não ler as sinopses até que eu assista à peça. Depois de assistir tento encaixar uma coisa na outra, e dessa vez foi difícil. As coisas parecem acontecer separadamente, o texto não conversa com os atores. Eles aparecem mais do que o texto, não há uma uniformidade. Parece que jogaram óleo em um balde d?água. "Valham-me Deuses" é um texto aquém de Eduardo e Suzy. Eles escrevem a história com sua doação aos personagens e com a construção que deram aos seus personagens, em que é possível notar suas digitais, e o autor fica atrás, e a direção perdida em tentar tornar o texto cômico.

Foto: Divulgação

Suzy interpreta Renilda. Ela é uma esteticista e não fica claro se procura ou não alguém para se relacionar. Parece que sim. Não vou dizer que ela encontra uma paixão, porque a paixão não é clara. Mais parece um desejo. Quando encontra esse homem ela passa a buscar inúmeras maneiras para envolvê-lo e realizar-se sexualmente: rezas, simpatias, mandingas... Eduardo interpreta vários personagens, cada um deles é o "socorro" buscado por Renilda. Tem mãe de santo, psicanalista, astrólogo... Às vezes esses personagens surgem sem uma passagem, sem um sentido. Parece um recorte, mas imagino que o texto não seja recortado, foi escrito sem pensar que o público precisa entender. Comédia não é fazer rir a todo custo, comédia tem a obrigação de emitir a mensagem de maneira clara, ou que, ao menos, nos faça refletir!

A falta desse texto mais claro e de a direção conduzir melhor os personagens para o humor limitado que está escrito faz com que os próprios atores entreguem-se com afinco aos seus papeis, isso é ótimo para os atores. Suzy e Eduardo são muito conectados, eles transmitem cada time um para o outro em troca de olhares. Eles funcionam muito bem juntos e salvam a comédia, que não seria comédia se não fosse a atuação. Os personagens são muito bons, mas o texto que deveria conduzi-los não funciona. Tem público que ri só porque está em uma comédia, isso é comum, e é horrível de acontecer.

Ontem (30), quando estreou o espetáculo, a luz teve seus momentos errados, a sonorização teve seus momentos errados e a direção falhou. Damos um desconto porque é estreia?! Não, o teatro tem que acontecer impecável sempre. O público merece que isso aconteça.

Ricardo Severo assina a direção musical de "Valham-me Deuses", que é totalmente dispensável. Há exageros na condução das inserções de músicas no roteiro. Novamente os atores carregam a responsabilidade de tornar algo ruim em aceitável. Dá muita aflição assistir bons atores em corda bamba. Já presenciei direções musicais do Severo muito bem formatadas e funcionais. Essa ficou parecendo coisa de improviso. As campainhas, da casa e do telefone são péssimas, a voz que fala do outro lado nas ligações ora entra, ora some, e o funk cantado por um dos personagens interpretados por Martini poderia ser apenas um texto, de um ambulante (personagem atuante no momento), como qualquer vendedor da 25 de Março, por exemplo.

De repente... pá! Entra mais um personagem, de peruca loira e uma indumentária "indiana". Inclusive a origem da veste deixa dúvidas, porque não é claro quem é aquele personagem, de onde ele veio e para que veio. Simplesmente ele entra, participa e sai. Parece que a direção perdeu uma página do roteiro e alguma coisa ficou sem explicação. Eu recomendo que encontre-a, ou rabisque o resto do que se refere a este personagem.

Suzy trabalha muito bem o corpo, o drama interior e o humor leve de sua personagem. Sua capacidade de um teatro físico ainda deve ser sempre explorada, porque isso parece ser inesgotável na atriz. Ela tenta não fugir da proposta do texto, mas recebe as conexões de Martini e juntos eles se destacam. Suzy fica no palco o tempo inteiro, cheia de textos. Faz de uma personagem que poderia não ter sal nenhum, um elemento equiparado aos tantos personagens de Martini.

Eduardo Martini, dessa vez, apenas atua e não dirige. Acostumamos a assistir espetáculos dirigidos e atuados por ele mesmo. Dessa vez, sua direção está em conduzir seus personagens e não o texto, com a luz, com o som, com o cenário... Essas coisas estão desconstruídas e não estão funcionando juntas. Mas, o banho que Martini dá em cada personagem cai no riso frouxo do público. Ele interpreta com a alma e rasgasse por inteiro para que cada um emita uma característica que desiguale um do outro. Parece que entram pessoas diferentes e de talentos iguais para viver cada papel.

A luz de Yara Leite desenha climas pontuais e cores confortáveis. Em alguns momentos há erros de tempo e de temperatura da iluminação. Neyde Veneziano não perde totalmente a mão nessa massa, porque ela foi feita também por outras mãos. Bom figurino, trocas ágeis, cenário funcional e ela sabe que o público gosta, independente do que a crítica acha. Mas, espetáculos não podem ser razoáveis. Espetáculo tem que ser um espetáculo! O teatro vive disso, e não de chanchadas de última hora. Erra o diretor inconstante, que define coisas de última hora, que dá apitos sem escutar o ator, que não enxerga que as coisas todas precisam ser homogêneas. Não sei se é esse o ocorrido, mas é o que parece.

Quando o público gosta qualquer espetáculo é recomendável, e o público gostou!

O cartaz do espetáculo segue a mesma linha dos cartazes produzidos para outros espetáculos de Martini. Por ser muito parecido com os outros a arte remete a espetáculos parecidos. A comunicação das peças precisam ser desenvolvidas de acordo com a história. Não pode haver limitação na publicidade dos espetáculos, porque se não fica tudo parecendo igual.

"Valham-me Deuses" está em cartaz no Teatro União Cultural, quartas e quintas, às 21h. Os ingressos estão apreços populares, no valor de R$ 20,00. Ainda que não haja patrocínio algum. A equipe está de peito aberto, e isso é bonito de se ver. O União Cultural está lindo, repaginado e novamente vem se inserindo no circuito teatral. Coisa do insaciável Eduardo Martini, que dirige a casa.

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27/08/2015 14h50

Glória Menezes e Arlindo Lopes dão lição no teatro
Nyldo Moreira

Não lembro-me nesses últimos anos de assistir a um espetáculo com tanta delicadeza, no texto, na encenação e em todo o resto. A história não permite erros, e ninguém erra. João Falcão é o diretor, Glória Menezes e Arlindo Lopes dividem o protagonismo, e cada segundo dentro do teatro torna essa entidade cênica algo celestial. Eu já assisti "Ensina-me a Viver" em sua estreia, e a expressão "lágrimas nos olhos e sorriso no rosto" é uma constante do início ao fim. Cabe ao teatro, muito que aprender com esse tipo de saudação à arte!

É como sentar-se em uma cadeira elétrica e aguardar que os choques comecem a nos surpreender. Mensagens são jorradas aos nossos ouvidos e processadas de diversas maneiras. Nosso histórico, como humano, é todo rechaçado. E isso é lindo de ser sentenciado dentro de um teatro. A arte é um encontro belíssimo com a vida. "Ensina-me a Viver", que está em cartaz no Teatro Bradesco, em São Paulo, permite que o ator penetre nas vísceras de seu público e dome-o, substancialmente com os olhos.

Foto: Divulgação

Foi tudo ideia do Arlindo Lopes, um ator jovem e com o fôlego que o teatro precisa. Ele chegou com esse texto incrível adaptado por Coling Higgins e "cinematografou" o teatro. Ninguém faria melhor do que Glória Menezes o papel de Maude. Empresta-lhe uma voz delicada, doce e que soletra todo o sentimento que a atriz doa ao personagem. Maude dá um tom incrível à vida de Harold, interpretado por Arlindo. Há uma diferença enorme de idade entre os dois. Ela já quase aos 80 anos, e ele recém adulto. A promessa de Maude era partir justamente quando os 79 de idade já tivesse sido suficiente, e não havia como desfazer o trato. Entre um sofrimento amoroso, a peça encaixa bom humor em tudo. Sem tirar o lacrimejar dos olhos, sublime a qualquer drama.

O par Harold e Maude é o encontro que qualquer autor desejaria idealizar. Mas só com muita delicadeza seria possível tornar tudo isso quase real. Não há um cenário de cores, de peças. Há elementos e há o preto, comum naquele teatro mais antigo, e que redobra a atenção do espectador ao desenho cênico que fica sob responsabilidade do ator. É o personagem o centro de tudo!

Foto: Divulgação

A história concentra um romance entre personagens que poderiam ser distantes do "tradicional". E a peça quebra esse tradicional. No palco tudo é comum com a vida, e passa esse comum pra dentro da gente.

No elenco também estão Angela Dip, Antonio Fragoso e Elisa Pinheiro. Angela interpreta a mãe de Harold, e compõe sua personagem com um trabalho vocal impecável. Antonio é incumbido de interpretar diversos personagens com um jogo de cena fácil de errar, mas que não abre nenhuma aresta. Elisa também interpreta outros personagens, como se cada um fosse feito por uma atriz diferente.

O espetáculo pode facilmente entrar para qualquer lista de memoráveis peças e daquelas fundamentais para cumprir um longo tempo em cartaz. É necessário que o humano atente-se e conheça histórias como essa.

"Ensina-me a Viver" está em cartaz até o dia 7 de Setembro, em São Paulo, no Teatro Bradesco. Os ingressos custam a partir de R$ 30,00.

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10/08/2015 11h57

Maria Bethânia grava DVD em comemoração aos 50 anos de carreira
Nyldo Moreira

Em cada espetáculo dela há uma nova descoberta, ainda que tudo pareça milimetricamente ensaiado, há uma nova Bethânia a cada show. Há um olhar trocado com o público, incomparável com o espetáculo anterior. Há um baile de mãos e chicoteadas da saia de acordo com a ressonância da poesia de cada canção. E poesia é coisa de momento. Lê-se a mesma poesia de formas inimagináveis. É assim agora que a baiana encontra-se com a poesia de Clarice Lispector, e abre espaço para que mais poetas rodeiem sua paixão por Fernando Pessoa. Para a gravação de um DVD a Abelha Rainha adoçou ainda mais e fechou o show com um samba de roda à la Santo Amaro.

O palco inclinado, pedindo mais força nos pés, o tornozelo rígido e os olhos fixados, encarando o público. Cinquenta anos de carreira desfilaram como uma escola de samba, pra cima, altiva e sonora. "Abraçar e Agradecer" tem o roteiro das mãos de Bethânia, fielmente identificável como seu, tirado de suas entranhas e escancarado para quem quiser saber o que habita a cantora. Não... eu não acho que ela seja reservada, acho-a exibida e escancarada, como um livro de poesias. Mas há que se decifrar, nenhuma delicadeza pode ser desbravada a cru!

Foto: Nyldo Moreira

Num outro mundo, isolado naquela atmosfera criada por uma banda azeitada de experiências, um dos grupos mais célebres rabiscando instrumentos para tornar mais belo o que sai da voz da cantora. Uma voz de graves inconfundíveis, graves que deixam as cifras mais delineadas. O prolongamento das notas é o tiro poético e exato de Bethânia, é nele que a baiana fica debruçada, como quem espreita o universo pela janela.

O ritmo de mata, de interior, de um cais, de um quintal, de um terreiro... uns ritmos, costumeiros aos roteiros de Maria Bethânia, que diferenciam um show para o outro pela história que contam quando ligados os dois atos. A intercessão das poesias conta as passagens das canções, explicam quando a composição deixa fios soltos e liga o cordão umbilical da intérprete ao nosso umbigo. Próximos a ela pela palavra, é o que há de mais belo na língua portuguesa!

Bethânia nos atiça os ouvidos como alguém que larga pedaços de carne à espera de leões famintos. Escancarar-se às palavras de Clarice Lispector foi descobrir-se ainda mais na poesia, pois é como ser lida por ela mesma. Clarice interpreta Bethânia sem saber, mas escandalosa em cada palavra.

A iluminação do show é uma meta difícil de ser alcançada por qualquer um que queira cometer igual.

Já estive neste show, quando Bethânia esteve em São Paulo anteriormente. E estive novamente, como se um novo espetáculo armasse a lona e a equilibrista atravessasse o palco com mais objetos nas mãos.

Foto: Nyldo Moreira

A Casa

O espetáculo "Abraçar e Agradecer" foi registrado em DVD nos últimos dias 7 e 8, no Tom Brasil, que resgatou o nome da casa que era HSBC Brasil. Essa transição acontece aos poucos. Mas, a casa é a mesma, com o mesmo aperto, para caber mais e a mesma dificuldade de visão para os que estão mais ao fundo. O público, que quer ser semelhante ao dos antigos cabarés, mas que sem respeito algum não fecham a boca. Batem garfos, copos. Garçons passando com lanterninhas de led, um inferno. Nada teatral para cantores de teatros!

Nada contra as casas noturnas, mas elas descaracterizam qualquer show delicado. É o que há, para uma cidade que precisa vender ingressos caros para a elite que quer sentar numa casa de shows, abrir uma champanhe e deixá-la sobrar com frutas secas na mesa.

Na mesma mesa em que eu estava um incômodo do início ao fim do show registrou presença. Claro, sentou-se à mesa, o rapaz, apoiou os olhos no celular e destrinchou as primeiras impressões nas redes sociais sem nem mesmo começar o show. Fez seu check-in e logo que a cantora pisou ao palco começou a cantar junto. Uma voz horrorosa, distante da beleza vocal de Bethânia, evidente. Mas, ele era daqueles que cantava os versos antes mesmo da cantora. Que saco! Ele queria que Bethânia fosse o seu eco? Mais respeito, e cale a boca dentro de um show, que é da cantora! Fiquei com a mosca zunindo em meus ouvidos.

No entreato, o que é de praxe nos shows de Maria Bethânia, a banda apresenta uma costura de canções instrumental. Mas, para o público, isso parece ser apenas um enxerto. Bastou que Bethânia saísse do palco para que as pessoas abrissem o berreiro para falatório. O grão foi jogado ao chão e o povo ciscou, de bico aberto. Falta de respeito.

Voltando ao show...

Após desfilar, como uma bateria, canções novas e também as que tornaram viris a sua carreira, Bethânia tascou um samba de roda acompanhado de "Reconvexo", a canção do irmão que traduz sua transição de Santo Amaro para o mundo, a transição que nunca a tirou de lá. Graças a Deus! Não fosse a interiorana que mora dentro de si, e faltaria algo em todo esse gigantismo.
Mas, ao final do samba um outro veio emendado, e não era surpresa. Não poderia faltar Gonzaguinha para decifrar seu sorriso, a virada de costas e o dedo indicador para o alto, ato que encerra todos os seus shows!

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06/08/2015 09h45

Eduardo Martini e Suzy Rêgo vivem crise de casal em peça
Nyldo Moreira

Inegavelmente a dupla está dando certo! Eduardo Martini e Suzy Rêgo interpretam um provável casal da sociedade, daqueles que querem casar e empurram isso com a barriga, como se casar ainda fosse questão de obrigação. Após anos de união, eles resolveram casar. Foi como começar a descer uma ribanceira sem freios. Esse não é um enredo inédito para o teatro, mas os atores precisam ser, e são! Eduardo e Suzy dividem um texto muito bem humorado e de fácil identificação do público, o que facilita um diálogo com a plateia e faz o humor atingir rapidamente a quem assiste, pois há forte assimilação, principalmente dos casais, ou dos separados, claro.

"Até Que o Casamento nos Separe" foi escrito por Eduardo e Cris Nicolotti e já alternou o papel da esposa, que hoje é de Suzy Rêgo, entre algumas atrizes. Martini, que também dirige o Teatro União Cultural, não é de deixar espetáculos engavetados e muito menos no passado. Volta e meia eles voltam ao cartaz. O que é bom, já que o teatro carece de bons textos. Tem muita porcaria detonando sala de teatro!

Foto: Nyldo Moreira

A peça traz tiradas cômicas já conhecidas e o texto parece um recorte de diversas situações retiradas do cotidiano. Isso é muito bom, porque deixa o público muito próximo daquele contexto e a plateia fica completamente vulnerável ao diálogo dos personagens. O riso rola frouxo.

Não vejo tanta autenticidade da autora no espetáculo, ele parece muito mais do Eduardo, talvez pela linguagem que já vem de suas outras direções. Acho sim, que falta um salto ornamental de Martini, que ainda paira entre essa comédia que vem sendo resgatada por ele mesmo. "O Chá das 5" (peça de Regiana Antonini e encenada em 2014), por exemplo, poderia ser um divisor de águas, não fosse por algumas falhas e nuances agressivas do texto e pelo distanciamento entre o talento de Eduardo e o despreparo dos outros atores que contracenaram, salvo Blota Filho, que em muito fica à altura. Falta texto, ator e patrocínio para um bom teatro.

Voltando ao "Casamento", o duelo entre o ator e Suzy Rêgo chegou a um cume, neste espetáculo. É este o par que funciona em uma comédia e ponto! Os dois discorrem o diálogo com muita facilidade e não abrem aspas para erros. Suzy tem duas atrizes em sua educação cênica, uma de televisão e uma de teatro. Vê-se que uma é apaixonada pela outra. Ela encena com todo o corpo, fazendo com que o ato de assisti-la seja prazeroso, pela inteira doação ao texto. Isso chama-se respeito ao que está escrito.

Foto: Nyldo Moreira

Eduardo tem um jeito pitoresco de representar, utilizando uma lupa no próprio texto, tornando mais evidente aquilo que seria comum em um ator menos preparado. Ele enxerga analiticamente o que pode fazer alguém rir e não ultrapassa o limite. Usa a expressão, o corpo e a voz para chamar a atenção do público. Ele se espalha e cria uma intimidade impressionante com o palco. Fica notório que quem puxa a carroça é ele, em qualquer espetáculo. O ritmo está com ele.

A comédia "Até Que o Casamento nos Separe" está em cartaz em São Paulo, no Teatro União Cultural, que estava esmaecido e vem emergindo novamente. Sextas às 21h30 e aos Sábados, 21h.

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14/07/2015 15h57

O ano Gal
Nyldo Moreira

Duas senhorinhas vinham pelas alamedas do Shopping Cidade Copacabana, muito bem ciceroneadas pelo número de antiquários do local. Tudo parecia fazer sentido - não quero insinuar que cabe as senhoras visitar apenas antiquários, não! - até porque, as lojas serviram apenas de distração para elas, como para mim. A intenção principal era assistir Gal Costa, no antigo Terezão, agora Theatro NET Rio, na capital fluminense. Por coincidência, essas senhorinhas sentaram-se na fileira da frente que eu estava, e dali saíram os estranhamentos. Quando Gal começou a cantar, acompanhada dos ruídos sintetizados por Domenico Lancellotti, as senhoras desconheceram a cantora. "Mas o que é isso?!", disse uma delas. "Acho que o som está com problema!", sussurrou a outra. "Gal está diferente, credo!", rebateu...

Essa é a síntese do ano em que Gal Costa tomou os holofotes da música brasileira de volta! Gal tinha que voltar a gravar e manter sua qualidade de criar rompantes. E quem cria rompantes tem que ser genial. Juntos, Caetano Veloso e ela uniram suas histórias e criaram o "Recanto", álbum que aguçou ainda mais a afeição entre Gal e a voz. Coisas unânimes! E cá estou eu, novamente, falando de Gal... não consigo parar.

Não acho que Gal tenha dado uma reviravolta. Não! Vejo-a como idealizadora de uma carreira repleta de novidades, em que uma completou a outra e cada uma relançava sua música.

- Gal Costa interprete Lupicínio Rodrigues com a modernidade de uma veterana

Gal Costa. Foto: Divulgação

O "Recanto" foi, sim, uma inserção em um novo cenário musical, aquele que recebe novos instrumentos e composições. Em um show repleto de Caetano, ela pôde expressar seu momento e disse sim a essa nova instrumentação. Sintetizadores eletrônicos, sem abolir as guitarras, os violões e o drama de suas interpretações. Os sintetizadores emitem ruídos diferentes do que qualquer instrumento de bossa, samba, ou qualquer outra coisa possa emitir. E isso soou estranho aos ouvidos das senhoras. Desde então essa seria a continuidade daquela Gal que já incluiu no mesmo show, há tempos, Jorge Ben, Djavan e Tom Jobim. A Gal que teria que continuar a renovar. O que não é necessário! É dela.

O show dirigido por Caetano trouxe uma porção de oportunidades de imprimir seus graves, que foram ganhando espaço na agudez galcostiana e de revisitar um universo que a traduz. Neste show estavam todas as Gals.

Depois dele era previsível que um furacão sairia em disparada criando e querendo os palcos, preservando o estilo "Recanto" e trazendo novidades.

Saiu do "Recanto" e o "Recanto" não saiu dela, e engatou um espetáculo nomeado "Espelho D'água", de um primor irresvalável - essa palavra me acompanha em quase todos os textos sobre Gal. Nele há uma remessa de canções densas e que emendariam o show "Ela disse-me assim", em que a baiana canta Lupicínio Rodrigues. Esse é pra arriar!

Um show inteiro com Gal destilando Lupicínio... era o delírio! Enquanto isso, já estava sendo bolado o álbum "Estratosférica", algo dessa continuidade e que tornaria comprido o ano de Gal Costa, que veio com força em 2011 e ainda não parou!

"Estratosférica" trouxe Gal ao assunto do momento. Para onde olhar, lá estará ela. Com os cachos mais volumosos e jovens compositores na playlist. Criolo e Milton Nascimento dividem uma composição, enquanto Mallu Magalhães assina aquela música chiclete, que já pegou. Eu ando cantarolando o tempo todo... "quando você olha pra ela, eu viro areia". É... este é um trecho de "Quando você olha pra ela". No início do álbum uma rasgada de guitarra já apresenta as vísceras da voz de Gal, com "Sem Medo Nem Esperança".

Gal recebeu uma fila enorme para autografar as capas do "Estratosférica", no Rio de Janeiro, no mesmo dia em que foi lançada a versão em vinil do álbum. Soube que em São Paulo também vai acontecer esse evento.

Nos shows, continuam os jovens a frequentar, como sempre foi. A diferença é que hoje somos os filhos dos velhos fãs, que ainda estão lá, que ouvem o "Recanto" e estranham aquele ruído, acham que o som está com defeito. Depois notam que o defeito está muito longo e ninguém faz nada. Depois começam a notar que aquele ruído tem um ritmo e fica bonito acompanhado entre graves e agudos da cantora. Depois confirmam: "É assim mesmo", comentou uma das senhoras daquele show. "Até que ficou boa essa nova Gal", sorriu a outra.

O ruído, ou, o sintetizador, ou o MPC, já está nos ouvidos dos mais velhos, dos mais jovens. E é normal, é bom, é genial. Ainda bem que tem, porque ficou incrível no show.

Essa Gal, que agora é "Estratosférica", é a Gal que ninguém nunca cansou de ver e sempre quis ver.

"Que delícia, amei", disse uma das senhorinhas ao final do show. "Eu também, apesar dessa roupa preta", e ficaram ali esperando saber se ela atenderia no camarim de "Recanto", lá em 2012.

Há uma ressalva! Gal terá que dividir o ano com Maria Bethânia, que conserva uma continuidade mais similar de um show pra outro, e dá a cada um deles uma beleza imensurável. Este ano Bethânia completa 50 anos de carreira, ano em que Gal prepara o jubileu. Há um afastamento entre elas, mas a história jamais cumprirá esse distanciamento. Na música elas estão juntas!

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11/05/2015 13h36

Gal Costa interpreta Lupicínio Rodrigues com a modernidade de uma veterana
Nyldo Moreira

Ela entrou ao palco rasgando a seda, lacerando qualquer coração vulnerável e dirigindo um timbre sem precedentes. Gal Costa não deixou nem um fio da meada e cantou como se fosse o último e tivesse de ser o mais sublime canto de um guriatã. "Ela disse-me assim", título de uma viril canção de Lupicínio Rodrigues, também intitula um dos mais absolutos espetáculos de um artista, com composições do cancioneiro interpretadas por Gal. O projeto é uma iniciativa da Natura Musical, que trouxe mais perfume à música já perfumada de Lupi.

Foto: Riziane Otoni

O show é um intocável encontro de titãs. A direção artística de J. Velloso e Marcus Preto estão entregues a um resgate mais do que necessário da música. Eles trazem de volta aquele ruído de rádio de uma forma memorável, mas em arranjos completamente novos. As canções parecem novíssimas, e Lupi ainda parece estar entre nós e ter acabado de compor essa genuína obra. A banda confirma essa reunião de gigantes com Pupillo (bateria), Guilherme Monteiro (guitarra e violão), Silva (teclado e violino) e Fabio Sá (contrabaixo elétrico e acústico).

Entregue de corpo e alma, Gal interpreta cada avalanche de Lupicínio com uma aparente delicadeza, contornando cada canção com aquela voz que jamais permitirá comparativos. A cantora, durante todo o show, encara a plateia e é ciceroneada por cada instrumento. Ao tempo que nada daquilo parece ser necessário a ela, todo aquele luxuoso fundo instrumental parecer ser muito natural e parte dela. Gal e a música são complementos fundamentais.

As composições de Lupicínio contam histórias com uma clareza absurda, lindas histórias, cheias e requintadas de detalhes. Cada uma, com sua melancolia, sua irreverência, sua autoridade, dor, alegria e contemplação adentram a um tempo em que as canções perderam as minúcias e o valor da palavra, do som da palavra. São todas tão atemporais e que só poderiam cair na responsabilidade de Gal torná-las novas e preservadas. Gal é sempre uma novidade, é sempre um resgate responsável à música. Um resgate que não fica só no tempo passado, e que, quando não paira em um arranjo moderno, paira em composições modernas (em outros discos).

O "Recanto", dirigido por Caetano Veloso em 2011, trouxe ao cenário musical uma Gal mais visceral e até resvalando no underground. Gal tornou-se ainda mais o corpo de cada canção e vocalmente proprietária de cada uma delas. Os resquícios firmes do show "Recanto" permanecem iminentes nos espetáculos da cantora que o sucederam. "Ela disse-me assim" é esse peteleco no "Recanto", na bossa, no rock, no samba-canção e em tudo que um coração calejado pode produzir.

O projeto da Natura Musical vai ser gravado em CD ao vivo e poderemos repetir milhares de vezes o ato incontrolável de ouvir o canto mais necessário da música brasileira, Gal Costa!

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28/04/2015 13h06

Gal, Bethânia, Gil e Caetano: os cinquentões da MPB
Nyldo Moreira

Esse ano ainda será somado a um riquíssimo período para a música brasileira. Não pelo que anda pipocando a todo custo nos nossos ouvidos, mas pela persistência da música de qualidade, que para mim envolve composição, voz e arranjo. A imprensa noticiou nas últimas semanas um afastamento entre Gal Costa e Maria Bethânia, trazendo manchetes com uma falsa novidade. O fãs embarcaram na onda e recriaram o ringue entre Emilinha Borba e Marlene. Enquanto isso, Caetano e Gil ensaiam um intenso repertório para dividirem o mesmo palco comemorando os mesmos 50 anos.

Foto: Reprodução

O ano do jubileu de ouro trouxe ao Prêmio da Música Brasileira uma homenagem à Maria Bethania, que acontecerá no dia 10 de Junho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. As últimas manchetes dos jornais que precisam acelerar suas vendas, e dos sites que ainda precisam angariar clicks, noticiavam que Gal Costa não foi convidada para a homenagem à Bethânia e que estavam afastadas há alguns anos (inclusive calcularam errado). Essa discussão fajuta chegou até as redes sociais e rendeu. Bethânia e Gal não declararam afastamento algum, apenas não há registros de que as duas têm se encontrado.

Caetano e Gil participaram do Fantástico, da Rede Globo, no último domingo (26) e anunciaram uma turnê juntos, que estreará no Brasil em Agosto, após apresentações internacionais. Caetano quer algumas canções inéditas e Gil gostou da ideia.

Seria de um deleite inimaginável que os cinquentinhas estivessem juntos nessa comemoração, como aconteceu em 2002, quando os Doces Bárbaros recordaram o grupo em shows memoráveis. Mas, cada um tem sua história e todos eles possuem vida pessoal, escolhas e um mercado fonográfico por trás disso tudo.

Gal e Bethânia acompanham estilos diferentes, que podem até se esbarrar em algum momento. Gal tem o irresvalável poder de inovar a música e ainda adicionar graves a uma voz de cristal. Atualmente está realizando shows cantando Lupicínio Rodrigues, em parceria com a Natura Musical. O show "Ela disse-me assim" é um reencontro da baiana com uma era de ouro, mas interpretado com uma impressionante releitura. Gal também está para lançar o álbum "Estratosférica", com canções inéditas. Esse ritmo acelerado de shows mostra um vigor que às vezes falha, mas que se abastece de um público jovem, reconquistado pelos quatro artistas.

Bethânia está em turnê com "Abraçar e Agradecer", no seu estilo preservado. A intérprete, de temperamento forte, imprime essa sensação em cada interpretação. É um show para não deixar defeito nem em um fio embolado no chão do palco. Um palco iluminado por telões de LED. Em Junho ela será homenageada pelo Prêmio de Música Brasileira, e alguns artistas vão interpretar sucessos da santamarense. Gal não foi convidada? Não sei! E a música não ganhará absolutamente nada com essa pobre discussão!!!

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18/03/2015 10h41

Fábio Jr. traz músicas escolhidas pelo público em shows
Redação SRZD

Foto: Gabriel WickboldNo último final de semana o cantor Fábio Jr. apresentou o show "O Que Importa é a Gente Ser Feliz", no Citibank Hall, em São Paulo... é lógico que a mulherada estava em peso. Como se não bastasse reunir uma lista recheada de mulheres na vida pessoal, Fábio tem uma maior ainda quando o assunto é fã. E para seduzi-las ainda mais e valorizar o trabalho, músicas dele foram disponibilizadas na internet para que o próprio público pudesse escolher algumas que estariam no show. Nem sempre dá pra ouvir o público, mas é bom sempre tentar ouvir. Tem gente que não ouve, mas também não canta mais!

Fábio gosta de um toque mais sofisticado aos seus palcos, o que talvez não permita inusitar e diferenciar suas apresentações. A iluminação é o que reveste o cenário, bem aplicada.

Quando o cantor casa sua voz aos momentos acústicos, o show ganha um tom mais íntimo e mais agradável. O acústico pode ser perigoso, por revelar certas falhas de afinação, mas o Fábio esta bem nesse quesito!

Canções como "Alma Gêmea" e "Caça e Caçador" já estavam na boca do público e são aquelas mesmas teclas que o cantor tem que bater sempre em seus shows. E isso é bem válido. Uma coisa é ouvir em casa, outra coisa é estar em frente ao artista enquanto ele repete aquela música que você tanto ouve. Confesso que não sou de ouvi-lo, mas me agradam muitos os duetos e algumas apresentações dele. Não creio que o Fábio tenha que se reinventar, isso é coisa daquelas bandinhas que surgem e rapidamente perdem a força. O cantor tem que manter sua performance, mas usar de artifícios novos para surpreender o público. Ou então, mesmo que ele faça um show a cada um ano, eles serão sempre iguais. O Fábio tem um pouco disso, a falta de novidade. Mas, ainda essa falta de novidade preserva um Fábio bom de ouvir!

A agenda do Citibank Hall incluí Ana Carolina, ainda neste mês, e nos próximos Paula Toller e Zeca Pagodinho, entre outros.

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16/03/2015 16h10

Maria Bethânia traz 50 anos de carreira para show em SP
Nyldo Moreira

Uma bagagem repleta de um repertório primoroso, escolhido delicadamente e com um nobre rigor! Maria Bethânia desceu os atabaques em terras paulistas para comemorar seu jubileu nos palcos. São 50 anos de história de uma das maiores intérpretes do Brasil... aquela que da a voz que qualquer compositor deseja às suas canções. A baiana descarregou litros de composições que estavam incubadas há algum tempo e relembrou suas consagrações nas arenas brasileiras. De Santo Amaro da Purificação para o mundo, com o mesmo 'jeitinho' brejeiro. Uma overdose de Caetano Veloso para dobrar os ouvidos do público! Em São Paulo, no HSBC Brasil, estreou no último sábado, 14, uma das coisas mais lindas dos palcos nos últimos tempos, "Abraçar e Agradecer".

Li, outro dia, a respeito do repertório de Bethânia durante esses 50 anos que passaram, era uma crítica bastarda... dizia que a baiana enfeitava o mesmo do mesmo em todos os seus shows. E qual seria a dificuldade em entender gêneros?! Bethânia é dos batuques... quando sai deles enluara-se com canções de Chico Buarque, por exemplo, que a derruba em uma delicadeza incomum. O resgate de canções é a coisa mais sublime que um intérprete pode fazer para a música. Bethânia, com uma banda sempre simétrica, redesenha o ritmo dessas canções e costura uma a uma criando histórias nos palcos.

Maria Bethânia. Foto: Nyldo MoreiraEm um espetáculo quase sem pausa entre as canções, divido em dois atos, com um recheio instrumental feito por Jorge Helder (contrabaixo), Túlio Mourão (acordeom e piano), Paulo Dafilim (violão e violas), Pedro Franco (violão, bandolim e guitarra), Marcio Mallard (cello), Pantico Rocha (bateria) e Marcelo Costa (percussão)... Bethânia exprimiu quase tudo de si. Dividiu suas interpretações em textos de Waly Salomão, Fernando Pessoa, Clarice Lispector e até os de sua autoria. Entre as ligeiras viradas de acordes a intérprete soletrou: "agradeço aos amigos que gostam de mim. Apesar de mim". E reverenciou o público: "agradecer aos senhores que acolhem e aplaudem esse milagre", o de cantar, e assinou embaixo.

"Abraçar e Agradecer" é uma reunião de poetas e compositores que transcende à própria carreira de Bethânia. Há um bom tempo eu não me deparava com um trabalho tão belo. Como se nada fosse ensaiado... mas, com a impressão de que tudo estava milimetricamente ensaiado. Nada fugia da natureza santamarense, de como se a baiana sambasse no quintal de casa.

A overdose de Caetano Veloso incluiu a abertura do show, xerocando a intérprete para todo o resto do espetáculo. "Eterno em mim", de 1996, antecedeu uma leitura assinada por Bethânia. Ainda das mãos e da mente do irmão, "A Tua Presença Morena", com um arranjo carnavalesco de um samba rasgado, "Tudo de Novo", "Nossos Momentos", "Eu e Água" e "Motriz" saíram da intimidade vocal da cantora, como se Caetano a ciceroneasse com a viola. Algo parecido com o que aconteceu no documentário dirigido por Andrucha Waddington, "Pedrinha de Aruanda", em que Dona Canô divide o quintal com os filhos e com o mundo!

Chico Buarque entrou luxuoso no repertório do show com "Tatuagem" e "Rosa dos Ventos", que marcou como digital a carreira de Bethânia. Chico é uma das quedas da cantora, e sua total entrega para essas canções evidencia isso.

Maria Bethânia. Foto: Nyldo Moreira

Dori Caymmi também está imperativo no espetáculo e veste o olhar de Bethânia com sua herança para compor. Rolando Boldrin, Tom Jobim e Chico Sá também apitam nesse terreiro. Boldrin é lembrado com "Eu, a viola e Deus", com viola caipira. Tom, com uma versão íntima de "Dindi". Chico com as digitais que deu a Bethânia. É o grande biógrafo da cantora neste momento. "Agradecer e Abraçar" também foi a canção de Gerônimo e Vevé Calazans, que fez a Abelha Rainha espetar minuciosamente seu ferrão em nós, o público.

"Não me arrependo de nada", foi um dos versos entoados na canção que eternizou Edith Piaf. Sim... Bethânia encarou "Non, Je ne Regrette Rien", de Charles Dumont e Michael Vaucair. A canção levada até Piaf e que simbolizou toda sua vida, também caiu na lábia de Bethânia, que interpretou o francês com seu jeito baiano e pontual. Ela encarou a canção de frente e finalizou flechada por luzes brancas e os braços pro alto, como quem reverencia o tempo.

Maria Bethânia. Foto: Nyldo Moreira

O samba de roda não veio latente como de costume nos shows de Bethânia, mas veio espalhado no vasto roteiro. Desta vez, Roque Ferreira ficou com a fatia sambada do espetáculo. Suas composições fizeram o vestido que transava vermelho e dourado em Maria Bethânia rodar como das mais legítimas baianas que encaram a ladeira do Pelô. A beleza teatral de tudo isso vinha trajada pela direção de Bia Lessa e Guto Graça Melo. A banda foi orquestral e respirava cada canção com alegria. Era muito contemplativa a maneira com que eles rodeavam Bethânia para enchê-la de notas.

O figurino ficou divido pelos dois atos. No primeiro, Bethânia vestiu o dourado de Oxum, e saudou-a no segundo ato com a "Oração a Mãe Menininha", de Dorival Caymmi. A introdução da música veio a cappella, como se aos pés da Mãe reverenciasse algo, intimamente. Ainda sob a assinatura de Gilda Midani, o segundo figurino era vermelho e dourado, tal qual o de Iansã na composição de Roque Ferreira, "Vento de Lá".

Maria Bethânia. Foto: Nyldo Moreira

Algo muito interessante foi o chão de LED armado sobre o palco e que ocupava quase toda sua extensão. Imagens de rosas, água, mato, estrelas e desenhos criavam uma atmosfera a traduzir esse jubileu e a desenhar a interpretação de cada canção. Esse chão era inclinado, o que fazia a pisada da cantora ficar ainda mais enrijecida e cúmplice do palco. Cantar sobre uma ladeira é coisa de um bom baiano, de raça. A vista do alto é sublime, a valsa de Bethânia sobre as imagens é celestial. A iluminação de Binho Schaefer riscou o palco como um pintor ama suas telas pincelando-as com critério.

O texto já está ficando grande demais... é melhor encerrar assim, no ápice. Bethânia fez isso, voltou ao ápice, do qual nunca saiu. Terminou o show traçando no rosto uma interpretação visceral de "Cárcara". E voltou sorridente para o bis, sem deixar dúvidas de que cantaria "O que é O que é", de Gonzaguinha.

Maria Bethânia. Foto: Nyldo Moreira

A tradução dos 50 anos de carreira de Maria Bethânia foi magistralmente resumida. O show é uma resenha de um Deus!

O show segue no próximo final de semana, no HSBC Brasil. Mas, os ingressos já estão esgotados.

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11/03/2015 10h55

Fafá de Belém só precisa de sua voz e um piano
Nyldo Moreira

Dona de uma das maiores vozes do Brasil, Fafá de Belém apresentou um show intimista, ao lado do pianista Luiz Karam, no Terra da Garoa, em São Paulo. Destilando canções famosas, o espetáculo comemorou antecipadamente, no último final de semana, o Dia Internacional da Mulher... muito bem representado! Fafá aniquilou o silêncio com terminações gargalhadas e um timbre sem igual.

Em uma cama emaranhada de notas amaciadas pelo maestro Luiz, Fafá começou a bordar o espetáculo com "Foi Assim", e não hesitou ao interpretar canções imortalizadas por Maysa. Foi como a fusão da melancolia com o contentamento ao ouvi-la resgatar, naquele mesmo tom, as audaciosas articulações de Maysa.

O "Bilhete", de Ivan Lins, vinha escrito com a notável emoção de Fafá, enquanto que canções de Chico Buarque, como "Sob Medida", inundavam a sensualidade de uma mulher que esqueceu de envelhecer. Fafá não deixa nada fazer falta... sua voz e um piano são o casamento perfeito.

Fafá deixa qualquer jornalista muito redundante, porque, quando não estamos falando de sua exuberante voz, falamos dos seus avantajados seios (com todo o respeito, claro!). Temos que pautar também sua elegância e até a transição para interpretar e dramatizar conforme as letras. Parece domar a poesia como se trotasse sobre ela!

Essa máquina de ritmos passeou por diversos compositores... entregou-se à intimidade que a casa permitia e emocionou, como se desse recados em forma de canção. Saio sempre dos shows da Fafá sem saber com o que compará-la. Claro, não há!

O Terra da Garoa vem realizando experiências gastronômicas com artistas na casa. Um jantar, com entrada e sobremesa, precede o show. Além dos pratos que já estão no cardápio, o artista também sugere algo. Não sei dizer o sabor, porque não experimentei!

A agenda da casa inclui um musical com José Rubens Chachá e Tobias da Vai-Vai, o "Sampa", que conta a história do samba na capital paulista. Ivan Lins, Toquinho, Benito de Paula e Guilherme Arantes também apresentam-se nos próximos dias.

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02/03/2015 10h50

'É possível ter ensino de qualidade na escola pública', diz Maria Bethânia
Nyldo Moreira

O espetáculo, que nasceu há alguns anos na Universidade Federal de Minas Gerais, ainda ganha o Brasil em uma costura de canções e poesias. Maria Bethânia responde à mediação entre poetas e compositores emprestando-lhes a voz, a dramaticidade e a alegria de uma cantora que é atriz. Ou de uma atriz, que é cantora! Comemorando seus 50 anos de carreira, a baiana espalha espetáculos no Brasil e enche São Paulo de poesia. Foram quatro dias de "Bethânia e as Palavras" no Sesc Pinheiros, que encerrou ontem com um grito de alerta da artista: "é possível ter educação de qualidade em uma escola pública"!

Bethânia vem avisando nesses anos todos de carreira de que a poesia deveria estar na boca do povo e no contexto de uma sala de aula. Exalta o professor e toma como referência aqueles que a ensinaram na escola. A voz de Fernando Pessoa ecoa toda a intensidade do poeta e para mim não há ninguém que o leia com tanto empréstimo e apreço. Há uma intimidade irresvalável entre os dois!

A poesia faz-se a interlocutora entre a palavra e a paz. Cada som vindo das batucadas de Carlos César e dos violões de Paulo Dafilin também soam feito poesia. "Bethânia e as Palavras" é um estado de poesia.

Foto: Nyldo Moreira

Alguns textos são devera interpretativos. Parecem a briga entre Deus e o Diabo, ou o pecado de Eva e Adão... ou qualquer prece a um Deus... a um orixá, ou a um homem. Parecem a natureza respirando. O som de Maria Bethânia parece bem com natureza respirando. Doce e selvagem.

Eu já assisti a este espetáculo diversas vezes, porque ele é incansável e terapêutico. Cada vez que o vejo descubro uma palavra nova, uma lágrima diferente e um sorriso mais aberto ou mais tímido, dentro de cada verso. Parece que há uma poesia nova em cada espetáculo, mas o que há são novos olhares e disposições auditivas que nos levam a emoções diferentes. A poesia está para a psiquiatria muito mais do que a psiquiatria para a medicina. Sem qualquer desmerecimento! A poesia é uma didática precisa, imediata e até duradoura.

Não há um só momento em que a poesia descanse no palco de Bethânia, a não ser sob a beleza do silêncio em que o público respira e nos intervalos métricos entre uma palavra e outra. A poesia permite o berro e o silêncio em um verbo!

Bethânia fará apresentações novamente em São Paulo ainda este mês, no HSBC Brasil. O Show "Abraçar e Agradecer" traz músicas do álbum "Meus Quintas", pela Biscoito Fino, e será em comemoração aos 50 anos de carreira. Os ingressos já estão esgotados.



20/02/2015 19h00

São Paulo ranzinza contra os blocos de rua
Nyldo Moreira

O acinzentamento da capital paulista não está restrito à aparência das fachadas. São Paulo parece estar mesmo ranzinza. Uma matéria publicada ontem (19) pela Carta Capital rebate a mídia que vem dando destaque às críticas ao carnaval de rua em São Paulo.  O texto chama de "ideias de atraso" o resumo que a grande mídia deu a respeito dos blocos, destacando os bêbados e os "mijões", na Vila Madalena. Eu fui até a Vila Madalena e o que encontrei foram bêbados e mijões! Infelizmente, o manejo calamitoso das secretarias de cultura, das autoridades e daqueles que "investem" em cultura dividiu a população paulista em ranzinzas e em "extrapolões".

Não é culpa dos reclamões de reclamar. Como não é culpa dos bêbados e mijões, beber e urinar por ai! As situações foram dirigidas desordenadamente e chegaram nesse ponto. Para tudo há uma discussão, uma polêmica, e o carnaval não ficaria fora disso. Ninguém quer acordar e encontrar suas janelas depredadas e a porta fedendo a urina. Pois é, isso está acontecendo na Vila Madalena. A Carta Capital diz que no centro não houve uma concentração de reclamações a esse respeito, como aconteceu na Vila Madalena. Ora, é óbvio... o centro fede de natureza. Além disso, parece ser cada vez mais uma área de risco.

Bloco Kolombolo, na Vila Madalena. Foto: Divulgação

A publicação da Carta Capital é muito boa, mas é meio tendenciosa. Há uma superproteção ao governo Haddad, atual prefeito de São Paulo. Haddad, aquele que pinta todas as avenidas e dá o nome disso de ciclovia! Haddad gosta de fazer o povo se divertir, mas não sabe planejar nada disso. No Rio de Janeiro os blocos funcionam melhor, mas, ainda assim, foram registradas imagens de uma galera pulando no teto de banheiros químicos. Seriam bêbados tentando entrar pelo lado errado? O fato é: São Paulo precisa entrar nesses eventos com melhores condições de organização... e não usá-los como teste para melhorar os próximos. Até porque, nada aqui parece evoluir.

É muito bom que o carnaval continue pintando pelas ruas da cidade, ninguém paga para se divertir. Diferente do que acontece no "carnaval de rua" de Salvador e nos sambódromos das grandes cidades. O carnaval, esse dos blocos de rua, é para o povo. E o povo foi severamente deseducado pelos governos. Kassab, nem Serra autorizaram os blocos de rua em suas gestões. A atual gestão abriu as pernas para isso, mas esqueceu de usar camisinha. Aliás, essa é outra questão. Carnaval e sexo são parentes em toda conversa... você sai hoje em um bloco, desses bem aglomerados, e recebe mil propostas de sexo e beijo! A turma mais velha vai querer comparar ao seu tempo, em que lança-perfume era usado pra ser lançado, e realmente São Paulo vai começar a ficar mais careta.

Uma observação feita pela Carta Capital é de que os blocos concentrados na Vila Madalena estão recebendo diversas reclamações de um publico mais conservador e dos mais abastados. Mas que, os bailes funk, que são considerados movimentos culturais e acontecem pelas ruas em periferias, não são sequer questionados. Engano! Esses bailes são muito questionados sim, não por serem de funk, mas por perdurarem a noite inteira, reunir arsenais, drogas e orgias nas portas de casas. Isso está bem errado! Não podemos confundir as coisas... cultura e isso são oposições grosseiras. Claro, a mídia vira as costas para isso.

De fato a população paulistana está ficando cada vez mais ranzinza, e uma parte dela mais ousada. O ranzinza quer sua porta limpa e silêncio, enquanto o mais ousado quer liberdade! Mas, o ranzinza é muito carola, e o ousado é muito libertino. Sem um meio termo uma hora teremos o fim do que acabou de começar, ou esse começo será a introdução de um inferno na Terra!

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19/02/2015 11h48

Senta lá, Claudia... Leitte!
Nyldo Moreira

O lendário bordão de Xuxa Meneghel pode ser facilmente encaixado nesta ocasião... em que, Claudia, a do Leitte coalhado, poderia ter ido sentadinha em um carro alegórico na Marquês de Sapucaí, ao invés de fazer um papelão como rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. A cantora, título que insistem em dar a ela, exagerou na dose e achou que estava sambando. Foram cenas de dar dó! Enquanto isso, em Salvador, Anitta e alguns MCs, tomavam conta dos trios elétricos. Voltando à Sapucaí, a Beija-Flor adentra a avenida com um enredo patrocinado por sua homenageada, uma nação sob regime ditatorial.

Cláudia Leitte. Foto: Igor Gonçalves

Claudia Leitte, aquela que insiste em se enfiar em tudo, no estilo Preta Gil, não para de cometer gafes. Com uma fantasia confusa, típica de um personagem dos mangás, ela mostrou o quanto não sabe sambar e nem deveria estar ali. Aliás, é ridículo que as escolas de samba enfiem artistas à frente de suas baterias, enquanto a comunidade rala duro durante o ano! A cultura entrelaçada ao carnaval está cada vez mais deplorável. É caro desfilar numa escola de samba e isso foge à cultura. Dinheiro e muita mutreta estão por trás da suntuosidade que embeleza as telas da Globo no carnaval.

Voltando à Claudia Leitte! Que insisto: deveria estar sentada num carro alegórico, seria muito menos feio! Ela fazia olhares debochados, forçados, movimentos esquisitos, quase epiléticos. A bateria é uma parte fundamental na escola de samba e na história do ritmo. Mas, já está virando palhaçada. Nem Susana Vieira, nem Claudia Leitte! Susana estava à frente da bateria da Grande Rio.

Foi patético ver a Anitta num trio elétrico, como foi patético ter que aturar a Claudia no carnaval do Rio. É o fim, sim! Chato demais essa miscigenação que teimam em achar bonito. Não é legal colocar o que não é rock no Rock'in Rio, como não é legal colocar a Claudia Leitte em canto nenhum. Imagine como jurada musical no The Voice!

Outro bafafá foi a vitória da Beija-Flor de Nilópolis no carnaval carioca. A mídia levantou a suspeita de que a escola teria recebido R$ 10 milhões do governo de Guiné Equatorial, país sob regime ditatorial e que a escola levou para a avenida. Desde sempre existem os patrocínios. Esmiuçar isso agora como se fosse uma novidade é coisa chata! Mas, independente do valor do patrocínio que a escola recebeu, de um país ditatorial, não é uma notícia agradável. A Guiné Equatorial é um país com fortes contrastes de pobreza.

Comissão de Frente da Beija-Flor: Foto: Igor Gonçalves

Aos olhos do público e das mídias que premiam escolas de samba, a Beija-Flor não seria a campeã!

Camarotes e abadás caríssimos para levar urinada nos pés, em Salvador. Camarotes abarrotados de famosos e subcelebridades, no Rio e em São Paulo. Uma avenida luxuosa, cheia de patrocínios, nas capitais mais caras do Brasil. No meio dela, um negócio dourado se movendo... era a Claudia Leitte!

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