SRZD


14/04/2011 12h39

Veja os vídeos dos desfiles do Grupo E na íntegra
Ricardo Delezcluze

Inicialmente gostaria de agradecer aos leitores pelo sucesso que foi a coluna anterior. É muito gratificante ver o reconhecimento do público em relação a essas escolas. É apenas mais uma prova da relevância cultural das mesmas para a cidade. Comecei pelo Grupo E propositalmente. Imaginei que esses registros que precisam ser feitos também seriam os mais difíceis de encontrar no YouTube e afins. Na mosca, o que é uma pena também, pois como vocês mesmos constatam são desfiles bem interessantes.

Para não quebrar o ritmo e mantermos o clima de carnaval no ar, resolvi aumentar o número de escolas aqui apresentadas, agora serão seis. Na próxima coluna fecho o Grupo E com os desfiles completos de mais três escolas. Para os Grupos D e C já pensei em uma estratégia diferente com a apresentação e publicação de todos os desfiles de uma vez só. Enfim, aguardem os próximos capítulos.

União de Guaratiba

A União de Guaratiba ficou licenciada durante um ano e retornou em 2011 aos desfiles. Sendo uma das quarto últimas, em 2012 desfilará na FBCERJ.A importância da União de Guaratiba para a cidade se atesta por sua posição no mapa. Localizada na região mais distante do centro da cidade do Rio de Janeiro é um pontinho isolado das áreas de maior concentração de escolas. Temos ai um dos argumentos dos defensores da redução do número de escolas derrubado, afinal com quem a União de Guaratiba vai juntar para formar uma nova escola forte? O esforço da escola esse ano era nítido quando comparado a história recente, mas mais uma vez falta organização para sustentar sua estrutura. Melhor seria o estado intervir objetivando manter esses grupos vivos e não sugerindo sua extinção. Essa é apenas minha opinião. Tem umas coisas nessas escolas de singeleza ímpar, vejam o senhor que representa Monteiro Lobato em cima do carro. Esse deve ter sido um momento marcante na vida dele. A bateria da escola estava bem legal também.

Infantes da Piedade

Infelizmente várias escolas que não se sustentaram no grupo E desfilaram em sequência. Isso gerou uma quebra brusca na qualidade dos desfiles. Aqui temos mais uma escola extinta esse ano. Mais uma vez a marca da desorganização e da falta de estrutura salta aos olhos. A importância do grito de guerra para sentir o clima do que a escola apresentará, já antecipa o triste desfile no momento que o intérprete justifica "aos trancos e barrancos, vamos fazer nosso trabalho". A Infantes da Piedade desfilou basicamente com duas alas e a bateria. Não tem baianas, não tem crianças, não tem passistas, nem comissão de frente. Lá no início do desfile a velha-guarda apresenta a escola.

Boêmios de Inhaúma

Tem várias coisas legais no desfile do Boêmios. Começa pelo esquenta com "Fogo e Paixão", ainda que não seja um samba da escola, é original, diferente. Depois a pequena porta-bandeira abrindo a escola que encantou ao público presente. Quem viu a Boêmios nos últimos anos comprova que ela também fez um dos melhores desfiles nos anos correntes. Infelizmente, não foi possível salvar a escola rebaixada a bloco de enredo (isso é tão estranho, uma escola virar bloco, que até tenho dificuldades pra escrever).

Matriz de São João de Meriti

Mais uma vez os efeitos de uma boa concentração aqui aparecem. Desde o esquenta a Matriz de São João de Meriti esbanja energia. No seu segundo ano de desfile a escola de Meriti lembra os áureos tempos da Unidos da Ponte com um chão de impressionar. Além do canto fortíssimo, um bom carro de som comandado por Joãozinho e organização impecável da harmonia são os pontos fortes. Poderia ter levado o caneco com justiça.

Paraíso da Alvorada

Aposto muito que o Paraíso pode crescer sob o comando do jovem Wando. A paixão que ele nutre pela escola é comovente e antiga. O desfile desse ano teve ainda como fator positivo certo resgate da auto-estima dos moradores do Complexo do Alemão. A escola nunca escondeu a identificação com o Alemão, tanto que estampa as cores da Alemanha na bandeira. No enredo isso fica claro com referências ao teleférico.

Arame de Ricardo

O Arame realmente é fogo! Cheguei a apostar que poderia abocanhar o título, correndo por fora. Realmente a escola fez sua melhor apresentação plástica dos últimos anos e chegou perto da taça. Prestem atenção no samba de esquenta, uma das letras mais lindas que já vi, o samba "Vida" foi composto por Gaú nos tempos em que a escola disputava o "Banho de Mar a fantasia" ainda como bloco. Por isso acho mais interessante que as escolas mesmo as de história recente enquanto escola desfilem com sambas originais. Agradeço aos leitores Irley José e o presidente do Arame Cesar Gomes pelas informações sobre o samba de esquenta.


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30/03/2011 15h12

Exclusivo: veja os vídeos dos desfiles do Grupo E
Ricardo Delezcluze

Enfim, meus amigos leitores, começamos hoje a série de vídeos com os desfiles dos Grupos C, D e E. Quem me conhece e me vê correndo pela pista nos 3 dias sabe da trabalheira que dá filmar. Devem saber, porém, da enorme satisfação que é fazê-lo. Afinal isso fica estampado no meu sorriso de satisfação em assistir a esses desfiles e falar sobre eles. Pela primeira vez apresento desfiles na íntegra, sem cortes. Essa possibilidade, no entanto é muito mais do que fruto de uma ação benevolente. Infelizmente boa parte dela é causada por transtornos com meus instrumentos para a edição dos vídeos. Ainda que planejasse colocá-los completos para deleite de vocês, queria cortar sobras, defeitos, acidentes diversos que infelizmente passarão em vossas telas. Imaginava apresentar as escolas com suas devidas fichas técnicas o que infelizmente na será possível.

Aproveito para apresentar uma impressão particular desses desfiles, não como um dogma, mas sim como algo a ser debatido, no papel de crítico em que minha opinião é requisitada por esse site, tenho essa missão. Além de demandar participação não apenas no debate sobre os desfiles, peço que propaguem essa idéia. As escola sofrem bastante durante o ano com a falta de divulgação de seus eventos, ao menos seus desfiles merecem o devido reconhecimento do grande público.E no mais divirtam-se, seja curtindo bons sambas, curtindo a simplicidade desse carnaval, o clima do público de Campinho e até mesmo reconhecendo amigos e parentes que desfilaram nas escolas.

Vamos começar então com a apresentação das três primeiras escolas do Grupo E.

Chatuba de Mesquita

Simpática agremiação da baixada fez um desfile divertido contando a história do sorvete. Aqui podemos notar como as novas escolas têm muito mais fôlego e chão que muita escola antiga. A organização do desfile é bem interessante. Para quem não conhece uma das mais árduas tarefas na Intendente Magalhães é desfilar as 19 horas e a escola fez isso com maestria. Mesmo bem distante do local de desfile, com horas de antecedência já estava pronta e organizada para tal. A bateria é um dos pontos positivos da escola, bem consistente.

Unidos do Uraiti

A Uraiti é uma escola tradicional do Rio de Janeiro que há um bom tempo vem se debatendo em um processo de crise profunda. Nos últimos dois carnavais nem carro a escola levou aos desfiles.Houve ano em que simplesmente não apresentou comissão de frente. Em 2011 com a pressão do encerramento das atividades parece ter tentado uma reação. Trouxe um samba bom, apesar de muito grande. Todas as alas fantasiadas, apesar de um conjunto irregular. Finalmente apresentou uma bateria organizada e bem conduzida. O destaque é a mestre Ellen, a única mulher a comandar uma bateria no Rio de Janeiro.

Unidos do Cabral

O Cabral é outra escola que parece ter sofrido uma reviravolta após a reestruturação da AESCRJ. No último carnaval a escola fez um desfile melancólico não apresentou carros ainda no Grupo D e deixou de cumprir uma série de exigências regulamentares. Eis que em 2011 o Cabral traz um enredo simples, mas com bastante apelo junto ao público, com leitura fácil. A comissão de frente fez sucesso entre o público e me conquistou. Foi uma das melhores senão a melhor que passou nos três grupos. Poderia ter levado o caneco com justiça, tanto que apontei a mesma como uma das favoritas na coluna após os desfiles.


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09/03/2011 05h29

Balanço dos desfiles na Intendente
Ricardo Delezcluze

Os desfiles da Intendente em 2011 provaram que as escolas dos Grupos C,D e E correspondem as mudanças na AESCRJ. Excetando uma ou outra todas se prepararam para brigar por título. Eu começo pelo Grupo E que desfilou nesta terça-feira de carnaval. O público que sempre lota a passarela de desfile foi brindado com belas surpresas de escolas que vinham se esforçando muito pouco nos últimos anos. Esse ano não houveram casos de escolas que não trouxeram carros ou componentes sem fantasia como ocorreu nos últimos anos. Que fique claro o fato de na minha concepção esse esforço ser incentivado muito mais pela possibilidade de qualquer um vencer me uma competição honesta do que o medo de virar bloco.

Assim, são três as escolas que despontaram na briga por uma vaga no grupo D após o desfile desta terça: Matriz de São João, Unidos de Lucas e Unidos do Cabral. Colocaria ainda correndo por fora a Chatuba de Mesquita e o Arame de Ricardo. Começo por essas duas. O Arame que tem um charme especial cativante, ao menos pra mim, passou com a discrição de sempre. O samba prejudicou a harmonia, só que a escola veio bonita plasticamente. Chatuba foi outra que veio bem na parte plástica e tinha até uma bateria boa, mas o samba não rendeu. O desfile do Cabral foi um dos mais divertidos que já vi na Intendente e boa parte da cominicação que escola estabeleceu com o publico atribuo a comissão de frente com banhistas e camelos simulando um ataque do rapa. As fantasias do Cabral eram de fácil leitura e apesar de eu não gostar do samba, reconheço que foi bem cantado pelos componentes. Matriz de São João fez um desfile perfeito, sem cometer erros. A escola é muito organizada e tem um chão de fazer inveja a muita escola do Especial.

Na segunda-feira as escolas do Grupo D também proporcionaram um grande espetáculo coloco como favoritas Leão de Nova Iguaçu, Império da Praça Seca e Dendê. É muito bonito ver o Leão renscer das cinzas, ainda mais com um sambão daqueles. É bonito também ver uma escola jovem, com tantos jovens na alegoria e dando tão certo quanto o Império da Praça Seca. E o Dendê mais uma vez se superou plásticamente e passou completo e sem problemas em samba, enredo e etc.

Por incrível que pareça o grupo C foi o mais fraco de todos. Coloco como favoritos o Arrastão de Cascadura, a Unidos de Vila Santa Tereza e Favo de Acari. No entanto tem várias escolas correndo por fora e que não surpreeenderia se vencessem o grupo C. Destaco a Em Cima da Hora que só não entra no primeiro grupo citado pq um dos carros quebrou. Outro destaque foi o sol presente e lindo no desfile do Favo de Acari quando já eram 8h da manhã. Não chegou a esse ponto única e exclusivamente pelo número de escolas no grupo, ou seja 16, mas sim pela quebra de um dos carros de som da pista, o que acarretou enormes atrasos.

Enfim, curti o carnaval 2011 de um jeito completamente diferente dos outros, mas que foi bom foi. O lado ruim dessa história são os lamentos dos moradores que assistem aos defiles com a notícia da propavel tranferência da pista de desfiles para Deodoro, mas isso é papo pra outra ocasião.


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02/03/2011 04h04

Alô! Alô! Tá na hora de ouvir nosso grito!
Ricardo Delezcluze

Em matéria primorosa de Vicente Almeida publicada recentemente aqui no Carnavalesco, o diretor da TV Globo anunciou as "novidades" para a transmissão dos desfiles do Grupo Especial 2011. Basicamente o mesmo modelo será mantido com mudanças nas posições de comentaristas, apresentadores, essas coisas. Longe de querer algum tipo de ingerência sobre aspectos da transmissão da maior emissora do país. Apesar de não concordar não utilizarei este artigo para atacar o monopólio desta sobre a transmissão televisa dos desfiles. Quero apenas no meu papel de humilde e simples espectador chamar atenção para fato que irrita profundamente inúmeros telespectadores como eu que fanáticos gravam e assistem inúmeras vezes as apresentações das escolas: a ausência dos esquentas e gritos de guerra.

Trata-se de momento simbólico da ocupação da escola no palco principal do samba. A expectativa, a tensão dos longos silêncios nos discursos e apresentações iniciais. Os segundos eternos e meteóricos da saraivada de notas antes do primeiro verso ser cantado pelo puxador. Os momentos marcantes ou tensos que antecedem um desfile embalado pela trilha de sambas antigos, sambas de quadra e até vá lá músicas diversas ligadas ao enredo. Os discursos em algumas ocasiões polêmicos que revelam a face da escola que entrará na avenida. Em alguns casos são mensagem de esperança, outros de soberba e até mesmo situações extremas de tristeza por um carnaval frustrante. Omitir momento tão importante é esconder a festa (pois mais que espetáculo, é uma festa, um ritual-competitivo) em uma embalagem pausterizada e hermética.

A crítica se estende a TV Bandeirantes que transmite o Grupo de Acesso A incidindo no mesmo erro. Não é questão de simplesmente criticar a transmissão da emissora que como frisei é a maior do país. Mesmo nas transmissões tem muitas coisas legais como as reportagens de apresentação dos enredos e da preparação das escolas. A emissora tem os melhores profissionais do mercado, os melhores equipamentos, a melhor imagem só precisava dar maior atenção aos espectadores. Sei que os interesses do mercado levam a emissora a focar as transmissões em celebridades. Sei que o espaço publicitário é valorizado e a transmissão é pautada muitas vezes pelo ritmo destes. Penso, no entanto, que tudo isso poderia ser contemplado no período que a escola passa entre o setor 3 e o 7. Uma pena dizer isso, mas sacrificaria assistir esse pedaço do desfile se pudesse ver e sentir o clima da concentração com esquentas e gritos de guerra.

Aproveitando o ensejo, quero apresentar lhes alguns momentos preciosos registrados justamente nesse intervalo de tempo que antecede os desfiles. Relíquias de um espaço liminar que não é desfile, mas onde a escola começa a mostrar-se ao grande público. Todos revestidos de tensão e expectativa, simultaneamente deliciosos de se assistir. Uma lembrança bem adequada aos nos darmos conta que falta menos de uma semana para o reinado de Momo. Então, vamos a eles:

Esquenta Arame de Ricardo 2010

Adoro esse esquenta do Arame de Ricardo. O problema é que até hoje não descobri a origem ou autoria deste samba. Não sei se é samba de quadra, se a escola já desfilou com esse samba, só sei que acho delicioso e passo horas apreciando o romantismo da letra e a beleza da melodia. Talvez os leitores possam me ajudar a "desvendar esse mistério". Já era fã do Arame de Ricardo por certo ar exótico que a escola exala. Meu carnaval não se completa se não assisto o Arame desfilar.

Esquenta e discurso do Acadêmicos do Dendê em 2010

Nunca vi ninguém melhor para um discurso na concentração do que o presidente de honra do Dendê, Macalé. Neste desfile por uma série de dificuldades que a escola enfrentou foi especialmente emocionado. Logo a seguir o belíssimo samba exaltação do Dendê.

Discurso e esquenta do Canários das Laranjeiras em 2010

Costumo brincar que o samba-exaltação do Canários é o único que cabe em um tweet, ou seja, tem menos de 140 caracteres. A letra simples é ornada pela melodia deliciosa que lembra os sambas de embalo dos tempos de bloco. Tempos que inclusive os blocos não precisavam mais que quatro versos para dar seu recado. O discurso do presidente Pico é representativo do momento em que a escola voltava a desfilar depois de um ano licenciada.

Esquenta e Grito de Guerra da Em Cima da Hora em 2010

Esteja onde você estiver sempre vai se emocionar e ficar arrepiado quando ouvir "Os Sertões", no entanto, quando é a Em Cima da Hora que executa a obra-prima o samba adquire um ar sagrado. Em 2010 a escola foi campeã do Grupo de Acesso D, percebe-se no grito de guerra que ela passaria devorando asfalto naquele ano. O estilo performático do intérprete Serginho Gamma é um deleite para os cinegrafistas e espectadores. A entrada da bateria, um momento mágico e emblemático para os componentes, fica maravilhosa com o excelente ritmo da escola de Cavalcante.

Esquenta Unidos de Lucas em 2010

Bom, se ouvir "Os Sertões" executado pela Em Cima da Hora é uma experiência única, imagina ouvir "Sublime Pergaminho" executado por Lucas. Este sambaço nos faz nostálgicos da saudosa Unidos de Lucas e seus grandes carnavais. Que a Unidos de Lucas reencontre o caminho dos grandes desfiles e seus componentes e torcedores sejam bem felizes.

Esquenta Unidos de Cosmos em 2010

Pouca gente deve conhecer esse sambão que a Unidos de Cosmos apresentou em 2005 e foi esquenta da escola no último carnaval. Falando sobre malandragem de um modo tão sublime esse samba tem uma melodia viciante. O soar da sirene ao fundo, autorizando o inicio do desfile é algo que mesmo nos desfiles do Grupo A os que acompanham pela televisão não ouvem há um bom tempo.

Grito de Guerra Independente da Praça da Bandeira em 2010

Olha o clima de uma escola campeã. Você nota na tranqüilidade das pessoas no entorno do intérprete, na segurança da entrada da bateria. Neste vídeo o cantor da Independente adota um estilo parecido com o das escolas de samba de São Paulo com contagem regressiva e um "lalaiá" melodiado de acordo com o samba do ano. Conheço pessoas fanáticas por esse estilo, assim como outros que não gostam. O fato a ser ressaltado é a diferença nas transmissões entre Rio e São Paulo. Sabe-se lá o motivo, mas a Globo mostra alguns gritos de guerra das colas paulistanas, diferente do que faz no Rio. Assim muitos dos intérpretes lá já criam um estilo copiado por alguns cariocas.

Esquenta, Grito de Guerra e discurso da Matriz de São João de Meriti

A Matriz tem pouco mais de um ano de vida e seu samba exaltação já é cantado a plenos pulmões por seus componentes. Ouçam o ecoar dele no vídeo! O pitoresco discurso do diretor de carnaval Alemão é outra curiosidade. Mais enérgico impossível.

Esquenta Favo de Acari em 2010

O Presidente da escola, Fogueira, autor do samba exaltação é quem conduz o esquenta. Um fato significativo por si só. O bailar suave do casal e todo o orgulho de defender as cores da escola emolduram e completam o cenário.

Bônus - Discurso do Marquinho no Amarelinho em 2009

Na primeira e única vez até então que a Corações Unidos do amarelinho passou na Sapucaí nos legou essa pérola. Quem assistiu do setor 1 ou setor 3 acompanhou na íntegra esse discurso histórico do diretor Marquinho Harmonia. Depois suas palavras virariam lema do movimento popular de apoio à São Clemente, La Pandilla Clementiana: "é energia e vigor físico".

Bônus 2 - Esquenta Arrastão de Cascadura em 2009

Um dos mais belos sambas da história do Arrastão de Cascadura e das mais belas obras do carnaval carioca em homenagem a Zezé Mota, enredo do Arrastão em 1989. Aqui na última passagem da escola pela Sapucaí é interpretada por Marquinhos Silva. Normalmente a escola esquenta com esse samba maravilhoso. É provável que quem for assistir ao desfile na Intendente Magalhães ouça ao vivo esse sambaço no esquenta.


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17/02/2011 19h58

O delicioso CD da AESCRJ
Ricardo Delezcluze

Comentava com amigos sobre essa espera para o próximo carnaval. Conforme ele vai chegando a espera torna-se mais angustiante. Já que a ansiedade é um fato e o coração começa a bater mais forte nos resta apreciar tudo que pode ter de bom para aplacar nossa tensão. Tenho que concordar com os que alertam que os últimos acontecimentos não são dignos de esfuziante alegria. Aparecem, no entanto, pequenos feitos dignos de jubilo. Um deles foi o recente e inédito lançamento do CD oficial dos Sambas de Enredo dos grupos C,D e E para o carnaval 2011.

A obra é fruto do esforço do velho amigo e produtor Chico Frota que peregrinou quadras das 41 agremiações espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro em busca das gravações independentes dos sambas. A tarefa é árdua já que não há calendário unificado para as escolhas de samba desses grupos, onde estas podem acontecer antes da definição das escolas do Grupo Especial (como foi o caso da Unidos do Cabuçu) até o mês de janeiro. A Unidos da Ponte, por exemplo, chegou a anunciar a reedição do samba e do enredo "Oferendas" depois voltou atrás e com enredo parecido ao de 1984 apresentará "Orixás" na avenida. Fontes ligadas à escola alegam que o samba é inédito, encomendado ao vitorioso compositor Grillo em parceria com Peniche e Fernandão.

Um pesquisador fanático sobre carnaval, no entanto, o Paulo Renato do grupo [email protected], afirmou com convicção na lista de discussões Rio-Carnaval que o samba concorreu em 1984. Ele inclusive tem gravações da época quando o samba era executado no programa do Jorge Perlingeiro na então Rádio Tamoio. Enfim, o que me interessa no momento é chamar atenção para esta obra-prima do carnaval carioca. Um samba construído com a simplicidade e perfeição que pareciam ter ficado nos anos 80, uma dádiva que desfrutaremos com satisfação na Intendente Magalhães. Vou além para afirmar que em minha opinião é o melhor samba do carnaval para 2011. Caso a escola venha admitir que o samba de fato seja um dos derrotados na disputa de 1984, um precedente interessante é aberto. A perspectiva inovadora de ter belos sambas derrotados no lugar das reedições que parecem ter saído de moda é animadora. Seria mais legal ainda para a escola e para os desfiles da Intendente Magalhães que tal pioneirismo tenha sido lançado ali.

O CD com todas as faixas em MP3(até por uma questão técnica que torna possível reunir 41 sambas em disco único) reacenderam aquele sentimento explorador e novidadeiro que comentei logo nas primeiras colunas1. Não conhecia boa parte dos sambas e me senti muito bem os explorando continuamente. Como se tratam de produções independentes existe aquelas gravações que carecem um pouco mais de recursos técnicos e outras bem requintadas. Essa diversidade se reflete no estilo dos sambas,mas no seu conjunto os sambas com uma ou outra exceção são muito bons. Como não pretendo aqui esmiuçar samba por samba lanço meus preferidos que os leitores podem ou não concordar. Os que não cito tampouco carecem de qualidade pois como já afirmei, no conjunto é um CD muito bom. Tem, no entanto, a simplicidade e ousadia que marcam nosso carnaval e que muitas vezes ficam em segundo plano nos sambas das escolas maiores. Aqui é possível ouvir um refrão delicioso como o do Boi da Ilha, melodia marcante e gostosa como a do Acadêmicos do Engenho da Rainha, e sacadas geniais como a do samba da Unidos de Vila Santa Tereza ("Iara em seu cantar me "garantiu"/um futuro "caprichoso"/No paraíso verde do Brasil").

Ver "A perda da inocência" em http://www.sidneyrezende.com/blog/sambaalternativo

No grupo D o valente samba da Leão de Nova Iguaçu me conquistou. Que refrão é aquele? Tem a marca dessa simplicidade que falava anteriormente. Em poucas palavras o sentimento do componente é evocado em sua mais pura essência ("Quem é Leão bate no peito e não bambeia/Vai na fé, pede axé que clareia"). Outros sambas do grupo são legais como o animado samba do Dendê e o divertido samba da Mocidade Unida de Jacarépaguá. Os Canários das Laranjeiras reeditando o samba de 1991 traz o samba mais gostoso do grupo E, simples também e fácil de apaixonar. Ainda que simples o samba dos "Canarinhos" começa majestoso, ("Canários todo coberto de glórias/Vem mostrar no seu enredo/Lugar de mulher é na história") uma delícia! O grupo E apresenta bons sambas como os das tradicionais Unidos de Lucas e União de Vaz Lobo.

Enfim, o CD é um prato cheio para os sambistas. Uma iniciativa louvável da AESCRJ e do produtor Chico Frota que merecem parabéns pela obra. São dignos de aplausos todos os compositores, intérpretes e claro as escolas de samba que nele são apresentadas. Elas que me enchem de orgulho de ser carioca e sambista, neste momento foram além se organizando e trazendo um disco para guardar com muito carinho e ouvir sem parar por muitos carnavais.


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12/02/2011 15h23

Ecos do desastre
Ricardo Delezcluze

Pensei em começar este texto expressando meus sentimentos frente a trágica imagem do fogo consumindo os barracões da Portela, União da Ilha e Grande Rio. Mudei de ideia diante da incapacidade de passar impressões com a propriedade de quem estava lá como o amigo Anderson Baltar. Não teria a capacidade de traduzir em belas e reconfortantes metáforas o esforço dos sambistas salvando o que era possível nos barracões. Tampouco seria eu o veículo que expressaria com exatidão a dor dos artistas envolvidos na produção das alegorias e fantasias da Grande Rio. Mesmo o conhecendo não conseguiria traduzir o investimento e orgulho do Adson Amazonas, artista de Parintins que produziu a belíssima "Aranha" da União da Ilha, o único carro destruído da escola. Quem sou eu diante da dor dos meus amigos do PortelaWeb e da Guerreiros da Águia ao ver sua escola atingida pelas chamas e envolvida em uma complicada troca de dia de desfile.

Tampouco quero entrar aqui no mérito sobre as decisões em relação ao regulamento da LIESA, que outros já o fizeram aqui neste portal com muita competência. Prefiro neste momento ater-me a defesa do bom senso e espírito critico. Precisamos usar este desastre como lição para algumas coisas que temos desprezado no nosso cotidiano. A primeira delas é a importância da prevenção. Hoje podemos agradecer por vidas terem sido poupadas, boa parte pela já excelente estrutura da Cidade do Samba com portas corta-fogo e saídas de emergência sinalizadas. É necessário lembrar que hoje existem 64 escolas de samba no Rio de Janeiro que não dispõem desse aparato. Uma delas inclusive passou por aflição parecida com um incêndio no sábado. É necessário dotar todas as escolas do Acesso A até o E de estrutura segura e confortável de trabalho. Um direito de todos.

Mesmo depois de desfrutar de tal equipamento, cabe a cada um de nós cuidar do mesmo. Seja cobrando dos dirigentes manutenção necessária para um ambiente de trabalho seguro, seja seguindo normas para tal quando estivermos nesses. Lembro que presenciei muitos fumando em diversos barracões da Cidade do Samba, apesar dos avisos orientando o contrário, especialmente no 4º andar. Outro exemplo ilustrativo do que falo foi minha experiência visitando o galpão do Caprichoso em Parintins. Logo na entrada o aviso: "Capriche na sua segurança, Use seus EPIs". Para entrar nos galpões é necessário usar capacetes ainda que você seja apenas visitante. Faz bastante tempo que não vejo ninguém usando capacete na Cidade do Samba.

O momento é de reflexão e por mais que a situação seja desoladora não podemos menosprezar nosso senso crítico. Cobrar uma investigação a fundo das causas do acidente ajudará na próxima tarefa que é a de construir um futuro mais seguro na produção dos desfiles das escolas de samba. Inclusive com condições dignas para os grupos de Acesso.


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05/02/2011 03h53

Eles ajudam a botar "os blocos" na rua
Ricardo Delezcluze

Os olhos de Izaltino Gonçalves, presidente da Federação de Blocos, exalam nostalgia em sua forma mais bela e pura. É a saudade dos tempos dos "banhos de mar a fantasia" quando seu saudoso bloco, o Balanço da Mangueira, era campeão absoluto em todos os redutos carnavalescos da cidade de Sepetiba até o Lido. Era o campeão de blocos inclusive na Passarela do Samba em saudosos tempos que essa forma tão inocente de brincar carnaval tinha seu lugar no palco maior e sagrado do samba. Era nesse tempo que a Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro congregava em torno de 365 blocos de enredo e empolgação (um para cada dia do ano!) distribuídos de Santa Cruz a Paquetá em desfiles oficiais e competitivos de onde emergiam para a cidade do Rio De Janeiro os melhores, selecionados para a folia da Avenida Rio Branco e Marquês de Sapucaí no centro do Rio.

Hoje são 31 agremiações filiadas a instituição e que correspondem a categoria "Blocos de Enredo" uma espécie de estágio liminar, como chamamos na antropologia, entre blocos de embalo ou escolas de samba. Os blocos de enredo apresentam-se de forma organizada e processional com um enredo desenvolvido ao som de um samba-enredo, fantasias e uma alegoria como nas escolas. O encolhimento em um momento que o carnaval de rua é saudado como renascido na cidade explica-se por aspectos conjunturais. Primeiro é necessário voltarmos ao ano de 1988 quando um boicote contra a prefeitura tirou os blocos da Federação do carnaval da cidade. A resposta foi a desfiliação em massa com muitos deles entrando para a AESCRJ e permanecendo até hoje como escolas (casos da Acadêmicos da Rocinha, Boi da Ilha, renascer de Jacarepaguá, Canários das Laranjeiras...). E até hoje ela ainda sente os efeitos da "crise de 88".

E lá se foi o tempo dos banhos de mar a fantasia, proibido no final da década de 80, vejam só, pela FEEMA já que os mesmos poluiriam as praias. Não temos mais blocos na terça-feira gorda da Sapucaí lotando as arquibancadas como outrora. O carnaval de bairro nos subúrbios e regiões periféricas enfrenta crise persistente. Os blocos sofrem com rígido controle que impossibilita o surgimento dos mesmos em sua forma espontânea. A resistência do samba, no entanto, persiste e como um alento a Federação se reorganiza e volta a crescer. Hoje sua sede localizada no "coração do SAARA", no centro do Rio, é bem estruturada e conta com funcionários e diretores atenciosos e cuidadosos. As 31 agremiações filiadas levam o samba onde poucos ousam chegar. Um dos primeiros mergulhos no universo do carnaval que fiz, por exemplo, foi em um destes blocos: o Unidos de Tubiacanga, na Ilha do Governador. Quem conhece, sabe que o bairro de Tubiacanga é quase um recanto paradisíaco na Ilha do Governador onde até mesmo o transporte é escasso. Lá a Unidos de Tubiacanga funciona com organização de fazer inveja a muita escola.

Assim, a Federação prepara-se para um momento histórico: pela primeira vez atuará junto a AESCRJ promovendo a campeã do grupo I a categoria de "escola de samba". Portaria da RioTur e o regulamento da AESCRJ orientam que a mesma receba 4 escolas, tema polêmico (como tornar uma escola de samba, bloco?) que posso discutir em outra oportunidade. Posso adiantar, que em minha opinião é perverso querer varrer 12 escolas de samba do quadro competitivo sem aumentar o número de escolas no topo da hierarquia, ou seja, no Grupo Especial. Pior ainda é criar um funil onde apenas uma tem acesso ao "céu" por ano. Muita coisa o poder público imagina que pode gerir por decretos, mas cultura é a mais sensível de todas. Faltou ouvir os sambistas da base sobre o que eles pensam.

Quero agora, porém, homenagear essas agremiações. Essas são agremiações guerreiras que lutam para botar um carnaval na rua e levar alegria aos 450 componentes que desfilam em cada uma. Para tanto tem que trabalhar com a exígua verba de 15 mil reais por ano. Lutam ainda por sua visibilidade já que poucos veículos comparecem a Rio Branco no sábado de carnaval, que dirá a Intendente Magalhães ou a Cardoso de Morais. Tem ainda que enfrentar o desafio da onipresença, já que os desfiles acontecem os três no mesmo dia e hora. A indiferença do poder público ainda é vilã já que as condições estruturais na Avenida Rio Branco e na Cardoso de Morais deixam a desejar. Enfim, esses sambistas que vindos dos mais diferentes pontos da metrópole sonham em ser vistos pelo mundo.



27/01/2011 05h21

Por que São Clemente?
Ricardo Delezcluze

A vida reserva coisas inimagináveis para todos nós. Por exemplo, nunca imaginei que um dia seria torcedor da São Clemente. Fiquei algumas noites de confissões insones a procurar o porquê. E as voltas que nossa mente dá me levaram a tentar imaginar as motivações dos outros para tal. A pergunta vale para todas as escolas. A escolha pode ser racional, só que contraditoriamente encontra razões que ultrapassam a descrição vernacular. Assim o enunciador se perde nos labirintos obscuros dos sentimentos e não consegue expor com clareza o que quer dizer com isso.

Ser SÉO CLEMENTE é diferente. Não é igual torcer por uma escola de grande torcida, onde as pessoas muitas vezes não se conhecem, onde você entra e sai da quadra sem ser notado. Não é possível "torcer por torcer" para a SÉO CLEMENTE, não é o tipo da escola que se escolhe só pra dizer que tem uma escola de samba do coração. Só é possível ser SÉO CLEMENTE assumindo um compromisso sério que envolve sacrifícios. Torcendo para a SÉO CLEMENTE nunca você contará com a complacência do senso comum nos momentos mais difíceis como acontece com algumas escolas. Por isso, qual uma família a escola funciona.

Acredito que depois de gastar algumas, faltarão palavras para descrever o que senti na primeira vez que torci pela SÉO CLEMENTE. Melhor ouvir alguns que podem expressar melhor esse sentimento. Escolhi clementianos independente da idade de sua ligação com a escola. São pessoas com quem convivo e que se identificam como clementianos em suas redes de relações. Não sei se a edição ficou legal. Não sei se a idéia de dialogar com um vídeo foi bem sucedida nessa coluna. Depois quero a opinião de vocês. É que sempre vi a Thatiana Pagung em seu espaço utilizando o artifício com muita destreza e talento. Claro que não pretendo igualar-me a ela no oficio de cineasta, ela que inclusive foi minha professora sobre o assunto formalmente em uma instituição universitária. Pois bem, com a palavra os clementianos:


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18/01/2011 18h39

O mundo é a nossa passarela
Ricardo Delezcluze

Atualmente é muito mais difícil ser sambista fora do Rio de Janeiro do que parece. Acredito que um pouco mais difícil do que admirar escolas de fora do Rio de Janeiro morando no Rio de Janeiro. Fora a óbvia barreira geográfica o preconceito e a visão ortodoxa são empecilhos bem complicados de superar.

Tenho vivido na pele tal dilema ao planejar minha viagem a São Paulo na sexta e sábado de carnaval. "Mas como você vai para São Paulo no carnaval?! Não gosta mais de samba?" perguntam os amigos. Justamente por ser apaixonado pelas escolas de samba estive aberto a uma das experiências mais legais dentro do universo carnavalesco que é essa de experimentar "escolas de samba" fora da Sapucaí. Foi assim que em 2003 ouvi os sambas de São Paulo pela primeira vez (alias, os sambas de 2003 e 2004 de São Paulo são sensacionais) e passei a assistir aos desfiles do Anhembi pela televisão.

E não parou por ai. Nos anos seguintes conheci as escolas de Cabo Frio e Porto Alegre. Em Cabo Frio uma estrutura muito boa chamada "Morada do Samba" com barracões e pista de desfile bem na entrada da cidade são atrativas para um belo espetáculo apresentado pelas escolas. Já em Porto Alegre as escolas, apesar de desfrutarem de um complexo de barracões exclusivo ainda enfrentam o preconceito de uma parte da sociedade. Independente disso a fibra dos foliões é suficiente para colocar belíssimos "carnavais na rua" e proporcionar um espetáculo que se consolida cada dia mais inclusive revelando talentos e artistas.

Recentemente visitei Manaus e saí deslumbrado com sua monumental Passarela do Samba. Além de uma construção muito bonita é gigantesca digna dos desfiles de escolas de samba considerados pelos manauaras como o 3º melhor do Brasil. Já coloquei na lista e um dia assistirei aos desfiles das arquibancadas circulares de sua dispersão. Ontem assistia a vídeos dos charmosos desfiles de Antonina no Paraná em ruas de paralelepípedo. Impossível não se apaixonar.

E assim a lista cresce com as escolas de samba de Floripa; as de Joaçaba (onde as escolas fazem a curva); de Uruguaiana; de Campos; de São Luís no Maranhão; de Belém e até mesmo em Recife. Aqui a história começa a complicar. Os sambistas de Recife ainda hoje sofrem com a chamada batalha entre "frevo e samba" brilhantemente descrita pelo antropólogo Hugo Menezes Neto (quem quiser ler o artigo dele sobre o assunto é só entrar em www.tecap.uerj.br). As escolas de samba são vistas como uma manifestação "menor", simples cópia do samba carioca. Assim elas perdem espaço inclusive físico e a batalha é árdua a cada
carnaval. Mesmo no interior do Rio de Janeiro as escolas sofrem para mobilizar a atenção das prefeituras em torno do seu desfile. Assim, não bastasse ser esnobada pelo epicentro e muitas vezes modelo de desfile que é o carnaval carioca, as escolas ainda enfrentam o descaso de seus mandatários municipais que não tem a mínima noção do valor cultural que representam as escolas de samba. Nós cariocas, mesmo poderíamos lançar um olhar mais atento sobre esses "outros carnavais" enquanto locais de inventividade e criação interessantes como fonte de inspiração para mudanças.Não apenas como agentes o que os cariocas já fazem em inúmeras cidades pelo país e pelo mundo, mas passivamente, abertos as experiências e aprendendo com os sambistas locais.

Com todo respeito sou do tipo que quer samba a vida inteira. Toda manifestação carnavalesca deve ser estimulada e contam com meu apoio. São as escolas de samba porém o real motivo da minha devoção. Estejam onde estiverem, do Japão à Paso de Los Libres na Argentina.


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28/12/2010 23h48

A perda da inocência
Ricardo Delezcluze

Recentemente recebi meu DVD/CD da Superliga de São Paulo. Com ele pude reviver um gostinho que não sentia desde minha adolescência. Não os belos sambas daqueles tempos, o samba da Vai-Vai é bem gostoso de ouvir e a letra da Mancha bem inteligente, mas me refiro a outra sensação. Lembro do gostinho de pegar um disco de samba enredo sem conhecer nenhum samba.

Ouvir um disco com aquela sensação desbravadora que perdemos nestes tempos de internet. Tempos em que no ato da inscrição somos atualizados em tempo real dos 50 sambas concorrentes em cada escola. Onde muitas vezes temos contato com pessoas influentes que nos repassam o samba vencedor em gravações "demo" antes da final acontecer, mesmo que você more em Roiraima. Então ouvimos os sambas vencedores do Grupo Especial ao Grupo E incluindo os sambas de São Paulo e Porto Alegre até cansar nos celulares, Mp3 players e Ipods. Quando o disco fica pronto e começa a ser vendido já estamos cansados é de ouvir as faixas oficiais que vazam antes do lançamento. E são esses portáteis um dos responsáveis por desgaste tão repentino, afinal podemos passar 24 horas ouvindo samba. Tenho uma lista de mais tocados no MP3 player, outra no notebook, mais uma no PC e o som do carro adora repetir a faixa da União da Vila do IAPI no modo shuffle.

Ao receber uma bolachinha nova, com aquele cheirinho de plástico que a cada passada soava como novidade, fui tomado por nostalgia que remetia à minha infância na Ilha do Governador. Quando ficava ansioso para chegar da escola e ouvir o novo LP das escolas de samba. Lambia aquele objeto por semanas. A maioria dos encartes hoje estão desgastados afinal os levava para todos os lugares lendo e relendo os sambas e as fichas técnicas. O LP de 1991 é maravilhoso, pois além das letras, a sinopse dos enredos acompanhava. Hoje a babação em torno do CD dura pouco afinal só uso o mesmo uma vez para ouvir o resto é para admirar. Fica tudo em MP3 mesmo.

A sensação nos leva a pensar. Muito mais que a tecnologia a culpa é do sistema. Alguém diz: "Você ainda não ouviu o samba do Rancho Não Posso Me Amofiná? É o melhor de Belém!" Pronto é a senha para que você corra feito um desesperado atrás de todos os sambas de todos os grupos de Belém. "O samba da escola X é uma porcaria! Afinal a disputa foi uma pouca vergonha" diz outro. Daí você não consegue mais ouvir aquele samba com o mesmo ouvido inocente de quem não acompanhou a disputa.

Não acho isso ruim. A informação segue a velocidade que as pessoas lhe impõem. Ela se propaga pelos meios que lhe são oferecidos. Quando as faixas oficiais vazam são as escolas que devem procurar meios para evitar o vazamento. Pode ser uma opção essa nova realidade como fizeram vários artistas e parar de produzir e tentar vender CDs como fim em si mesmo. Talvez já estejam fazendo isso e continuem produzindo a matéria para aficcionados como eu. Pessoas que tem relação intima com o objeto. Que criam laços simbólicos de devoção a um ciclo temporal através dos discos. Confesso, entretanto, que achei gostoso relembrar essa sensação. Essa inocência perdida em algum lugar do passado.


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08/12/2010 02h48

Começar do zero?
Ricardo Delezcluze

É com enorme prazer que inauguro este espaço tão nobre e de grande visibilidade falando sobre algo que sou apaixonado: as pequenas escolas de samba do Rio de Janeiro. Comecei a me apaixonar por tal a partir de 2005 no meu primeiro desfile na Intendente Magalhães em Campinho como um dos cantores da extinta Acadêmicos da Barra da Tijuca. De lá para cá foram cinco anos ininterruptos acompanhando entusiasmadamente os desfiles.

Muita coisa mudou nesses anos. A maior parte dos componentes dessas escolas se adaptou ao local de desfiles. O número de componentes vem crescendo significativamente, bem como o público presente. Os moradores da região facilmente adotaram os desfiles como parte importante do circuito do carnaval. Passaram a demonstrar interesse pelas escolas e desfiles, ainda que à margem da grande mídia.

Um dado interessante da tese de Doutoramento de Eugênio Araújo ("Valorizando a Batucada: Um estudo sobres as escolas de samba dos grupos C,D e E do Rio de Janeiro") mostra que 63,5% do público demonstra interesse pela parte visual ou musical dos desfiles contra apenas 36,5% que não se sentem atraídos.

Para a surpresa de todos a AESCRJ e a Prefeitura, anunciam então duas medidas que de uma vez afeta aos interessados nas pequenas escolas: a redução do quadro de
escolas na cidade e sua transferência para o Autódromo de Deodoro. Ao contrário do que muitos imaginam essas escolas integram uma quantidade significativa de pessoas
ao circuito das escolas de samba tornando esse mesmo circuito dinâmico e acessível à metrópole como um todo. São inúmeros os exemplos de sambistas que começaram em
uma pequena escola de samba; são também inúmeros os exemplos de componentes de escolas grandes que em período de rompimento político ou sentimental com grandes
escolas procuram abrigo nas mesmas. O que dizer então da enorme variedade material que escapa do lixo e esquecimento reaproveitada e resignificada nos desfiles dessas
pequenas agremiações? Nada justificaria tal enxugamento. A cidade só ganha com a variedade e presença de dezenas agremiações no Rio de Janeiro.

A novidade anunciada recentemente neste site é a transferência dos desfiles para um complexo a ser construído em Deodoro. Louvável a preocupação em construir espaços dignos de trabalho para a construção dos desfiles dessas pequenas escolas, bem como a resolução de problemas de sonorização e estrutura oferecida ao público ainda
persistentes na Intendente Magalhães. O que se questiona, no entanto é a transferência descabida e pouco proveitosa diante da total adaptabilidade dos desfiles ao local atual. Teria os desfiles no novo local tanta aceitação popular quanto adquiriram em Campinho? A estrutura comportaria todas as escolas que desfilam atualmente? Estaria o poder público disposto a investir em uma estrutura adequada atendendo aos anseios dessas escolas?

Diante de tantas questões a principal se coloca em pauta: por que não adaptar o local atual de desfiles de maneira que atenda aos anseios de todas as escolas? Próximo da Intendente Magalhães o espaço conhecido como Carandiru 2 onde cerca de 20 escolas preparam suas alegorias poderia ser ampliado e sofrer adaptações para
atender as necessidades das mesmas. Com público crescente e interesse das escolas e organizadores a pista de desfiles sofreu significativa e visível melhora estrutural. Não há necessidade, portanto, de começar do zero. Não devemos maltratar escolas que já sofrem tanto com sua própria condição: a de buscar o topo.

* Ricardo Delezcluze é mestre em Antropologia pela UFRJ, onde defendeu a dissertação "O Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador: Conflito e sociabilidade em uma pequena escola de samba" e comentarista do programa Cidade do Samba da Rádio Manchete. Já foi compositor da Vizinha Faladeira e desfilou no carro de som da União da Ilha, Boi da Ilha e Acadêmicos do Dendê. Foi um dos fundadores da Virtuafolia, dos desfiles de escolas de samba virtuais e o narrador dos desfiles. Foi do site Obatuque.com, onde filmou os últimos 4 carnavais da Intendente Magalhães e produziu compactos dos grupos C,D e E que estão no ar ainda em seu canal do YouTube (www.youtube.com/delezcluze). Foi do Departamento cultural da União da Ilha e colaborador do Sambanet em 2008.


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