SRZD


13/09/2010 19h26

As finais de samba-enredo
Eugênio Leal

Este ano não será igual aquele que passou

As quadras já estão no ritmo frenético dos cortes, o burburinho aponta os favoritos aqui e ali, os boatos são "intensos", ou seja: a época das escolhas de samba-enredo está no seu auge. Este tem sido um dos assuntos mais comentados aqui neste espaço nos últimos carnavais, mas este ano não será igual àquele que passou. Decidi que não vou mais escrever críticas aos sambas concorrentes.

Foram oito temporadas acreditando que poderia ajudar de alguma forma a mudar o pensamento dos compositores e das diretorias, achando que as pessoas, com o tempo, entenderiam qual era o verdadeiro propósito das críticas. Um dia talvez isso possa acontecer, mas será através de outros aventureiros que assumam esta árdua tarefa.

O meio carnavalesco ainda não tem amadurecimento suficiente para lidar com opiniões. Para a maioria, qualquer elogio ou crítica tem por trás algum interesse. Não posso exigir que todos acreditem nos meus ideais. Também sou compositor e sei o quanto dói ler algo negativo sobre nossas obras e que tipo de raciocínio vem à mente, mas já passou da hora de aceitar que as coisas mudaram.

A chegada dos sambas concorrentes à Internet, em 2002, foi um salto inimaginável na história das disputas de samba. Este fato aumentou sensivelmente a divulgação dos candidatos e aproximou das escolas um público que não tinha acesso a este processo.

Internautas de todo o mundo passaram a opinar sobre as disputas sem estarem nas quadras. Isso gerou um certo ciúme das pessoas que até então eram as únicas que atuavam neste jogo e que muitas vezes não tinham como dialogar na grande rede.

A Internet passou a ser vista na maioria das escolas como uma "inimiga" pois aqui não há hierarquia nem o "politicamente correto". Qualquer um dá sua opinião nos fóruns e nos "comentários". E tais opiniões muitas vezes criam embaraços para compositores e dirigentes. Gostem os sambistas ou não, a rede passou a ser mais um agente no mundo do carnaval. Pode não ter um papel decisivo, mas já faz parte do nosso "mundo".

É hora de aprender a lidar com esta ferramenta, seus benefícios e os problemas que ela pode causar. Na questão dos sambas-enredo temos um longo caminho a percorrer. O primeiro passo é entender o "quem é quem", separar o "joio do trigo". Há os colunistas (cada um com uma bagagem e um ponto de vista), os torcedores (que dão opiniões sinceras, mas fundamentadas na emoção) e os personagens criados com o interesse de tumultuar as disputas.

Os colunistas foram escolhidos pelos editores dos sites por algum motivo. É uma função nova e todos estão aprendendo. Tanto quem escreve como quem lê. A credibilidade e influência de cada colunista dependem da maneira como ele conduz seu ofício. Acredita e confia quem sente ali sinceridade, embasamento e conhecimento do assunto. A exposição é muito grande e a contestação constante é óbvia, dado que o tema é cercado por interesses e emoção.

Os torcedores têm opinião intuitiva e se manifestam nos fóruns ou nos "comentários". Elegem seus favoritos e manifestam suas opiniões do fundo do coração, sem interesses ou partidarismo. A dificuldade é separá-los dos que se expressam porque têm algum interesse como amizade com os compositores.

O problema maior é a possibilidade de criação de "fakes", perfis falsos criados com a (má) intenção de interferir nas escolhas. São pessoas que não querem assumir seus interesses e se escondem atrás de nomes e imagens falsas para fazer fofoca, agredir e criticar seus adversários. Essa praga irresponsável se alastrou por todas as agremiações e os maus compositores criaram exércitos de "fakes" para fazer campanha na grande rede. Alguns deles hão de comemorar minha decisão nos comentários deste artigo. Esse mal deve ser identificado e descartado no universo das opiniões da Internet.

Por outro lado, há coisas que os internautas precisam entender também: ouvir um samba-enredo sentado diante de um computador, com uma gravação de estúdio, lendo a letra, é muito diferente de ouvi-lo ao som da bateria, com a acústica sempre precária das quadras e cercado de passistas, baianas, torcedores. É ali que as coisas se decidem, afinal. E isso precisa ser respeitado, embora não invalide a opinião de quem leu a letra e ouviu a melodia através de uma gravação. Há muitos lados de uma mesma questão.

Espero ter lançado algumas sementes nestes oito anos. A Mangueira adotou um caminho novo para as disputas (que pode não ser perfeito, mas é um início) e isso já me enche de esperança. Há novos compositores buscando soluções diferentes na construção dos sambas, o que é muito bom. Mas por outro lado ainda resiste a industrialização das disputas com fortes "esquemas" e escritórios espalhados por quase todas as escolas. Isso tem que acabar.

O carnaval precisa de músicas diferentes, inovadoras, populares no melhor sentido. E não é com os mesmos autores ganhando em várias escolas que estes sambas irão aparecer. É hora de democratizar as disputas, de abrir os olhos, os ouvidos e os corações para coisas diferentes... de acabar com a ditadura das fórmulas. Será muito bom para a festa como um todo.


Comentários
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    09/10/2010 23:42:24Leandro RochaMembro SRZD desde 20/09/2010

    A verdade é uma só, a escolha democrática dos sambas só acontecerá no dia em que os jurados de samba-enredo forem tão criteriosos como são os de alegorias, fantasias, entre outros quesitos. Hoje o que acontece, alegorias mal acabadas chegam a perder quase um ponto, mas sambas ruins no máximo perdem aí uns quatro décimos. Se o samba for razoável, ele já tira 9,9, 10, não tem um critério que realmente valorize o mérito. Isso leva então a que as escolas não se preocupem em escolher boas obras. Nenhuma escola, podendo, vai deixar de levar pra compor suas alegorias um excelente carnavalesco, mas muitas abrem mão de um excelente compositor, pq sabe que entre seus sambas concorrentes, tanto faz levar qualquer um, que a nota será a mesma, mesmo existindo uma diferença absurda de qualidade entre eles. Aí ganha quem tem mais nome, mais torcida, mais apelo junto a comunidade... E não o melhor, como deveria ser.

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    01/10/2010 09:20:38PencharmMembro SRZD desde 01/10/2010

    A realidade é pura e simples , está insuportável acompanhar tanto samba ruim nestas disputas, prefiro simplesmente acompanhar o carnaval, NO CARNAVAL, e tem compositor que perde mais tempo na internet do que fazendo samba de fato, o verdadeiro sambista compõe samba o ano inteiro como faziam Jurandir da Mangueira, Dominguinhos e outros da mesma estirpe. Os caras pegam uma sinopse no meio do ano, alguns se dão o trabalho de pesquisar o tema no Google, pois biblioteca nunca entraram, outros nem isso, preparam bolinha e muito dinheiro pra gastar com torcida, quando são cortados enfiam as bandeirinhas na sacola e só se ouve falar do sujeito no outro ano. E ainda se arvoram do título de COMPOSITOR ! Fala sério !!!! Fazem o que pela música ??? Sentar o bumbumpaticumbum prugurundum na cadeira dando opinião idiota na internet é mole, quero ver lançar obra de fato !

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    28/09/2010 21:18:08flavioMembro SRZD desde 22/09/2010

    Caro eugênio concordo com o seu comentário acho que os dirigentes tem que deixar esse conceito de que o poder econômico pesa na escolha e que os compositores usem mas a versatilidade melodica para que os sambas naõ fiquem parecendo a mesma coisa todo ano. mas acho que se essas pressões diminuirem os verdadeiros compositores que estão afastados voltarão a fazer samba para suas agremiações de origem.

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    26/09/2010 23:48:18Maurício MelloMembro SRZD desde 14/09/2010

    Eugênio, você poderia dizer ao menos quais os samba que lhe agrada na Mangueira, Salgueiro e Vila Isabel? Gostaria muito de ouvir seu parecer. Um abração.

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    20/09/2010 08:12:57Ricardo OliveiraMembro SRZD desde 18/01/2010

    Prezado Eugênio...realmente seu texto retratou a mais pura realidade...as pessoas que possuem "leituras" mais inovadoras, em um primeiro momento, são pouco compreendidas...só o tempo para fazer a justiça...PARABÃ?NS.

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    17/09/2010 15:01:39FelicioMembro SRZD desde 05/09/2010

    hoje é tudo MAQUINA, um samba sem fogos e torcida é um samba ruim, mas o mesmo samba com fogos e torcida, é forte candidato Os ESCRITORIOS tomaram conta das disputas, o que é uma pena, nao temos mais os compositores raizes, hj pegam qq um que tenha o codinome da escola e colocam na parceria fulano de tal do salgueiro, fulano de tal do arranco, fulano de tal da mocidade, fulano de tal da vila, filano de tal da imperatriz, etc...e assim vai, mas na realidade, sao sempre os mesmo por traz disso samba hj se ganha pelo nome que tem por traz, nao pela qualidade

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    17/09/2010 11:15:45rita de cassiaMembro SRZD desde 26/08/2009

    As vezes fica até ridiculo certas postagens e certos lobys que fazem por um samba hoje não existem tantos bobos e nos que estamos de fora fica até feio para ´´certos compositores´´ mas isso ai é o samba e seu mundo.

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    17/09/2010 10:37:18Julinho di OjuaraMembro SRZD desde 13/04/2009

    A diferença tá na escrita...inconsciente coletivo...versatilidade musical...seu diretor de harmonia me conserte a letra....que o de bateria tá ajeitando melodia...tem laiá, laíá...samba enredo é tudo é igual....singramos pelo boa da maré....concomitantemente...desfile pra agradar voc|ê e eu....mais um caranaval aconteceu...e os sambas você se esqueceu...entendeu o blá, blá do Charisteu ?, nem Eu !.

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    16/09/2010 23:01:47GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Exemplo: pegue o primeiro samba eliminado de sua escola,ponha neste,o nome dos autores "considerados" os bambambans da escola,com vários intérpretes do especial,fogos,efeitos,toda aquela torcida organizada cantando......pronto,já virou o melhor samba da disputa....

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    16/09/2010 22:52:47GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    A grande culpada disso tudo,são as ESCOLAS que se deixam contaminar pelos sambas de escritórios,que se apresentam sempre com dois,três,quatro ou mais intérpretes do especial,muitos fogos,efeitos visuais e suas grandes torcidas pagas-organizadas,que com isso,"fazem" o samba ficar bonito......

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    16/09/2010 20:29:56Walter NicolauMembro SRZD desde 08/04/2009

    Primeiramente peço licença ao amigo Eugenio, para responder ao leitor LUIZ CARLOS. Queria agradecer a sua demonstração de acompanhar o trabalho que fazemos nesse espaço, sempre no intúito de participar e ajudar a cultura maior desse pais. Gostaria que voce compreenda que existe uma distância muito grande entre um colunista e um jornalista e o que voce "cobra", não está ligada minha participação nesse veículo que também em nenhum momento mostrou interesse por uma linha jornalistica de denúncias ou investigações. Acredite, vivênciar essa festa e tudo de positivo que ela nos proporciona traz sempre mais felicidade.

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    16/09/2010 20:13:56Charisteu NevesMembro SRZD desde 11/04/2009

    Falou-se em "músicas diferentes", diga "samba", Eugênio. Concordo com a questão da "ditadura das fórmulas", a passo que a pluralidade poética e musical dos desfiles das escolas de samba tenha que ser respeitada na qualidade de "festa popular" (e democrática, creio). Quanto a versatilidade musical e inovadora, peço a Eugênio Leal, e amigos que façam um exercício: vocês acreditam em inconsciente coletivo? Pois bem, essa questão me parece muito tranquila. Geralmente os sambas são parecidos, concomitantes, pois há toda uma atmosfera imaginária na mente de todos nós do carnaval, que pretendemos ir além de um carnaval passado. Todos singramos pro mesmo lado. Dito isso, creio que todos os sambas que estão disputando hoje fazem parte de uma mesma atmosfera, de um mesmo perfil de safra de sambas-de-enredo, o que acontece é que cada escola só tem um (1) representante, logicamente. Assim são as coisas. Ou querem dizer que os sambas escolhidos são ruins, ou não merecem chance? Acredito que não. A verdade é que devemos constatar justamente que todos os sambas concorrentes são concomitantes e pretendem o melhor para cada escola. Na hora que aparece um samba ruim ele se destaca negativamente, não tem jeito. Da mesma forma, quando aparece um samba bom, ele se destaca, mesmo tendo algumas dificuldades que, por exemplo, os diretores de harmonia das escolas tendem a consertar (vide os sambas em que se alteram as letras). Já pensaram os sambas-de-enredo sobre esse prisma? Porque pode parecer que as escolas escolhem os "sambas que não merecem" só de birra, ou porque os medalhões se impõem - e não acredito que isso seja verdade. Salve, salve!!

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    16/09/2010 20:12:05Eduardo HenriqueMembro SRZD desde 16/09/2010

    olá, falo pra vocês como compositor, que, quem tem que ganhar e o samba nao as pessoas que a compõem, a obra que tem que valer maisdo que outra coisa. Se torcida tivesse que ganhar samba o flamengo era campeao de todos os campeonatos em todo o mundo, entao digo a vcs por esperiencia, tem que mudar sim algumas coisas, mais entendo que compositor deve escrever em outras escolas, pq e uma honra pra escola ter compositores de outras agremiações escrevendo ali, mais e claro que se a escola tem uma linha ja definida, sera difici de ele ganhar, mais vai engrandecer muito a disputa. Damos o exemplo de Erasmo Carlos e cia, na beija flor, nao e o nome e sim a obra feita. Eugenio, um abração e sou seu fã numero zero pelo seu trabalho e seus pontos de vista e temos que respeitar isso, somo um pais democratico, nao acha?

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    16/09/2010 17:33:36JORGE FREITASMembro SRZD desde 10/08/2010

    Sambas de enredo já acabou a muito tempo.Isso que se escuta hoje é tudo marcha,são sambas descataveis que apos o carnaval ninguem lembra mais.Os verdadeiros compositores já se foram ou não fazem mais sambas.Pobre carnaval.Velhos tempos que não voltam mais.

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    16/09/2010 17:08:55decio_mocidadeMembro SRZD desde 03/07/2009

    Confesso que nunca foi de minha preferência acompanhar as disputas dos sambas-enredos, assim como não gosto de ver as fantasias e fotos de barracão. Acho que muita coisa em relação ao encanto do carnaval se perdeu justamente por "anteciparmos" e vermos alguns elementos que foram o desfile, pricipalmente os elementos visuais. A bateria é um caso à parte, quando posso vou à quadra da Mocidade ouvir o que os mestres estão preparando, até porque já fui ritimista de Padre Miguel. Com relação aos sambas "encomendados",trato simplesmente como um mal necessário: viva a modernidade do carnaval!!!!

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