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O vôlei carioca: passado, presente e futuro

Leonardo Guedes | Vôlei | 19/10/2010 21h30

Já não é mais possível dizer que a Seleção Brasileira de vôlei masculino é uma potência mundial, pode ser mais que isso. A conquista do tricampeonato do Campeonato Mundial de Vôlei, no último dia 10 (apesar da polêmica derrota contra a Bulgária) pela equipe treinada por Bernardinho confirma a frase anterior. Os jogadores como Giba, Rodrigão e Leandro Vissoto estão supervalorizados. O vôlei é apontado como o segundo esporte coletivo mais popular do Brasil, graças as gerações vitoriosas que incluem nomes como Bernard, Renan, Marcelo Negrão, Ana Moser e Fernanda Venturini. Mas os campeonatos de clubes ainda não têm a mesma amplitude de popularidade em relação ao futebol. As diferenças se agravam quando a comparação é feita entre os estados.

Dos "quatro grandes", apenas Botafogo disputa Campeonato Carioca

Nas Superligas de Vôlei, masculina e feminina, a maioria das equipes vêm de São Paulo. No total, são 12 times (seis no masculino e cinco no feminino). Outros centros importantes são Minas Gerais e os estados da Região Sul. A situação do Rio de Janeiro é mais complicada. O estado foi uma referência nacional para o esporte, e já teve times de ponta no cenário brasileiro, como Atlântica-Boavista, Supergasbrás e Lufkin. Os próprios clubes de futebol mantinham suas equipes de ponta, permitindo que clássicos como Flamengo X Fluminense também lotassem o Maracanãzinho.

No campeonato deste ano, cinco clubes disputam a competição: Botafogo (o único dos chamados "quatro grandes" do futebol), Unipli, Universo, Funcab e Volta Redonda.

O SRZD acompanhou na noite do dia 14 uma partida válida pelo Campeonato Carioca de Vôlei Masculino: Botafogo X Universo, válido pela terceira rodada. O jogo foi realizado no ginásio de General Severiano, na Zona Sul do Rio. Nada de filas, nem tumultos, costumeiros quando há venda de ingressos para os jogos de futebol no local. A entrada é de graça.

Jogadores e parentes-torcedores lamentam pouca divulgação

Uma situação curiosa é percebida logo ao entrar no ginásio: os jogadores do Universo aguardam nas arquibancadas o término de um treino do infanto-juvenil do basquete botafoguense. Dois deles conversam com a reportagem.

"O Rio é um péssimo exemplo de vôlei. Alguns atletas, quando estão no infanto-juvenil, deixam o estado por causa de estrutura, salário", afirma o levantador Bruno Branco, de 21 anos. Ele nasceu em Campos (Norte Fluminense), começou a jogar lá mesmo e já teve passagens por clubes de São Paulo e Maranhão. Demonstra uma certa chateação com a pouca divulgação do torneio que disputa, mas deixa de manter vivo o desejo de chegar à Seleção Brasileira. "É um sonho de qualquer um, mas temos que ter os pés no chão", emenda, lembrando que o Universo tem pretensão de disputar a Liga Nacional, a "Série B" da Superliga de Vôlei.

Douglas Yuri, de 18 anos, está na equipe há cerca de um ano. É o líbero do time e dentro de quadra, durante o jogo, é um dos mais falantes. "A gente acaba acostumando", declara, quando perguntado se um ginásio quase vazio para uma partida de Campeonato Carioca adulto não incomoda. "Desde pequeno eu acompanhava, mas nem sei se é pouco".

O treino de basquete termina, os jogadores do Universo saem da arquibancada para ir à quadra e chegam as traves e a rede para serem instaladas: o jogo vai começar. Não há apresentação dos nomes dos atletas pelo auto-falante. O público é composto de cerca de quarenta pessoas, praticamente toda formada de parentes dos atletas. Um deles é o advogado Arnaldo Vasques, pai do  ponteiro do Botafogo, Paulo Victor, de 21 anos. Vasques faz questão de acompanhar o filho, principalmente naquela noite: o jogador voltava às quadras após dez meses parado devido a uma perna quebrada que lhe custou duas cirurgias.

"Com certeza que deveria haver maior divulgação para o Campeonato do Rio, buscar um maior público, buscar pessoas que não sejam apenas pai e mãe", diz Arnaldo sobre a situação do vôlei carioca. Com a partida já iniciada, o pai coruja muda de lugar na arquibancada cada vez que os times fazem a inversão de quadra. Quando é necessário secar o suor que se espalha pelo piso, não há o famoso trio de secadores com seus rodinhos: são os próprios atletas que secam o chão com um pequeno pano e também "sapateando" com as solas dos calçados.

Após a vitória do Universo no primeiro set (25/19) e vantagem do Botafogo nos dois seguintes (25/17 e 25/19), o quarto set acaba sendo o mais emocionante, quando os visitantes tentavam encostar no placar e não permitiam uma vantagem alvinegra maior que três pontos. Mas no final, a comemoração foi da equipe General Severiano: 25/23, Botafogo 3 sets a 1.

Disposição e garra

A média de idade do time botafoguense é bastante jovem (entre 17 e 23 anos) pois há jogadores do infanto e juvenil inserido entre os profissionais. Apesar da estrutura reduzida em comparação a outros grandes centros do país, como explicar a disposição?

"A ideia sempre  foi transformar o Botafogo na melhor base do Rio. Esses garotos que estão aqui e alguns que jogam no Universo já treinaram comigo desde as categorias de base. A gente não tem aquela estrutura que tem em São Paulo e Minas, mas a gente tem garra muita força, luta e daqui tem saído vários para a Seleção Brasileira e graças ao apoio que a gente recebe do Botafogo, a gente tem esperança que até o ano que vem a gente tenha um time profissional", explica o técnico Carlos Silva, que em alguns momentos da partida precisou adotar um estilo Bernardinho para alertar seus comandados, quando pareciam esmorecer no rendimento.

Ele diz que o mundo do vôlei e a torcida vinculada ao futebol não deixa de oferecer apoio ao time quando precisa, lotando os ginásios na época das finais de campeonato. Silva lembra como exemplo o campeonato de 2007, quando o Botafogo conquistou o título vencendo a Unipli, em Niterói, mas reconhece que existe a necessidade de uma revitalização do esporte no Rio de Janeiro.

"Na verdade precisa, a gente acredita que a Federação vai fazer algum trabalho que possa trazer empresas para patrocinar os clubes, inclusive o nosso", completa.