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André Bernardo

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30/10/2010 21h04

Benedito Ruy Barbosa relembra o senador Caxias, de 'O Rei do Gado'
André Bernardo

A eleição é para presidente, eu sei, mas vale o registro. Afinal, nem todo político de novela é corrupto, desonesto ou antiético. O senador Roberto Caxias, de "O Rei do Gado", é uma dessas honrosas exceções. Em uma de suas cenas mais memoráveis, o personagem de Carlos Vereza aparece discursando a favor do MST para um plenário quase vazio. A cena arrancou protestos de alguns parlamentares, como o senador Ney Suassuna, que a classificou como "distorção da realidade". Já outros, como Darcy Ribeiro, teceram elogios ao personagem. Defensor da Reforma Agrária, Caxias foi morto numa emboscada. A gravação do velório causou controvérsia porque contou com a participação dos então senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva. Em entrevista concedida ao livro "A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo", escrito por mim em parceria com Cintia Lopes, Benedito Ruy Barbosa relembra o célebre senador Caxias, garante que o personagem não foi inspirado em ninguém e afirma que, "de forma geral, tanto o Congresso Nacional quanto a Câmara dos Deputados têm poucos Caxias". "Quase nenhum", acredita.

André Bernardo - O que encorajou o senhor a criar o senador Roberto Caxias? É verdade que ele foi inspirado no Eduardo Suplicy?
Benedito Ruy Barbosa - Não, não é verdade não. Não me inspirei em ninguém. Muita gente achou que eu tivesse me inspirado em fulano ou beltrano. Mas, não. O Caxias foi um personagem que criei a partir do que eu imaginava ser um bom senador. Se todos os senadores tivessem as qualidades do Caxias, o Senado não seria o que é. De forma geral, tanto o Congresso Nacional quanto a Câmara dos Deputados têm poucos Caxias. Quase nenhum. Mas o Caxias era um personagem fantástico. Volta e meia, um amigo meu telefonava, dizendo: "Benedito, liga aí a Hora do Brasil porque você vai aparecer no noticiário!". Eu pensava: "Ai, meu Deus, o que foi que eu arranjei?" (risos). Uns desciam o pau em mim, mas outros me defendiam. A maioria achava que eu estava querendo colocar fogo no Brasil, quando, na verdade, eu queria era fazer exatamente o contrário.

AB - Mas, na época, os senadores reclamaram de como você matava um senador na novela e ninguém descobria quem matou...
BRB - Exatamente. Vieram me perguntar: "Como você mata um senador da República e ninguém fica sabendo quem matou? Os assassinos não serão punidos?" Aí, eu perguntava: "Mas, onde estão os assassinos dos Carajás? Vocês já sabem onde estão? Eles já foram punidos?". Quando vocês me disserem se foram punidos, eu também digo quem matou o senador Caxias...

AB - Na ocasião, o senador Ney Suassuna declarou que a cena em que o senador Caxias discursava a favor do Movimento dos Sem-Terra (MST) para um plenário quase vazio era uma "distorção da realidade". Como você reagiu ao protesto dele?
BRB - Distorção da realidade? Essa cena eu vi em Brasília, ninguém me contou não. Na ocasião, eu trabalhava como repórter do "A Éltima Hora" e passei uns 20 dias lá. Só vendo e anotando, vendo e anotando. Quando voltei para a redação, bati a primeira das dez matérias. O diretor do jornal me chamou e perguntou: "Benedito, senta aí e lê isso direito. Você acha mesmo que vamos publicar isso?". "Mas, essa é a mais pura verdade!", argumentei. O pessoal ficava lá fazendo discurso no plenário e não tinha um só vagabundo para ouvir. A turma chegava na terça em Brasília e, já na quinta-feira, não tinha mais ninguém. É terça, quarta e quinta e olhe lá! E o pior é que eles aparecem no aeroporto e ainda querem tomar o seu lugar no voo. Certa vez, um sujeito desses quis tomar o meu lugar e armei um escândalo desgraçado: "Estou pagando a sua passagem para você não trabalhar, vagabundo!".

AB - E o que a "TV Globo" dizia? Eles nunca fizeram nenhum tipo de recomendação? 
BRB - De jeito nenhum. Nunca. Eles sempre me deixaram muito à vontade para escrever sobre o que bem quisesse. É claro que eles ficaram preocupados quando eu disse que colocaria os sem-terra numa novela. Mas, depois que viram o que eu estava fazendo, ficaram tranquilos. Aliás, até me defenderam... Os meus sem-terra diziam que só merecia a terra quem a cultivasse para si e para os seus semelhantes. E essa é a mais pura verdade. O cara que tem terra só para ganhar dinheiro e não produz tem que entregá-la para a reforma agrária. Quando fez o mundo, Deus não deu terra para ninguém. Só merece a terra aquele que a faz produzir para si e para os seus semelhantes.


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