SRZD


21/12/2010 15h12

QUAL É O FUTURO? Descaracterizado ao longo do tempo, samba-enredo vive uma fase 'acelerada'
Guilherme Marques

Foto: LiesaQuando Império Serrano, Viradouro, Tradição e Portela entraram na Avenida em 2004, reeditando sambas-enredo antigos, uma percepção foi clara: a diferença de ritmo para os outros 10 sambas das escolas que desfilaram naquele carnaval no Grupo Especial. As melodias, bem mais lentas e cadenciadas, evidenciaram a mudança que o samba-enredo sofreu ao longo do tempo. E não é de hoje que se percebe o andamento mais acelerado das obras cantadas na Avenida. Isso foi bom ou ruim? Faz parte da evolução natural da festa?

Para debater o futuro desse "ex-protagonista" do carnaval, ouvimos personagens do mundo do samba: o colunista do SRZD-Carnavalesco Luiz Carlos Magalhães e os compositores André Diniz - multicampeão na Vila Isabel - e Beto Mussa - autor e parceiro de Edgar Filho em um samba que perdeu a final do Salgueiro em 2009 (no enredo Tambor), mas que deu o que falar durante a disputa.

Foto: Ricardo AlmeidaDe acordo com o comentarista, todas as mudanças que acompanhamos em setores estratégicos das escolas, como o samba, as baterias, as alas de passistas, baianas e etc., fazem parte de uma questão "estrutural". Para Luiz Carlos, o samba se tornou algo "burocrático".

- Tenho medo que a bateria se transforme numa massa sonora, e o samba acompanhe isso. Esses dois elementos têm uma função secundária hoje, são acessórios. O carnaval mudou de dono. Antes, era o sambista. Hoje ele é apenas um personagem do carnaval. Em ala dos compositores tem muita gente da classe média. Não é errado, mas perde a identidade. Os compositores de morro não podem entrar na briga porque não tem "bala" pra isso. É uma democracia excludente em função da disputa. O samba ficou descaracterizado, burocrático. Lá nos primórdios, o carnaval não tinha nada a ver com samba, mas eles se juntaram e se tornaram filhos sem pai - argumenta o colunista.

Uma aposta diferente no Salgueiro

O segundo semestre de 2008 foi tenso para a parceria do escritor Beto Mussa, um dos autores de um samba polêmico no Salgueiro. Chamado de "samba do Edgar (Filho)", a obra disputava a preferência da comunidade salgueirense para o carnaval de 2009. Com uma cadência mais melódica e uma pegada leve, o samba era como um estranho no ninho, já que se assemelhava mais aos sambas antigos do que aos que nos acostumamos a ouvir nos últimos carnavais. Para Beto Mussa, os sambas atualmente estão muito parecidos.

- As coisas evoluem. Não existe nenhuma forma de arte que permaneça idêntica historicamente. E foi isso que aconteceu com o samba-enredo. Não podemos a princípio nos posicionar contra e querer manter a tradição engessada. O que está acontecendo hoje no samba-enredo não é só uma mudança de estilos. Pode até estar relacionado ao andamento dos sambas, que está mais acelerado, mas o que acontece é que não tem mais diversificação dos sambas. Se olharmos para um período anterior, tínhamos diferenças, a gente conseguia identificar os estilos do compositor, da escola. As baterias tinham suas batidas características também. O Salgueiro com enredos afro, a Mangueira com enredos populares e de homenageados, o Império com enredos históricos. Hoje está padronizado, tudo tem o refrão igual, o mesmo tamanho. Não se tem mais criatividade melódica, é tudo muito chapado, muito parecido. E com uma batida muito acelerada, você não consegue florear a melodia - defende.

Segundo o compositor, escolas que cresceram por causa de seus sambas nas décadas de 70 e 80 são exemplos que dificilmente veremos novamente. "O samba-enredo perdeu importância e qualidade", lembra. Para Beto, a falta de memória das pessoas com relação aos sambas recentes é uma prova disso. "Todo mundo só canta sambas antigos, justamente porque os de hoje não têm qualidade, não ficam gravados na cabeça das pessoas", opina, lembrando que seu samba foi gravado após o carnaval com o áudio da Sapucaí, como prova de que a cadência mais lenta não atrapalharia o andamento da escola.

Ritmo acelerado é só 'moda'

Consagrado na Vila Isabel, o compositor André Diniz tem outra opinião com relação às mudanças ocorridas nos sambas-enredo nos últimos anos. Apesar de concordar que o ritmo acelerado atrapalha o bom desenvolvimento do samba, ele acredita que isso é apenas "moda".

- Existem coisas que são moda, e moda passa. Há cinco anos, as alas vinham todas enfileiradas, hoje isso passou. Hoje estamos com comissões de frente com tripés, e daqui a pouco passa também. Para mim, a tendência é o samba desacelerar. O que a gente tem que ver é o que o samba sugere. És vezes tem que ser mais acelerado mesmo. Em 2005, por exemplo, fechávamos o desfile, então escolheram nosso samba porque era mais acelerado. Hoje a gente já percebe alguns diretores trabalhando para reduzir esse ritmo. Para a gente facilitaria muito - defende.

Segundo André Diniz, um dos maiores desafios que se enfrenta hoje com essa fórmula de samba é a capacidade de ser explicativo e didático na letra. No entanto, para ele, quem tem que trabalhar para diminuir esse ritmo são os próprios compositores.

- O compositor hoje tem um grande problema que é ter que tirar cada vez mais letra do samba, tem que se contar dez histórias ao invés de uma. Antigamente, você ouvia o samba para entender o enredo. Hoje, você tem que ler o enredo para entender o samba. Tem enredos que passam por sete, oito setores. Explicar isso em 32 versos é muito complicado, deixa de ser explicativo. As "madeixas de Shiva", por exemplo, não fica perceptível para quem não conhece a história - diz, referindo-se ao trecho do samba da Vila para 2011, de sua autoria.


Comentários
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    04/01/2011 14:12:49IgorMembro SRZD desde 14/12/2010

    O que eu não consigo entender é o pq do ritmo ficar tão acelerado nos ultimos anos...está uma coisa de louco...

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    03/01/2011 20:47:12everaldo guilhermeMembro SRZD desde 07/04/2009

    primeiramente querto dizer que existe muito sambas antigo ruim, com letra bizonha, mais concordo que deveria desacelerar o ritimo do samba de hoje em dia tirando a beija flor, que tem um ritimo mais lento, o resto e uma artilharia, e a beija esta sempre na ponto então por favor seu laila não é a sua escola que tem que acelerar o ritimo as outras e que deve cadenciar.

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    01/01/2011 23:57:32marcoMembro SRZD desde 03/08/2010

    a preocupação em colocar bons sambas na avenida terminou quando começaram os "acertos nos bastidores"o resto é o resto...carnaval tá virando jogo de interesses...

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    29/12/2010 14:31:02PAULINHO CORCOVADO SÃ?O GONÃ?ALOMembro SRZD desde 29/12/2010

    Atenção! Versão original da porto da pedra! Lá vou eu no meu papel Desfrutando a ilusão De um compositor fiel Nas asas da imaginação // Claro que eu não sei fazer um samba Fui buscar em outras bandas, quem fizesse para mim // Foi Claudio que eu escolhi Sou aprendiz do sindicato a formular o valor E o presidente recebeu gastou Se - demitiu pra outra dimensão São Jorge guerreiro, santo justiceiro E Deus nos enviou a salvação //////refão!!!!!! Olha que eles vêm, ai eu quero ver! E a minha escola vai mudar, eu vou provar // O vento ventou só do lado deles Os humilhados vão se levantar // Geral sonhou, rezou e orou Pediu para se libertar // Vimos o trem, e o colar O Sonho é real podem cantar // Vai, vai, vai, vai sai daqui mercenário Pega todos seus panos e suma // Vai num galope ou a pé mais saia de ré E deixe a nossa esperança // Em busca de mudanças, sei que vou reencontrar Criando sonhos recriando a fantasia, a brincar ///// refrão!!!! A família consagrando a criação A herança está de volta em boas mãos // Meu tigre chegou aplausos no ar Ã? clara que me faz sonhar.//

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    28/12/2010 22:19:31DusambaMembro SRZD desde 15/11/2010

    Compositores de talento as escolas tem pois nessas disputas de samba sempre caem sambas de excelente qualidade em que o compositor não tem grana e coloca pra cantar um cantor desconhecido e geralmente quem julga os sambas não tem capacidade para detectar que ali tem um belissimo samba. Isso é comum a todas as escolas e quem roda samba sabe que é verdade o que eu estou falando.

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    28/12/2010 10:57:51SILVERIOMembro SRZD desde 29/10/2010

    Não tem comparação.Desfilei pela bateria da Imperatriz durante 22 anos,parei porque não aguento tanta correria.Chegava na apoteose morto.Acordava no dia seguinte parecia que tinha tomado uma surra,uma correria terrível.Os verdadeiros compositores já morreram ou estão velho.Isso de hoje não é sambas de enredo.Ninguem lembra um dos 3 sambas do tri campeonato da Imperatriz,mas todos lembram o de 82, a diferênça está ai,escuto samba por escutar pois isso pra mim não é samba enredo,sem contar que hoje até as gravações mudaram para pior,é muita gritaria e não se entende nada,sem contar esse monte de paradinhas fora do refrão que fica horrível.Isso é evolução? Ã? o unico ritmo musical que foi modificado e ninguem fala nada.Sambas de enredo está caminhando para ficar igual musica eletrônica.Salve o samba.

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    28/12/2010 08:51:38AntenadoMembro SRZD desde 16/04/2009

    Marcelo Magrinho, sua comparação é totalmente descabida. No tempo em que o Pelé, o Garrincha e Tostão jogavam, Dirceu Lopes e Ademir da Guia - dois craques excepcionais - ficavam de fora. Comparar com Romário e Ronaldo, que reinaram sozinho, não dá. Quanto aos sambas de hoje em dia, eles são tão bons que até eu, que nada sei de música, apenas dou minhas batucadas, sou capaz de compor um. Agora posso te responder: não, não há samba bom hoje em dia, um ou outro às vezes, esta é a exceção e não a regra.

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    28/12/2010 08:05:33PAULO AMARGOSOMembro SRZD desde 11/10/2010

    Amigo Marcelo,infelizmente a realidade é essas.Os sambas antigos eram realmente sambas de enredo,com suas letras,enredos,melodias e ritmos de samba,hoje o que se vê são enredos patrocinados em que os compositores que já são fracos tem muita difilculdade para escrever qualquer coisa.No natal coloquei o cd 2011 em minha confraternização familiar e mandaram eu tirar pois não estava agradando ninguém e fui obrigado a colocar coletâneas dos anos 70 e 80 e foi um delirio só.A diferênça está ai, os sambas de hoje são descatável que após o carnaval ninguem lembra mais.O pior samba de antigamente dar de mil nos de hoje.Ã? preciso as escolas e a liga repensar isso,pois nem a geraçào atual está gostando mas de sambas de enredo, em que no passado era o carro chefe das festas de fim de ano.Um abraço.

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    27/12/2010 23:58:39Marcelo MagrinhoMembro SRZD desde 27/07/2009

    O que acho engraçado é que só os sambas antigos é que eram bons...ótimos.... Que nem no futebol. Só Pelé era craque, rivelino, Garrincha....e Maradona ? Zico ? Romário? Ronaldo ??/ Mas daqui há 20 anos nós que estamos com 30/40 vamos falar para nossos filhos que os melhores sambas eram os dos anos 80.... em 2040 os melhores eram os de 2010.... em 2090 os melhores eram de 2040.... Tudo na vida passa. OU VÃ?O DIZER QUE NÃ?O EXISTE SAMBA BOM HOJE EM DIA ? me corrigam se eu estiver errado, mas...........

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    26/12/2010 11:41:18GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Hoje quem dita os rítmos são os bambambans,que todos os anos com qualquer samba que poem nas disputas,são eles que ganham de qualquer maneira,acelerado ou não. O samba do Edgar Filho no Salgueiro perdeu naquele ano por um pequeno detalhe,mesmo sendo disparadamente o melhor samba.....ele não é considerado um bambambam......

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    24/12/2010 18:10:47AntenadoMembro SRZD desde 16/04/2009

    Onde se lê " Máscara Negra ", leia-se " Bandeira Branca ".

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    23/12/2010 15:44:15Julinho di OjuaraMembro SRZD desde 13/04/2009

    O futuro é negro, tanto o das paradinhas quanto os das baterias. Nunca em toda a minha vida no samba ouvi tanto a palavra; MESTRE. Qualquer um que coloca um apito na boca e começa a sacudir os braços em frente a uma bateria é chamado de MESTRE. Tenham dó, para ser chamado de MESTRE alguém tem muito que trilhar, aprender, batucar, aprender mais um pouco, afinar, ficar afinado, batucar mais um pouco e começar a ensinar, depois de muito ensinar e consequentemente muito aprender 9tanto dentro como fora do mundo do samba) é que pode pretender ser chamado de MESTRE. Forte abraço ao Atila e ao Ciça, os 2 que merecem hoje este título. Não desmerecendo alguns que caminham a passos largos para chegar lá e podem surpreender a qualquer momento..

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    23/12/2010 11:33:59AntenadoMembro SRZD desde 16/04/2009

    Menegale, você incluir o João e Marias no rol dos bons sambas mostra exatamente o que acontece hoje em dia: as pessoas não sabem o que é samba. João e Marias é um dos mais nobres exemplos de marcha-rancho tocada em ritmo de samba, seria eternizada na voz da saudosa Dalva de Oliveira, tanto quanto Máscara Negra.

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    23/12/2010 09:50:09Julinho di OjuaraMembro SRZD desde 13/04/2009

    Covardia, essa é a unica explicação plausível para o que ocorre, o samba virou moeda de troca e troco. Não há inovação, porquê nos cortaram a inspiração, nos impuseram regras e numeros de linhas. Na década de 90 bem no início assisti uma disputa na Tijuca no enredo Guanabarã, onde o samba do Jaci Inspiração (um dos mais lindos que já ouvi) perdeu, porém se conformou, pois o presidente assim explicou: Se aqui fosse a Portela, levariamos este sambaço para a avenida, mas somos pequena demais, temos que levar um samba mais leve. Algumas escolas porém deixaram de lado o samba e o tratam como uma disputa que salva seu primeiro trimestre de ensaios. Ganhar ou perder faz parte da disputa, porém ter condições de igualdade é fundamental para uma disputa lícita. Volto a tese que o dia em que as escolhas ocorrem com no máximo 10 obras, sendo apresentadas aleatóriamente durante os ensaios, sem cortes, sem mercenarismos, volatremos a ter grandes obras. Até lá é passar o ano novo ouvindo FUNK e AXÃ? !.

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    22/12/2010 21:53:46MARQUÃ?S DE SAPUCAÍMembro SRZD desde 07/04/2009

    Na minha opinião o problema não é o samba, mas o conjunto da obra. Começou quando as escolas ficaram submetidas a tempo de desfile, não podemos esquecer que na época dos grandes sambas, as escolas ficavam duas, três e até quatro horas desfilando (já saí da Pres. Vargas às quatro da tarde e o desfile recomeçava as sete), daí veio a necessidade de se acelerar o ritmo para passar rápido, logo, sambas mais curtos. Para acabar de lascar tudo, nos anos noventa veio o patrocínio, daí o samba não precisa mais ser de enredo, pois não existe enredo, daí se faz um jingle pra â??venderâ? o patrocínio e já deu. Talvez por isso precisemos de ajuda pra lembrar um samba na Páscoa. Patrocínio, alienígenas, paraquedistas, circenses... Para mim, isso tudo está matando o samba. Ainda bem que ele agoniza mas não morre.

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