SRZD



André Bernardo

André Bernardo



* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



07/01/2011 10h13

'Especial Roque Santeiro - 25 anos' - Lilian Garcia, pesquisadora
André Bernardo

A equipe de roteiristas de 'Roque Santeiro' não estaria completa sem a pesquisadora Lilian Garcia. Afinal, é para eles, os pesquisadores de texto, que autores, coautores e colaboradores telefonam, a qualquer hora do dia ou da noite, quando estão em dúvida com uma informação qualquer. Pode ser um tratamento médico, um imbróglio judicial, uma pesquisa científica, ou um problema econômico. São eles os responsáveis por decifrar todo e qualquer mistério para os autores de novelas. "Todo assunto tratado em uma novela deve ser devidamente pesquisado. E o pesquisador deve alertar o autor se alguma informação, como um diagnóstico médico, por exemplo, estiver incorreta", explica Lilian. Quando "Roque Santeiro" foi ao ar, em 1985, Lilian Garcia tinha apenas 26 anos e era pesquisadora recém-contratada da TV Globo. Hoje, aos 51, é colaboradora de diversos autores, como Antonio Calmon, Gilberto Braga e Elizabeth Jhin. A mais recente novela de que participou foi 'Escrito nas Estrelas', a 12ª de sua carreira como colaboradora. "Hoje em dia, a pesquisa é bem mais fácil de ser feita. Quando comecei, não havia internet. Então, o jeito era correr atrás de especialistas, arquivos e bibliotecas", recorda.

André Bernardo - Qual é exatamente o trabalho de um pesquisador de texto na "carpintaria" de uma novela?

Lilian Garcia - O pesquisador de texto fornece material para o autor desenvolver as tramas e os personagens de uma novela ou, então, para adaptá-los à realidade. Uma pesquisa pode gerar novas ideias, assim como pode, eventualmente, corrigir algum rumo. Todo assunto tratado em uma novela deve ser pesquisado e o pesquisador deve ficar atento para alertar o autor se alguma informação estiver incorreta, como um diagnóstico médico, por exemplo. Muitas vezes, a pesquisa pode ser usada na criação de cenas, no perfil de personagens, na elaboração de tramas, etc.

AB - No caso específico de "Roque", como surgiu o convite para participar da novela?

LG - Eu já trabalhava como pesquisadora de texto na TV Globo e tinha muito contato com o Dias Gomes na Casa de Criação. Também já havia feito pesquisa para uma novela do Aguinaldo Silva. Acho que eu estava no lugar certo e no momento certo. (risos). Durante "Roque Santeiro", lembro de ter pesquisado, entre outros, temas ligados à criação de gado para o Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e, também, problemas típicos enfrentados por uma prefeitura de cidadezinha do interior...

AB - Desde quando, você trabalha na TV Globo?

LG - Meu primeiro contrato de pesquisa na TV Globo foi com "Armação Ilimitada". Antes disso, enquanto fazia faculdade de Arquitetura, ajudava minha mãe (Marília Garcia), que é pesquisadora, para descolar uns trocados... Ela fazia muita pesquisa para Dias Gomes e Janete Clair. A primeira novela em que trabalhei... Acho que foi a "Gata Comeu", de Ivani Ribeiro... De lá para cá, fiz pesquisa de texto para "Roda de
Fogo", "Mico Preto", "O Outro", "Selva de Pedra II"... Acho que não lembro de todas... 
 

AB - Vinte e cinco anos depois, a que você atribui o sucesso de "Roque Santeiro"?

LG - "Roque Santeiro" é um clássico. E acho que será sucesso para sempre. Os personagens são deliciosos. A novela tem política, comédia, fantasia. É genial, enfim! Talvez seja esse o segredo do sucesso de "Roque".

AB - Qual é o maior cuidado que um pesquisador de texto deve tomar? Há um tipo específico de tema que requer mais atenção?

LG - O cuidado maior é sempre com os temas mais ligados à realidade, como tratamentos médicos, questões jurídicas, leis, julgamentos, advogados,
armação de falcatruas financeiras... Tudo isso tem uma linguagem própria. Os termos usados são específicos e fogem do coloquial. Das novelas em que colaborei, talvez a que tenha dado mais trabalho para pesquisar foi "Roda de Fogo". Ela tinha umas falcatruas envolvendo ações e Bolsa de Valores. Além disso, o personagem principal tinha um aneurisma cerebral ou algo do gênero. Não me lembro bem! Ou, quem sabe, "Mandala" tenha dado mais trabalho. A novela tinha um submundo com bicheiros que foi meio barra-pesada para pesquisar.

AB - Pode-se dizer que o caminho natural do pesquisador seja o de, um dia, tornar-se autor de novelas?

LG - Não sei. No meu caso, foi o de chegar a colaborador.

AB - Mas o fato de já ter sido pesquisadora ajuda hoje em dia como colaboradora?

LG - Ajudou no início, pois eu já conhecia a linguagem do roteiro e a necessidade da pesquisa para criação. Mas há vezes em que até atrapalha. Uma trama que precisa de uma pesquisa difícil e detalhada demais me desanima porque sei o trabalho que isso vai dar. Daí, fico procurando uma alternativa mais simples. Mas, hoje em dia, a pesquisa é bem mais fácil de ser feita. Quando comecei, não havia internet. Se quisesse pesquisar algum assunto, tinha que correr atrás de pessoas, bibliotecas, arquivos...

AB - Ano passado, você atuou como colaboradora de "Escrito nas Estrelas", da Elizabeth Jhin. Das muitas que ajudou a escrever, qual é a sua preferida?

LG - Adorei "Escrito nas Estrelas"! A equipe foi maravilhosa. E a gente se divertiu demais escrevendo a novela. O retorno, então, foi sensacional. O público também adorou. Mas a preferida será sempre a primeira em que trabalhei como colaboradora: "Vamp"! Fez um sucesso incrível na época e, até hoje, é lembrada por muita gente. E, principalmente, porque era do (Antonio) Calmon, um autor que apostou em mim e me ensinou muita coisa. Devo muito a ele. Com "Vamp", deixei de fazer pesquisa e passei a escrever novela. Foi marcante demais na minha vida.

AB - Qual teria sido a maior lição que você aprendeu com o Calmon?

LG - Ah, não tem essa de maior lição! Eu aprendi muita coisa com ele. Muita coisa mesmo! Eu acompanhei vários processos: da criação da sinopse à elaboração das escaletas, das reuniões com diretores aos grupos de discussão... Tudo isso ao lado dele! E ele ia dizendo o que estava fazendo e por que estava fazendo. Explicava detalhadamente, com a maior paciência. Não escondia o jogo, sabe? Ensinava mesmo, na boa! E, depois, cobrava, exigindo o máximo, o que também é bom, né?

AB - Existe algum autor com que você gostaria de trabalhar?

LG - Ah, um monte! Eu admiro muitos e adoraria trabalhar, por exemplo, com Silvio de Abreu, Ricardo Linhares, Maria Adelaide Amaral, Walther
Negrão... Puxa, é um monte mesmo! (risos)


Comentários
  • Avatar
    09/05/2011 18:39:30Joaquim AssisAnônimo

    Oi, André! Sou Joaquim Assis, um dos escritores de Roque Santeiro. Não cheguei a ler as entrevistas do Aguinaldo e do Marcilio. Você poderia mandar pra mim? Meu e-mail é [email protected] Muito obrigado desde já. Abraço, Joaquim

Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.