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03/03/2011 15h30

'Dê um rolê': o 'brilho louco' de Zizi Possi
Leonardo Guedes

Nos dias atuais, Zizi Possi tem optado por seguir sua intuição musical e evitar modismos de mercado fonográfico. Em 1984, ano em que "De um rolê" foi lançado, existia uma ligação sua com o comercial, embora ainda fosse um tempo em que esse "comercial" ainda concordava em coexistir com composições que respeitavam a qualidade e a criatividade. Zizi, já recuperada da repercussão polêmica provocada pelo explosivo relacionamento com Éngela RôRô (ocorrido três anos antes), atingia seu auge de destaque na mídia. antes, ela já havia obtido a consagração com "Asa morena", em 1982 ("Me faz pequena, asa morena..." e por aí vai). Os recordes de sucesso voltariam em 1986, com "Perigo" (para quem é fã, nem é necessária a transcrição da letra).

Então, "Dê um rolê" é um disco repleto de exuberância musical e visual, além de ser pontuado por curiosidades. No que diz respeito à apresentação, a capa é bastante chamativa. Praticamente um cartaz: a própria Zizi fazendo do "i" de seu nome uma tocha acesa, uma lua crescente boêmia mais um cupido politicamente incorreto com um cigarro na mão. A ilustração de Mário Bag tem um detalhe a mais no canto direito inferior: é possível ver desenhos representando as torres gêmeas do World Trade Center e a Estátua da Liberdade sendo engolidas pelo mar em fúria.

Quanto ao conteúdo, as músicas são quase todas baseadas pelos teclados eletrônicos de Lincoln Olivetti e guitarras de Robson Jorge, cujas marcas estão presentes em outros discos bem vendidos da MPB, na boa parte da década de 1980. A cantora destacava o que Olivetti representava na época, com uma citação no encarte: "Trabalhar com Lincoln Olivetii é viajar pelo universo musical através dos caminhos mais fantásticos. É ver se transformar em música um carinho e uma alegria ímpares". A equipe de produtores fazia uma recomendação: ouvir a primeira e a última faixa do disco em último volume. Tratavam-se da música-título, "Dê um rolê", e de "Brilho louco".

- Música: Zizi Possi canta "Dê um rolê"


A primeira é uma releitura do que já havia sido gravado pelos Novos Baianos na década de 1970. Não por acaso, a música é dois integrantes do grupo, Moraes Moreira e Galvão. O registro de Zizi com levada pop era um recado de que ela queria mostra disposição e energia depois de um momento pessoal conturbado: "É só tô beijando o rosto de quem dá valor / Para quem vale um gosto do que cem mil-réis / Eu sou, eu sou, eu amor da cabeça aos pés".

"Brilho louco" foi uma das várias incursões da cantora pela composição nesta fase de sua carreira, desta vez em parceria com seu então marido, Líber Gadelha: arranjo com ritmo de rock pesado, bem típico da época: "Fazer ressucitar / O prazer em criar / Com o dom que a vida nos quiser doar".

A geral do discuto é composta de músicas mais próximas de um pop romântico. Dona de uma notável técnica vocal, Zizi Possi faz interpretações capazes de conferir atenção a temas repletos de insinuações sensuais como "Depois me diz", de Marina Lima (também no auge daqueles tempos) e Antônio Cícero: "Um tremor me abala / Suor me umidece / A língua entorpece / Assim, meio estranha / Me perco / Querendo, você me ganha"; e também em "Lábios", de Djavan, cuja gravação tem como destaques a participação do próprio no improviso vocal e a introdução especial do sax alto de Léo Gandelman: "Meu amor / Te desejo lagos, largos lábios / E um olhar / que eu planejo frágil, ágil" O compositor alagoano ainda contribui no lp da cantora com um ousado e surpreendente elogio da amizade em "Nobreza": "Uma grande amizade é assim / Dois homens apaixonados / E sentir a alegria de ver / A mão do prazer / Acenando pra gente / O amor crescendo, enfim / Como capim pros meus dentes...".

- Música: Zizi Possi canta "Luiza"

Zizi emprestou sutileza feminina definitiva para um dos maiores sucessos da MPB na época: "Papel Machê", de João Bosco e Capinam, cuja memória afetiva está mais ligada às estripulais vocais da gravação feita por seu autor. Outros compositores do gênero também estão representados por pérolas pouco conhecidas: Luiz Melodia, com a rumba "Pássaro sem ninho" (parceria com Ricardo Augusto) e Gilberto Gil , com "Febril", um relato confessional sobre os prazeres e agruras da fama: "Veio gente admirar meu talento / Veio gente adivinhar meu tormento / Veio gente me xingar / Veio gente me amar / Veio gente disposta a se matar por mim...".

Outra citação fica por conta do jogo de cena presente na letra de "Cigana nuvem", autoria de Altay Veloso: "Se eu não te conhecesse bem / Me entregava sim... Mas a luz que brilha em meus olhos / Detém o meu coração / Não deixe ele se perder".

A curiosidade final diz respeito à risada de bebê presente no fim da (excelente) gravação de "Luiza", clássico de Tom Jobim. Trata-se do primeiro registro de voz de ninguém menos que Luiz Possi, a filha então recém-nascida de Zizi. Pelo visto, a mãe já tinha a intenção de deixá-la acostumada desde cedo com os ambientes musicais.


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Comentários
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    30/03/2011 13:53:02sidneyAnônimo

    que bom ler alguem dissecar este trabalho, que à epoca passou meio batido, más que traduz bem o que é a carreira de Zizi hoje, sem amarras, sem formatos pré estabelecidos, cantando o novo e recriando canções (deixando-as melhores, sempre).

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