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14/07/2011 22h17

Confira a sinopse da Viradouro para 2012
Redação SRZD

foto: DivulgaçãoA Escola de Samba Unidos do Viradouro divulgou, nesta quinta-feira, a sinopse do enredo "A vida como ela é, bonitinha mas ordinária... Assim falou Nelson Rodrigues, desenvolvido pelo carnavalesco Alexandre Louzada.

Confira a sinopse do enredo:

Justificativa

Adentrar o universo de Nelson Rodrigues parece tarefa das mais improváveis, porém através de nosso desfile, faremos esta tentativa. Falar de sua vida, de sua obra é lançar um olhar sobre nós mesmos, despidos de todo o senso de pudor.

O certo é ver que apesar de tantos julgamentos a respeito de seu legado, Nelson Rodrigues acompanhou com reflexões profundas a vida do país que ele via a sua frente, como testemunha e ator de eventos cruciais de nossa história recente.

Através de suas frases memoráveis, somamos as suas experiências da vida e seu pensamento a respeito dela. A vida como ela é, reflete este caleidoscópio, multiface de suas opiniões que variam entre o cáustico e o irônico, passando pelo cinismo velado, sobre os tipos cariocas, seu cotidiano e as relações familiares, além da política e claro, a sua paixão, o futebol.

A Viradouro ao apresentar Nelson Rodrigues como tema, ousa retratar de certa forma o pensamento desse grande gênio de nossa literatura e dramaturgia, usando como álibi uma de suas frases: Toda unanimidade é burra!

Nelson,

Sou eu o samba, que te pede passagem, sou a Viradouro a fazer a viagem em seu universo irreverente, aos subúrbios da sua inspiração. Pela lente de seu olhar, serei a realidade inventada, infielmente retratada da vida como ela é, a sua, cruel e crua a girar no carrossel da emoção.

Eis-me aqui qual anjo pornográfico, a desfilar na rua, num delírio de carnaval, a te invadir a alma, te espiar a mente, perverso, eloquente, assim, como quem trai ou mente, não ver a mulher nua, pelo buraco da fechadura. Serei a flor de obsessão que desabrocha, fruta madura regada de drama e humor.

Vou me tornar todas as mulheres, rasgadas das páginas de Suzana Flag, escravas do amor, destinadas a pecar e a amar demais algum homem proibido. Caberá em mim o que é descabido, assassinos passionais, suicidas enlouquecidos.

Viverei aquelas gordas fofoqueiras, viúvas tristes ou solteiras ressentidas, e nelas encarnarei aqui, o flerte, o adultério, o romance fugaz e o eterno amor. Serei a feia, a interessante, a esposa, a amante, engraçadinha, a bonitinha, a dama do lotação ou então quem sabe, Nelson, aquela que morde, a que arranha e aquela que apanha, pura, casta e sem pudor.

Lembrarei de momentos mágicos, do Mário Filho abarrotado, dos domingos ensolarados, de futebol e picolé, serei o Sobrenatural de Almeida, o inexplicável, o oculto que habita a sombra das chuteiras imortais, me tornarei seu craque predileto, sem caráter. Posso ser também Didi, Garrincha e Pelé.

Estarei na torcida que agita, a xingar o juiz ladrão que errado apita, e na bola que se ajeita pro gol daqueles Fla-Flus ancestrais. Entrarei na discussão dos bares com a cabeça cheia, falando dos lances, dos romances da vida alheia e da sua grande paixão, e se preciso for, virarei a casaca, me farei de pó-de-arroz de corpo e alma, e pra te fazer graça, tricolor de coração.

Abrirei as cortinas do seu teatro, sem o embargo da censura, e exporei a arte, a vida, a realidade pura, a lâmina afiada a rasgar a carne da plateia num desafio, e arrancar-lhes o aplauso, ou o asco, ou o arrepio, e até mesmo o silencio da incompreensão. Serei o seu grito na boca de cena, a fala cotidiana da verdade plena, aberta para a consagração.

E morrerei todas as noites, eventualmente duas, aos sábados e domingos em todas as vesperais, na pele de seus personagens, vestirei pra sempre as suas fantasias que bem poderiam ser reais. De vestido de noiva ou em toda a nudez, serei castigado como a serpente, no juízo crítico, inclemente, com ou sem pecado, perdoado e sem perdão, sob as luzes da ribalta, no palco da sua mais incrível imaginação, senhor Rodrigues.

Por fim, iluminarei a grande tela e vou estrelar sua obra, projetando o filme que passou na sua mente, e revelar na Viradouro que seu espírito paira no viver real de nossa gente. Hoje, você é o anjo que nos cuida, anjo escritor, teatrólogo e jornalista, anjo desconhecido, indecifrável; anjo de todos os sentidos, dos escancarados e dos escondidos, de nossa burra, porém verdadeira unanimidade. Obcecado anjo chamado Nelson Rodrigues, que em frases nos define a vida como ela é, bonitinha mas ordinária.

Nelson por Nelson

"Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que "espiã de um seio só?" Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional.

Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederico Schmidt? Seu nome ainda tem a atualidade, a tensão, a magia da presença física. Todavia, deixemos o Schmidt para depois. O que eu quero dizer é que estas são memórias do passado, do presente, do futuro e de várias alucinações". (p.11)

"Toda a minha primeira infância tem gosto de caju e de pitanga. Caju de praia e pitanga brava. Hoje, tenho 54 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade com um cordial descaro, porque, ao contrário do Tristão de Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: - ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou raptado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais". (p.15)

"1913. O que a memória consciente preservou de Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lembro de pouquíssimas pessoas. Por exemplo: - vejo uma imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não guardei um bom-dia, um gemido, um grito. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio". p.15-6)

"Já falei da louca, filha da lavadeira. Foi a primeira mulher nua que vi na minha infância. E, ainda agora, ao bater estas notas, tenho a cena diante de mim. Eu me vejo, pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez. Empurro a porta e olho. O espantoso é que sinto uma relação direta e atual entre mim e o fato, como se a memória não fosse a intermediária. A demente tem a tensão e o cheiro da presença viva. Mas como ia dizendo: - no fundo, encostada à parede, está a nudez acuada". (p.39)

"No primeiro momento, a glória é casta. Desde garotinho, a minha vida fora a desesperada busca da mulher primeira, única e última. No período da fome, o amor passara a um plano secundário ou nulo. Mas a glória é ainda mais obsessiva, mais devoradora do que a fome. Eis o que eu queria dizer: _ com o artigo de Manuel Bandeira, só eu existia para mim mesmo. Tudo o mais era paisagem." (...)

"Sim, ainda me lembro do primeiro dia do artigo de Manuel Bandeira. Depois do trabalho, fui para casa. Tranquei-me no quarto como se fosse praticar um ato solitário e obsceno. Comecei a reler o poeta. Primeiro, repassei todo o artigo, da primeira à última linha. Depois, reli certos trechos. O final dizia assim: - "Vestido de noiva, em outro país, consagraria um autor. No Brasil, consagrará o público". Antes de mais nada, o poeta influiu na minha auto-estima". (p.162)

"Uma meia dúzia aceitou Álbum de família. A maioria gritou. Uns acharam "incesto demais", como se pudesse haver "incesto de menos". De mais a mais, era uma tragédia "sem linguagem nobre". Em suma: - a quase unanimidade achou a peça de uma obsessiva, monótona obscenidade. Augusto Frederico Schmidt falou na minha "insistência na torpeza". O dr. Alceu deu toda razão à polícia, que interditaria a peça; meu texto parecia-lhe da "pior subliteratura.

Assim comecei a destruir os meus admiradores. Foi uma carnificina literária. Mas não me degradei, eis a verdade, não me degradei". (p.215)

"O número de ex-admiradores aumentava. E, pouco a pouco, ia fundando a minha solidão. Fora proibida a representação de Álbum de família. Em seguida, houve a interdição de Anjo negro. De peça para peça, me tornava, e cada vez mais, um caso de polícia. Escândalo nos jornais. E, um dia, encontro-me com Carlos Lacerda. Pediu o meu novo texto: - "Você me dá, que eu escrevo contra a censura". Étimo. No dia seguinte, fui levar-lhe uma cópia." (...)

"Desde aquela época, cada um, na vida literária, tinha que ser um engajado. Ninguém ia à rua sem a sua pose ideológica. Lembro-me de Isaac Paschoal me perguntando, depois de um discurso de Prestes: - "E você? Qual é a sua contribuição?". Baixei a vista, rubro de vergonha. E, como ainda não contribuíra, senti-me um fracassado nato e hereditário. Daí porque não posso ver, hoje em dia, o Guimarães Rosa, sem uma sensação de deslumbramento. Durante anos, pratiquei a solidão com certo pânico e certa vergonha. E eis que vem o autor de Sagarana e ergue a sua torre de marfim, assim como um cigano põe a sua barraca. Nada existe: - só a sua obra. Estão brigando no Vietnã? Pois o nosso Rosa escreve. Há a guerra nuclear, o fim do mundo? Guimarães Rosa funda outro idioma. A torre de marfim fez dele o maior artista brasileiro do século". (p.218)

(Excertos de A menina sem estrela - Memórias, de Nelson Rodrigues; São Paulo: Companhia das Letras, 1999, Coleção das Obras de Nelson Rodrigues, sob a coordenação de Ruy Castro).


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Comentários
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    18/07/2011 15:47:13KELISMembro SRZD desde 05/07/2011

    cadê o enredo do tigre? o vice-presidente moises ficou de anunciar hoje dia 18/07, vamos ver se comprirá a palavra. sei não hein!!!!!!!!!!1

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    18/07/2011 08:21:02Tamborim quenteMembro SRZD desde 16/02/2010

    Denise, concordo com você, Alexandre é bem criativo, mas tambem acredito que a campeã deve ser Império ou Tuiuti

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    17/07/2011 22:06:24LéoMembro SRZD desde 17/07/2011

    André de Oliveira, você deve ser de São Gonçalo, porque o pessoal de Niterói odeia que alguém se refira a Viradouro como uma escola de São Gonçalo também. Chega a ser até um insulto aos Niteroienses, sei disso, pois tenho amigos que já me repreenderam quando falei que a escola era dos dois municípios.

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    16/07/2011 16:50:45DeniseMembro SRZD desde 08/04/2009

    Gostei do logo. Interessante e criativo. Alexandre Louzada fez um desfile na União da Ilha falando sobre a imprensa, bem interessante. A sinopse, em si, revela o que todos já sabem acerca do homenageado. Acho que o enredo peca exatamente por esse detalhe. Mas acho que o enredo permite sim à Viradouro lutar pelo título. De minha preferência, a torcida continua por Império Serrano ou Tuiuti.

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    16/07/2011 15:03:00Riquinho da ViradouroMembro SRZD desde 07/04/2009

    Gostei muito da sinopse, achei o desenvolvimento muito bom e o texto maravilhoso. Sei que ou Louzada é um ótimo Carnavalesco e, se der a atenção que a Viradouro precisa, fará um bom carnaval. Acho difícil um Carnavalesco dar conta de 3 escolas, por isso acho que a Viradouro deu bola fora ao contratar o Louzada. Nome não é tudo, ainda mais nesse grupo. Mas estou ansioso para acompanhar o desenvolvimento desse enredo, e acho que a escola tem tudo para fazer um excelente carnaval. Ao presidente, aconselho a prestar mais atenção nas co-irmãs do grupo, pois teremos excelentes enredos e escolas brigando para fazer um excelente carnaval. Boa sorte Viradourenses, pois precisaremos!!!

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    16/07/2011 08:33:43João PauloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Quero saber que enredo tão incrível é esse que a Porto vai desenvolver, com todo respeito, mais acho que a escola já poderia ter diulgado o enredo a muito tempo, tendo visto o carnavalesco que tem que com todo respeito ao Roberto, mas ele atrasa muitas vezes o trabalho, sei qual o motivo disso e concordo plenamente, porém que ele atrasa atrasa sim, e também tendo em vista as dificuldades que a escola de São Gonçalo possui.

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    15/07/2011 19:16:04waldirMembro SRZD desde 05/07/2011

    Fala Kelis, isso é maldade! Dá um furo de reportagem por favor, e satisfaz nossa curiosidade e impaciência com o Tigre!

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    15/07/2011 19:07:20KELISMembro SRZD desde 05/07/2011

    ACABEI DE SABER QUE O ENREDO DO TIGRE Ã? TÃ?O FORTE, TÃ?O FORTE QUE FOI NECESSÁRIO GUARDÁ-LO EM 7 CHAVES. NÃ?O DEVO CONTAR AGORA EU SEI QUAL Ã? O ENREDO E OLHA DA PRA SAIR UM PUT...O SAMBÃ?O. AGURADEM ATÃ? 2ª FEIRA.

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    15/07/2011 19:06:46KELISMembro SRZD desde 05/07/2011

    ACABEI DE SABER QUE O ENREDO DO TIGRE Ã? TÃ?O FORTE, TÃ?O FORTE QUE FOI NECESSÁRIO GUARDÁ-LO EM 7 CHAVES. NÃ?O DEVO CONTAR AGORA EU SEI QUAL Ã? O ENREDO E OLHA DA PRA SAIR UM PUT...O SAMBÃ?O. AGURADEM ATÃ? 2ª FEIRA.

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    15/07/2011 18:52:12SávioMembro SRZD desde 05/07/2011

    Torço para que realmente a Viradouro consiga contorar os seus problemas e volte com a garra o mais rápido possível para o grupo especial.

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    15/07/2011 16:33:34André de OliveiraMembro SRZD desde 12/07/2011

    A Viradouro terá seu espaço regatado, nossa comunidade mostrará como sempre que tem garra, força e samba no pé! Alô Niterói e São Gonçalo vamos em busca pelo título, um forte abraço para todos que admiram o samba!

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    15/07/2011 14:57:33ARLEQUIM DO CARNAVAL*Membro SRZD desde 28/06/2011

    A VIRADOURO NÃ?O TEM MAIS ESPAÃ?O NO GRUPO ESPECIAL.

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    15/07/2011 14:53:48Lady Dholores ArrudaMembro SRZD desde 18/10/2010

    Sei, Lopes, que os tempos são outros. E esse aí chamado "anjo" pornográfico, nos dias de hoje certamente seria a encarnação do próprio Gabriel, de tão anjelical. Mais é um enredo pesado na essencia. Eu e parte da comuanidade, preferia algo mais debochadamente alegre assim como foi Dercy Goçalves. Penso que o povão não quer mais ser impactado por coisas que deixam a sexualidade humana exposta como carne no açogue. O povo que brincar, dançar, se divertira-se apenas. Viradouro virou do lado contrário. Mais não vou negar que esse enredo tem um veio carioca e deve render um bom desfile. Mais não acredito na briga pelo título. Abracianhos.

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    15/07/2011 14:52:03PhyllyppeMembro SRZD desde 26/07/2010

    Não adianta ter bom enredo, excelente sinopse e ótimo samba. A Viradouro não tem condições financeiras para desenvolver um desfile bonito igual os anos de 1997,1992,1998,2003,2006,2007,2008..A Viradouro não é mas a mesma...

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    15/07/2011 13:21:27CarlosMembro SRZD desde 27/08/2010

    A logotipo é shooooow de bola Parabéns Viradouro Bom carnaval!

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