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22/07/2011 11h32

Confira a sinopse da Vila Isabel para o Carnaval de 2012
Redação SRZD

Foto: Reprodução de Internet

A Vila Isabel apresentou, na noite desta quinta-feira, a sinopse do enredo "Você sembo lá... que eu sambo cá! O canto livre de Angola", de autoria da carnavalesca Rosa Magalhães. Na ocasião, os compositores também foram informados sobre as datas da disputa do samba-enredo. No dia 9 e 16 de agosto, às 20h, Rosa estará à disposição para esclarecer dúvidas dos compositores.

As obras (2 CDs junto com 30 cópias da letra do samba) deverão ser entregues no dia 23 de agosto, na quadra, das 19h às 22h. No dia 26, às 20h, serão anunciadas as parcerias participantes do concurso. Para finalizar, no dia 27 serão iniciados os ensaios e a apresentação dos sambas que estarão na disputa.

O valor da inscrição para integrantes da ala de compositores é de R$ 150. As parcerias mistas ou com compositores que participarão pela primeia vez do concurso, deverão pagar R$ 200. Cada parceria pode ter no máximo cinco compositores.

Leia a sinopse na íntegra:

Você Semba Lá .... Que Eu Sambo Cá!
O Canto Livre de Angola

 O Brasil e Angola são ligados por laços afetivos, linguísticos e de sangue. São quase irmãos pela história que os une.

 Desde a Antiguidade, já existiam bestiários que repertoriavam as estranhezas da fauna e das características geográficas. Segundo o jesuíta Sandoval (1625), " Os calores e os desertos da África misturavam todas as espécies e raças de animais, em redor de poços, criando um ecossistema particular, capaz de engendrar hibridações monstruosas. Tal circunstancia fazia da África, o continente de todas bestialidades, o território de eleição do diabo."

 As bestialidades de que falava tal escritor eram hipopótamos e rinocerontes, chacais e hienas, zebras e girafas, avestruzes e palancas negras, entre outros.

 A estranheza também era causada pela cor da pele de seus habitantes.

 As regiões abaixo do deserto do Saara, chamadas de Ndongo e Matamba, eram habitadas por dois povos distintos: os ambundos e os jagas. Os primeiros eram excelentes ferreiros, cuja habilidade era muito apreciada. Os jagas, por sua vez, se destacavam como guerreiros invencíveis, pois se exercitavam diariamente em local apropriado a que chamavam de quilombo.

 Na época da expansão marítima portuguesa, esses dois povos possuíam um soberano a que chamavam de Ngola.

 No século XVII, a região de Angola era governada por uma rainha chamada Njinga, que era ambundo pela linhagem materna e jaga, pela paterna. Expressão do encontro de dois grupos étnicos, que apesar de semelhantes, tinham organizações distintas, Njinga os governou com sabedoria. A persistência do incômodo causado pelo seu sexo, entretanto, levou-a a assumir um comportamento masculino, liderando batalhas pessoalmente e vestindo de mulher seus muito concubinos, que faziam parte de seu harém.

 Apesar da fama de Njinga ter sido construída na luta da resistência contra o domínio de Portugal, entre os portugueses o reconhecimento de seu talento político e capacidade de liderança surgiu a partir de seu desempenho como chefe de uma embaixada que o então Ngola do Ndongo, enviou ao governador português, em 1622. Recebida com uma pompa que deve tê-la impressionado, Njinga também teria causado impacto entre os portugueses ao agir e falar no mesmo idioma que o deles, como chefe política lúcida e articulada.

 O interesse português era um só - mão de obra para outra colônia de além-mar, o Brasil. Embora fossem ricos em minerais, em diamantes, nada disso os interessou.  Pois na época, o reino de Angola era o grande manancial abastecedor dos engenhos do Brasil. Sem o açúcar, não havia o Brasil. Sem negros não haveria o açúcar. Sem Angola, não havia negros. E, sem Angola não havia o Brasil.

 Apesar da resistência de Njinga, o comércio era feito de modo avassalador. Os negros cativos ficavam em barracões, que podiam acolher cerca de 5.000 almas, que eram embarcadas rumo ao novo continente, em viagem longa, cuja duração podia ultrapassar dois meses, dependendo das condições climáticas. O porto e partida era Luanda, o maior centro de comércio escravagista africano. A cidade alcançara essa posição a partir do momento em que os escravos passaram a ser embarcados diretamente para as colônias americanas. Aproximadamente doze mil viagens foram feitas dos portos africanos para o Brasil, para vender, ao longo de três séculos, quatro milhões de escravos, aqui chegados vivos.

 A despedida era simples. A cerimônia de batizado era na hora do embarque: - Seu nome é Pedro; o seu é João; o seu, Francisco, e assim por diante. Cada viajante recebia um pedaço de papel com um nome escrito. Então, um intérprete ironicamente dizia: "Sois filho de Deus, a caminho de terras portuguesas, esquecei tudo que se relaciona com o lugar de onde viestes, agora podeis ir e sede felizes".

 A morte social despe o escravo de seus ancestrais, de sua família, e de sua descendência. Retira-o de sua comunidade e de sua cultura. Ele é reduzido a um exílio perpétuo.

 E lá se vão, num navio abarrotado, sem alimentos adequados, sem sequer espaço para se acomodarem. Levam na memória, os cantos, as danças, os ritmos, as tradições. Levam Njinga e seu espírito combativo, a levam na memória, apesar das ordens para esquecerem tudo....

 Os navios negreiros aportavam no Cais do Valongo, longe do rebuliço da cidade. Alí os escravos viviam em depósitos, a espera para serem comprados. Pois foi em 1779, por ordem do Vice-Rei, marquês de Lavradio, que nesta região se localizaram o cais, o mercado e as precárias instalações para abrigar os recém chegados.

 Por ironia do destino, foi neste mesmo cais, que anos mais tarde, receberia em 3 de setembro de 1843, a princesa Tereza Cristina, futura Imperatriz do Brasil, e também mãe da princesa Isabel, aquela que terminaria de vez com o regime de escravidão. O cais foi remodelado e uma cenografia decorativa escondia aos olhos reais as imagens da pobreza extrema e a humilhação a que eram submetidos os recém chegados.

 Presente em vários lugares em que houve a escravidão, a coroação de um rei e uma rainha negra era uma forma de diminuir o sentimento de inferioridade social, assim como as irmandades permitiam a reunião para reverenciar algum santo, mas sobretudo como relacionamento social entre os escravos.
 
"Nesta santa irmandade se farão todos os anos  hum Rey e huma rainha os quais serão de Angolla, e serão de bom procedimento, e terá o rey tão bem seu voto em meza todas as vezes que se fizer visto da sua esmolla avantajada." O titulo a que se dava era Rei do Congo e a Rainha Njinga. A fama de Njinga atravessou os séculos e os mares, sendo evocada em festas populares no Brasil. Mas antes de se alojar no imaginário popular, as lições de Njinga foram muito provavelmente postas em prática na luta dos quilombolas de Palmares.

 Com o intuito de se divertirem, as irmandades aproveitavam-se das comemorações dos dias dedicados a este ou aquele santo, para organizarem seus festejos. E era quase que o ano inteiro, pois S. Pedro, S. João, Santo Antonio, o Espírito Santo e outros tantos mais, se espalhavam no calendário. Tudo era oportunidade para comemorações festivas.

 Na Festa do Divino, segundo Manuel Antonio de Almeida, embora os músicos fossem muito apreciados pelo publico, ele considerava que eram desafinados e desacertados: "Meia dúzia de aprendizes de barbeiro, negros, armados este, com um pistom desafinado, aquele com trompa diabolicamente rouca formavam uma orquestra desconcertada, porém estrondosa, que fazia as delicias dos que não cabiam ou não queriam estar dentro da igreja. Mas era musica buliçosa, um convite aos jovens à dança". Os instrumentos que usavam eram basicamente trombetas, trompas, cornetas, clarinetas e flautas e os de corda - as rabecas, violões, tambores, bumbos e triângulos também eram encontrados.

 A festa reunia uma enorme economia e produção. Os fogos, no Campo de Santana, era a maior atração. Depois as barracas, com comidas e bebidas, show de ginástica e muita cantoria. A que fazia mais sucesso, entretanto, era a barraca conhecida como Três Cidras do Amor, frequentada pela família e pelo escravo, pela plebe e a burguesia. Era um salão um tanto acanhado. Num dos cantos  havia um teatrinho de bonecos com cenas jocosas e honestas. O conjunto de atrações das Três Cidras do Amor era longo e variado. Peças como Judas em Sábado de Aleluia eram encenadas. Depois do inicio do baile com valsas, as apresentações cada vez mais se afastavam de uma pretensa seriedade, e a dança tradicional e eletrizante do povo brasileiro assumiam o espaço, com os dançarinos bamboleando, cantando, requebrando-se, ondulando as nádegas a externuar-se, e dando umbigadas. Os homens e as mulheres que realizavam os indefinidos e inimitáveis requebros, umbigadas e movimentos lascivos não nasceram nos ricos salões de baile, estavam nas ruas, reuniam-se nas festas de largo, onde seus ritmos prediletos eram apresentados como atração e divertimento.   

 A junção dos violões, cavaquinhos e flautas já era praticada pelos músicos barbeiros,ou como insistem alguns especialistas, havia sido realizada nos casebres populares do Rio, mais precisamente na Cidade Nova.

 Lá, destaca-se Tia Ciata, dando continuidade aos festejos que já aconteciam no Campo de Santana, abandonado pelos festeiros após a Reforma do local. Tia Ciata nasceu em Salvador em 1854, e aos 22 anos, trouxe da Bahia o samba para o Rio de Janeiro. Foi a mais famosa das tias baianas, trazendo também o candomblé, do qual era uma ialorixá. Na Casa da Tia Ciata ecoavam livremente os batuques do samba e do candomblé.

 Segundo Mary Karash, das danças escravas, como o lundu, capoeira e jardineira, a que ficou conhecida no século XIX por "batuque" é a mais próxima do samba carioca moderno.

 O termo SAMBA, possuía uma clara origem angolana. O verbo kusamba, que significava saltear e  pular, provavelmente expressasse uma grande sensação de felicidade.

 Hoje,"O Samba é considerado como um produto da história social brasileira". De acordo com o presidente do Iphan, "O gênero musical e coreográfico pode ser considerado tanto como sendo próprio de comunidades culturais identificáveis (executantes e brincantes inseridos em agrupamentos sociais de pequena escala) e também no contexto da vida urbana, e da indústria cultural mediatizada. O vigor do Samba enquanto gênero cultural encontra-se em sua plasticidade e capacidade de gerar inúmeras variantes, como o samba-de-roda, o samba carioca, o samba rural paulista, a bossa nova, o samba-reggae e outros mais, em suas diversas interpretações."

 Aqui na Vila Isabel, que é de Noel, e de Martinho, devemos a ele esta história. Ele que, nos anos 70, fez sua primeira viagem ao continente negro e durante muitos anos foi a ponte entre o Brasil e Angola, sendo considerado um Embaixador Cultural. Levou a música brasileira como um presente ao povo amigo e irmão, através das vozes tão brasileiras de Caymmi, João Nogueira, Clara Nunes e ainda Chico Buarque, Miúcha, Djavan, D. Ivone Lara, entre outros. Três anos mais tarde, Martinho elaborou um projeto trazendo a música angolana para os brasileiros, a que chamou de O Canto livre de Angola.

 Nosso samba....  seu semba ...por isso  enquanto eu sambo cá.... você  semba lá...

Rosa Magalhães (Carnavalesca) & Alex Varela (historiador)


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Comentários
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    27/07/2011 22:48:01KAICOMembro SRZD desde 21/07/2011

    BOMBA BOIMBA, OUVI DIZER QUE O ENREDO DA PORTO DA PEDRA Ã? SOBRE O DANONINHO, OU SOBRE O PACOTE DE FOFURA, SERÁ???????

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    27/07/2011 19:21:35Joana MarquesMembro SRZD desde 27/07/2011

    bomba ouvir dizer que a Porto da pedra vai apresentar seu enredo,será sobre o iogurte.O que significa isso ,eu não sei.

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    26/07/2011 19:44:56Torcedor PilarenseMembro SRZD desde 05/07/2011

    Excelente sinopse. Texto coeso e coerente, ideias muito bem fundamentadas, sinalizando um grande desfile. Tudo o que eu poderia esperar dessa "Rosa que desabrochou campeã"! Rosa Magalhães, eu amo você!

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    26/07/2011 16:12:07Fernando NunesMembro SRZD desde 11/07/2011

    Bem, a sinopse apesar de extensa, está muito bem desenvolvida... A nossa genial Rosa magalhães sabe fazer carnaval como ninguém e claro obteve sucesso junto à diretoria em relação a escolha do enredo. Em 2011, a Vila Isabel, na minha concepção, mereceu o 4º lugar. o enredo era simplesmente sensacional, o melhor conjunto de fantasias era da vila; a melhor evolução e o desenvolvimento correto do enredo também; porém, a escola pecou em alguns quesitos como alegorias, comissão de frente e harmonia. A agremiação fez um desfile técnico - excessivo que tirou o brilho da escolha, deixou o samba - enredo pra baixo e o conjunto não era um dos melhores. Alguns podem dizer: " você tá falando de Rosa Magalhães, a maior vencedora do carnaval carioca", estou falando do trabalho de 2011 que não me agradou esteticamente tecnicamente falando... A Rosa como já falei é um gênio, o seu trabalho na União da Ilha em 2010, foi fantástico!!! Tenho certeza que em 2012 o carnaval da Vila vai brilhar junto com ela!!!!

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    26/07/2011 12:04:14Inhá JançaMembro SRZD desde 23/07/2011

    Não sei o que está acontecendo com a Porto da Pedra, pois haviam prometido a divulgação do enredo para o dia 18/07/2011, e até hoje dia 26 nada de manifestação por parte dos diretores daquela escola, isso é preocupante, mas há umas postagens, que estão dizendo que a Porto da Pedra, poderia reeditar o enredo Ratose Urubus da BF de 1989, se isso se concretizar, só tenho uma palavra para expressar: Lamentável!

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    26/07/2011 09:16:42Lady Dholores ArrudaMembro SRZD desde 18/10/2010

    Dalton, querido, um abracinho pro cê. Não desaparece, mô bem!

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    26/07/2011 00:35:58João PauloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Bomba! Com todo respeito a Porto da Pedra, mas penso que se a escola não divulgar logo o seu enredo vai se lascar de vez.

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    25/07/2011 14:57:18RogérioMembro SRZD desde 26/05/2009

    Esse enredo nas mãos de Rosa será lindo só lamento ver a escola nesse horário, quem deveria estar nesse horário era a velha Mangueira que tem um enredo super leve, afinal quem nunca saiu atrás de um bloco de carnaval pela manhã? Seria ver a Mangueira fechar com chave de ouro os desfiles de domingo. Quanto a Porto reeditar esse samba eu não acho que vai comprometer a escola em um ano que temos São Clemente e Renascer que a meu ver são mais fracas, esse enredo Ratos e Urubus na visão de hoje pode ser mais uma vez inovador sem necessariamente precisar fazer um Cristo coberto.

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    25/07/2011 12:56:04DANIELMembro SRZD desde 21/07/2009

    Sinopse bem elaborada nunca foi sinônimo de desfiles perfeitos. Muitas coisas implicarão para o desfile de 2012, entre elas: a vontade dos componentes da atual campeã, aliado ao esmero e qualificação de dertalhes que a escola vem trabalhando, isso tudo, aliado ao maior recurso da escola, que é o seu chão; o ânimo e a competência do carnavalesco da Grande Rio, entre n fatores que a qualiifica; o chão da mangueira e a vontade que a escola demonstra em fazer um desfile com qualidade. O indicativo é que teremos essas três escolas, na ponta do carnaval de 2012.

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    25/07/2011 10:40:08DaltonMembro SRZD desde 01/06/2010

    Como é cansativo ler esse texto! ....Apesar de ser bem explicadinho (bem explicadinho até demais) , o texto é longo, não se resume e seria mais apropriado um texto bem mais reduzido e dinâmico. Que o desfile não siga o caminho desssa sinopse, se não será um desfile enfadonho, chato e cansativo em torno das sete da manhã de segunda de carnaval. Tudo bem que Rosa é uma notável pesquisadora de seus enredos, mas vamos ser sinceros: esse texto esta até cultural, mas esta chato.. ...No outro assunto aqui citado, caso a Porto da Pedra venha mesmo a reeditar o clássico "Ratos e Urubus", carnaval inesquecível do Joãsinho e da Beija-Flor. Isso tenderá a não ter um bom resultado, pois Szaniceki não é nem 5% do que é Joãsino Trinta, e usará esse enredo para justificar o péssimo nível de acabamento nas alegorias, coisa muito comum nos carnavais feitos por esse polônes.

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    25/07/2011 09:23:58MAJESTADE DO SAMBAMembro SRZD desde 27/06/2011

    BOMBA!!!! A Porto da Pedra vai reeditar o enredo "RATOS E URUBUS LARGUEM MINHA FANTASIA" Da Beija Flor no carnaval 2012!!!!

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    25/07/2011 08:26:11julio_sanMembro SRZD desde 13/04/2009

    A Rosa é a Rosa e, esta sinopse não deixa a menor dúvida que a Vila vem forte. Ai que saudades! Saudações leopoldinenses.

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    24/07/2011 23:52:14Mineirinho vdgMembro SRZD desde 05/07/2011

    Bomba!!! sé isso for confirmado a Porto da Pedra ja caiu . que falta de creatividade !

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    24/07/2011 21:36:15MAJESTADE DO SAMBAMembro SRZD desde 27/06/2011

    BOMBA!!!! A Porto da Pedra vai reeditar o enredo "RATOS E URUBUS LARGUEM MINHA FANTASIA" Da Beija Flor no carnaval 2012!!!!

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    24/07/2011 20:17:26SávioMembro SRZD desde 05/07/2011

    Uma sinopse completa e bem expicativa, e com cara que dará um ótimo desfile para a Vila Isabel. Com relação aos comentários de que a Porto da Pedra irá reeditar o enredo Ratos e Urubus de 1989 da BF, se isso for verdade será uma lástima.

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