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14/09/2011 15h48

Carnavalesco volta à Escola Pega no Samba
Adiel Carteiro Poeta *

O carnavalesco Alex Santiago começou no carnaval capixaba assinando junto com o Osvaldo o desfile da Imperatriz do Forte, em 2008. Aquele foi um ano de aprendizado e de muita dificuldade para pôr a Escola na avenida, principalmente, pela falta de recursos financeiros.

Em 2009, ele foi o carnavalesco da Unidos da Piedade, realizando um trabalho primoroso que tirou a Escola da última colocação, sendo considerado o melhor carnavalesco do ano, apesar da quarta colocação.

Foi com esse Carnaval que as portas de outras escolas se abriram e Alex Santiago recebeu inúmeros convites, tendo optado em defender as cores da Azul, Vermelho e Branco, do bairro Nossa Senhora da Consolação: a Pega no Samba.

Após uma passagem frustrada pela Unidos de Barreiros, em 2011, ele volta a assinar o desfile da Pega no Samba em 2012 com o enredo: "NÉS QUE AQUI ESTAMOS POR VÉS ESPERAMOS", acreditando na força da Escola.

Foto: Divulgação 
Confira a entevista com o carnavalesco, no formato perguntas e respostas.

Como surgiu a ideia de falar sobre a morte?

Na realidade, minha primeira ideia era fazer um enredo saudosista, que falasse da boemia, de Vitória, do porto, da vida noturna... Que tinha como título VEM - O ESPÍRITO SANTO TEM PRESSA, iniciando no período da Ditadura Militar; passando pelo tropicalismo; a construção da Companhia Vale do Rio Doce; o deslocamento dos bordeis do Bairro de Caratoíra para Carapebus - na Serra, e a política de desenvolvimento do Estado do Espírito Santo que adotou esse slogan como propaganda.

Logo após uma conversa com o professor Walace, que é historiador e um estudioso do Carnaval a quem sempre procuro orientação para começar a revisão bibliográfica do enredo, ele falou de muitas coisas sobre essa proposta, discutimos sobre o enredo que fizesse a diferença e como escolher o tema que mexesse com todo mundo, despertando curiosidade. Por fim, ele me instigou com um título - NÉS QUE AQUI ESTAMOS, POR VÉS ESPERAMOS. Por que não falar da história dos cemitérios e o espetáculo que os enterros podem proporcionar?

"Existem pessoas que ficam muito tempo sendo veladas, como foi o enterro de Michael Jackson - aí a morte vira um espetáculo e é pura mídia. Tem pessoas que fazem um caixão em forma de guitarra, carro entre outras coisas", despertou-me o professor. 

A princípio fiquei meio chocado com a ideia, pois era um tema muito surrealista e não tinha algo concreto para ser mostrado, pois o carnaval é um espetáculo da beleza. Como eu poderia falar de algo tão feio que é um cemitério, um enterro e a própria morte em um enredo?

Daí surge a ideia: por que não procurar a beleza em algo que supostamente possa parecer tão feio? E vem outra argumentação: muitas vezes um enredo é tão belo e não funciona na avenida. Como poderia levar um enredo competitivo e criativo, mas falando sempre das mesmas coisas? Realmente, o enredo teria que causar um choque, e à medida que ele fosse sendo pesquisado, abrisse novos horizontes. Aí sim, pensei! "Certo, acho que poderia falar da morte." Iniciei a pesquisa, mesmo sem ter uma escola definida. Caso não fosse aprovado, guardaria e quando tivesse oportunidade apresentaria no Sambão do Povo ou em outro estado.
 
O que levou a transformar a morte em um Enredo?

Logo de início, a história da morte é algo muito misteriosa, não sabemos o início e nem o fim, e principalmente o meio. Procurei orientação com alguns ex- professores de História da Arte, na UFES( Universidade Federal do Espírito Santo),  e também uma psicóloga  - até mesmo para sabe ser não estava ficando louco. E então falei de minha ideia. Eles me orientaram com algumas bibliografias e também a falar com diferente profissionais, pois cada um vê a morte de uma forma diferente e que eu teria que descobrir algum um estudioso, um cientista para ter a base teórica, pois era um tema dificílimo e muito complexo, e poderia cair no senso comum de se fazer um enterro na avenida. Mas, pelas minhas idéias iniciais dava o que falar e um excelente enredo.

Pensei então "não vai ser fácil". Na realidade li quatro livros: O CORPO TORTURADO, A VISÉO DA MORTE AO LONGO DO TEMPO, A VISÉO SOCIOLÉGICA DA MORTE, O LIVRO DOS MORTOS NO EGITO. Fiz também várias pesquisas na internet e artigos sobre a arte e a morte.

Daí, sabia o que eu não queria levar para a avenida e para finalizar fui conversar com um amigo que é padre e filósofo, e ele falou sobre várias passagens da bíblia que poderia me orientar para compor a ideia geral do enredo. Assim começou a pequena semente a germinar e crescer, e quando vi, estava agarrado e tão centrado no enredo que tudo conspirava em favor dele. Por fim, peguei a teoria de Lavoisier, que fala que na natureza nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma; a teoria de Charles Darwim e Lamarck - o evolucionismo, algumas passagens bíblicas, o hinduísmo, e a cultura da morte.

Conclui que falar da morte teria que primeiramente falar da vida, pois a vida e a morte são dons que não podemos viver sem eles, estão ligados internamente. É preciso existir a morte, como também é preciso existir a vida, e a beleza da morte está na beleza da vida, pois uma coisa precisa dar lugar a outra para poder existir. Daí sim, a morte é um bem necessário.

A própria filosofia precisou sair da caverna e se projetar para o mundo, precisou morrer o homem pré-histórico e nascer o homem intelectual. Precisamos do cair das flores do inverno para festejarmos a primavera. Se não existisse a queda da semente, nunca nasceria uma árvore? Sem a lagarta quando nasceriam as borboletas? Sem a matéria orgânica como poderíamos nos alimentar? Precisamos todo dia nascer toda manhã e morrer no fim do dia com o sol.

O próprio carnaval é um ritual de morte, o enredo nasce na pesquisa, cresce na produção das fantasias e do figurino e morre na avenida quando é apresentado. Bastante irônico, não acha? Esse enredo não é como aqueles que você está habituado a assistir, é uma espécie de crônica, existe uma preocupação cronológica em apresentar o verdadeiro sentido da vida em consequência do sentido da morte, ele não tem começo, um meio e um fim, é como se fosse peças soltas, juntas pela existência, fazendo sentido na história. Ele começa quando começa quando você começa a assisti-lo, e ao sabor do acaso, ele vai se modificando, ganhando outro sentido, juntando fatos e acontecimentos que separados são apenas momentos, mas interligados fazem parte da biografia da humanidade.

Como foi à aceitação do tema dentro da Escola?

Desde que expliquei o enredo, a possibilidade de viajar pela história da humanidade, sua complexidade e o seu objetivo que é celebrar o show da vida, o presidente e a diretoria eles apoiaram a ideia, sem nenhuma objeção. Todos estão dentro do projeto e trabalhando ao máximo para realizarmos um grande espetáculo em 2012.

Como será desenvolvido o enredo?

Em seis setores, com cinco carros alegóricos e seis tripés. Com um total de 1500 componentes e 21 alas.

O que deseja e espera do enredo em ensinamento cultural para todos que assistirão o desfile da Pega?

Como sempre falo, não tenho mão no futuro, se pudesse ver além daquilo que é hoje corrigiria ainda mais os meus erros. Estou jogando várias moedas no poço da esperança para tentar conquistar o título.

Mas também afirmo que muitas vezes vencemos perdendo e perdemos ganhando. É meio complexo, pois o show que gostaria de proporcionar no Sambão do Povo não está ligado apenas ao título, mas na superação dos limites, na busca de novos conhecimentos, no crescimento de meus projetos de Carnaval, na busca pela autonomia, em realizar algo que realmente surpreendam a todos, que esperam o contrário e realizar algo belo em um tema supostamente feio. Este ano precisei morrer por dentro e renascer com uma nova visão de vida e de como construir no meu modo de ser um artista voltado para o Carnaval. E essa vitória é única, e ninguém me tira, então acho que já comecei vencedor. O resto vem a ser consequência.

Deixe uma mensagem para a Comunidade da Consolação.

Estamos trabalhando bastante e contamos com a colaboração de todos que gostam do GRES Pega no Samba. Uma Escola não se constroi sozinha, ela precisa do povo e esse povo que a cada ano enche o coração de esperança para ver e desfilar com a Pega majestosa na Avenida. Em 2012 não ficarão decepcionados, mas sim, orgulhosos, por ajudar a construir um belo Carnaval.

* Colaborador do SRZD-Carnaval - Adiel Carteiro Poeta


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Comentários
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    21/09/2011 12:30:53wanderley Gomes dos SantosMembro SRZD desde 26/08/2011

    Sábias palavras do carnavalesco Alex, desejo um ótimo carnaval e já estou super curioso para ver o trabalho na avenida.

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    16/09/2011 15:12:01Luiz FelipeAnônimo

    Gostei muito da entrevista. espero que o Alex faça um grande carnaval na Pega no Samba em 2012, confio nele desde o carnaval de 2010, no qual, tirou a agremiação do buraco e colocou-a na terceira posição!

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