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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



05/12/2011 13h05

Passistas Masculinos: os Dândis do samba
Hélio Ricardo Rainho

"É na ginga bonita que o samba tem / Quem não tem ginga, no samba não se dá bem"
[Ataulfo Alves]

"Olha a roda de malandro / Quero ver quem vai cair / Capoeira vai plantando / Pois agora vai subir / Poeira oi, poeira / O samba vai levantar poeira"  
[Portela 71 - Ary do Cavaco - Rubens]

Foto: Ary DelgadoComo todo estilo musical rico e contagiante, o samba possui uma dança espontânea, contagiante, anímica. A trajetória das escolas de samba é legitimada através da história pela presença do elemento que personalizou, nos desfiles, a magia e o encanto desse gênero. Muito antes de introduzir os elementos cenográficos à performance dos desfiles, o personagem fundamental para caracterizar um "desfile" era o sambista. Sabia-se que "vinha uma escola de samba" quando se via um grupo de componentes integrando um corpo de dança, livre e espontâneo, ganhando espaço na avenida.

Sem querer aqui aprofundar muito a pesquisa sobre a dança do samba, que exigiria uma pesquisa mais concisa, podemos afirmar que, em linhas gerais, a dança que passou a caracterizar o gingado dos passistas na escola de samba é oriunda das rodas de malandragem, dos "malandros-capoeira" que apresentavam, com estilo, movimentos acrobáticos do velho "jogo de Angola" coadunados com as demais tradições folclóricas do bailar africano.

O samba está diretamente relacionado ao biótipo do malandro. É bom lembrar, inclusive, que o sambista do início do século passado foi considerado marginal e perseguido pelas autoridades - que autuavam seus praticantes sob acusação de "vadiagem" - justamente pela inspiração dos sambistas na figura longilínea e elegante dos ternos e sapatos brancos, lenços de seda e chapéus de panamá utilizados pelos milongueiros da Lapa. A exemplo dos dândis da literatura (e, por isso, eu os chamarei de "dândis do samba"), os malandros da antiga flanavam nas ruas com aprumado senso de elegância e requinte muitas vezes incompatível com sua classe social menos abastada: sobravam-lhe zelo pelos trajes, pelas roupas sem nervuras ou amassos, pelos cabelos gomalinados, perfume marcante, cordões e anéis de ouro, unhas feitas e o chamado "pisante invocado" (sapatos irrepreensivelmente lustrosos).

Foi deles, dos malandros originais, dândis elegantes do samba, que surgiu a classe dos passistas masculinos nas escolas de samba. A dança masculina do samba (do mestre-sala ao passista) tem no malandro a sua fonte. E é bom lembrar que essa referência ao "malandro" só adquiriu contornos religiosos ou espirituais com o passar dos anos: era preciso que, primeiro, surgisse o "malandro" personagem (do samba) para que, só a partir dele, pudessem ser gerados a mitificação e o culto às entidades normalmente associadas a esse personagem "desencarnado". Enfim, é uma discussão à parte, apenas citada aqui.

É de se lamentar profundamente que o sistema massificante e totalizador das transmissões de televisão, além de outros fatores usualmente legitimados pela lógica de pontuação dos quesitos, tenham indiretamente afastado os verdadeiros "donos da ginga" de sua posição original na avenida. Pouco destaque se dá para os artistas do samba no pé, do bailado autêntico do samba. Desde meados dos anos 70, quando o desfile passou a ser considerado um produto cultural de maior aceitação pelas classes abastadas, as escolas de samba passaram a receber um sem número de elementos estranhos às suas comunidades locais. O boom incessante das alas comerciais vendendo fantasias para estrangeiros foi transformando, pouco a pouco, os desfiles em passagens de "componentes", não de sambistas. O cronômetro da televisão só agravou essa "necessidade".

Hoje, em vez de um contingente de passistas com alas de componentes, as escolas de samba desfilam na avenida como um contingente de componentes... que "até têm" (como se fosse um mero detalhe ou favor) uma ala de passistas! Escondidos, separados, como se fossem uma atração distinta. Muito embora soberanamente aplaudidos na avenida, muitas vezes sequer ficam posicionados próximos à bateria da escola. Um contrasenso, visto que essa proximidade é de fundamental relevância para os dançarinos autênticos do samba que, como se diz no jargão das quadras, "riscam o chão" com a leveza e a riqueza de seus movimentos.

A passista masculina, na grande mídia, praticamente restringe-se à madrinha de bateria. Que pode ser uma atriz de novela das oito ou qualquer outra musa que chegue à escola com vultosa verba de patrocínio para injetar na escola. A amiga querida e também companheira de texto no site, Quitéria Chagas, autêntica sambista e rainha do carnaval, já comentou com muita propriedade as nuances desse assunto. Chega a ser risível, aos que vivenciam uma escola de samba, ver numa transmissão de tevê o fuzuê dos repórteres atrás de uma artista à frente da bateria, quando, na quadra, muitas vezes aquele personagem é considerado abaixo dos méritos e mesmo da atenção das verdadeiras sambistas da agremiação. De qualquer modo, a mulata - a figura feminina do samba no chão - ainda consegue mais espaço na mídia justamente em torno da figura de seu corpo e atributos físicos, muitas vezes mais explorados nas imagens do que efetivamente a riqueza de sua dança.

E o passista masculino? E os malandros maneiros, os príncipes do samba? Os dândis do desfil, porta-vozes da elegância... onde ficam, afinal?

Não quero citar nomes, que seriam muitos de uma tradição "milenar" no samba, para não cometer injustiças. Mas lembro da Estação Primeira de Mangueira talvez como a última escola a colocar um passista no alto de um carro alegórico, com o saudoso Gargalhada dando shows com seu pandeiro, ao lado da cantora Rosemary.

Em nosso seminário recente na PUC, tive o prazer de compor uma mesa específica para falar de samba no pé com ênfase na figura do passista masculino. Mesa abrilhantada pelas presenças gloriosas dos dândis príncipes do samba Valci Pelé (Portela) e Carlinhos do Salgueiro. O coreógrafo salgueirense trouxe o auxílio de luxo de dois pupilos: Thiago "Malandrinho" e Mayombe Masai. Deram um show no evento e são, de fato, encantadores!

Pode ser que muita coisa tenha mudado no carnaval, que a modernidade tenha alterado muita coisa na dinâmica dos desfiles de escola de samba.

Mas nada consegue modificar a estranha energia, a contagiante paixão, o fluxo de emoção que vem aos olhos quando chega à avenida aquela ala encantadora - mesmo em espaço muitas vezes restrito -  de malandros e mulatas elegantes, dândis e cabrochas, sambando numa dança solta e alegre que vem da alma.

É a eles, aos dançarinos genuínos do samba, aos estetas de dança singular, de Delegado e Dionísio, Gerônimo e Tijolo, Machine e Gargalhada... a essa constelação infinita de bailarinos da avenida, que dedicamos  o carinho e o reconhecimento neste espaço!

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Comentários
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    09/12/2011 11:05:12Celso luizMembro SRZD desde 09/12/2011

    malandro que era malandro botava banca na Presidente Vargas...infelizmente não temos mais MALANDROS para botar banca na avenida e quando o assunto é samba no pé fica mais difícil ainda,o passista nada mais é que um personagem,e por ser esse personagem deveriam interpreta-lo muito bem,ou seja,com muita malandragem,são poucas as escola que aderem esse estilo,antigamente não tínhamos na avenida passistas e sim MALANDROS e CABROCHAS,cadê todo esse povo que não vemos mais...o MALANDRO está extinto da Lapa e da avenida,mas ainda se rodarmos por ai encontramos alguns,como por exemplo Celynho Show da Mangueira,adoro o seu samba de malandro,sua performance,o cara é o cara na malandragem do samba,fica aqui o meu depoimento em relação a passistas masculinos,desde já muitíssimo obrigado

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    08/12/2011 18:53:10HRMembro SRZD desde 26/01/2010

    Ninguém pode duvidar de que esse genial Carlinhos do Salgueiro é, hoje, uma das maiores estrelas de primeira grandeza da festa do carnaval. Como estudioso, dedico a ele um capítulo especial: ele transcendeu a ginga do malandro e transformou-se em um artista versátil, capaz de representar diversos personagens com vigorosa dramaticidade e grande eloquência teatral. Carlinhos interpreta o malandro milongueiro, o Madame Satã inzoneiro e é capaz de viajar do masculino ao feminino com a mesma raridade de um cantor que alterna graves e agudos. Não é nada fácil fazer nem entender o que ele faz! Ele näo samba como homem nem como mulher: ele samba como CARLINHOS! Ã? bom que se saiba: isso näo é estilo nem gênero...é grife mesmo! E é grife de luxo!!!

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    08/12/2011 16:03:07Fernanda SantosMembro SRZD desde 08/12/2011

    Não tenho nada contra as biba até porque um dos meus melhores é... mais desde de pequena vi meu pai sambando marrento cheio de malandragem rodando pandeiro no dedo (rsrsrsrsr) e hoje além de dos passistas desfila em ala, os caras samba igual as mina com os braços espalhado borboletando. Acabou aquela parada do passista malandro, mais o samba do tempo do meu pai também mudou. Viradouro campeão 2012!

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    07/12/2011 08:10:34Milton dos Santos Batista JrMembro SRZD desde 12/05/2009

    Ralmente, ver um homem sambando como uma Globeleza é ridículo. Passista mesmo é malandro, sapato bicolor, calça engomada, chapéu panamá camisa listrada ou, como diria Paulo da Portela, "pescoço coberto" (gravata).

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    06/12/2011 13:53:25HRMembro SRZD desde 26/01/2010

    Agradeço as interações e gostaria, apenas, de ressaltar um fato. Minha proposta, com a postagem deste texto, foi ressaltar a importância do passista masculino no samba e dar-lhe, nesta mídia, o espaço que lhe é negado em praticamente todas as demais. Todo mundo fala do compositor, do mestre-sala, do intérprete (que, com licença do mestre Jamelã, pra mim é orgulhosamente "puxador" quando comanda a escola na avenida). O passista fica oculto. Reslvi abrir espaço para ele, por sua gloriosa relevância no samba. Seja ele dono da performance que for, tendo ou não alguma característica peculiar ou diferenciada. A imagem da matéria, escolhida pela editoria do site, mostra uma performance de um líder de passistas seguido, atrás, de sua ala. Conheci Carlinhos pessoalmente, ouvi a história de sua luta, de sua afirmação dentro do samba er dentro de sua escola. Ã? louvável o esforço de cada componente em busca de seu espaço. Mais do que atenuar quaisquer controvérsias, considero de fundamental importancia aproveitar o raro espaço que se dá para destacar e enaltecer a arte dos passistas masculinos - que não caberiam todos aqui, em fotos ou citações - mas que são todos dignos de respeito, homenagem e preservação de seu trabalho para a memória legítima do samba. Obrigado a todos e sigamos nesse luta! Mais união e menos dissensão... esse é o melhor caminho!

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    05/12/2011 21:27:32danilo rosaMembro SRZD desde 21/05/2010

    Quando se fala em samba de malando não se pode citar determinados passistas pois mas que eles sejam famosos, pois tem por ai varias ..com samba de mulata......

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    05/12/2011 17:12:30ClovisMembro SRZD desde 07/04/2009

    Carlos foi perfeito..parabéns..tem escola que quando passa eu falo: só tinha passistas femininas..cade os masculinos????kkkkk Agora está de parabéns tbm o Carlinhos, esse passista do Salgueiro que veio de Madame Satã a frente da CF do Salgueiro, deu um verdadeiro show.

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    05/12/2011 15:26:27mauricio TijucaMembro SRZD desde 30/11/2009

    Carlos, falou tudo em poucas palavras.......

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    05/12/2011 14:55:16Mr.BrunnerMembro SRZD desde 01/07/2009

    Parabéns Carlos....Sábias palavras!

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    05/12/2011 14:47:46Carlos M. SoaresMembro SRZD desde 16/08/2011

    Só existe um problema...O que se deve valoriza é o passista que coloca no pé a ginga e a malemolência do malandro sambista...O "Zé" da Lapa , os partideiros que buscavam seduzir as cabrochas...Os passistas de hj, na sua maioria querem desbancar as passistas femininas, sambando como mulher, rebolando com plumas e paetês, não merecem ese título... O cara pode ser homossexual, mas deve entender que o passista é um personagem masculino e ele deve interpretá-lo, em roupas e gestos.

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