SRZD


24/02/2012 11h27

Praça Onze
Hiram Araújo

O primeiro desfile oficial da escola de samba foi na Praça Onze, no dia 07/02/1932.

Local dos desfiles: Praça Onze (sentido Senador Euzébio, Marquês de Pombal e Visconde Itaúna). Patrocínio: Jornal O Mundo Esportivo

Escolas de samba inscritas: 19

Comissão julgadora: Casal Álvaro e Eugênia Moreira; José Lira; Orestes Barbosa; Fernando Costa; Raymundo Magalhães Júnior; J. Reis.

Classificação:

1º Mangueira; 2º Linha do Estácio e Vai como Pode (futura Portela); 3º Para o Ano Sai Melhor; 4º Unidos da Tijuca.

Obs.: A comissão julgadora ficou instalada em um coreto em frente à Escola Benjamim Constant, na Rua Marquês de Pombal.

De meados de 1700 a meados de 1800, tratava-se do Rossio Pequeno, também chamado inicialmente São Salvador (logradouro junto aos mangues, onde a população lançava os diversos detritos). Com a abertura do Canal do Canal do Mangue e a urbanização da área, o Rossio Pequeno transformou-se num jardim público, arborizado de casuarinas e arvores frondosas, em cujas sombras se abrigavam bancos, por entre canteiros floridos. Ao centro, se destacava um chafariz em forma de cálice, concepção e risco original do arquiteto francês Grandjean de Montigny (tal chafariz agora encontra no Alto da Boa Vista). Conta-se que tudo isso teria se passado em 1846 e, portanto, quando o lugar se chamava ainda Rossio Pequeno.

Pela vitória da Marinha Brasileira na batalha do Riachuelo, durante a Guerra do Paraguai, por decreto da Câmara Municipal, foi dado o nome de Riachuelo à Rua Mata Cavalos e ao Rossio Pequeno, o nome de Praça Onze de Junho, tudo em 1865. As populações mais pobres de brancos, negros e mestiços, chegados dos Engenhos da Bahia e de Minas, e também os estivadores do cais do porto. E ainda mais os despejados dos prédios demolidos no centro, pelas obras de Pereira Passos, toda essa gente, enfim, foi migrando para a Cidade Nova e arredores da Praça. A Praça Onze era ainda o centro de reuniões dos foliões no carnaval. Negros e mestiços baianos, e descendentes, vinham da Saúde,pela Rua da Imperatriz (atual Camerino) até o Largo de São Domingos (entre as ruas São Pedro e General Câmara, hoje Avenida Presidente Vargas, na altura da Avenida Passos), lugar onde se realizava o desfile de ranchos, diante da Lapinha de Tia Bebiana.

E rancho que não passasse pelo Largo de São Domingos, era como se não tivesse saído no carnaval; as raízes folclóricas eram cultivadas e resguardadas ao máximo pelos ranchos daqueles tempos.

Na virada do século XIX para o século XX, a baiana Tia Ciata mudou-se da Rua da Alfândega, 304, para as ruas de São Diogo e do Cajueiro, e depois para o número 117 da Rua Visconde de Itaúna, na região que fica ao norte do Campo de Santana, em frente à Praça Onze. Aí se encontrariam freqüentemente os músicos, poetas e ritmistas e, bem assim, as vozes femininas da música de então. Esse endereço passaria à História como a casa onde nasceu o samba carioca.

Com a Avenida Central (aberta em 1907), vieram as fantasias estilizadas, os desfiles dos préstitos e dos ranchos e o fabuloso corso de automóveis conversíveis, de capotas arriadas. Estava polarizado para o asfalto o carnaval da classe média e das elites. Enquanto isso, os foliões oriundos das classes sociais menos favorecidas, as quais habitavam as cabeças-de-porco do Centro, nas casinhas de porta e janelas da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e

Cidade Nova, nos subúrbios da Central e primeiras favelas, todos esses faziam o carnaval dos pés descalços da Praça Onze. Os negros predominavam na área, impondo seu ritmo, sua dança e sua cultura, e Heitor dos Prazeres, também de cor, dublê de compositor e pintor primitivista, costumava dizer que "a Praça Onze era a África Mirim".

Nos dias de hoje - pode-se dizer - a Praça Onze é limitada pelas ruas de Santana e Marquês de Pombal, ambas chegando à Avenida Presidente Vargas pelo lado esquerdo, mas não atravessando a citada avenida de fora a fora. É desse local em diante que o Canal do Mangue passa a correr sob a pista de rolamento da Avenida Presidente Vargas, até desaguar na Praça XV.

Há quase meio século, porém, antes que a nova e larga avenida chegasse, duas ruas daqueles tempos marcaram a Praça Onze:

- Rua Visconde de Itaúna, limitada pelo Campo de Santana e pela Rua Marquês de Pombal, e que era cortada pela Rua General Caldwell. Ela seguia pela esquerda, paralelamente à atual Presidente Vargas, formando então o lado esquerdo da Praça, entre as ruas de Santana e Marquês de Pombal;

- Rua Senador Euzébio, partindo da Praça da República, seguia pelo lado direito da Presidente Vargas, na direção da Praça da Bandeira.

Ambas as ruas - Visconde de Itaúna e Senador Euzébio - tiveram suas construções demolidas, cedendo lugar à nova Avenida Presidente Vargas.

Mas a Praça Onze, até 1942, constituía-se no quadrilátero formado pelas ruas:

- Marquês de Pombal

- Santana

- Visconde de Itaúna

- Senador Euzébio, onde se destacava ao fundo a Escola Benjamin Constant, que nos carnavais cedia sua escadaria à comissão julgadora das escolas de samba.

Atualmente, a Rua Senador Euzébio fica entre Botafogo e Flamengo, com entrada pela avenida

Oswaldo Cruz; a Rua Lauro Muller (que no passado foi a continuação da Visconde de Itaúna) se encontra agora ao lado do Túnel novo, passando por detrás da casa noturna Canecão, indo terminar na Avenida Pasteur.

A Praça Onze se constituiu numa prazerosa área de lazer, onde as famílias vinham passar os domingos e as crianças das redondezas brincavam durante todo o ano. Surgiu desde logo uma vida boêmia e musical muito intensa, de classe média baixa. E a massa de carnavalescos era muito diferente daquela que se divertia nos bailes e no corso da Avenida. Na Praça Onze - pode-se dizer - a alegria era uma constante e, por isso, nos sobrados nasceram as primeiras gafieiras e os clubes dançantes. A propósito: em janeiro de 1990, foi exibida pela TV Manchete a novela Kananga do Japão, fantasiando a história de um clube dançante da década de 30, desaparecido com a chegada da Avenida Presidente Vargas, em 1942.

É de se destacar também, como grande atração da Praça Onze, a existência das cervejarias, com suas garrafas bojudas de cerveja preta, acompanhadas de tremoços. E não se pode esquecer também os cinemas e bares que existiam nas décadas de 1920 e 1930, quando a praça viveu o melhor do seu esplendor.

Finalmente, Herivelto Martins e Grande Otelo imortalizaram a Praça do Samba Praça Onze gravado pelo Trio de Ouro (Nilo Chagas Oliveira e Herivelto Martins), para o carnaval de 1942.

Nesse ano, vinte e oito escolas de samba desfilaram no último adeus à

praça tão querida.

"...E algum dia

nova Praça nós teremos

e o teu passado cantaremos."


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Comentários
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    24/02/2012 19:22:35Luis Carlos Magalhães de Souza RibeiroMembro SRZD desde 26/06/2009

    Dr. Hiran. Na mosca! Ainda tenho uma semana de férias. Meu projeto era pesquisar e-xa-ta-men-te o conteúdo da parte final de seu texto para o curso que vou dar na FACHA. Só faltava isto. Show de bola. E o melhor é que vou poder curtir uma semana de férias. E aviso que vou copiar descaradamente sua pesquisa para passar para meus alunos. Com todo crédito e com todo respeito, claro! Luis Carlos Magalhães

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    24/02/2012 16:52:56Alsan MatosMembro SRZD desde 08/04/2009

    Mummy returns

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