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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



27/02/2012 00h36

O Carnaval da paradona
Rachel Valença

Quem gosta de carnaval adora novidade. A cada ano um fato marcante rouba a cena e se torna a marca registrada do carnaval. Quem não se lembra que 2008 foi o carnaval do Wilson? 

As comissões de frente do carnavalesco Paulo Barros têm desempenhado este papel nos últimos anos, saciando a sede de novidade que acomete o público no desfile: querem samba, mas não apenas samba. É preciso um algo mais, que Paulo Barros tem conseguido prover com talento e criatividade.

Mas em 2012 não teve pra ninguém: só se fala na paradona da bateria da Mangueira. É ela o principal ponto de polêmica deste ano de tanta mesmice, a começar pelos enredos coincidentes de algumas escolas.

Foto: Wilson Spiler

A Mangueira amargou uma modesta sétima colocação e por incrível que pareça ficou fora do desfile das campeãs. Apesar do enredo promissor e do samba animado, não deu. Mas o fato é que, ainda assim, mais uma vez é o principal assunto das rodas de comentários sobre o desfile deste ano.

Seu presidente talvez tivesse consciência de que, não podendo oferecer um espetáculo à altura das coirmãs mais poderosas, devia aos torcedores da escola alguma coisa diferente, que a pusesse no centro das atenções. Não seria campeã, porque lhe falta estrutura financeira e administrativa para isso. E, antes que lhe apontassem os inúmeros defeitos de um desfile tecnicamente claudicante, deslocou o foco das atenções para a novidade. Tal como homem que voa, como mar que se abre, como cabeças que se descolam do corpo, a novidade não precisa necessariamente ter a ver com samba. E surgiu a paradona. 

Quando se falar da Mangueira 2012, ninguém certamente vai lembrar das fantasias ruins, dos carros pobres e mal-acabados e de uma certa confusão no deslocamento. Mas todo mundo vai lembrar a paradona. 

Mas afinal o que é a paradona? É uma paradinha com duração surpreendentemente prolongada. A paradinha foi criada por Mestre André, da Mocidade Independente de Padre Miguel, no final da década de 1950, dizem que por acaso, para disfarçar um tombo que levou à frente da bateria, que o susto fez parar. A partir daí, bateria que se preza tem que fazer firulas e convenções. Em apresentações, ensaios e shows essas paradinhas fazem grande sucesso. No desfile são pura exibição de virtuosismo, já que, como sabemos, a função primordial de uma bateria é dar sustentação rítmica ao canto e ao deslocamento da escola. 

A cada ano as paradinhas se estendem e se complicam e a gente se perguntava onde é que tudo isso ia parar. Este ano veio a Mangueira e mostrou, fazendo sua paradinha durar um período tão longo que o canto da escola pôde sobressair de forma interessante, acompanhado pelo som de um pagode de mesa, com seus instrumentos característicos, que ocupava um dos carros alegóricos, numa alusão não ao Cacique de Ramos, seu enredo, mas ao Grupo Fundo de Quintal, cujos componentes são exatamente os fundadores do bloco homenageado.

Foto: wilson Spiler

Só que o público não conseguia ouvir o pagode, precariamente amplificado, de modo que a primeira interrupção, problemática, soou mais como uma falha do sistema de som do que como uma bossa. A repetição acabou por fazer entender que a "falha" ocorria de maneira sistemática, dentro de uma lógica melódica, e aí já não se cantava mais o refrão para ajudar uma escola supostamente prejudicada pelo som da Avenida, mas sim para saudar a ousadia de uma novidade. 

A segunda paradona foi a que deu mais certo, pois o canto da escola correspondeu, surpreendeu, emocionou. A terceira fez atravessar o canto e parece-me que a partir desse pequeno desastre passou a haver uma voz-guia quando a bateria e o carro de som paravam, para evitar que a tragédia harmônica se repetisse. E parte da graça se perdeu.

Eu vi isso, muita gente viu e comentou. Inovar é sempre correr risco. A Estação Primeira assumiu o risco e - quer saber? - se deu bem. Porque, sem dúvida, o sétimo lugar não foi por causa da paradona. Eu ousaria dizer que, apesar da paradona, ela não conseguiu senão um sétimo lugar. Mas alcançou um dos sonhos de todas as escolas: ser mais notada e mais comentada que as outras.

As lições que tiramos desse episódio apontam mais uma vez para a conveniência de se ter na Avenida um som menos agressivo, que deixe um pouquinho de esforço para o componente, pois nada pode substituir a beleza de uma escola cantando a plenos pulmões um samba de qualidade. E mostram que a mesmice, a imitação e a acomodação não são boas companheiras de folia. Mesmo quando a novidade consegue resultados tecnicamente discutíveis, o povo do samba a acolhe com entusiasmo. Neste carnaval só deu ela, a paradona da Mangueira. 


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Comentários
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    03/04/2012 14:34:12Sou Mais Minha MangueiraMembro SRZD desde 03/04/2012

    A paradona é simplesmente o show da Mangueira

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    28/02/2012 15:14:43Paulo CesarMembro SRZD desde 18/02/2012

    Caro Marcus Cristiano! A minha opinião sobre a paradona foi baseada no regulamento que determina que a bateria tem que sustentar o canto. Se vc rever meu post vai ver que disse que considero a bateria da Mangueira a "MELHOR". Vc tem razão quanto ao último carro da Tijuca (acho até que tinha algum tipo de iluminação que falhou), mas ela mereceu o título. Qualquer uma das 4 primeiras que ganhasse seria merecido, embora minha opinião tenha sido esta: 1. Salgueiro, 2. Beija-Flor, 3. Vila Isabel e 4. Unidos da Tijuca. Também tem razão em relação a descriminação sobre algumas escolas (coloquei a Mocidade em 5º lugar e a União não teve nenhum 10 na bateria, Pode?), mas a Beija-Flor sempre arrebenta. Ela não precisa de desculpas como: Enredo sobre Roberto Carlos ou o Câncer do Neguinho (falaram que ela ganharia por isso e não ganhou) para ser campeã. Não sou torcedor da Beija-Flor. Como meu avatar mostra, sou União da Ilha (coloquei em 6º). Desfilei pela Beija-Flor em 2008 e fui campeão. Fiquei imprecionado com os ensaios na quadra. Como aquele povo canta. E na avenida não é diferente. Não precisa nem de paradinha ou paradona pra se ouvir a Escola cantar. Super organizada, coisa de profissionais. Voltando a Mangueira: Se ela ficou em 7º, imagina qual poderia ter sido sua colocação sem a paradona que vc aprovou...

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    28/02/2012 12:20:29Vinícius Ferreira NatalMembro SRZD desde 13/07/2011

    Particularmente não gosto da idéia da paradona não. Concordo que tenha de se valorizar o canto dos componentes, mas acho que isso pode ser feito de outra forma. Não gosto pois isso pode ser uma brecha para os mestres de bateria disfarçarem suas imperfeições ritmicas com as tais paradonas nas frentes dos jurados, além de perder a sustentação do samba. Minha humilde opinião querida Rachel!

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    28/02/2012 12:15:14AnderMembro SRZD desde 24/02/2012

    Ah, mas não funcionou mesmo! Eu estava no setro 11 e tive a mesma impressão que outros relatos aqui: de que era uma falha do som. Quem estava longe do carro em que estava a roda de pagode não entendeu nada. Pareceia que nem os componentes sabiam o que estava acontecendo. Nos refrões até se sentia um esforço de manter o samba, mas ao longo da letra isso não ocorria. O espectador de forma geral não sabe cantar o samba todo, normalmente só o refrão. Se o som do carro auxiliar estivesse conectado nas caixas da avenita talvez funcionasse perfeitamente, nem sei porque não previram isso...

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    28/02/2012 09:43:30MathiasMembro SRZD desde 23/02/2010

    NÃ?O DA PRA CONTER TAMANHA EMOÃ?Ã?O, tive a honra de nos anos 90 divulgar e desfilar no Cacique de Ramos juntamente com o amigo José Carlos (que lá esta até hoje) e lidar com alguns garotos que hoje são astros no mundo do samba, tais como: Dudu Nobre (que era apenas o irmão da Lucinha), Anderson Molejo, Gilmar PQD,Betinho,Gerson do Pandeiro,Renatinho Partideiro entre outros. O Presidente Bira dizia, esses garotos são o futuro do Cacique, e, acertou pois todos esses garotos ocuparam de alguma maneira espaço importante na MPB Parabéns, Cacique e Mangueira num só coração. Vem festejar . J.Mathias Velha Guarda da Império da Tijuca Presidente

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    28/02/2012 09:00:42David MacedoMembro SRZD desde 05/02/2012

    Embora tenha achado a paradona longa demais, acho legal essa intenção de valorizar o canto dos componentes, e dou os parabéns ao Ivo Meirelles pela ousadia que proporcionou o momento de maior emoção nesse carnaval. Lembro que em 2010 Mestre Marcone à frente da bateria da Imperatriz realizou uma parada onde só se ouviu o som do timbau e os componentes cantarem numa só voz um dos trechos mais lindos do samba: "Ã? Deus pai, iluminai um novo dia, guiai ao divino destino, seus peregrinos em harmonia". Nesse momento a bateria voltava. O casamento entre a bossa da bateria e o canto dos componentes nesse caso foi perfeito.

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    28/02/2012 00:26:24Rodrigo DarlanMembro SRZD desde 24/06/2009

    Não se tratou tão somente de uma paradona - foi um show dentro de outro show - a bateria pára para que o pagode comece. Se o pagode não chegou ao ouvido de todos , o problema não foi de quem estava no comando dele (alcione, dudu nobre, luizito entre outros...) e nem de quem deu a deixa (bateria e interpretes de Mangueira). O problema foi da aparelhagem de som da sapucaí que não deu conta do recado, aliás, não dá conta nem do feijão com arroz, o que dirá de uma feijoada desta!!! Ninguém afirmou que foi perfeito. Não foi. Não poderia SÃ?-LO. O mais belo disso tudo foi a participação do público que assumiu papel importante: Não deixar o canto atravessar e o público cantou alto, cantou bonito. E obs: o samba se quer era um dos mais populares do ano!!! GOL DE PLACA de MANGUEIRA!!!!!!!!!!! SENSACIONAL!!!!!!!!!!!!!!! Ã?NICA!!!!!!!!!!!!! E mais: Mangueira mostra que com ela a coisa é diferente: fantasia e alegorias é coisa para bloco realmente; e ela é uma ESCOLA DE SAMBA com letras maiúsculas!!!! VIVA MANGUEIRA!!!!!!!!!!!!!!! A Mangueira deu a luz em plena avenida!!!!!!!!!

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    27/02/2012 21:31:38Sempre CarnavalMembro SRZD desde 07/10/2011

    A "paradona" atravessou o samba da Mangueira, atravessou o samba!...Não gostei da "paradona", ficou uma coisa muito forçada, artificial!..Uma coisa sem beleza! Mil vezes a Vila Isabel e minha Portela!...Vila e Portela deram um show de harmonia, de canto e de emoção!

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    27/02/2012 20:33:50joacyrMembro SRZD desde 01/08/2011

    No final da passarela, onde eu estava, viu-se o 'vazio'. Todos os componentes ficaram com cara de tacho. Não cantavam e não evoluiam. Culpa do maldito carro de som que grita pra caramba (fora os puxadores gritões). Hoje o componente não se acha na obrigação de cantar, já que o som é 'ótimo'. Tire o som do Beija Flor, de Magueira (já vimos), do Salgueiro. Teremos um desfile digno de ser apresentado no Caju.

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    27/02/2012 20:14:01Mateus SchappoMembro SRZD desde 02/08/2011

    "ninguém certamente vai lembrar das fantasias ruins, dos carros pobres e mal-acabados..." QUE DESFILE VOCÃ? VIU... OS ANTERIORES, PQ FICOU BEM CLARO A MELHORA NA QUALIDADE DOS CARROS, MAS COMO VOCÃ? DISSE DEVE TER PRESTADO ATENÃ?Ã?O NO RESTO, E NÃ?O NA MELHORA DA PARTE PLÁSTICA, QUE AINDA FICOU A DEVER MAS MELHOROU MUITO. ESSE SEU ELOGIO A PARADONA ME SOA COMO UM DISFARCE PRA PODER METER O PAU EM OUTROS ASPECTOS... BLOGUEIRO, COMENTARISTA, CORNETEIRO, TODOS PODEM SER, JORNALISTAS SÃ?RIOS, NEM TODOS.

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    27/02/2012 19:55:19Marcus CristianoMembro SRZD desde 20/09/2011

    Paulo Cesar... A parada da Mangueira valeu, e muitoo! Não só como espetáculo, e porque ela não pode ganhar 10? A Grande Rio em 2010 fez uma firula danada com a bateria e foi punida apenas com 0.1 considerando o descarte. E se o jurado teve medo de puni-la, ela é apenas mais uma afinal isso ocorre todo ano com a Beija-Flor! E aquele ultimo carro da Tijuca esse ano mereceu 10? Só o carro do barro o Abre-Alas e mais um ou outro mereciam nota máxima(perdeu 0.1,agora vai dar as notas que eles deram pra Mocidade, Mangueira ou Ilha pra ver,é quebra pau igual em Sampa), mas é a Mangueira né?! Sempre tem carros ruins, sempre tem fantasias ruins, sempre tem evolução ruim sempre tem harmonia ruim, sempre tem um sambinha mais-ou-menos! Ah me poupe né!?

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    27/02/2012 15:10:23Paulo CesarMembro SRZD desde 18/02/2012

    Quando um jurado deu nota baixa a Mangueira por falta de "surdo de segunda" achei um absurdo. Ã? característica da Escola. Ano passado ela foi punida devido a tal parada de 20 segundos, mas parece que a Mangueira se acha acima do bem e do mal. Este ano parou durante uma rodada inteira do samba. Resultado: 3 notas 10 e uma 9,9. Foi falta de coragem dos jurados puní-la de novo? Se a bateria tem que sustentar o rítmo, como uma escola vai evoluir e ter uma boa harmonia sem bateria? Como uma porta-bandeira e um mestre-sala vão bailar sem a bateria? O melhor de uma Escola de Samba é sua bateria, e a da Mangueira é a MELHOR. O povo se manifesta mais quando ela passa por seu setor. Aí a Mangueira resolve parar por longos 2min e 30 seg. Ainda bem que seu samba não era muito grande. Como espetáculo, Valeu! Ao menos esta é a opinião dos mangueirenses. Não a minha! E eu estava lá e vi...

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    27/02/2012 11:48:37EduardoMembro SRZD desde 13/01/2012

    Foi bem bacana a dita paradona, posso dizer que levou emoção às arquibancadas da Sapucaí e me sinto privilegiado por ter estado lá para testemunhar (assim como também estive em 2011, no enredo sobre Nélson Cavaquinho, também com "paradona"). Acontece que não, não achei esse movimento da bateria o fato mais marcante no carnaval 2012. Nada me impressionou mais do que a sensacional comissão de frente da Vila Isabel, num trabalho formidável em todos os sentidos que podem ser contemplados numa comissão de frente. Pra mim, a grande parada do desfile foi aquela savana africana. E, quanto à bateria, preferi os livres pincéis deslizando na Sapucaí com a Mocidade e Portinari (o show em frente ao setor 4 foi algo para ficar vivo na memória eternamente). Abraços.

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    27/02/2012 11:44:25miguelMembro SRZD desde 15/06/2010

    Graças a maravilhosa paradona do Sr. Ivo Meirelles a Mangueira desandou na Avenida. Perdeu canto, harmonia e evolução. Foi a maior confusão no setor 3 . E quando a escola estava bem adiante e a "paradona" começava nos primeiros setores não se houvia mais nada e o canto dos componentes atravessava.

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    27/02/2012 11:28:06ivo boruMembro SRZD desde 02/01/2012

    Estava no setor 2 e achei que não deu certo! há tempos não via uma escola atravessar o samba como ocorreu com a Manga.

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