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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



20/03/2012 12h26

Decodificando Paulo Barros
Hélio Ricardo

Após a vitória do carnavalesco Paulo Barros com a Unidos da Tijuca neste carnaval de 2012, algumas ponderações surgiram no meu horizonte reflexivo. Não são de agora, é verdade. Há algum tempo venho esboçando um livro sobre as evoluções estéticas nos desfiles das escolas de samba que discuta o trabalho dos carnavalescos dentro do sentido dessa festa.

Tentarei, em algumas linhas, fazer uma análise crítica, não exatamente uma pesquisa de dados, mas um apanhado de observações relevantes, tendo por objetivo decodificar o trabalho do carnavalesco Paulo Barros.

Falarmos de Paulo Barros, hoje, é uma reflexão quase obrigatória. Todos nós estamos tentando entender sua estética inovadora. Para todos os gostos, para todas as opiniões e para todas as reflexões a respeito: é importante, porém, entender Paulo Barros como um carnavalesco autoral.

A linha de carnavalescos autorais é pontuada não apenas pelos que imprimiram sua marca de bom gosto ou talento nos trabalhos realizados. Mais que isso: os "autorais" são aqueles que imprimiram uma marca pessoal, destacando algo tão subjetivo e "assinado" que dificilmente não se pode identificá-los em seus acenos artísticos.

Há elementos no trabalho de Paulo Barros que o caracterizam, e é esse crivo analítico que pretendo focar. O primeiro elemento que eu destacaria é a sua engenharia cinematográfica. Paulo trouxe para os desfiles de escola de samba efeitos especiais com referências claras ao cinema. Sim, alguns o taxaram de hollywoodiano por isso. Alguns o alfinetam como "estrangeirista", confundindo Broadway e Disneylândia com Sambódromo e escola de samba. Cito propositadamente esse viés crítico para denotar que, preferências à parte, esse estilo próprio e inusitado faz dele um carnavalesco autoral.

Ele apropriou-se de efeitos especiais e do efeito surpresa para arrebatar o publico em seus desfiles. Suas alegorias transformam-se, possuem personagens que também se transformam em cena. Lembramos, é claro, da mágica comissão de frente de "É Segredo", além das "molas de sanfona" deste ano. Temos ainda o carro dos gêneros musicais "Ouvindo Tudo que Vejo, Vou Vendo Tudo que Ouço" (Tijuca 2006), que, a cada abrir e fechar de cortinas transformava o cenário e os componentes em dançarinos de dado gênero musical. Os carros de Paulo Barros não são apenas "alegóricos": são performáticos também. Apoteose conceitual: a alegoria de cabeça para baixo, em "A Viradouro Vira o Jogo" (2008), onde o artista expôs um carro-síntese de sua proposta de enredo. E ainda a representação do "bota-abaixo" de Pereira Passos, com o Theatro Municipal desabando no abre-alas da Vila Isabel em 2009 ("Neste palco da folia, é minha Vila que anuncia: Theatro Municipal - A centenária Maravilha", assinado em parceria com Alex de Souza).

Outro elemento presente é a humanização das alegorias. Sim, lá atrás, Joaosinho Trinta e Fernando Pinto já abarrotavam os carros alegóricos de pessoas. Mas a grande revolução estética dos carros alegóricos, a meu ver, foi a criação das "alegorias vivas". Caso célebre do carro do DNA em 2004. Numa época em que tanto se discute que o componente dos desfiles perdeu seu espaço de destaque para o elemento cenográfico, Paulo Barros tripudia dessa vertente e coloca figuras humanas "vestindo" um conjunto de "prateleiras", levando mais uma obra de arte marcante para a avenida. É o resgate da figura do componente dentro da estética dos desfiles cenográficos.

Para além de seus efeitos especiais e de sua intrincada mecânica de movimentos nas alegorias, Paulo também procura desenvolver alegorias que efeito visual impactante, fazendo uso de materiais alternativos para traduzir aspectos de seu enredo. Carros inesquecíveis como o Homem de Lata feito com panelas, na Tijuca ("Entrou Por Um Lado, Saiu Pelo Outro... Quem Quiser Que Invente Outro", em 2005) ou os extraordinários homens de barro deste ano são o exemplo do que a mentora do carnaval, Maria Augusta, definiu com o conceito contemporâneo de "instalação artística" para analisar os trabalhos de Paulo Barros.

Seu esforço para aproximar o estrangeirismo da cultura do samba, rejeitando o xenofobismo e tingindo o carnaval com cores de pop art, também é reconhecido nos personagens "importados" com os quais ele "incrementa" seus enredos: Michael Jackson, Indiana Jones, Avatar, Darth Vader, Wally, Homem-Aranha, Harry Potter, Margareth Tatcher e até o Rei Leão já integraram sua lista! É como se ele promovesse uma "globalização temática" do carnaval para que, enfim, pudesse ser entendido e reconhecido nos recantos do planeta onde a festa, afinal, é assistida.

Por sua formação em Arquietura, Paulo sempre demonstrou mais capricho no movimento e no efeito das alegorias do que propriamente em seu acabamento. Não é um "deus do requinte", muito embora este ano tenha surpreendido justamente por apresentar, também neste quesito, um acabamento final irrepreensível de seus carros e fantasias.

Houve quem o comparasse a Joãosinho Trinta. Atrevo-me a dizer que seu legado é mais intrigante. O mestre maranhense impôs a estética de verticalização dos desfiles, com alegorias gigantes e suntuosas. Dali pra frente, ou as demais escolas seguiam o diapasão ou ficariam defasadas. Pronto: todas passaram a se agigantar, a verticalizar seus carros, a elevar seus desfiles. Com Paulo, é mais complicado: tudo o que ele faz é diferenciado, sabemos. Mas, se alguém reproduz, fica descaradamente caracterizado como cópia. Paulo não lançou uma tendência: ele simplesmente é a tendência! E qualquer esforço no sentido de trilhar seu caminho criativo fica imediatamente sob risco de imitação barata. Por força dessa autenticidade, Paulo Barros é, hoje, um carnavalesco inimitável. Nesse ponto, aproxima-se dos trabalhos do saudoso Fernando Pinto.

Enfim, essa galeria de artistas da grande ópera de rua que é o desfile de escolas de samba tem muito o que se observar.

Enquanto isso, Paulo Barros está em sua usina criativa efervescendo novas ideias para 2013. Tomara que o próximo desfile chegue logo!

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Comentários
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    23/03/2012 16:12:12leandroMembro SRZD desde 07/07/2011

    gostei do carro mestre vitalino,mercado sao jose,carro da festa junina,do abre alas e missa do vaqueiro

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    23/03/2012 16:11:50leandroMembro SRZD desde 07/07/2011

    gostei do carro mestre vitalino,mercado sao jose,carro da festa junina,do abre alas e missa do vaqueiro

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    22/03/2012 20:36:08NiloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Quero deixar bem claro que achei, tanto o carro de Vitalino quanto o carro do Mercado São José, dois primores. Duas obras de arte. Perfeitos e muito bem acabados. Gostei muito também do carro que trazia uma quadrilha junina, estava bem nordestino em suas cores e soluções alegóricas. Embora eu esperasse ver a quadrilha numa ala de passo marcado pois teria mais liberdade de execução dos passos, etc. além de poder ser melhor televisionada.

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    22/03/2012 20:27:28NiloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Ok, amigo João Paulo, respeito sua opinião e sua análise, Mas pra mim, e pra outras pessoas que já vi comentarem, Vitalino teve mais destaque que o homenageado que era Luiz Gonzaga. Além disso, como já citei em outros posts, falar de Mercado São José ao invés da Feira de Caruaru (que foi uma música de Gonzagão) foi outro ponto negativo no que diz respeito ao desenvolvimento do Enredo. Missa do Vaqueiro com com cavalinhos voando por cima? Vamos viajar, mas não pra tão longe, não é? Pois a volta demora demais. Acho que Paulo Barros sonhava em clocar aquele brinquedo na Sapucaí seja lá onde fosse e escolheu o carro da Missa pra isso. Pra mim, ficou descontextualizado. Ala com fantasia de camarão na moranga? Era o prato preferido de Luiz Gonzaga? hehehe Ã? por essas e outras, que a mim, Paulo Barros fazendo enredo tradicional, não convenceu, não me provou nada. Continuo achando que ele se dá melhor com Hollywood do que com o Brasil.

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    22/03/2012 19:46:38João PauloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Nilo sempre há controvérsias, ainda mais se tratando de Paulo Barros, eu continuo afirmando que o único problema da Tijuca esse ano foi no que se refere ao acabamento do último carro. A comissão de frente estava boa, o casal de mestre-sala e porta-bandeira arrasou, as fantasias estavam boas, a bateria também, a harmonia ótima, a evolução perfeita, um bom samba enredo apesar de não ter fluido muito na sapucaí, um bom conjunto, um enredo claro e alegorias ótimas, que apesar do último carro ter apresentado problemas o saldo final foi positivo. Na questão do carro e da ala do mestre Vitalino ter muito destaque se refere no efeito que isso causou na avenida, até porque a citação ao mestre se resumiu somente a um carro e uma ala, e o enredo era sobre Luiz Gonzaga e não Vitalino, o Vitalino veio porque o Barros pautou seu enredo nas coisas que o rei do Baião cantou do Nordeste e também viu porque não, então está mais do que compreendido o porque de ter vindo uma menção ao mestre das cerâmicas, Vitalino. Essa é a minha análise.

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    22/03/2012 18:56:44NiloMembro SRZD desde 27/06/2011

    João Paulo, meu amigo, "esse ano o único problema do Barros foi no acabamento do último carro"? Há controvérsias, viu amigo. Muitas controvérsias. O próprio Mestre Vitalino que você citou, embora tenha sim ficado uma maravilha, teve muito mais destaque que o grande homenageado que era Luiz Gonzaga. Parecia até que o enredo era Vitalino e não Gonzagão. Fora outras coisas.

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    22/03/2012 18:12:40João PauloMembro SRZD desde 27/06/2011

    E como a Vila apresentou alegorias um pouco mal resolvidas e o Sal teve problemas em evolução, a disputa ficou equilibrada, Vila, Sal e Tijuca foram as escolas que fizeram os melhores desfiles esse ano, e o título deveria ficar entre elas mesmo, qualquer coisa fora disso seria injusto. Umas das três tinha que vencer, e acabou que a Tijuca levou o caneco de campeã pra casa. Eu amo o trabalho do Paulo Barros, não nego pra ninguém, porém claro que também critico quando é preciso, por exemplo, sei que ele errou ano passado no desenvolvimento do enredo e que esse ano se desleixou um pouco na última alegoria, porém ao contrário de muitos que não tão loucos em somente apontar os erros do Paulo e inclusive aonde não se existe erros, eu o reconheço como maior revolucionário dessa década, e isso é nítido. Teve escolas que esse ano tentaram imitar o Barros e se deram mau, assim como ano passado também, enfim, é o que o Helio Ricardo falou, " qualquer forma de trilhar seu caminho criativo fica imediatamente sob risco de imitação barata ", e foi isso que certas escolas passaram em 2011 e nesse ano.

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    22/03/2012 18:00:56João PauloMembro SRZD desde 27/06/2011

    Bom, Helio Ricardo você falou tudo, um dos melhores artigos já publicados aqui e em muitos sites que se fala de carnaval, vou mais além, um grande artigo jornalístico mesmo. Paulo Barros é isso, esse artista que desperta ódio e amor eterno a seu trabalho. Ã? incrível, quando o Barros erra aqueles que o criticam fervorosamente caem em cima, e foi assim ano passado, onde seu maior erro foi o desenvolvimento de enredo, pois a estética estava maravilhosa, e esse ano o único problema do Barros foi no acabamento do último carro, que tinha um belo efeito, porém o acabamento deixava a desejar, e tem pessoas que querem pautar o desfile da Tijuca em 2012 somente nesse carro, ah! Tenha santa paciência. A Tijuca ano passado errou em evolução, enredo e harmonia, o vice-campeonato foi justo sim, pois a Beija errou menos. E nesse ano a escola do Borel fez um desfile tecnicamente perfeito, a bateria veio muito bem, o casal de mestre-sala e porta-bandeira arrasou, o enredo bem desenvolvido, um bom conjunto e fantasias ótimas com uma riqueza enorme em detalhes de informação, e os carros o mesmo, sem falar que aquela alegoria de mestre Vitalino era de uma perfeição sem tamanho, a estética da Tijuca não estava tão maravilhosa como em 2011, porém estava ainda sim ótima. E como em 2011 a Beija veio com carros e fantasias paupérrimas e só levou nota dez, então é incompreensível que a Tijuca tenha levado notas inclusive um pouco menores, apesar do último carro ter apresentado aqueles probleminhas que já sabemos, que fique claro, não estou comparando a Beija com a Tijuca, dei somente um exemplo bem real, e como.

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    22/03/2012 16:40:44eduardoMembro SRZD desde 31/01/2011

    vamos ser franco a U.T esse ano ñ lá lá tão bela como vc disse a plastica apresentada no ultimo carro pelo amor de Deus aquilo estava horroroso muito feio era simplesmente a ferragem coberta por um pano preto e varias estrelas feita de papel contado colada no pano e um homicídio as trabalhadores de outras escola q ficas colando minusculas peças nas alegorias e no final ñ tiram 10 uma merda esse carnaval desse ano!

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    22/03/2012 16:37:34Marcos MonteiroMembro SRZD desde 22/06/2010

    Ademir,fiquei muito feliz com seu comentário .Eu também revejo todos os desfiles do Paulo Barros, desde que ele apareceu no grupo especial.E assim como voce nunca me canso , e sempre encontro algo surpreendente e novo.Acho que sua preocupação maior não é o acabamento, até por que essas alegorias e fantasias tem prazo de validade,mas sim o efeito que elas provocam.Aguardo com ansiedade o carnaval 2013, e torço para que os outros carnavalescos se esforcem, para apresentar um carnaval que nos encante e surpreenda.Abraços.

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    22/03/2012 14:46:37Rubem da Silva Moreira NetoMembro SRZD desde 04/07/2011

    não vi em 2012,um desfile que me arrebatasse.gostei do inicio da tijuca,o carro do aeroporto,depois tudo ficou chato e repetitivo.gostei mais das maluquices de 2011,aquilo sim era paulo barros.podem até não gostar,mais era o estilo dele que estava ali.com esse enredo ele ficou tolido,mais a Tijuca hoje é uma escola super bem preparada em vários quesitos.e nem precisou de ter seu carnavalesco nos seus melhores dias para vencer.com justiça diga-se de passagem.

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    22/03/2012 12:51:02leandroMembro SRZD desde 07/07/2011

    paulo e um genio isso e indiscutivel !!!

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    22/03/2012 11:44:22Ademir de Oliveira LucioMembro SRZD desde 07/03/2012

    Muitos criticam o estilo Paulo Barros, mas a meu ver, ele vem sendo o principal responsável pelo espetáculo que é o desfile das escolas de samba. A linha do Paulo Barros alia samba com um visual que surpreende qualquer pessoa que esteja na Sapucaí ou em suas casas. Eu com fã assíduo dos desfiles vejo e revejo todos os desfiles assinados pelo PB sem me cansar. Ã? tão fascinante e emocionante que não nos leva ao cansaço. Espero que este casamento Paulo Barros - Unidos da Tijuca permaneça por muito tempo para que nosso carnaval continue grandioso e com estas maravilhas de encher os olhos.

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    22/03/2012 03:57:36Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Sei que muita gente apontou a grua que elevava o personagem Luiz Gonzaga como imperfeita por ter parte de seu forro desencapado. De minha parte, sinceramente, considero esse acidente de percurso um fato que não interferiu na qualidade de acabamento dos carros. Referi-me, na análise, especificamente à estética. A meu ver, e eu conferi os desfiles da pista do setor 5, tanto as fantasias como os carros alegóricos da Unidos da Tijuca estavam todos muito bem finalizados. Talvez nem sempre com a mesma expressão, mas sem erros comuns em trabalhos anteriores do carnavalesco. Reitero que o perfeccionismo não parece ser uma característica perseguida pelo autor, mas nem por isso analisaria sua obra por um acidente de percurso. Seria como desconsiderar o carro dos huskies siberianos de Max Lopes, na Viradouro, só porque eles pegaram fogo. Ã? claro que nada rasgado ou queimado é bonito, mas fiz separação do acidente ocorrido e da obra concluída. Ainda assim, respeito e considero a subjetividade nas opiniões diferentes.

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    21/03/2012 20:37:22NiloMembro SRZD desde 27/06/2011

    "muito embora este ano tenha surpreendido justamente por apresentar, também neste quesito, um acabamento final irrepreensível de seus carros e fantasias."??????????? De que ano você está falando? O ferro vermelho do guindaste que levava Luiz Gonzaga estava com boa parte aparecendo por debaixo do pano preto. Isso é acabamento irrepreensível?

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