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21/04/2012 19h35

'Acho difícil Sarkozy vencer', diz especialista francês
Ana Leticia Ribeiro

Foto: Reprodução de InternetÉs vésperas da ida do povo francês às urnas para escolher o futuro presidente da República do país, o SRZD conversou com o analista do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opac) da Universidade Science Po de Paris, Gaspard Estrada.

Confira a entrevista:

SRZD - Qual o perfil do eleitorado na França, onde o voto não é obrigatório? Os jovens são maioria?

Ao contrário do padrão latino-americano, o elemento crucial das eleições francesas são os adultos, os mais velhos, acima de 65 anos. Os jovens, em geral, são abstencionistas. E os mais velhos se tornarão cada vez mais cruciais, porque a tendência é que a população fique mais velha.

SRZD - Mas, aqui no Brasil, existe a fama de uma juventude francesa engajada politicamente, que vai às ruas protestar... Não seria uma incoerência?

Sim, concordo, é incoerente. Os jovens, inclusive, são o foco de François Hollande (candidato socialista e principal rival de Nicolas Sarkozy) para o primeiro turno, mas ele precisou diversificar por causa disso. Já o núcleo do Sarkozy são os mais velhos.

SRZD - O senhor citou os dois candidatos que estão na frente, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. Representando a direita, Nicolas Sarkozy aparece em 2º, com pequena desvantagem sobre o primeiro colocado, François Hollande, da esquerda francesa. Qual seria a relação direita X esquerda no França? É uma separação bem marcada ou, às vezes, ela se confunde, como ocorre no Brasil em alguns momentos?

As ideologias aqui são mais presentes, têm um peso maior. O sistema político é diferente ao do Brasil, pois há muito menos partidos. Falamos em bipartidarismo multipolar (dois partidos sobressaem e comandam, mas existem outros partidos com alcance menor), por exemplo, o governo, em sua maioria, é formado pelo Partido Socialista e pelo partido de Nicolas Sarkozy, o União por um Movimento Popular (UMP). No Brasil é diferente, são necessárias as alianças.

 

Foto: Reprodução de Internet

Os quatro principais candidatos: Nicolas Sarkozy, François Hollande, Marine Le Pen e Jean-Luc Melénchon


SRZD - Qual o perfil dos candidatos e como o senhor avalia a estratégia de campanha de cada um?

O Sarkozy tenta reeleição, mas o quadro dele é complicado, pois não fez as reformas que prometeu na campanha do primeiro mandato (2007-2012). Além disso, enfrenta crise no país, onde o desemprego dobrou. Então, ele tenta romper com ele mesmo, se reinventar para conquistar eleitores, mas está muito difícil. Até certo ponto, conseguiu uma faixa do eleitorado da extrema-direita (representada pela candidata Marine Le Pen). Em janeiro, todos se perguntavam se a Marine Le Pen iria ultrapassar, mas ele acabou passando, em virtude dos últimos acontecimentos (atentados em Toulouse). No entanto, acho improvável uma reeleição, agora ele está dividindo a sociedade com temas muito polêmicos, como a imigração e a segurança, e isso não é bom politicamente.

O François Hollande subiu muito rápido por causa da rejeição pessoal do Sarkozy. O seu eixo de campanha foi capturar o eleitorado nesta rejeição. Em termos de projeto, fala em combater os excessos do sistema financeiro, a especulação, o que a população teme, com implementação de taxas para as pessoas que ganham mais de um milhão de euros. Neste primeiro turno, está falando aos eleitores de esquerda para conquistar o primeiro lugar e, então, falar ao restante dos franceses no 2º turno.

A Marine Le Pen vem tentando, há vários anos, se aproximar dos direitistas mais republicanos com conotações fascistas. O Frente Nacional (partido de Le Pen) vem crescendo, o que é um dado ruim. Mas, muito possivelmente, ela não chegará ao 2º turno.

O Jean-Luc Melénchon é o candidato da extrema-esquerda (FG, sigla em francês de Frente de Esquerda) e se aproxima de lideranças latino-americanas, como Lula, Correa (Rafael Correa, do Equador), Hugo Chávez (Venezuela) e outros. Utiliza até slogan igual com o objetivo de unificar o eleitorado da extrema-esquerda: os comunistas e trotskistas. Dependendo do resultado do 1º turno, deve ser o apoio de Hollande para o 2º turno

Em quinto lugar nas pesquisas, o François Bayrou (candidato centrista do Movimento Democrático) foi o terceiro colocado nas eleições passadas, com 18% dos votos no 1º turno. É como se fosse a Marina Silva aí do Brasil. Todo mundo esperava uma posição melhor dele, mas não empolgou. O eleitorado dele deve ficar dividido entre Sarkozy e Hollande no 2º turno.


SRZD - O que acha do discurso em relação à imigração? Existe a ideia de que os imigrantes "inchariam" o mercado de trabalho, diminuindo o número de vagas de empregos para os franceses. Isto procede?

Na verdade, a França precisa da imigração para fazer rodar a economia. A mão-de-obra imigrante é posta, sobretudo, na construção civil, setor onde os franceses não querem trabalhar. O Sarkozy fala da imigração como uma estratégia de campanha, porque não quer falar sobre o balanço econômico do governo, o que de fato preocupa a população, então toca em outros assuntos da sociedade.

SRZD - Quem sairá vencedor? Que desafios político-econômicos o próximo presidente da França enfrentará?

O dado concreto é que a maioria da população rejeita Nicolas Sarkozy e há um forte desejo de mudança, com criação de empregos e aumento do poder de compra. Há indícios de que Hollande saia vencedor. Em termos econômicos, ambos propõem o aumento dos impostos, o que não é uma medida popular. De um lado, a direita pretende cortar gastos com programas sociais, do outro, a esquerda quer criar mais impostos em particular para os mais ricos. Qualquer que seja o vencedor, terá de cortar subsídios para tirar a França da crise.

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Comentários
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    22/04/2012 09:48:57Chauke Stephan FilhoAnônimo

    Nas eleições francesas, François Hollande faz o papel que nos Estados Unidos coube a Obama. Hollande apresenta-se como quem pode mudar o sistema apenas para conservá-lo tal qual se encontra. Atribuir importância às eleições de um potência colonial europeia (lembrem-se da Guiana, meus irmãos brasileses) é coisa de gente colonizada. Gente como Eduardo Febbro, o jornalista de esquerda de Carta Maior, que tanto espera do Partido Socialista da França. Em 1981 foi assim: pareceu que Miterrand faria alguma diferença. Não fez. Se para a América Latina há alguma esperança, esta não virá da Europa.

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