SRZD


09/09/2012 12h02

Projeto social oferece nova expectativa para a vida de crianças de Acari
Marcelo Cardoso

Foto: DivulgaçãoEm um bairro onde a desigualdade, a indiferença, a violência e a miséria se fazem presentes desde o primeiro dia de vida de seus habitantes, a manutenção da pobreza ou o alistamento no exército do tráfico parecem ser as únicas alternativas para quem cresce no ambiente. Mas em Acari, zona norte do Rio de Janeiro, verdadeiros anjos na Terra estão fazendo o impossível para dar uma nova perspectiva às crianças que já nascem fadadas ao pior.

Os moradores da região, que segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano do Rio feito em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a Prefeitura e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado, comparado à regiões de total miséria, como a Argélia, na África do Sul, parecem estar conseguindo ver a tão esperada "luz no fim do túnel".

Isto porque, com muita força de vontade e amor no coração, idealizadores de um projeto social chamado Creche Abrindo Portas, procuram inserir crianças em uma realidade onde, por direito promulgado na Constituição Federal de 1988, nunca deveriam ter saído. Um dos maiores escritores da língua alemã, Franz Kafka, conseguiu traduzir o pensamento de cada membro envolvido no projeto com uma frase. "A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana", e é justamente a dignidade humana que está em questão.

Não é possível trabalhar a cidadania sem antes restaurar a dignidade. O que cobrar de uma pessoa que convive em meio ao abandono, ao tráfico, à morte, à educação precária ou à miséria? Situações que deveriam ser solucionadas por nossos governantes, caem nas mãos de pessoas que suam sangue e não medem esforços para ver um sorriso estampado no rosto de um jovem.

O SRZD entrou em contato com a coordenadora da creche Abrindo Portas, Celma Regina Marques, para saber mais sobre o que a organização não governamental (ONG) faz pelos moradores de Acari. De acordo com Celma, a creche caiu em suas mãos como uma bomba, quando o projeto foi abandonado por seus idealizadores.

"A creche pertencia ao projeto Fábrica de Esperança, onde eu trabalhava desde 1994. Quando ele foi abandonado por seu idealizadores, em 1999, me vi com 137 crianças e 22 funcionários para cuidar. Cortaram água, luz, gás, e logo depois a Prefeitura cancelou o convênio de alimentação. Resolvemos, mesmo com dificuldades, prosseguir com o projeto com ajuda do comercio local e com a colaboração da comunidade. Mas aí o prédio foi vendido para a Prefeitura e nós recebemos uma ordem de despejo de quem deveria nos estender a mão, porque o edifício seria implodido em três meses. Fizemos uma manifestação, com mães e crianças da comunidade, que chegou a repercutir na mídia. Foi através dessa repercussão que um empresário de São Paulo me procurou e disse que alugaria um lugar para nos instalarmos. Disse a ele que a gente precisava de um lugar definitivo, então ele comprou um prédio, reformou e equipou, e quando faltavam dois dias para a implosão, nós saímos do local. Foi aí que legalizamos a Abrindo Portas".

Foto: Divulgação

A coordenadora Celma Regina, carinhosamente chamada de Celminha, e mais conhecida como "Alcione", disse que na creche as crianças exercem diversas atividades e que recebem uma alimentação adequada. "Temos uma pedagoga e uma assistente social que planejam o desenvolvimento das crianças. Lá elas praticam atividades lúdicas e psicomotoras, visando seu crescimento global. Além disso, fazem quatro refeições diárias. Muitos desses meninos e meninas mal fazem uma refeição em sua própria casa", lamenta.

Nesse momento, a negra "Alcione" se emociona ao relatar alguns casos que marcaram sua trajetória dentro do projeto. "Certa vez convidei uma mãe para um café da manhã, e ela me disse que apesar de um de seus filhos, que estava na creche, ter o que comer, os outros quatro que ela havia deixado em casa, não tinham. Então ela não teria coragem de sentar-se à mesa sabendo que seus outros filhos estavam passando fome. Depois disso nem eu tive vontade de tomar o meu café. Em outra ocasião, era uma sexta-feira, e eu percebi que algumas crianças estavam comendo mais do que em outros dias. Curiosa, perguntei o que estava acontecendo para que elas estivessem comendo tanto. Elas me disseram que iam guardar a comida na barriga porque em suas casas não tinha comida igual a da creche e elas só retornariam na segunda-feira", concluiu a coordenadora.

Foto: Divulgação

Apesar de melhor do que quando foi inaugurada, a situação financeira da ONG ainda é muito difícil. Mesmo com uma parceria com a Secretaria de Educação e com a Prefeitura do Rio, as contas não estão em dia e a creche precisa de parceiros. "São inúmeras as dificuldades que passamos. Mantemos nossa creche com doações de amigos e com a parceria com a Secretaria de Educação. O convênio com a Prefeitura paga, exclusivamente, o salário de alguns profissionais que trabalham conosco. O convênio não cobre os encargos e as demais contas. Todo mês pagamos somente algumas faturas, deixando as outras para o mês seguinte. Precisamos de socorro urgente", exclamou Celminha.

Segundo Celma, o projeto mudou e continua mudando a vida de muitas crianças que vivem no complexo de Acari. "As crianças chegam no projeto de um jeito e saem de outro totalmente diferente. Elas mudam desde o hábito simples da higiene pessoal até a complexa construção de valores. Muitas acham normal a questão da venda e consumo de drogas e o uso de armas, mas no nosso lar elas aprendem que essas ações não devem ser seguidas".

Pessoas normais, com histórias, deveres e direitos como qualquer outra, provam a cada dia para as autoridades, que não é preciso ser super-herói para fazer a diferença dentro de uma sociedade. Basta ter atitude, força de vontade e amor ao próximo.

Quem quiser ajudar a creche a continuar salvando vidas, entre no site www.abrindoportas.org.br ou ligue para os telefones (21) 2632-7048 / (21) 7732-5213 / (21) 9394-5668.

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Comentários
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    10/09/2012 20:27:22Aline NettoAnônimo

    Excelente a iniciativa do SRZD em divulgar projetos como esse. Conheço a creche há anos e sei da seriedade e do amor de todos que ali trabalham, ajudando não só essas crianças, mas todas as famílias por elas representadas. Ã? tempo não só de admirar, mas de se envolver com essas e outras questões sociais que estão ao nosso lado. Estou compartilhando essa matéria, para que outros conheçam e ajudem essas crianças.

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    10/09/2012 18:37:06Ana Maria AmorimAnônimo

    Penso que é muito boa a iniciativa do site SRZD em se inteirar e publicar um assunto tão importante. Também creio que a mídia sempre deve se utilizar de seus recursos para falar sobre os necessitados e, assim, tentar dirimir a desigualdade em nossa sociedade. Parabéns SRZD ! Ana Maria

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    10/09/2012 15:10:26LUCIANA LOPES LEMOSAnônimo

    Já iniciei uma campanha por e-mail para apoiar a creche, pois só com muito amor, solidariedade e atitude podemos construir um mundo melhor. Farei uma visita à creche assim que voltar a andar normalmente para ajudar no que for preciso. Que a equipe de colaboradores do "Abrindo Portas" sirva de exemplo para que políticos corruptos se envergonhem e façam alguma coisa por seu povo. Que Deus os abençoe! Luciana Lopes Lemos.

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    09/09/2012 22:11:42Hélio RicardoAnônimo

    Conheço esse trabalho há anos, ja o visitei várias vezes. Ã? um quilombo de resistência, ali as pessoas são escravas da gone e do descaso de múltiplos governos. Que bom ver o SRZD dando apoio a causas como esta! Bela matéria do site e lindo trabalho dessa creche!

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    09/09/2012 17:12:07SERGIO CRESPOAnônimo

    Sensacional e motivador. Enquanto se gastam trilhões com a "cidade olímpica", há trabalhos sérios e tão valorizadores da vida como este, padecendo com a falta de atenção do governo. Ainda bem que as crianças de Acari têm uma "Celminha/Alcione"! Que outras guerreiras como essa se levantem. E a nós, cabe, no mínimo, o dever de ajudar. Já estou fazendo contato com a Abrindo Portas!

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