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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



24/09/2012 19h17

Mestre-sala e Porta-bandeira: a honra de conduzir a alma da escola
Hélio Ricardo Rainho

Certa vez, ainda bem jovem, quando costumava passar muitas noites nas quadras de ensaios da Portela e do Império Serrano, tive uma experiência inesquecível. Estava eu com o amigo Joacyr, a primeira pessoa com quem comecei a estudar mais profundamente escolas de samba, quando entramos em um ônibus da linha 774 e vimos, sentada no banco atrás do motorista, a saudosa porta-bandeira Juju Maravilha.

O comentário do amigo Joacyr eu nunca mais esqueci: "Isso é um absurdo! Uma figura ilustre e graciosa como Juju dentro do ônibus e ninguém avança para pedir autógrafo!".

Pois é. Houve um tempo em que as figuras ilustres do samba, gloriosas e dadivosas como elas só, não eram essas celebridades de hoje em dia.

Não tinham cachês vultosos, não eram capas de revista. Reconhecidas por sua glória nos desfiles, sua glória era apresentar e conduzir o pavilhão da escola. Não recrimino o profissionalismo, pois acho que todo artista que derrama seu suor na avenida deve ter a devida paga de seu valor. Mas hoje eu fico perguntando a mim mesmo: quanto tempo durará o casal da escola tal à frente de sua bandeira?

Foi a São Clemente, em seu grito-desacato no antológico "E o samba sambou!", quem deu as cartas desse jogo:

"O mestre-sala foi parar em outra escola / Carregado por cartolas do poder de quem dá mais" - bradava em versos de protesto.

Os tempos são outros. Polpudos cachês inspiram não só a migração, mas também (pior ainda) o aliciamento e a rasteira. Já que a vida tá dura pra geral, ninguém pode negar uma boa proposta e ficar ali, plantado, enraizado no lugar onde nasceu. E já que "quem pode, pode", também não custa nada balançar um saco de moedas para tentar seduzir quem já está empossado. Essa não é uma crítica a pessoas, mas uma leitura reflexiva de um sistema que - felicidade para uns, tristeza para outros - aí está e não pode mudar.

Mas, se o viés crítico existe, a poesia não morre. E sobrevive. Graças a Deus. Pois é de arte, não de tristeza, que esta coluna se propõe a falar. Rememorei aquela cena de Juju Maravilha sozinha, quase invisível, em um ônibus para Madureira, para lembrar que é grande a responsabilidade de conduzir o pavilhão da escola na avenida. Ainda que, fora dela, quem ali se reveste de tamanho vulto possa parecer um ilustre desconhecido. O antropólogo Roberto DaMatta falou sobre a associação entre a escola de samba e a procissão, comparando a virgem do altar à mulata do carro alegórico. Pois eu entraria nessa fatia do bolo com uma outra analogia: a bandeira da escola de samba, no desfile, é a epifania da procissão. Ou seja: é a manifestação da divindade.

O desfile - todo o desfile! - muda a cada ano. A cada ano, de acordo com um enredo, veremos carros e fantasias diferentes. Mas o pavilhão, a bandeira da escola, é sagrado: invariável, imutável. O momento em que a bandeira da escola é conduzida elegantemente pelo casal é, ou deveria ser reconhecido como tal, o ápice do desfile.

Todo mundo passa. Todos os carros passam. A bandeira, não. Ela não muda. Nunca. As gerações futuras e vindouras ostentarão, por cada escola, a mesma insígnia que os dançarinos de agora apresentam. É nesse ato simbólico de condução e apresentação da bandeira que a verdade, a identidade e a marca da escola estão presentes. A bandeira da escola é o espelho que reflete seu rosto. A escola, de fato, "chega" quando a bandeira passa! 

Olhar para o casal de mestre-sala e porta-bandeira e vê-los bailando, flutuando como cisnes em um lago (ou como "o beija-flor cortejando a flor", na definição clássica de Wilma Nascimento) é um momento de grande reverência do desfile. Temos a arte da dança, a riqueza da indumentária, a simpatia e a graciosidade do convite ao público para saudar a escola. A verdadeira emoção do componente, o lastro de história e verdade de uma escola de samba estão ali, impregnados naquela metragem de pano onde o símbolo e as cores da escola estão devidamente representados.

E, para conduzi-los e apresentá-los ao povo, o divino casal cumpre as honras de sacerdotes da festa. Ela, linda, princesa da noite, adornada com pedrarias, iluminada e reluzente como uma estrela que enfeita o céu. Ele, de porte altivo e elegante, um príncipe cortês e diligente que majestosamente conduz a dama e, com ela, o estandarte. Em seus rostos, o sorriso e a alma de quem enverga a verdade da escola!

Sob esse ponto de vista, é quase leviano imaginar que um momento tão digno e tão glorioso como esse possa ser submetido a juízo crítico, a nota de jurado. Imaginem isso... nessa leitura divinizada da passagem da bandeira da escola, quem estaria efetivamente habilitado a julgar o momento em que a divindade se manifesta em meio à procissão? Quem estaria, afinal, capacitado para distribuir notas diferenciadas para as muitas escolas de samba que ali passam, justamente quando elas fazem aquilo que lhes parece mais digno de reverência e admiração, que é a exposição de seu pavilhão diante da multidão?

Então que esta coluna possa, com muito carinho e respeito, prestar uma grande homenagem a esses artistas extraordinários e apaixonados, encantadores e resignados, a esses elegantes personagens do maior espetáculo da terra que nos proporcionam o momento extasiante e incomparável em que os pavilhões das escolas são apresentados para deleite do povo!

Obrigado, Juju Maravilha, por reviver nesse texto que só nasceu porque lembrei de você! Obrigado ao eterno professor-mestre Manoel Dionísio, dono do meu respeito e gratidão. E minhas saudações especiais aos "quatro ases da dança do samba" - Fabrício Pirez, Phelipe Lemos, Diogo Jesus e Julinho Nascimento - que, breve, estrelarão uma série que estou preparando para este espaço no SRZD-Carnaval.

Vida longa aos nossos mestres-sala e porta-bandeiras (todos, de todos os grupos e lugares!), os donos da "epifania" na "procissão do samba"!

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Twitter @hrainho


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Comentários
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    17/10/2012 23:39:34BERNARDMembro SRZD desde 18/11/2010

    SALVE SALVE Julinho da Vila Isabel e Vilma Nascimento (cisne da passarela)

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    26/09/2012 12:21:07Quinha da portelaMembro SRZD desde 28/01/2012

    Helinho,isso todo mundo entendeu,é que ouve alguns comentários sobre outras portas bandeiras que cada um foi citando aquela que lembrava,Valeu.!!!!!

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    26/09/2012 12:05:40Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Gente, uma coisa que eu gostaria de deixar bem claro - e acho que isso já está bem claro na coluna: não se trata de homenagear este ou aquele casal. Pelo amor de Deus! Observem que o foco da matéria não está nos "nomes", mas na relevância destes dois personagens e de sua responsabilidade especial dentro do desfile. A Juju Maravilha foi personagem condutor do texto por conta de uma lembrança minha que inspirou e permeou o discorrer das linhas. Entendam: eu não "esqueci" o nome de ninguém, porque o objetivo não era fazê-lo. Justamente porque, se o fizesse, eu citaria 350 nomes e, ainda assim, esqueceria algum digno de ser lembrado. Que fique bem claro: esse segmento da escola é importante não pelos grandes nomes da eternidade, mas por todos aqueles que nele atuam! O futebol não se faz apenas pelos Pelés, mas por todos os jogadores que entram em campo para jogar por um time. Então eu preferi prestigiar o ofício do que os oficiais, se é que me entendem. Além de Juju, os nomes que citei ao final são de pessoas que estão desenvolvendo um trabalho comigo, e quis apenas agradecer-lhes pela gentileza neste momento. Forte abraço a todos, obrigado pela interação...sem melindres: valorizar o ofício é mais importante do que os nomes! Assim, todos se sentirão homenageados! Deus abençoe a todos, sempre! :-)

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    26/09/2012 06:14:42Quinha da portelaMembro SRZD desde 28/01/2012

    Não esqueçam da grande Baby,mulher do Arlindo Cruz

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    25/09/2012 22:21:51TedMembro SRZD desde 12/04/2012

    Hélio Ricardo, obrigado pelo esclarecimento. Eu pensei que o trecho "aliciamento e a rasteira" fossem referidas a Lucinha e ao Rogerinho, porque vi algumas pessoas falando em "puxada de tapete". Aí fiquei pensando que talvez seu texto pude ser uma indireta ao referido casal, pois isso foi um fato mais recente. Não tenho um opinião formada sobre a ída do casal para a Inocentes, a dúvida me surgiu pelo que algumas pessoas disseram. Mas as vezes as pessoas falam demais, não posso julgar pelo que as pessoas falam, pois eu não estava lá pra ver. Sobre o casal pra complementar, é evidente o talento dos dois, na minha opinião estão entre os três melhores do grupo especial. Apesar de ter discordado de você, na outra matéria sobre o enredo da Beija-Flor, o parabenizo pelo belo texto sobre os casais de Mestre Sala e Porta Bandeira. Só faltou falar do Chiquinho e da Maria Helena, como já disseram aqui nos comentários. Um grande abraço também.

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    25/09/2012 18:26:00joacyrMembro SRZD desde 01/08/2011

    Helio Ricardo, mil anos mais tarde, ainda acho estranho que um/a artista do tipo de Juju Maravilha, Maria Helena, Elcio PV, Regina, Wilma Nascimento, Bagdá, Mocinha, Irene 15, Adriane Nunes, Delegado, Rita Freitas, Andreia Machado, Neide de Mangueira, Tubarão andassem pelaí impunemente, sem assédio e admiração de sambistas. Mas era outro tempo. Todo mundo era de casa. Todo mundo se via na viinhança de casa e só se tornava astro ou estrela quando se vestiam para a apresentação no desfile. Sobre a atualidade, nada digo, porque melindrados e melindrosas pousariam a mãozinha sobre o coração.

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    25/09/2012 14:46:37Wagner ProfissionalMembro SRZD desde 24/08/2012

    vou morer frustado...sempre quis ser metre sala...mas nunca consegui...rs...previlégio para poucos...

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    25/09/2012 11:44:03Ana Carolina SampaioMembro SRZD desde 17/11/2009

    Helio Ricardo parabéns pelo belo texto, por falar de uma das melhores porta bandeiras do carnaval a saudosa Juju maravilha . Esse ano fui assistir ao desfile da minha querida Vizinha Faladeira na intendente magalhães e para a minha tristeza vi um exemplo de garra e leveza, o casal de mestre sala e porta bandeira da minha escola dançando muito com uma fantasia despencando, os dois sem chapéu , longe dos holofotes e do glamour da sapucaí. Deram um show me emocionei com suas palavras pois lembrar deles. Salve todos os mestre salas e porta bandeiras de todos os grupos !

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    25/09/2012 04:26:33Bruno ImperatrizMembro SRZD desde 07/07/2011

    Mais o futuro do Carnaval é do "quem dá mais" como disse a São Clemente em seu desfile de 90,é uma realidade que temos que aceitar,o Carnaval evoluiu muito e custa milhões hoje em dia,então não tem como fugir da realidade atual do carnaval,Eu mesmo fui campeão pela imperatriz no ano 2000, com um desfile de cerca de 2 milhões foi dito na época,hoje em dia acho que não da nem pra construir um Abre-alas com 2 milhões foi tudo acontecendo muito rápido.

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    25/09/2012 04:16:24Bruno ImperatrizMembro SRZD desde 07/07/2011

    Faltou foi Chiquinho e Maria Helena ai na foto,que furada...Maria helena maior Porta bandeira da História do carnaval sem Duvidas.

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    25/09/2012 04:12:28Bruno ImperatrizMembro SRZD desde 07/07/2011

    Tem nada de Rasteira no casal da Inocentes,O Presidente não foi bobo nem nada sabendo que um casal de nome pesa muito foi la e contratou,o grupo Especial é disputa de cachorro grande,quem marcar bobeira fica pra traz.

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    25/09/2012 00:41:08Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Prezado Ted, obrigado pela interação, mas faço questão de esclarecer o assunto que você abordou. Não fiz menção a nenhum fato específico. Quando falei de aliciamento e de rasteira, referi-me a acusações que que passaram a ser ouvidas em bastidores, um fato novo, sem me referir diretamente a alguma história. Sobre Lucinha e Rogerinho, a quem você citou, nem teria sido esse caso: eles foram gentilmente convidados pelo presidente da Inocentes, que aproveitou a oportunidade de vê-los disponíveis para assegurar mais quatro notas 10 na luta da escola para permanecer no Grupo Especial. Eu não teria dito isso acerca deles porque conheço essa história de bastidores e sei que a ida deles para a escola de Belfort Roxo foi tranquila e sem essa polêmica. Grande abraço só pra não deixá-lo na dúvida sobre essa questão.

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    24/09/2012 23:19:03TedMembro SRZD desde 12/04/2012

    Agora só uma coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha, esse trecho:"o aliciamento e a rasteira." ... rsrsr Acho que foi uma indireta pra o novo casal da Inocentes, que antes eram da Portela... rsrrs

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    24/09/2012 23:17:16TedMembro SRZD desde 12/04/2012

    Tem coisa mais linda do que um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira? Não tem. Sou apaixonado pelo casal de M.Sala e Porta Bandeira desde de pequenininho. rsrs Parabéns a todos casais, com destaque para dois casais que gosto bastante: Selmynha e Claudinho da Beija-Flor, e Ruth e Julinho da Vila Isabel.

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