SRZD


27/09/2012 13h34

Receita de Bolo
Thiago Lacerda

O que é um samba-enredo correto? Existe uma métrica ideal na construção de um samba enredo para um desfile de escola de samba? Navegando pelos sambas concorrentes para o carnaval de 2013 vejo que o ato de compor está passando por mudanças significativas, deixando de ser receita de bolo e criando novas - ou retomando antigas - formas.

Vamos pensar: Como estamos acostumados a ouvir um samba? Primeira parte de 8 à 10 linhas, refrão do meio de 4 linhas, segunda parte do samba de 8 à 10 linhas, e refrão final com 4 linhas. Pronto, essa é a métrica do samba-enredo mais utilizada pelos compositores nos últimos anos.

Isso está tão habitual ao compositor que a primeira ação ao olhar a letra de um samba concorrente para análise- geralmente para se colocar defeito - é contar as linhas! Se tiver mais de 28, está muito grande! Se tiver menos de 26, está muito pequeno!

Não estou dizendo que essa forma de fazer samba está errada. Não, ela não está. Mas é uma "receita de bolo", e daqueles que estamos carecas de comer na casa da vovó. Quase todas as parcerias preferem compor seus sambas utilizando este formato.

Seria falta de criatividade e competência? De forma nenhuma! Porém ser "diferente" na construção de um samba enredo pode ser muito arriscado. Alguns compositores têm certo medo de inovar e de serem eliminados precocemente da disputa por conta disso.

Poucos são os que furam esse bloqueio sem medo de sair do lugar comum. Por exemplo, as parcerias de Eduardo Medrado sempre trouxeram sambas com variações melódicas interessantes e refrões fora dos moldes usuais. Martinho da Vila, não se deixou render à esse modelo e na contramão dos sambas engessados compôs "Noel, o Poeta da Vila", com refrão de uma linha só: "Tem a energia da nossa Vila Isabel". Mestre é mestre!

E quem não subiu a ladeira com a Portela no carnaval de 2012? A parceria de Wanderlei Monteiro e Luiz Carlos Máximo trouxe um samba avesso aos moldes atuais, gerando um "Efeito Pelô" na forma de compor. Um samba com três refrões, frases curtas e de fácil memorização. A comunidade bateu o pé - há quem duvidasse do sucesso do samba durante as disputas - e levou o samba para a avenida. Sucesso pronto!

Nas disputas de samba para o carnaval de 2013 já percebemos a influência do "Efeito Pelô" portelense. Foi um samba enredo que inegavelmente conquistou a todos e caiu na boca do povo. Tal fato abriu caminhos inspirando e encorajando aos compositores em buscar o "novo" para o próximo carnaval. E isso é muito bom!

A própria parceria de Wanderlei Monteiro para o carnaval de 2013 veio com um samba na mesma linha do sucesso anterior, fora dos padrões dos sambas engessados que teimamos em nos acostumar; na Viradouro, o grupo de Felipe Filósofo trouxe três refrões, um deles de uma linha só, e a parceria de Gilberto Gomes também foi pelo mesmo caminho, trazendo um refrão de uma linha, e incluindo o famoso "ô ô ô", que se bem usado pode ser um elemento positivo para o desfile; a parceria de Thiago Lepletier, na Alegria da Zona Sul trouxe um refrão final com duas linhas, na intenção de empolgar o público; o consagrado André Diniz, em seu samba para a Vila Isabel, utilizou a alternância no refrão final de "plantar/colher"; Arlindo Neto no Império Serrano, seguindo a mesma linha do pai Arlindo Cruz em 2012, criou um refrão também com os recursos de duas linhas e do "ô ô ô", curto e de fácil memorização. Enfim, cito alguns exemplos, mas não se esgota neles os sambas que seguiram essa linha para 2013. 

Deixo claro que não sou músico e nem pretendo ser. Sou sambista, e como tal, me cansa ouvir tantos sambas iguais ano após ano, e me entristece ver que o samba enredo deixou de ser gênero que toca em rádios de grande circulação para se "esconder" nos guetos das escolas de samba.

Também quero colocar que indiscutivelmente existem sambas de enredo dentro da "receita de bolo" que são obras de qualidade e que merecem todos os nossos elogios. Porém há outros modelos que podem surtir efeitos maravilhosos também. Não existe uma forma exclusiva para se construir um samba enredo. A liberdade de criação é essencial para que novas obras de qualidade sejam construídas cada vez mais - ano a ano. Engessar em apenas um modelo torna tudo igual e, muitas vezes, chato e repetitivo.

Senhores presidentes, não tenham medo se um samba for muito diferente do que vocês estão acostumados a ouvir. Isso não quer dizer que o samba seja ruim. Ponderem e ouçam as suas comunidades. Não existe uma receita de bolo na criação de um samba enredo.

Senhores compositores, arrisquem, ousem, pois o diferente é o que pode marcar e entrar para a história. Desamarrem as correntes do comum e sejam diferentes, não tenham medo de serem vocês mesmos, pois assim, vocês serão a própria essência do samba.


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Comentários
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    08/10/2012 14:55:23GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Todos temos que tomar um cuidado danado nesse "sistêma" que é uma disputa de sambas,pois com o advento da internet,entrou os serviço do "ganhe dinheiro em casa",onde muitos ganham, para nas redes sociais e sites relacionados,macificarem de elogios diários e até postarem vídeos de apresentações de determinados sambas contratados e aí todo mundo passa a achar que realmente aqueles é que são os melhores e aqueles autores é que são os bons,por estarem sempre em evidências. Ã? bom deixar bem claro que o citado acima,não cabe neste caso,pois o Thiago Lacerda já é um colunista e apenas expôs suas opiniões como sendo parte de seu trabalho.

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    03/10/2012 19:14:32Thiago LacerdaMembro SRZD desde 12/06/2012

    Luiz Carlos, Eu escrevi exatamente sobre as grandes parcerias e sobre essa dificuldade dos novos compositores em poder competir numa disputa de samba. Depois dê uma lida na coluna que escrevi em agosto sobre as dificuldades enfrentadas pelos compositores numa disputa de samba. Acho que ficou legal e espero que tenha atendido ao que vc propôs. :) O nome da coluna é : A difícil tarefa de um compositor. Quero dizer também que não tenho preferência sobre a métrica de um samba. Eu gosto do que é bem construído - independente da forma como ele seja feito. A intenção da coluna foi para dizer que há outras possibilidades de se fazer bom samba também. Na minha opinião um samba de métrica diferente não pode ser discriminado somente por ele ser diferente. Creio que ele deva ser avaliado como qualquer outro. E se um samba dentro dos padrões que estamos acostumados for melhor que ele vença. A intenção da coluna é para que haja uma maior liberdade de criação. Obrigado Luiz pelas ideias e pelo saudável debate! Estamos aí!!!!

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    03/10/2012 03:38:47Luiz CarlosMembro SRZD desde 01/09/2010

    Glorioso, quanto ao "lobby" para empurrar "goela adentro" determinado tipo de samba e determinados compositores, ele existe mesmo e vc tem razão. Mas, isto é outro papo, né ? Vamos ver se o Thiago Lacerda se anima a escrever uma coluna sobre os grupos que dominam o samba enredo atualmente, aí a gente discute. Alô, Thiago, será capacidade muito acima da média destes compositores ou tem uma espécie de cartel do samba enredo formado ? E os sambas concorrentes que não têm cantores de ponta são vistos com os mesmos olhos que os tem os têm ? Pelo visto, levado à sério, temos colunas até dizer chega,

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    03/10/2012 03:33:13Luiz CarlosMembro SRZD desde 01/09/2010

    Eu nem pensei em Lobby; não acho que, especificamente, seja o caso. O que eu chamei a atenção é para esta "busca desenfreada" de uma pseudo modernidade ou evolução. O Glorioso tem razão quando chama a atenção para o elogio exagerado, muitas vezes, ao "diferente" em detrimento a velha "receita de bolo"...e, é claro, o espaço influencia mesmo, logo.... O colunista, mesmo sem lobby, tem uma clara preferência pela "modernidade". No meu caso, acho que "eles" já foram sambas enredo, depois se tornaram marchas, perdendo qualidade e, hoje, passam por outro processo de mudança, que é sinal dos tempos mas, volto a afirmar "colcha de retahos melódicos" não é moderno, não é evolução, afinal, não é nada. Como nada não existe...abram os ohos, colunistas e sambistas. A continuar neste "pique" daqui a pouco nem colunas e nem sambas.

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    01/10/2012 21:05:31fábio alexandre rosa maffeiMembro SRZD desde 25/09/2012

    Só falou besteira , papo de torcedor que não aceita a derrota .

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    01/10/2012 13:22:17GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Como foi citado,"o sonho de um sonho" ganharia hoje sim,porque continuaria com a assinatura do Martinho,pois existem certas inovações que não é qualquer um compositor que pode incluir,pois se um "sem nome" entra com um "sonhei que estava sonhando um sonho sonhado,um sonho de um sonho"... seria limado na hora,ninguém ia querem nem lêr mais,mas...como era o grande Martinho,virou poesia,um achado,uma jogada de mestres. Enfim,é o que sempre disse e digo aquí: cabe aos compositores mais bajulados e protegidos trazerem as mudanças,pois se vierem com "receita de bolo",ganham e são altamente elogiados e se vierem "diferente",também são exageradamente elogiados. Já os "outros",são sempre vistos como sambas quadrados,engessados,receitas de bolo,etc...e se entrarem com um samba "diferente",com certeza terão muitos que dirão,que isso?..... E assim,segue o mundo do samba em sua normalidade.

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    30/09/2012 11:47:37Luiz ClaudioMembro SRZD desde 11/01/2012

    O samba da Mangueira 2013 segue os padrões tradicionais. Começa com um refrão, vem a parte inicial, depois um refrão central, e finaliza com outra parte longa. Embora bonito, parece que já ouvi antes. Abaixo a mesmice, renovar e inovar é preciso. Saudações Portelenses!!!

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    28/09/2012 23:02:32Daniela BritoMembro SRZD desde 25/07/2012

    E o samba da Vila Isabel de 2012, com o canto e contra canto? Pelo que sei nunca havia ocorrido.

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    28/09/2012 19:01:01Thiago LacerdaMembro SRZD desde 12/06/2012

    Glorioso, Obrigado pelo comentário. Mas pode ter certeza de que em nenhum momento estou fazendo lobby e muito menos sendo tendencioso. O meu único objetivo foi de abrirmos um tópico para pensarmos sobre essa métrica do samba que anda engessada. Só acho que deve haver uma liberdade de criação maior sem preconceito com as novas fórmulas. Quem ganha com isso somos nós! Isso não impede que existam diversos sambas maravilhosos que sigam a linha comum. E se for melhor, tem que ganhar. O melhor tem que vencer sempre - independente da forma como eles sejam construídos. Um abraço, amigo.

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    28/09/2012 19:00:47Thiago LacerdaMembro SRZD desde 12/06/2012

    Glorioso, Obrigado pelo comentário. Mas pode ter certeza de que em nenhum momento estou fazendo lobby e muito menos sendo tendencioso. O meu único objetivo foi de abrirmos um tópico para pensarmos sobre essa métrica do samba que anda engessada. Só acho que deve haver uma liberdade de criação maior sem preconceito com as novas fórmulas. Quem ganha com isso somos nós! Isso não impede que existam diversos sambas maravilhosos que sigam a linha comum. E se for melhor, tem que ganhar. O melhor tem que vencer sempre - independente da forma como eles sejam construídos. Um abraço, amigo.

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    28/09/2012 12:11:32Fernando PeixotoMembro SRZD desde 24/07/2009

    Assino embaixo, meu amigo Thiago Lacerda! Como disse Vitor Hugo, "em nome da verdade, todas as regras serão abolidas".

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    28/09/2012 11:56:24Vinícius Ferreira NatalMembro SRZD desde 13/07/2011

    Não acho que o autor esteja sendo tendencioso, e sim citou exemplos de sambas que seguem essa linha do "diferente". Acho que independente de concordarem ou não, o bacana é a gente pensar sobre a forma de se fazer samba, como se escolhem os sambas e como os jurados estão avaliando. Quero é mais que os sambas variem em suas formas para que tenhamos cada vez mais estilos diferentes. Ou será que um "Sonho de um Sonho" do Martinho da Vila ganharia hoje em dia? Sei que os "tempos são outros", mas qual seria o argumento para derrubar um samba tão lindo desses da disputa? Vale a reflexão...

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    28/09/2012 09:18:48GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Ã? CLARO QUE OS MAIS ATENTOS,MAIS CASCUDOS,MACACOS VELHOS, ENTENDERAM QUE NAS ENTRE LINHAS, O TEXTO Ã? APENAS TENDENCIOSO,ONDE O AUTOR,SABENDO QUE O ESPAÃ?O Ã? UM INFLUENCIADOR,PORTANTO FAZEDOR DE OPINIÃ?ES,APENAS BUSCOU UM MEIO DE, SE APROVEITANDO DA "MÁQUINA", EXTERNAR SUAS PREFERÃ?NCIAS,SOANDO NA VERDADE PARA TODOS, COMO UM GESTO INFELIZ DE DUVIDAR DA INTELIGÃ?NCIA ALHEIA,POIS BEM SABE QUE O MOMENTO DE EXPÃ?R ESSE ARGUMENTO,SERIA OUTRO.

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    27/09/2012 21:19:18Tony MaiorMembro SRZD desde 28/10/2011

    Nao tem pra ninguem A vitoria vai ser desse samba Maravilhoso de Wanderley Monteiro e Cia. E gosto me enrosco!!!

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    27/09/2012 20:19:18Thiago LacerdaMembro SRZD desde 12/06/2012

    Amigos, obrigado pelos comentários de vocês. Tenham certeza de que contribuem muito para que eu reflita sobre o que eu escrevo e sobre o que vocês estão pensando. Acho que o importante é o debate :) Só queria esclarecer uma coisa: em nenhum momento eu afirmo que os sambas construídos num formato padrão não podem ser bons. Pelo contrário! Eu seria um louco se tivesse escrito isso. Eu apenas coloquei em discussão sobre a possibilidade de termos uma liberdade maior de criação. Não há necessidade de se ficar preso a um formato para que o samba seja de qualidade. Há diversas formas de se escrever que podem nos dar sambas maravilhosos. O importante é termos sambas maravilhosos - independente da forma que sejam feitos. O que não pode é um samba ser desclassificado por não seguir a métrica padrão. Essa foi a intenção da coluna quando a escrevi. Eu gosto é do bom samba!! Um abraço a vcs!

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