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Leonardo Guedes

Leonardo Guedes

Jornalista, trabalhou de 2010 a 2012 no SRZD. Escreve sobre MPB.

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21/11/2012 09h22

'Línguas de fogo': o surpreendente caldeirão de Sidney Miller
Leonardo Guedes

Para o cidadão comum atual carioca, em especial para quem transita pelos lados da Cinelândia (Centro do Rio), na altura da Rua Araújo Porto Alegre, Sidney Miller é o nome de uma discreta e respeitável sala de espetáculos mantida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) no Palácio Capanema. Alguns raros, com algum esforço, lembram que Sidney Miller ficou conhecido pela música "O circo" na década de 1960, sucesso nas vozes de Nara Leão e Marília Barbosa ("Vai, vai, vai, começar a brincadeira / Tem charanga tocando a noite inteira / Vem, vem, vem ver o circo de verdade / Tem, tem, tem picadeiro e qualidade"). Mais recentemente, outro sucesso de Miller passou a ser tocado na voz de Roberta Sá, "Alô, fevereiro" ("Tamborim avisou, cuidado / Violão, respondeu, já era / Cavaquinho atacou, dobrado / Quando o apito chegou, já era...).

O que é praticamente desconhecido da maioria é que Sidney Miller foi um instrumentista dedicado e, especialmente, um letrista excepcional, equivalente ao nível de Chico Buarque e Noel Rosa, mas com uma carreira que seguiu o rumo do quase anonimato. Ele lançou apenas três discos de estúdio, "Sidney Miller" (1967) e "Brasil: do guarani ao guaraná" (1968) e a obra tema deste texto, "Línguas de fogo" (1974), pela gravadora Som Livre. Na capa cinzenta, ele aparece muito diferente do jovem tímido de terno que se destacou nos conhecidos festivais de MPB na televisão durante a década de 1960: o estilo é totalmente hippie, com cabelos compridos e as típicas calças boca-de-sino da ocasião.

Resumidamente, a obra é um caldeirão de apresentações habilidosas de alguns gêneros, explicitando o talento multifuncional de Sidney, que fez todas as composições e ficou responsável pelos arranjos. Em duas faixas, o artista apresenta sua poética melancólica praticamente confessional e instrumentação em clima soturno, "Cicatrizes" ("Acordar, de onde? / Acordar, pra onde? / Acordar, pra que? ... Os meus olhos vivem / Os meus olhos dizem / O que eu posso ver / Como essas cicatrizes no meu corpo / E esse cansaço / Como essa escuridão por onde eu passo / De cada noite a cada amanhecer") e "Alento" ("Cai a noite amarga sobre o mundo / E o medo num gemido mudo, amada / Tem segredos que eu não sei saber / Eu quero teu alento / Apenas um momento, apenas um momento..."). 

Se em obras anteriores, Sidney Miller havia mostrado sua aptidão para o samba, em "Línguas de fogo" ele expunha uma surpreendente aposta no rock e no folk. Não que o compositor tenha se esquecido totalmente do samba: no disco, temos a faixa "Sombrasileiro" (assim mesmo, tudo junto), uma mistura com rock e toques tropicalistas mais uma letra que demonstrava o clima tenso dos anos da Ditadura Militar: "Dançando a dança, a moda, a dança medo / Secreta como um som dito em segredo / Segura como um homem de brinquedo / Eu sonho um som terra, terreiro / Um som de samba e sol e sombra / Som brasileiro / Pajé, paracatu, maracatu, maraca, maracá...".

As faixas que apresentam o lado folk de Miller são as mais belas e vibrantes, que poderiam ter boa aceitação do grande público em qualquer época. Na faixa-título "Línguas de fogo", o artista alcança o ápice da criatividade poética, da capacidade instrumental e a catarse em tom existencial no refrão "Pra onde vai o som / Depois que o escutamos? / Pra onde vai a voz que vem de nós / Pra onde vamos?". O outro exemplo é a sentimental "Espera", cujo destaque são as flautas que dão o tom comovido para a letra entristecida e ao mesmo esperançosa:

Em outras músicas, Sidney aproxima-se do rock com um certo toque beatle: "Um dia qualquer", "Alô" e "Dois toques", última faixa, onde as improvisações das guitarras elétricas dão o toque final e agitado. A letra de alerta existencial chega a lembrar um pouco a bastante conhecida "Tente outra vez", da lavra de Raul Seixas: "Ei, cara / Você não precisa ser um Deus para / Receber o que a sorte lhe deu / Fará dessa hora morta em que você chora / Pois no momento em que você chora / A vida em parte vai-se embora".

Em "Línguas de fogo", o artista ainda surpreende, dadas as circunstâncias da época, com uma insinuação de amor lésbico em "No quarto das moças": "Nuas em seu quarto / As moças quase sem falar / Para que ninguém as ouça assim / Nuas a sonhar". E também faz uma passagem pelo experimentalismo com jogo fonético em "Pala-palavra".

Foi o último álbum de Sidney Miller em circuito comercial. Depois, ele continuou trabalhando no departamento de projetos especiais da Funarte. Abalado por crises depressivas e de alcoolismo, Sidney morreu no dia 16 de julho de 1980. De acordo com as fontes da época, de ataque cardíaco. A Sala Funarte Sidney Miller continua em atividade e esporadicamente são feitas homenagens merecidas à sua obra.


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Comentários
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    08/11/2014 22:24:19Frederico NílsonAnônimo

    Prezado Leonardo Guedes, muito bom o seu texto! Pena que exista essa "lei" na imprensa de se evitar ao máximo ou até omitir informação sobre suicídio. O que configura um julgamento moral - condenável como qualquer julgamento moral.

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    18/10/2013 14:01:09Victor BorgesAnônimo

    Boa Tarde, Alguém poderia me informar quem foi o Produtor deste disco? Caso tenha também a informação, gostaria de saber quem foi o técnico de gravação/mixagem. Grato.

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