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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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22/11/2012 14h48

Em 20 de novembro
Rachel Valença

Ao longo da vida me tem sido perguntado inúmeras vezes o motivo de minha ligação com a cultura negra. A resposta é simples: está no sangue que me corre nas veias. Neste país mestiço onde nasci, a gente devia se espantar quando alguém volta as costas a essas raízes culturais que nos vêm do berço. Nunca o contrário.

Comemorei o Dia da Consciência Negra de forma privilegiada, entre meus iguais, amigos e ídolos que cultuei pela vida afora. No Centro Cultural João Nogueira oferecia-se um show em homenagem a Silas de Oliveira e, como não podia deixar de ser, os ingressos se esgotaram e o público se apinhava na porta, tentando não ficar de fora dessa comemoração memorável.

Posso garantir que valeu a pena. Porque foi um espetáculo que comprovou a beleza, o talento, a criatividade da raça, sem dever favor a ninguém. As composições de Silas, algumas tão raras de ouvir, misturaram-se a bons sambas sobre ele e sobre sua escola de samba. Os intérpretes eram todos sambistas de verdade, a começar pela maravilhosa Luísa Dionísio, passando por Ana Costa, Renato da Rocinha e Dudu Nobre, contando com os bambas Sombrinha e Monarco, para encerrar com a parceira de Silas, Dona Ivone Lara, cantando ainda com sua voz inconfundível.

Além de tudo isso, foi possível ver e ouvir a querida Velha Guarda Show do Império Serrano, impecavelmente trajada e cheia de dignidade e malícia, representando as melhores tradições da escola. Senti falta do nosso pavilhão, que ali devia estar, marcando a presença da escola que tanto deve a Silas de Oliveira. Mas o Império estava ali sim, em cada um de nós, em cada samba maravilhoso que foi apresentado e até no samba-enredo de 2012, que homenageava Dona Ivone Lara. Entoado não no palco, mas pelo público, quando a cortina se fechou, escondendo a grande dama, que surpreendeu e emocionou ao fazer questão de sair do palco andando!

De um espetáculo dirigido por Túlio Feliciano não se esperava menos que o máximo. Saí do Imperator sem sentir o chão que meus pés pisavam e agradecendo à vida por ter me feito nascer no Brasil, em uma cidade abençoada, e por ter me concedido a graça de conhecer de perto esta gente bonita e talentosa que me proporciona tanta alegria e tanta emoção. Salve o Império Serrano! Axé Silas de Oliveira!


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Comentários
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    27/11/2012 13:50:26capoeira=Aluísio MachadoMembro SRZD desde 21/09/2011

    Notei sua presença marcante na platéia , lugar apropriado onde a humildade reina no trono da sabedoria . Muito obrigado pelo pavilhão , realmente falha nossa , E Tuninho Fuleiro do céu lhe credita as mãos a um puxão de orelhas . Para ele era o santo sudário . A velha Guarda Show não saía sem a bandeira , no teatro João Caetano , dobrou a bandeira e colocou em um banco com todo carinho , em um piscar de olhos chegaram nossas três fortes pastoras e foram sentar logo onde Meu Deus , em cima da bandeira .. Com toda estiva gentileza e elegância oriunda do cais , partiu para as pobres indefesas acomodadas na bandeira ,, ISSO AÍ Ã? LUGAR DE BOTAR OVO ?????

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    25/11/2012 13:11:31Ricardo José EmilianoMembro SRZD desde 05/03/2010

    Meu querido Almir da Silva Lima, vc tem toda razão, eu errei esse termo, deculpa meu lindo, obrigado pela observação, abraçossssss!!!!!!!!!!!!!!!!

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    25/11/2012 10:11:33Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Ricardo José Emiliano, com todo respeito, meu prezado parceiro amante do maior espetáculo da Terra, considero errôneo denominar nós os brasileiros afrodescendentes como "Afro Brasileiros". Assim como não existem "asiático brasileiros" e ou "euro brasileiros". Nossa prezada sambista-jornalista-blogueira em questão, por exemplo, é uma brasileira eurodescendente que com naturalidade, alegria e prazer abrilhanta essa Arte & Cultura negra da Música Popular Brasileira chamada Samba. Saudações carnavalecas, Almir de Macaé, torcedor-amante da Aguia Altaneira.

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    23/11/2012 22:54:28Ricardo José EmilianoMembro SRZD desde 05/03/2010

    Fico emocionado com esse texto tão carinhoso que você tem com a cultura negra. Sou militante do Movimento Negro de Nova Era - MG, quero um dia passar esta data com vocês, uma data tão importante para todos nós Afro Brasileiros, um forte abraço!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    22/11/2012 20:37:17Rachel Teixeira ValençaMembro SRZD desde 05/05/2011

    Tem toda a razão, caro Almir. O racismo é sempre abominável mas ele me choca mais num país mestiço como o nosso. Numa cidade negra, como a nossa. E nas comunidades de samba, manifestação cultural negra. Devíamos ter orgulho de nossa raiz negra! E a instituição do Dia da Consciência Negra foi um grande passo nesse sentido. Deve ser comemorado com samba, com jongo, com capoeira, com comida e bebida, com muita alegria, mas também com muita reflexão. Obrigada por suas palavras.

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    22/11/2012 18:51:32Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Sambista-blogueira Rachel Valença, parabéns pelo texto. Como forma de contribuir não só com a sua, mas com a nossa reflexão, apesar de eu saber que você tem consciência de praticamente tudo que afirmarei. Lhe envio estas mensagens. A causa da pergunta sobre o motivo de sua ligação com a(s) cultura(s) negra(s) é o maldisfarçado racismo existente no País e que deve ser combatido cotidiana e permanentemente. O mesmo em relação a toda e qualquer forma de opressão, a despeito de você contribuir artístico-culturalmente com o mundo do samba há 40 anos. Atribuo isso, embora voce tenha sido inclusive vice-presidente da gloriosa Coroa Imperial, ao fato de sua origem social e sua cor da pele, infelizmente. Isso, para a hipocrisia e o maldisfarçado racismo existente no Brasil, porque, esclareço o significado da data de 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, é o de ser exemplo de união dos oprimidos (negros, brancos e indígenas opositores do opressor regime negro-escravista durante cerca de 100 anos em pleno Brasil colonizado pela monárquica e opressiva Coroa Portuguesa). Em outras palavras, o Dia Nacional da Consciência Negra significa exemplo dado pelo maior herói negro brasileiro, o comandante máximo da 'República' Livre e Popular do (quilombo) de Palmares para o Brasil e para o mundo. Saudações carnavalescas, Almir de Macaé, torcedor-amante da vizinha-coirmã da Coroa Imperial, a Majestade do Samba.

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