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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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04/12/2012 11h24

Meu samba, cidadão carioca
Rachel Valença

Que semana, esta última! Começou com o povo deste estado indo às ruas para protestar contra a injustiça da tunga dos royalties, que se anunciava. Uma manifestação bonita, ordeira e muito democrática, pois todos os segmentos da sociedade se faziam representar, externando as mais diversas opiniões das formas mais diferentes. E sabem quem estava lá? Sua Majestade o Samba. Ele mesmo. Como bom cidadão carioca, ele sabe o que representaria para o nosso estado a quebra de todos os compromissos assumidos, à luz da Constituição Federal.

Adoro tudo que se passa na rua. É sempre bonito quando o povão se reúne, seja para brincar, para protestar, para homenagear, para rezar, para cantar. Não sou muito de futebol, mas adoro final de campeonato. Vou também à rua receber a nossa seleção campeã. Lembro do enterro de Luiz Carlos Prestes subindo a Rua São Clemente, em direção ao cemitério São João Batista, acompanhado de uma porção de gente, da mesma forma que fui ver Nelson Mandela na Praça da Apoteose em 1991. Para falar a verdade, não perco chegada de papa.

E sabem por quê? Porque mesmo quando o assunto é sério, como era o caso da semana passada, o povo do Rio sempre encontra um jeito de mostrar a sua impressionante criatividade, o seu espírito lúdico e gregário. E é lindo de ver.
Em meio a tanta gente, que orgulho ver os sambistas lá, mostrando sua preocupação com os destinos do nosso lugar! Somos frequentemente acusados de não nos preocuparmos com os problemas sérios, de não termos consciência política, mas, quando é preciso, o samba se mobiliza em prol de uma causa que não é só sua, é de todos os segmentos desta cidade e deste estado. E o faz na hora certa e no lugar certo, sem comprometer a qualidade e as características do seu folguedo carnavalesco. Baterias, casais de porta-bandeiras e mestres-salas, intérpretes e dirigentes das diversas escolas de samba deram o seu recado para que o Rio de Janeiro possa continuar a ser o mais generoso dos lugares, aquele que recebe todos de braços abertos, sem distinção.

Na semana anterior eu estava triste com uma frase da ministra da Cultura, em sua fala no Fórum Nacional de Museus, reunido em Petrópolis. Fala muito articulada e vibrante, por sinal, que conclamava os dirigentes de museus a se prepararem para os grandes eventos internacionais que se aproximam e que colocarão esta cidade em grande evidência. Era preciso ter o que mostrar ao mundo. Se não estivermos preparados, dizia a ministra, vamos mostrar o quê? "Mar? Coqueiro? Samba?" A frase não é ofensiva ao samba, porque mar e coqueiro são boas coisas. Mas é equivocada, ao botar no mesmo barco natureza e cultura. Mar e coqueiro, belezas naturais, podem ser mostradas com orgulho, mas, e nisso concordo com a ministra, não são o suficiente para uma cidade que a Unesco reconheceu, em julho deste ano, como patrimônio cultural da humanidade. Este título significa que o que o homem construiu nesta cidade tem tanto valor quanto a natureza aqui existente.

E uma dessas coisas, queiram ou não admitir, é o samba. Porque samba faz parte da cultura do Rio de Janeiro e daqui se estendeu ao Brasil e ao exterior, onde é conhecido e respeitado como traço marcante de nosso DNA de nação que adquire a duras penas credibilidade e destaque no panorama internacional.

Sei que não é fácil para muita gente compreender e aceitar o samba nesse patamar. Mas já é hora. E a nossa atitude, como sambistas, nossa auto-estima, nossa atuação como cultores e guardiões desse patrimônio, são determinantes para esse reconhecimento.

No fim de semana, em comemoração ao Dia Nacional do Samba, era hora de comemorar. O trem de luxo partiu mais uma vez - a 17ª - de D. Pedro II com destino a Oswaldo Cruz, levando uma gente animada e feliz. De novo, o povão. O povão que sabe cantar os sambas antigos e tradicionais e os novos, também. Um povo que não economiza aplausos a seus ídolos. Essa Kizomba é nossa constituição, explode-coração na maior felicidade, vejam esta maravilha de cenário, é cheiro de mato, é terra molhada, eu vou tomar um porre de felicidade, será que já raiou a liberdade? E lá vai a cartilha do samba de a a z, sendo entoada de um jeito tão bonito que é quase impossível conter as lágrimas.

Esse povo não precisa fingir: gosta mesmo de samba. Foi capaz de transformá-lo de objeto de perseguição policial em fenômeno cultural, que não é coqueiro, é música, é dança, é criação plástica, é memória. Em suma, é cultura. Com todo o respeito...


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Comentários
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    05/12/2012 16:03:35capoeira=Aluísio MachadoMembro SRZD desde 21/09/2011

    O samba através do pagode do trem , tem uma das distribuições de renda mais honesta do Brasil . Com cachê homogêneo cria a condição de premiar muitos artistas consagrados e anônimos . Deixar de pagar é ganhar ,, Todo o evento de altíssima qualidade , é gratuito ao povo , que se torna , diretamente ligado a distribuição.

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    05/12/2012 14:48:27Jeanine GallMembro SRZD desde 05/12/2012

    Tive o prazer e o privilégio de acompanhar o Império Serrano no Trem do Samba representado pelos ilustres componentes da Velha Guarda, por imperianos apaixonados e pelo público que não dispensa um batuque de respeito e qualidade. Fotografei, cantei, pulei, trabalhei e me emocionei demais com tudo que vi. O carioca tem uma coisa singular, a alegria solidária! Gente que nunca se viu e que sorri em comunhão ao cantar o mesmo samba, acho isto incrível! No Trem do Samba é tão legal quanto o Metrô no dia de desfile, purpurina pelo chão, fantasias coloridas, cada ala defendendo o seu samba em perfeita harmonia. Brigas? Nunca vi. O samba tem o poder de manifestar os mais variados comportamentos, dá margem à infinitas análises, no meu caso, transformo em imagens o que sinto, às vezes, o texto também acontece, como numa psicografia, estranho, mas é verdade. Toda a reverência e respeito ao Samba, por tudo que ele representa, carrega e produz! Vida Longa à cultura carioca!

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    04/12/2012 12:20:21AndréMembro SRZD desde 24/09/2012

    Bela matéria Rachel ! Nós temos sim orgulho do samba e de ser sambistas. A única coisa que temos que nos envergonhar é de ter uma ministra da cultura se referir de forma pejorativa ao samba. Através do samba temos como mostra a história de todo um povo. Já através de um discurso preconceituoso como esse, a ministra só demonstra o quanto ela conhece da cultura do próprio país.

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