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01/02/2013 15h36

Tabus do Samba - Parte 1 - 'Sambas não são bons como antigamente'
Hélio Ricardo Rainho

Aceitei, topei o desafio. Diga-se de passagem, proposto por mim mesmo. Numa dessas inflexões sobre o Carnaval, me dei conta que muita gente - inclusive de dentro da festa - ouve e repete coisas sem muito fundamento. Não que não sejam verdadeiras, pois em certo ponto até são. Mas não são tão absolutas quanto a maioria, muitas vezes, declara.

Tentaram sepultar a boa qualidade dos sambas-enredo.

Em nosso Seminário SZRD-Carnaval, realizado em parceria com a PUC-Rio há dois anos atrás, escolhi para uma das mesas de debate esse tema - "samba-enredo" - e muita gente apontou esse discurso: "não se fazem mais sambas-enredo como os de antigamente". E esse "antigamente" refere-se, muitas vezes, anos 80, tidos como "uma era de ouro", ou pelo menos como a era que concentrou a maioria dos sambas que mais enaltecemos até hoje.

Pois bem, resolvi meter a mão nesse vespeiro. Começo lembrando que, em 1978, uma obra-prima da literatura sobre escolas de samba - a obra Escola de Samba: Árvore que Esqueceu a Raiz (Candeia e Isnard - Editora Lidador) - já apontava severas críticas aos sambas-enredo que eram feitos com "intromissão" de professores e intelectuais "infiltrados" nas escolas de samba, "tirando a espontaneidade dos compositores". Ou seja, o título da obra já denota que, mesmo nos anos 70, um bamba de uma grande escola (Candeia, da Portela) já considerava os sambas-enredo no caminho da pasteurização. Como se vê, a crítica não é exclusividade dos dias atuais, como muitos pensam.

O que eu tenho a dizer sobre isso, numa posição de pesquisador e comentarista de carnaval? Sinceramente, acho que essa crítica de que "não há mais samba como antigamente" é um tabu. Melhor dizendo: é uma falácia. Repetida mil vezes parece verdade. Mas não chega a ser. Torna-se uma constatação ainda mais frágil quando se tenta medir a qualidade de um samba pelo "nível de recordação". Já ouviram alguém dizer assim: "Quantas pessoas ainda lembram do samba da escola tal de dois anos atrás?"...?

Vamos lá, por partes, na "quebra do tabu".

Primeiro: índice de recordação não tem nenhuma relação direta com qualidade. Certamente levaremos uns 100 anos com inúmeras gerações lembrando músicas como "Ilariê", "segura o tchan" ou "na boquinha da garrafa". O que não quer dizer absolutamente nada em termos de qualidade ou nível de poesia. Tão somente aponta para comunicação de massa, difusão exaustiva em meios de comunicação de determinadas músicas de cunho estritamente comercial. Esse nível de popularidade ou "lembrança" não necessariamente vai assegurar a qualidade do que é criado.

Aí entramos no segundo ponto: os sambas-enredos da década de 80 eram amplamente divulgados em uma época em que as rádios tinham papel fundamental no consumo de música. Coisa que, hoje, perdeu terreno para o uso de iPods, celulares de primeira geração e congêneres. As pessoas preferem ouvir música por si sós, não pela rádio. E os meios de comunicação como a televisão, no que pese terem influenciado tanto para espetacularizar o desfile das escolas de samba, relegam a um segundo ou terceiro plano a divulgação dos sambas-enredos. Para cada Chacrinha ou Bolinha que, nos anos 70/80, divulgavam os sambas-enredo na íntegra, semanalmente, em seus programas, o que nos sobrou agora? Uma vinheta resumida e decepada das escolas de samba, espremida onde pode, dentro de intervalos comerciais da emissora que transmite a festa, sem nenhum interesse real em valorizar esse gênero musical. Os sambas-enredo são usados pela emissora de televisão como jingle de chamada para sua transmissão. Não para transmissão e conhecimento da "cultura samba"!

Isso nos causa uma sensação de que "ninguém mais canta samba-enredo". Mentira! Sambista de verdade, que frequenta as quadras, sabe muito bem os sambas de suas escolas. E não se confunde com o telespectador comum, que só conhece escola de samba quando a TV permite...

Quem deixaria de colocar numa lista de sambas eternos, por exemplo, os sambas de Portela e Vila Isabel deste e do ano passado, ou Mangueira 2011 ("O Filho Fiel", sobre Nélson Sargento), ou a Vila 2010 (samba de Martinho da Vila sobre Noel), Imperatriz 2005 ("Uma Delirante Confusão Fabulística"), o "Império (Serrano) do Divino" de 2006 e até mesmo requintes de poesia menos comentados, como aquele samba sobre Mandela de 2007 da Porto da Pedra?

No mais, o processo de "emburrecimento cultural' (teoria minha) por que passa o país parece irreversível. Não é de se estranhar,
portanto, que as massas prefiram "o tchum", "o tcha", o "lelelê" do que a nata de nossa MPB. Eu mesmo já vi as arquibancadas da Sapucaí cantarem em coro sambas muito ruins e se mostrarem indiferentes diante de obras-primas. Ou seja, não se pode imputar sobre os compositores das escolas, tão somente, essa questão da lembrança e da aceitação do que por eles é criado.

É verdade que há essa proliferação de "sambas de condomínio", que muitos enredos modernosos impedem a criação de sambas competentes, que as escolhas de samba privilegiam compositores com torcidas-fantasma "animando" a quadra falsamente nos dias de disputa etc.

Mas o verdadeiro samba "agoniza mas não morre", como diria o bardo Nélson Sargento. AInda há resistência e poesia de sobra.laro, sempre haverá subjetividade nas comparações, sempre haverá saudosismo e nostalgia no gosto, e isso é natural. Mas não se pode generalizar, nem minimizar os grandes compositores das escolas de samba e negar que, com tudo isso, ainda se faz, sim, samba-enredo muito bonito - ainda que em menor quantidade - como os de antigamente!

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Comentários
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    03/02/2013 14:29:54ContactumMembro SRZD desde 01/12/2012

    Ooops!

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    03/02/2013 11:46:07JOSÃ? ARAGÃ?OMembro SRZD desde 07/04/2009

    CONTINUANDO... SE HÁ TRANSMISSÃ?O NACIONAL, PERMITIRÁ DIVULGAÃ?Ã?O DAS ESCOLAS DO ACESSO PARA AS MESMAS VENDEREM SEUS PRODUTOS E CDS DE SAMBA NO ANO SEGUINTE, NÃ?O Ã? VERDADE? MAS ESSE ANO VÃ?O NOS FAZER ENGOLIR GOELA ABAIXO O CARNAVAL ( COM TODO RESPEITO A CIDADE DE SAO PAULO) FRIO PAULISTANO, ONDE TODOS SABEM QUE NO NORDESTE E NORTE TANTO NO FUTEBOL QUANTO NO CARNAVAL OS PRODUTOS CARIOCAS SÃ?O MELHORES ACEITOS E PREFERIDOS PELA POPULAÃ?Ã?O DESSA REGIÃ?O. COMO BEM VOCÃ? JÁ DISSE, OS SAMBAS HOJE ESTÃ?O RESUMIDOS A VINHETAS COM BATERIA MUITO ACELERADA PRA TENTAR POR MAIS LETRA POSSÍVEL DO SAMBA EM POUCOS SEGUNDOS. PROGRAMAS DE TV DA PRÃ?PRIA REDE QUE TRANSMITE NÃ?O CONVIDA UMA MÍSERA ESCOLA DESSAS PRA PARTICIPAREM E CANTAREM SEUS SAMBAS. MAS QUEM SE SUJEITA A ISSO E ASSINA O CONTRATO COM A REDE GLOBO? LEMBRA-SE QUANDO A GLOBO CAIU NA QUALIDADE DE SUA TRANSMISSÃ?O? SEI QUE DE CERTEZA MEU CARO JORNALISTA COM TODA SUA EXPERIÃ?NCIA NO ASSUNTO DEVE LEMBRAR. MAS PRA O WEB LEITOR NOVO VOU FAZER A LEMBRANÃ?A: A GLOBO CAIU NA QUALIDADE DO SUAS TRANSMISSÃ?ES NO FINAL DOS ANOS 90 QUANDO A SUA CONCORRENTE NOS DESFILES, A REDE MANCHETE SAIU DO AR. AÍ JÁ VIU NÃ?? SEM CONCORRÃ?NCIA... MAS QUEM ASSINA MESMO O CONTRATO COM A REDE GLOBO PRA SE SUJEITAR E AFUNDAR A DIVULGAÃ?Ã?O DO SAMBA EM NÍVEL NACIONAL?

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    03/02/2013 11:35:01JOSÃ? ARAGÃ?OMembro SRZD desde 07/04/2009

    AMIGO HÃ?LIO( PERMITA-ME CHAMA-LO ASSIM), VOCÃ? SÃ? SE ESQUECEU DE DIZER QUE A GRANDE RESPONSÁVEL PELA FALTA DE DIVULGAÃ?Ã?O DOS NOSSOS SAMBAS Ã? A PRÃ?PRIA LIGA E SEUS DIRIGENTES DE TODAS AS ESCOLAS. POIS QUEM ASSINA CONTRATO COM A ATUAL REDE DE TV QUE TRANSMITE OS DESFILES E ACEITA TODAS AS HUMILHAÃ?Ã?ES QUE ESSA REDE DE TV VEM IMPONDO AS ESCOLAS? CLARO QUE SÃ?O OS DIRIGENTES, INFELIZMENTE HOJE SÃ? PENSAM NA HORA ADE POR A MÃ?O NO DINHEIRO DO CONTRATO DA TV COM AS ESCOLAS PRA POR EM PRÁTICA AS IDÃ?IAS MIRABOLANTES DOS CARNAVALESCOS ATUAIS DE GRANDIOSIDADE E LUXÃ?RIA DE ALEGORIAS. E COM ISSO ACABA ACEITANDO AS IMPOSIÃ?Ã?ES DA REDE DE TV QUE NÃ?O DA A MÍNIMA PARA OS DESFILES DAS ESCOLAS E SUA DIVULGAÃ?Ã?O. QUER PROVA MAIOR? O QUE FIZERAM ESSA ANO COM A TRANSMISSÃ?O DO ACESSO: NÃ?O ABRIRAM MAIS PRA OUTRA REDE TRANSMITIR NACIONALMENTE SIMPLESMENTE PORQUE O SBT NO ANO PASSADO CONSEGUIU MAIOR ÍNDICE DE AUDIÃ?NCIA EM ALGUNS HORÁRIOS DA NOITE DE SÁBADO COM O DESFILE DO ACESSO DO QUE ELES COM AQUELE DESFILE PAULISTA. ESSE ANO ELES CORTARAM A TRANSMISSÃ?O E VÃ?O PASSAR O ACESSO APENAS PARA O RIO. SENDO ASSIM CADÃ? A DIVULGAÃ?Ã?O DAS ESCOLAS DO ACESSO PRA TODO O PAÍS?

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    03/02/2013 11:03:41André AlbuquerqueMembro SRZD desde 30/05/2009

    Hélio, me desculpe, você justifica o que deveria ser a regra com as exceções. Há alguns anos, a cada safra surgiam vários sambas de enredo de boa qualidade. Hoje, dois ou três a cada carnaval. Seria mais ou menos como afirmar que o rock nacional de hoje tem a mesma qualidade do que se fazia nos anos 80. E quando esses compositores, e são sempre os mesmos, que ainda fazem bons sambas, desaparecerem, cansarem? Como será?

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    03/02/2013 10:48:36Ricardo AmaranteMembro SRZD desde 03/10/2012

    perfeito !!!!COMCORDO COM VOCE PLENAMENTE!!!!OBRIGADO!!!!!

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    02/02/2013 15:41:41GLORIOSOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Excelênte matéria,num contexto de linguagem popular e totalmente de acordo com a realidade. Se fosse analizar como um samba,diria: uma obra prima,rs... Parabéns aê,brother Hélio Ricardo.

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    02/02/2013 14:34:16Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Sim, sim, mano Celso! Nélson CAVAQUINHO é o certo! Ato falho,.. já pedi a correção, obrigado!

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    02/02/2013 13:07:10Rafael RinöMembro SRZD desde 01/01/2013

    Olá Almir! Eu citei o exemplo do samba da São Clemente apenas exemplificando um samba que é chiclete e gruda na cabeça, além de ser muito gostoso de cantar e que promete ser bastante cantado na avenida, além de que eu não tenho a informação de que foi um enredo "comprado". Acho só que foi uma escolha da escola por ser um tema extremamente popular. Abraços.

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    02/02/2013 12:00:11Celso OliveiraMembro SRZD desde 02/02/2013

    Boa! Só um detalhe: O Filho Fiel homenageou Nelson Cavaquinho.

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    01/02/2013 18:08:54Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Nobre Almir, obrigado pela participação. Não, não teremos uma parte 2 desse mesmo assunto. A "parte 2" será um segundo tabu! Tratarei de uma série deles. A cada semana, debateremos um novo assunto. Enfim, o debate promete ser acalorado... tenho certeza que as minhas linhas retóricas nem sempre "convencerão" a todos. A ideia, na verdade, é propor uma reflexão. Porque, como afirmei aqui, há, sim, um fundo de verdade em alguns desses tabus. O que incomoda, no entanto, é fazer disso uma conclusão genérica. Aí eu acho que a gente, que milita em favor do samba, precisa ter o cuidado de saber resguardar. Aguardo você nos próximos, um grande abraço e obrigado pelo carinho de sempre!

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    01/02/2013 17:49:54Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Estou de acordo com a essência deste belo texto. Não estou é convencido se o mesmo precisa de parte 2, a julgar o título. Como não existe texto perfeito. Atrevo-me a contribuir com a citação do belíssimo samba-enredo 2006 da Coroa Imperial intitulado â??Império do Divino (os caminhos da fé â?? romaria da esperança vai na direção do guerreiro) desenvolvido pelo bom carnavalesco Paulo Menezes que falta um título a lhe consagrar. O samba da parceria Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Sena, Aluizio Machado e Elmo Caetano assim como o próprio desfile da agremiação, foi recebido e cantado friamente pelo público na Sapucaí â?? embora o samba fosse belíssimo. Por fim, há um comentário postado que é uma incoerência só, porque absurdamente considerou â??muito bomâ?? o sofrível samba-enredo 2013 da São Clemente. Haja vista, o próprio leitor havia criticado dura e corretamente (diga-se de passagem) como â??compradoâ?? o patrocinado e sofrível enredo â??Horário Nobreâ?. Saudações carnavalescas, Almir de Macaé, torcedor-amante da Majestade do Samba.

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    01/02/2013 16:20:37Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Agradeço aos dois primeiros leitores que entenderam a minha proposta de reflexão. e tendo a concordar com Raael Rinö: é a pobreza dos enredos que tem depreciado a safra de sambas criados. Obrigado a todos, interajam sempre!

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    01/02/2013 16:12:37Leonardo RochaMembro SRZD desde 18/06/2009

    Parabéns pelo texto! Ã? sempre bom ter alguém que discorde da unanimidade!

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    01/02/2013 16:12:34Leonardo RochaMembro SRZD desde 18/06/2009

    Parabéns pelo texto! Ã? sempre bom ter alguém que discorde da unanimidade!

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    01/02/2013 16:12:13Rafael RinöMembro SRZD desde 01/01/2013

    Acho que quando a maioria do pessoal lança essa idéia, de que não existem mais sambas "bons" como antigamente, na sua maioria, eles querem dizer que os sambas já não são tão empolgantes, como antes. Considero os anos 90 (devido à minha idade) com os melhores sambas-enredo que já ouvi. Porque a maioria deles era cantarolaveis e de fácil recordação. Hoje, ainda temos alguns sambas que são muito bons e são aqueles em que você seleciona o repeat no aparelho e deixa rolando. O da Vila Isabel, citado na coluna, é um deles, assim como o da São Clemente, na minha humilde opinião. Mas o que eu acho que vem depreciando, tanto o enredo quanto os sambas-enredo, se referem aos enredos "comprados" pelos patrocinadores. Em sua maioria são fracos, deixam a escola limitadíssima e com isso, vem um samba que pode até fazer sua parte em contar o enredo, mas que não empolga. Sinto falta dos refrões que levantam a galera, que fazem a gente cantar a todos pulmões. Desses sambas é que sinto falta.

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