SRZD


22/02/2013 12h40

"Django Livre": Spaghetti Bem Servido!
Hélio Ricardo Rainho

Vi o filme. Já estreou há algum tempo. Vai longe a semana em que entrou em cartaz. Mas tornou-se tão impossível calar dentro de mim uma voz em favor de Django Livre (Django Unchained, 2012) que eu precisava externar alguma opinião a seu respeito.

Todo mundo sabe que Quentin Tarantino tem uma certa obsessão por violência e cinema do gênero western spaghetti. Para ele, tudo resulta numa deliciosa macarronada regada com muito, mas muito suco de tomate espirrando para todos os lados. Mas é justamente nessa tripudiação da violência, patetizada com a estética autoral que impõe às suas películas, que Tarantino atropela as convenções e deixa sua assinatura bem clara, surpreendendo a todos.

Django Livre é mais ou menos assim. Numa abordagem ousada, Quentin Tarantino empresta seu olhar de franco atirador do faroeste à delicada questão da escravidão. Capaz de causar indignação ao cineasta-mor da militância negra nos Estados Unidos Spike Lee, que considerou o filme "desrespeitoso aos seus ancestrais" e chegou a declarar: "A escravidão nos Estados Unidos não foi um western spaghetti de Sérgio Leone, mas um holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei".

Que nos perdoe o camarada Spike, mas, a seu modo, Tarantino também os honrou. A escolha inusitada de uma parceria entre um alemão (Dr. King Schultz, interpretado por Christopher Waltz) e um negro (Django, interpretado por Jamie Foxx) na causa pelo extermínio de senhores feudais na luta contra a escravatura já mostra que proselitismo racial não foi o caminho adotado pelo diretor. A trilha a ser percorrida por Tarantino nessa caminhada tornar-se-ia mais radical quando, no decorrer do filme, um dos vilões mais racistas e asquerosos é exatamente um outro negro, Stephen, interpretado por Samuel L. Jackson. Tarantino não quer saber de tributo: como um quilombola por adoção, tudo o que ele mais quer é vingança! E o que vemos no filme é quase que um "sistema de cotas" para reparar toda a filmografia da humanidade que registrou a escravidão negra: matam-se brancos feitores e escravagistas como nunca antes se viu. Justiça seja feita! Dizem por aí: "é disso que o povo gosta"! Dois dentes e dois olhos para cada um arrancado de um irmão africano! Ah, o doce sabor da vingança...

Tarantino não está nem um pouco interessado em ser politicamente correto. Nem historicamente didático. Nem estruturalmente lógico em sua narrativa. Tudo o que ele quer é fazer cinema. Divertir-se com cinema. Tripudiar da seriedade e do lugar comum com uma câmera festiva, celebrando a ficção sem se preocupar se, com isso, está sendo violento ou não. A violência está na cabeça de quem assiste. Tarantino apenas se diverte.

Mas não há como fugir da comoção. Por incrível que pareça, em meio a tanto sarcasmo e tanto clima (violento) de action movie, é possível se encantar com a atuação de Jamie Foxx, vivendo na pele, no olhar e nos pequenos gestos a indignação e a revolta com a opressão racial da época retratada. Sobretudo nos maus tratos impostos à personagem Broomhilda, amada de Django, interpretada por Kerry Washington. Se o jorro de vingança contra os malvados é feito à base de banho de sangue, a intensidade dos olhares e torturas do ódio racista contra os escravos é de arrepiar! Bom exemplo disso é a atuação pérfuro-cortante de Leonardo Di Caprio, em direção cênica que privilegia com silêncios e gestos uma atuação quase teatral, sepultando de vez qualquer lembrança do açucarado e inócuo mocinho náufrago que o Titanic nos tentou impingir.

A questão racial é abordada, sim, com direito a nos inspirar lágrimas! Sentimos na pele, como poucas vezes já nos proporcionou o cinema, a revolta e a indignação contra aquele "holocausto" citado por Spike Lee na crítica que fez ao colega.

As belas interpretações, a trilha sonora sempre conceitual do mestre Tarantino e os requintes de deboche e humor negro (ops! tropecei no termo!) fazem desse filme mais que um mero spaghetti : uma verdadeira lasanha, recheada de talento, emoção e prontinha para ser servida como cinema de verdade.

Tá na mesa, pessoal!

Hélio Ricardo Rainho é blogueiro do SRZD e colaborador da editoria de cinema.


Comentários
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    26/11/2013 01:28:16EvangelinexzcAnônimo

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    26/11/2013 01:20:46plalchernphAnônimo

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    25/11/2013 23:19:00plalcherwxgAnônimo

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