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04/03/2013 18h51

Tabus do Samba - Parte 2 - 'Passista masculino acabou!'
Hélio Ricardo Rainho

De todos os segmentos das escolas de samba, pode-se dizer que a ala de passistas é uma das mais essenciais e menos reconhecidas dentro do meio. Durante muitos anos a dança dos passistas ficou relegada, por esforço da grande mídia, à exposição de corpos femininos das mulatas seminuas. A dança do samba no pé que essas mulatas exerciam como passistas foi severamente esquecida, ou mesmo desprezada.

- Tabus do samba - Parte 1 - 'Sambas não são bons como antigamente'

Na vala comum de nossa cultura, onde o corpo feminino sempre foi maxi-valorizado como objeto de exploração, as passistas femininas tiveram reconhecimento por um viés (a nudez) que não traduzia a sua real proposta (a dança do samba). Ainda assim, a figura feminina apareceu sempre muito mais do que a masculina dentro do segmento "passistas". Uma realidade que se confirmou e se comprovou a partir do momento em que, na virada dos anos 70 para os 80, começou o império das "rainhas/madrinhas de bateria", sem jamais se delegar a homens sambistas o mesmo espaço de "reis/padrinhos" nesse posto.

O quesito "cronometragem" também impôs um certo "extermínio" dos sambistas de chão, considerados "um atraso" para a harmonia velocista que passou a integrar o comando das escolas. Passo a passo, a figura do passista foi se tornando secundária numa festa onde deveria ter destaque e lugar privilegiado. Enfileirados, correndo, separados por gênero...enfim, cada vez mais descaracterizados e menos respeitados em seu espaço e lugar de direito. Tudo para privilegiar exigências da modernidade!

A figura mítica do malandro milongueiro e sambista, de terninho branco e chapéu de panamá, com elegante indumentária e postura desafiadora, constitui o repertório clássico do passista masculino. Para muitos, no entanto, um crescimento considerável do número de rapazes com trejeitos afeminados descaracterizou essas alas, "acabando" com a malandragem no samba. O tabu repetido por aí é esse: de que "não existem mais passistas masculinos, estão todos afeminados".

Foto: SRZD

Essa generalização seria verdade???

Vamos por parte. E que fique criteriosamente explícito que a discussão não tem NENHUM viés discriminatório, antes procura apenas questionar a caracterização do personagem "malandro do samba" que se requer na simbologia do passista masculino das escolas de samba. Trata-se de uma distinção DE GÉNERO, não de SEXUALIDADE.

Juízos generalizadores são sempre temerários. Já começa que nunca houve um malandro mais malandro e referência da Lapa Antiga que Madame Satã. Que, sabidamente, era um homossexual inveterado e assumido. Vide seu pseudônimo ("Madame"). O que não o impediu de figurar como o mais imponente malandro da história do Rio de Janeiro. Diz-se que era brigão tanto quanto tinha lá os seus trejeitos de afeminado nas horas vagas. Ou seja, essa coisa de se ver malandro afeminado em roda de samba já é antiga. Logo, depreciar um malandro por ter alguma conotação homossexual pode ser uma controvérsia, tanto quanto um viés de preconceito. A diferença é que, naquele tempo, poucos se atreveriam a afrontar um sujeito rei da rua como aquele, que virava camburão brigando na mão...

A questão é que a figura do passista masculino é UM PERSONAGEM. Ele não é uma "entidade incorporada" (juízo equivocado que só deprecia e desmerece a técnica da dança do samba) nem precisa necessariamente requerer uma "vivência de malandragem" no cotidiano de quem o interpreta. Ele é um construto. Deve ser construído. Para caracterizá-lo como tal, independente da orientação sexual, o passista masculino deve conhecer as regras básicas da chamada "roda de malandragem". Rebolar, sacudir quadris, "desmunhecar" podem ser fatais para a caracterização do tipo. O malandro corteja a cabrocha como um cavalheiro corteja uma dama, não pode fazê-lo como se fosse "outra cabrocha" convidando "a colega" para "um requebro". Outra série de recomendações diz respeito ao uso do chapéu panamá. Ele não pode ser jogado ao chão, nem tirado da cabeça para ziguezagues transversos, a não ser para saudar ou cumprimentar outro malandro, uma cabrocha ou a plateia. Muito embora se tenha aprendido em rodas de samba que o chapéu ao chão é condenável por "atrair maus fluidos" ou "incorporar energia negativa", o fundamento sociológico e histórico nada tem a ver com essa questão religiosa. Deve-se entender que o chapéu é uma derivação social da coroa dos reis, da mitra dos sacerdotes e do elmo dos gladiadores. Ou seja, nas sociedades posteriores, ele representa autoridade, respeito, status, porte. Um rei jogaria sua coroa ao chão? Um sacerdote jogaria sua mitra para o alto? Um gladiador rodopiaria o elmo em suas mãos? Portanto, independente de qualquer superstição ou confissão de fé, o chapéu do malandro deve permanecer como um ícone de respeito por identificá-lo de modo respeitoso e digno de uma linhagem social. É uma espécie de dress code dos guetos boêmios da cidade.

Nenhuma escola de samba, ainda que tenha lá as suas "madames satãs contemporâneas", pode apresentar uma ala INTEIRA de afeminados, nem deixar de exibir seus passistas masculinos devidamente caracterizados e com porte másculo. As exceções deram margem para uma generalização que, no entanto, não pode ser tomada como regra nem como afirmativa absoluta, porque despreza o valor dos malandros verdadeiros que abrilhantam o sambódromo por onde passam.

Ao que parece, estão confundindo os elementos coreográficos (alas representativas, performances individuais, comissões de frente etc) com as alas de passistas masculinos propriamente ditas. Se há predomínio de gays em outros grupos de dançarinos/balarinos dentro das escolas de samba, não se pode dizer que não há malandros nas alas. Não citaremos, obviamente, exemplos nem nomes, porque não se pode julgar a sexualidade de ninguém. Por experiência própria, fui observar e tirei minhas conclusões. Essa observação, entretanto, não pode ser feita em apresentações isoladas nas quadras: é preciso observar o contingente COMPLETO das alas para que a opinião seja coerente. Nenhum líder de passistas das escolas jamais demonstrou descaso ou despreocupação com esse assunto: todos respeitam a opção de seus integrantes, mas exigem a postura certa na dança e na apresentação. As exceções devem ser consideradas exceções, não generalizadas, como muitas vezes se faz.

Outro dado relevante nesse tabu é a afirmação constante de que "meninos cresceram tendo a Globeleza por referência, por isso sambam afeminados". Essa é a mais estapafúrdia das afirmações! Desculpem: eu sou do tempo em que "homem que é homem", ao ver uma mulher seminua dançando, tem por ela atração, não vontade de ficar igual. A menos que já não tivesse a tal atração antes. Então, nenhum menino vai ficar afeminado vendo mulher dançar, porque isso não existe.

Pode-se concluir, a despeito de toda força contrária e todo espaço que lhes é negado nas próprias escolas e na mídia também, que os passistas masculinos existem, são de raro talento, exibem sua dança com graça e genuína inspiração. Cabe, pois, aos líderes do segmento impor os limites: a sexualidade de cada um é direito civil, constituído, assegurado. Que não precisa (nem deve) ser exposta na execução de sua dança.

Há lugar para todos na escola de samba. É preciso, porém, conciliar espaço e propriedade. Cada um no seu devido lugar, do jeito que deve estar.

Mas não... não acabaram os passistas masculinos nas escolas de samba!

Graças a Deus, anda temos muitos bambas do riscado, malandros autênticos, em ação! Salve os malandros riscadores do asfalto!


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Comentários
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    13/03/2013 19:05:22TedMembro SRZD desde 12/04/2012

    Olá, Hélio Ricardo... bem, em respeito a sua coluna, retirei meu comentário anterior. Apesar de manter viva, a minha opinião. Pra mim, os espetáculos desse Carlinhos, não acrescentam nada ao samba!

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    13/03/2013 17:16:46EDSON RICARDO LOPES GUEDESMembro SRZD desde 28/02/2013

    ACHO QUE SAMBAR Ã? UMA ARTE/NINGUÃ?M VAI PARA A AVENIDA QUERENDO SER TRANSFORMISTA COMO FALAM /COMENTÁRIOS DE BAIXO CALÃ?O/O SAMBA Ã? O SAMBA E O IMPROVISO ACHO MARAVILHOSO/NINGUÃ?M TEM QUE SE MOSTRAR MACHÃ?O /MALANDRO/OU BANDIDO PARA SAMBAR. CADA UM SAMBA DA SUA FORMA COM SEU GINGADO/NÃ?O JULGO NINGUÃ?M/ JA VI TANTOS GANHAREM ESTANDARTE DE OURO E NÃ?O SAMBAVÃ?O NADA/MUITA MALDADE EM CERTOS COMENTÁRIOS/UNS TENHEM MAIS MOLEJOS OUTROS SÃ? NO PÃ?/ VARIA DE CADA SER HUMANO.Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?Ã?´V IVA A HIPOCRISIA DE TANTOS QUE FICAM ATIRANDO PEDRAS NOS GRANDES SAMBISTAS DESTA CIDADE. DESCULPEM-ME MAS Ã? O QUE ACHO!!!!!!!!!!!NÃ?O SABIA QUE PARA SAMBAR PRECISAVA TER TANTA MACHESA/O QUE DEVE DIZER OS MOLEJOS DA VIDA? O MAMBO A SALSA´. ABRAÃ?O A TODOS!!!!!!!

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    13/03/2013 16:29:33Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Concluindo meu raciocínio: uma escola séria e das mais organizadas e competentes nos quesitos técnicos como é hoje o Salgueiro não se permitiria ter, em seus quadros, uma pessoa que a escandalizasse. Antes tem prestigiado e valorizado a polivalência do cara. Então, que fique claro: eu também não gostei do que vi, mas entendi, ao final das contas, que a ideia foi do carnavalesco. Deve-se, portanto, amenizar a pena contra o Carlinhos. Que só executou seu papel. E, naquilo a que se propôs, com perfeição. Mesmo que eu, o Ted e mais alguns não tenhamos gostado. Porque a arte é subjetiva. Uma coisa é fato: a avenida levantou em todos os setores por onde ele passou. Sei lá... acho que isso é carnaval ...

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    13/03/2013 16:24:13Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Caro Ted, desculpe... meu revisor automático lançou "Fred" na postagem abaixo. Grande abraço!

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    13/03/2013 16:23:20Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Epa, gente, peraí. Vamos, por gentileza, manter um patamar para as nossas discussões...rsrsrs. Peço isso com gentileza, porque a ideia aqui é registrarmos, discutirmos, opinarmos, apontarmos soluções, mas sem adjetivações nem ofensas, pelo amor de Deus. Prezado Fred, obrigado por sua contribuição. E aproveito o ensejo para compartilhar com você uma observação. Sabe quem também saiu da avenida muito insatisfeito com a performance do Carlinhos na avenida este ano? EU! Exatamente. Queria (â??euzinho-Ricardo-Rainhoâ?, na minha pretensão, veja só!!!) que ele fizesse â??outra coisaâ?... sei lá o quê... algo que eu achasse mais agradável, talvez. Acontece que, sendo particularmente um admirador, pesquisador e estudioso do trabalho dele, fui entender o que aconteceu. E descobri que não foi uma ideia do Carlinhos fazer aquela performance daquele jeito. Foi tudo uma ideia do Renato Lage, que decidiu fazer uma severa crítica à exposição do corpo e à luta pela beleza, criando um contraponto entre um sujeito gordinho que se tornava um cara malhado e escultural. Após a transformação, o sujeito perdia a linha e punha-se a exibir seus glúteos, seu corpo etc. Veja bem: não estou dizendo que a forma como isso foi feita foi a melhor possível. Não acho, também, que tenha sido. Mas a ideia não foi do Carlinhos: ele, como grande artista que é, apenas a executou. Tinha os atributos físicos (a chamada "physique du rôle") para compor o personagem e adequou-se ao enredo. Que fique claro que ALI, Carlinhos NÃ?O ESTAVA ATUANDO COMO PASSISTA. Logo, não convém criticar sua atuação como passista na hora em que ele atua em outras frentes, por ser um artista polivalente. Em compensação, a ala de malandros e cabrochas do Salgueiro â?? reconhecidamente impecável em elegância e samba no pé â?? veio impecável atrás. Porque Carlinhos sabe separar muito bem todas as coisas que faz dentro de sua escola de samba. Uma escola séria e das mais organizadas e

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    13/03/2013 00:59:20Raphael DuqueMembro SRZD desde 13/03/2013

    Belo texto! Realmente os passista ( masculino) estão perdendo a sua essência, estão ficando mais mulatas do que as proprias mulatas... hoje em dia é muito difícil encontar um Homem com samba de malandro nas escolas de sambas. friso que não tenho nada contra a orientação sexual de ninguém, mas precisamos de vê Malandros e Mulatas nas escolas e não "Malandros" dando pinta de Mulatas.

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    12/03/2013 11:28:30jorge dos santosMembro SRZD desde 14/10/2010

    BELO TEXTO: SE O PASSISTA REPRESENTA O MALANDRO DO SAMBA ,ENTÃ?O O PASSISTA Ã? UM PERSONAGEM,PORTANTO,BASTA OS DIRETORES DESSAS ALAS EXPLICAREM ISSO PARA ESSES GAROTOS AFEMINADOS.

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    12/03/2013 05:47:35Marcelo Beija FlôrMembro SRZD desde 25/02/2013

    Grande Roberto,falaste tudo.tá de um jeito que se tiverem todos tapados tú não sabe quem é mulher e quem é homem.

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    11/03/2013 18:59:06ROBERTOMembro SRZD desde 11/04/2009

    Gente,eu fico com vergonha quando chego numa escola de samba me aproximo dos passistas e vejo aquela demunhecação, aquele remelexo,caras e bocas,munheca caída etc,não e descriminação, o sujeito pode ser ate homosexual,mais pra sambar ele tem que fazer a linha machão,sair de lado,finge que vai mais não vai,dizer no pé como um autentico bamba do samba,malandro nato,quem não souber procure o ANDERSON DA BEIJA FLOR, O BOMBA DA PORTELA OU O VITAMINA DO SALGUEIRO e peça umas dicas,isso não é feio não,isso também é MALANDRAGEM. Saudações Nilopolitanas .

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    07/03/2013 15:19:43da_mudaMembro SRZD desde 28/07/2010

    Parabéns a todos os comentários e principalmente a matéria....tudo que gostariamos de falar e muitos relutam, pois achar uma ala de passista de hoje normal........... não viram o verdadeiro carnaval.

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    07/03/2013 14:33:46cadhuMembro SRZD desde 25/01/2013

    ESSA NOVA GERAÃ?Ã?O DE ALA DE PASSISTA "MASCULINO" Ã? VERGONHOSA.

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    05/03/2013 22:38:58Luís EduardoMembro SRZD desde 29/10/2009

    Pra mim o melhor passista masculino é o Anderson da Beijaâ??flor !

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    05/03/2013 09:25:00jorgeMembro SRZD desde 06/09/2010

    Seu artigo é uma maravilha, nunha tinha pensado sobre este ponto de vista. Porém oprocesso de escolha das passistas e dos passistas está diretamente ligada a estrutura da escola. De como ela aceita este ou aquele comportamento. A verdade é que vivemos num mundo cada vez mais misturado e o desfile de escolas de samba é apenas uma parte da nossa sociedade. Se a ala de passistas recebesse nota, o problema seria resolvido em um carnaval, da noite para o dia. Jorge Ribeiro.

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    05/03/2013 08:23:01MateusMembro SRZD desde 18/12/2009

    Esse ano a Portela veio com uma ala enorme cheia de malandros sambando no pé. Mesmo pela televisão, vejo samba no pé em algumas escolas, só que ao meu ver, as coreografias, em algumas escolas, ocuparam o lugar do samba dançado.

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    05/03/2013 03:35:14anderson lucas g sMembro SRZD desde 15/11/2009

    onde eu assino ? Ã? a pura verdade....meninos querem ser meninas passistas...isso já não é de hoje...e nada tem haver com orientação sexual de cada um ! seria melhor vim vestido logo de transformista,pois faria mas sentido e o publico entenderia bem melhor o que estaria vendo ! pois passista vestido com trajes mascolino e para corteja e riscar o chão ,sambando no pé com elegancia e firmeza. não querendo ser uma mulher ,tentando voar como ser fossem uma franga...ala de passistas ja não existe a muito tempo Helio !

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