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Leonardo Guedes

Leonardo Guedes

Jornalista, trabalhou de 2010 a 2012 no SRZD. Escreve sobre MPB.

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07/04/2013 14h10

'As forças da natureza': o 'manifesto ambiental' de Clara Nunes
Leonardo Guedes

A preocupação mais mobilizada com a preservação ambiental e com os rumos que as inovações tecnológicas estavam tomando na humanidade começaram a tomar forma na década de 1970. Em 1977, a cantora Clara Nunes lançou um disco que pode ser citado como um exemplo de manifesto em defesa do meio ambiente e da paz. E de excelência autoral e instrumental também: "As forças da natureza", pela gravadora Odeon. O momento profissional de Clara era de continuidade de auge: as vendas de seus discos passavam da casa das cem mil cópias e, comercialmente, a artista ficou consagrada como a primeira cantora brasileira a superar um tabu da época no mercado musical brasileiro, o de que mulher cantando não era sinônimo de recorde de vendas. A produção de "As forças da natureza" esteve à cargo de Milton Miranda, Renato Corrêa e do marido de Clara, o compositor Paulo Cesar Pinheiro.

Pela primeira vez desde que começou a carreira, a cantora mineira não teve a imagem estampada na capa. Desta vez, o que estava presente era a foto de uma pedra sendo atingida por uma gota d'água, uma imagem que remete ao dito popular "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". A intenção artística reforça a mensagem de sintonia intensa com a natureza e a espiritualidade tão marcante na vida de Clara, cuja imagem estava presente na contra-capa, em saudação à imensidão do mar. A produção era aberta pela faixa-título composta por Paulo Cesar e João Nogueira, uma emocionada transcrição de um Apocalipse ao contrário: "Vai resplandecer / Uma chuva de prata do céu vai descer / O esplendor da mata vai renascer / E o ar de novo vai ser natural / Vai florir / Cada grande cidade o mato vai cobrir / Das ruínas um novo povo vai surgir / E vai cantar afinal...".

A sequência apresentou uma divertida denúncia sobre os tempos modernos e, ao mesmo tempo, uma homenagem à uma artista reverenciada: "Partido Clementina de Jesus", autoria de Candeia, que contava com a participação da citada. A música tornou-se uma espécie de "carteira de identidade" da Rainha Quelé, com o refrão "Não vadeia Clementina / Fui feita pra vadiar... Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou..." sendo uma das primeiras lembranças quando seu nome é citado. O termo "vadiar" na composição, ao contrário do que se possa imaginar, não tem o significado literal de desocupação ou vagabundagem, mas de "curtir" a vida com bom humor apesar dos pesares. O sucesso foi tanto que mereceu até uma paródia antológica de Renato Aragão e Mussum no humorístico "Os trapalhões".

A louvação e a preocupação com a natureza prosseguiu em pelo menos outras três musicas do disco. Em "Senhora das Candeias", composta pela dupla Ronildo e Toninho, Clara fazia uma interpretação exuberante e marcava presença com sua intensa afinidade com as religiões afro-brasileiras. No caso, a homenagem era para a orixá Oxum, associada à Nossa Senhora das Candeias no sincretismo com a religião católica: "Eu não sou daqui, não sou / Eu sou de lá... / A noite ficou mais faceira / Pois dentro da ribeira apareceu / Com suas prendas e bordados / Seus cabelos tão dourados / Que o sol não conheceu / A menina moça debutante / Que namora pelas fontes / Que a natureza lhe deu é Oxum..."; também na saudosista "Rancho da primavera", obra de Monarco: "Não vejo a primavera, já era / A triste margarida, a desaparecida / O pobre beija-flor / Que não vejo voar sobre o meu jardim / Não tem a quem beijar / Que tristeza sem fim"; e ainda em "Fado tropical", música composta por Chico Buarque e Ruy Guerra para a censurada peça de teatro "Calabar, o elogio da traição". A gravação de Clara, última faixa de "As forças da natureza", era mais uma mostra do esforço por parte da cantora em demonstrar que sabia ser versátil nos gêneros musicais e não simplesmente uma sambista. O interessante na faixa é que, ao final, ela não completa o verso que é o refrão, como se quissesse deixar unicamente nas mãos do tempo a resposta sobre o destino da terra brasileira:

Além de ter colocado a voz para interpretar um fado, Clara Nunes também foi fundo em gravar outros estilos na produção. Teve um momento raro de compositora (junto com Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro) no samba-tango "É flor da pele", interpretando a resignada e atormentada personagem perseguida pelo amante: "Não sei quando ou como começou / Só sei que me alucina / Me perdi do fio condutor / Do amor que me domina / E você me usa a seu favor / Igual mulher de esquina / E me leva embora, traidor / Assim que se termina". Um outro momento saudosista ocorre em "Homenagem à Velha Guarda" (Sivuca e Paulo Cesar Pinheiro), onde Clara, de forma magnífica, chega a dialogar com os instrumentos presentes no arranjo: "Era uma flauta de prata / A chorar serenatas, modinhas, canções / Pandeiro, um cavaquinho e dois violões / Um bandolim bonito e um violão sete cordas / Fazendo desenhos nos bordões / Um clarinete suave / E um trombone no grave a arrastar os corações".

Junto com "Partido Clementina de Jesus", outros dois sucessos populares presentes em "As forças da natureza" são a hoje clássica "Coração leviano" (de Paulinho da Viola) e a também saudosista e didática "Coisa da antiga", de Wilson Moreira e Nei Lopes: "Hoje mamãe me falou de vovó, só de vovó / Disse que no tempo dela era bem melhor / Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão / Tinha-se mais amizade e mais consideração...":

Completam o trabalho o samba-canção "Palhaço", autoria de Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes, que já havia sido sucesso na voz de Dalva de Oliveira na década de 1950 como "desaforo" ao ex-marido, o compositor Herivelto Martins: "Sei que é doloroso um palhaço / Se afastar do palco por alguém / Volta, que a plateia te reclama / Sei que choras, palhaço / Por alguém que não te ama..."; a comovida música "Perdão", composta por Mauro Duarte, Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro ("Ai. perdão, venha ao encontro de mim / Já ando necessitado de também ser perdoado / Para dar perdão no fim") e "Sagarana", onde Paulo Cesar Pinheiro (junto com João de Aquino) fez um retrato musical da literatura regionalíssima de Guimarães Rosa. Apesar de algumas derrapadas na dicção, Clara Nunes consegue impor sua interpretação com alegria para a difícil letra: "Um moço êveio / Viola enfeitada de fitas / Vinha atrás de uns dias para descanso e paz / Galardão, mississo-redó, falanfão / No que se abanque / Que ele deu nos óio o verdêjo / Foi se afogando / Pensou que foi mar, foi desejo...".

Neste mês de abril de 2013, marcado pela tensão de uma guerra nuclear insinuada pela Coreia do Norte, a morte de Clara Nunes (vitimada por complicações decorrentes de uma cirurgia para retirada de varizes) completa 30 anos.


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Comentários
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    15/04/2013 18:31:37Wilson AgripinoAnônimo

    Excelente matéria, gostei muito!!!

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    08/04/2013 02:39:07maria izabel cristinaAnônimo

    amo clara nunes cresci ouvindo suas musicas... todas suas musicas me deixa arrepiada.... nao tenho palavras para dizer o ki sinto.... nasci em 77 e ela parece ki ta do meu lado qdo aouço

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    07/04/2013 17:46:59Paula BragaAnônimo

    Leonardo parabens pela materia!!!!! Nunca houve e nunca havera uma outra Clara na Musica Popular Brasileira. Nada temos de parecido, o que é verdadeiramente um pecado. Uma grande perda para nossa cultura popular. Grande perda para os nossos ouvidos, nossos olhares e nosso sentimento brasileiro. Minha maior saudade e minha maior admiraçao na nossa MPB. Quanta saudade !!!!!! ""SABIA, QUE FALTA FAZ SUA ALEGRIA ...""

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