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Leonardo Guedes

Leonardo Guedes

Jornalista, trabalhou de 2010 a 2012 no SRZD. Escreve sobre MPB.

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07/05/2013 09h55

'Geraldo Vandré': um artista além de 'Pra não dizer que falei das flores'
Leonardo Guedes

Em 1973, o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré retornou ao país após um período de exílio no Chile e na França. Sob impacto do Regime Militar vigente, lançou o disco "Das terras de Benvirá" e se retirou voluntariamente do meio comercial da música brasileira, gerando diversas especulações até hoje não totalmente esclarecidas sobre o que aconteceu realmente com o artista no momento que retornou ao Brasil. Pode se dizer que uma delas já se dissipou por completo: a suposta loucura de Vandré provocada por também supostas torturas. Em 2010, o compositor concedeu uma raríssima entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, da "Globo News", aparentando completa lucidez (embora demonstrando um certo ar de amargura). Na conversa, o autor de "Disparada" falou sobre o desinteresse em produzir música com finalidade comercial.

Curiosamente, um dos últimos discos de Geraldo Vandré (cujo nome de batismo é Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, com o artístico sendo uma homenagem ao pai, chamado Vandregísilo) foi lançado no mercado com uma ponta de apelo comercial ao qual o compositor tanto rejeita. O disco de compilação de sua obra divulgada na década de 1960, cujo título é o nome do artista, foi lançado em 1979 pela gravadora Som Maior (uma divisão da antiga RGE) com um chamariz em faixa vermelha diagonal na ponta da capa: a inclusão de duas gravações da música mais famosa de Vandré, "Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)". Naquela ocasião, primeiro ano da chamada Abertura promovida pelo governo do general João Figueiredo, algumas canções proibidas de execução pública cerca de dez anos antes pela Ditadura foram liberadas. Uma delas foi a incendiária "Pra não dizer...". As gravações abrem e finalizam o disco. O registro de abertura é o áudio original da apresentação de Vandré no ginásio do Maracanãzinho (Rio de Janeiro), por ocasião do 3º Festival Internacional da Canção. A contra-capa oferece a mensagem de que a RGE "prazeirosamente" incluíra a gravação, sinalizando que até então, a divulgação de tal faixa estava proibida. Nela, diante da manifestação do público agitado, Vandré pedia respeito ao júri que não lhe oferecera a vitória na disputa e aos compositores da música vencedora, Chico Buarque e Tom Jobim, que fizeram a modesta (e considerada derrotista para o tenso momento político vivido) "Sabiá". "A vida não se resume a festivais", encerrava o artista parabiano, para em seguida interpretar nervosamente "Para não dizer..." somente em voz e violão, par instrumental que se repetiria na última faixa da obra tema desta resenha (cantada de forma mais agradável), desta vez gravada em estúdio.

O tempo tornou Geraldo Vandré e o refrão "Vem vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer" indissociáveis até os dias atuais. Mas o disco de 1979 colabora para verificarmos que o compositor obviamente não se limitava a isso, mostrando que sua obra tinha vertentes de Bossa Nova e música nordestina, algo bem detalhado no texto que ilustra a contra-capa, assinado por um certo Franco Paulino. Embora o autor chegue até a partir para a ofensa alheia ao comparar o trabalho de Vandré com outros artistas da música brasileira ("Nada a ver com as exibições caricatas de Tonicos, Tinocos, etc."), o texto resume as características do talento de Vandré: "Trata-se da utilização - pela primeira vez em centros urbanos - de instrumental autêntico da moda de viola do Centro Sul do país".

Fato é que antes mesmo do eterno hit, Vandré já se tornara bastante conhecido durante a década de 1960 com outros sucessos, que estão presentes no disco. Com relação à Bossa Nova, no período em que o gênero usava e abusava dos temas "amor, sorriso e flor" (e dos quais ele aparentemente romperia em "Caminhando") cantados em batida jazística, ele emplacou "Quem quiser encontrar o amor", parceria com Carlos Lyra que também mereceu registro bem-sucedido de Sylvia Telles ("Quem quiser encontrar o amor / Vai ter que sofrer / Vai ter que chorar / Amor que pede amor / Somente amor há de chegar / Pra gente que acredita / E não se cansa de esperar"). Na mesma vertente musical e poética, o disco também apresenta "Depois é só chorar", de Vandré ("Ama que tudo é só amar / Sonha que a vida é só sonhar / Toma do amor tudo que é bom / Toma depressa enquanto é bom / Que depois o amor é só chorar"); "Tristeza de amar" e "Ninguém pode mais sofrer", parcerias com Luiz Roberto; "Canção do breve amor", parceria com Alaíde Costa; e"Rosa flor" e "Se a tristeza chegar", parcerias com Baden Powell. Na maioria das faixas, a predominância é da voz e do violão.

Nos momentos de influência nordestina com andamento mais acelerado, Geraldo Vandré obteve sucesso com "Fica mal com Deus" na voz de Wilson Simonal ("Fica mal com Deus quem não sabe dar / Fica mal comigo quem não sabe amar"). Uma curiosidade sobre esses dois artistas que foram colocados em rótulos extremamente opostos é que Vandré sempre demonstrou não acreditar nas acusações de delação que destruíram a carreira de Simonal, que recebeu a visita do compositor de "Pra não dizer..." em uma de suas derradeiras internações hospitalares (o intérprete de "País tropical" morreu em 2000).

Voltando ao gênero da moda de viola nordestina, o disco também apresenta "Requiem para Matraga", composição do próprio para o filme "A hora e a vez de Augusto Matraga"; "Canção nordestina" e "Pequeno concerto que virou canção", também de Geraldo Vandré. Em todas essas faixas, ele confere interpretação em tom quase messiânico.

Dos célebres festivais da canção realizados na época, há a simpática e esperançosa marcha-rancho "Porta-estandarte", feita em parceria com Fernando Lona e que venceu a disputa realizada pela antiga TV Excelsior (atual RedeTV!) na interpretação de Tuca (uma versão mais ou menos parecida e paulistana de Preta Gil na ocasião): "Eu vou levando a minha vida enfim / Cantando e canto sim / E não cantava se não fosse assim / Levando pra quem me ouvir / Certezas e esperanças pra trocar / Por dores e tristezas que bem sei / Um dia ainda vão findar").

Formado em Direito, Geraldo Vandré entrou na Justiça para reaver seu emprego de fiscal da antiga Superintendência de Nacional de Abastecimento (Sunab), do qual havia sido demitido pela Ditadura Militar. No mesmo ano em que "Pra não dizer que falei de flores" voltou a ser liberada para o público, a cantora Simone obteve grande sucesso com uma emocionada regravação da música em um show ao vivo, mas o compositor desdenhou do fato na época: "Pensam que isso vai me deixar feliz. É inútil. Só serve para a Simone ganhar uma Mercedes do ano". Na entrevista concedida à "Globo News", Vandré refutou que "Pra não dizer..." tivesse caráter de ideologia anti-militarista, além de negar de forma monossilábica que tenha sido torturado fisicamente. No mesmo período, a canção foi regravada pela recentemente extinta banda de hardcore Charlie Brown Jr., e também foi utilizada em um comercial de TV do programa Universidade para Todos, do Governo Federal.


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