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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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01/07/2013 17h38

Sociedade "muda" não muda
Rachel Valença

Este slogan, entrevisto num cartaz de uma das muitas manifestações que marcaram em todo o país o mês de junho, me fez pensar. Afinal, o que querem as pessoas? O que as faz irem para as ruas espontaneamente, sacrificando o conforto e a segurança? Querem se sentir menos palhaços, querem menos corrupção, menos gastos supérfluos e mais transparência. Em suma, querem mais respeito.
Por deformação profissional, acabo sempre trazendo qualquer assunto para a nossa praia: o samba, o carnaval.

E fiquei um tanto constrangida ao verificar que, nas passeatas e nas pautas de reivindicação, faltou a bandeira do samba. Aquele mesmo samba cidadão de que me orgulhei por ocasião da passeata em protesto à espoliação do nosso estado na questão dos royalties, foi agora omisso, tímido e ausente.
Ora, de falta de transparência e corrupção podemos falar de cadeira. E muitos dos leitores que aqui deixam seus comentários se revoltam justamente contra essas práticas, tão danosas para os sambistas. Por que, então, nos calamos e cruzamos os braços?

Protesto no Rio. Foto: SRZD - Luciano Olivieri

O sambista, quando reclama de absurdos e descalabros que o afetam, geralmente acha que a solução do problema não depende dele. Muita coisa está errada, concordamos. Mas continuamos aceitando passivamente essas coisas, porque... porque... Por que mesmo???

Todo mundo pensa certo, mas as coisas continuam erradas. Somos capazes de nos indignar com situações aberrantes, como a de um dirigente de escola de samba alegar falta de recursos para fazer em carnaval condigno ou dar calote em empregados e prestadores de serviço, sem jamais apresentar uma prestação de contas em que realmente fique comprovado que os recursos, ainda que bem administrados, foram insuficientes.

Somos igualmente capazes de enxergar que o sambista está alijado da passarela: o preço das fantasias afasta-o cada vez mais do desfile e o preço do ingresso o desanima a assistir. Concordamos também que a Cidade do Samba não é para nós: quem trabalha nos barracões não está autorizado sequer a ter acesso às áreas nobres, onde fica a Praça de Alimentação, que, aliás, não nos atrai, porque não tem o tipo de ambiente propício ao samba. Todo mundo acha que o Terreirão do Samba seria um espaço magnífico para encontro do sambistas o ano inteiro, mas, por alguma razão que não nos é jamais explicada, ele fica fechado a maior parte do tempo.

Até mesmo as quadras das escolas, reformadas com dinheiro público, vão se tornando hostis aos seus frequentadores sambistas, a ponto de, em certa escola, um tradicional compositor, campeão de muitos carnavais, ter sido obrigado a comemorar seu aniversário no estacionamento, porque a quadra não era para ele. Era para quem, então?

No momento em que o povo parece cansado de pagar a conta sem saber o que está pagando, não será também a hora de canalizarmos nossa insatisfação e nossa indignação para que nossa voz seja ouvida?

Quero deixar bem claro que não estou incitando a atos violentos nem a nenhum tipo de baderna. Quero apenas que o sambista não se coloque como vítima de uma situação pela qual é responsável, como protagonista. Se somos capazes de fazer aquele que se tornou o maior espetáculo da terra, temos de nos sentir também capazes de tomar as rédeas de seus destinos. Se assim não for, melhor é nos calarmos.

Antes de terminar, duas ressalvas: na passeata do dia 20, a maior delas, havia próximo à estátua de Zumbi dos Palmares uma bandeira da Vila Isabel. Salve ela! Talvez este torcedor, nostálgico de um passado de dificuldades financeiras que foi capaz, no entanto, de produzir, com Kizomba, festa de um povo, um dos mais emocionantes desfiles de todos os tempos, tenha se motivado a, em nome de sua escola, juntar-se ao clamor geral.

A outra é, por justiça, dedicar este texto ao grande compositor Tiãozinho da Mocidade, sambista consciente e corajoso, capaz de levantar questões e reflexões de ordem geral e colocá-las acima de seu universo particular.



Comentários
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    08/07/2013 22:10:52Sidnei JrMembro SRZD desde 11/01/2012

    Bom texto! Mas Raquel, será que o sambista de hoje não está inserido nesse processo de corrupção? Povo que aceita as falcatruas de resultados que se iniciam na própria escolha do samba, que desde que aumentou a premiação passou a ser escolhido nos bastidores... segue na hora de distribuir fantasias... onde a comunidade muitas vezes vende suas fantasias... no nosso Império acontece muito! Para não estendermos muito, o sábado das campeãs é recheado de escolas sustentadas por bicheiros... não havendo espaço para as demais!Enfim, o protesto de sambista seria de uma minoria...

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    01/07/2013 20:02:01Nidia Jussara FdasilvaMembro SRZD desde 25/06/2012

    A corrupção tomou conta do mundo do samba e do Carnaval.As falcatruas e maracutaias estão visível na cara de todos.

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