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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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12/07/2013 13h19

Samba sem protesto: 2014 vem aí
Hélio Ricardo Rainho

Revista Clara Nunes. Foto: Reprodução de InternetA maior cantora que o Brasil já teve, Clara Nunes, entoava uma canção chamada "Brasil Mestiço - Santuário da Fé", de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, cujos versos finais falavam assim:

"E pro povo não desesperar / Nós não deixaremos de cantar / Pois esse é o único alento do trabalhador / Desde a senzala...."

Riquíssima em poesia e significado, a letra da canção me sugere, em seus versos finais, a grandeza e a necessidade do samba em seu engajamento social e político. Nasceu do povo, é voz do povo, tem a grandeza do povo. Representa, assim como representou essa cantora extraordinária a que fiz menção na abertura do texto, a diversidade do sentimento popular.

É lamentável, portanto, que não tenhamos um enredo sequer de cunho político, social, de reivindicação, para 2014. Há enredos sensacionalistas, oportunistas de todo jeito. No entanto, nem por interesse de autopromoção que fosse, nenhuma escola sequer atreveu-se a dar voz às ruas, aos protestos, às reivindicações do povo. Estão todas mergulhadas no ufanismo, na exaltação, num mundo próprio.

Lembro que, na virada dos anos 70, a grande discussão que permeava as escolas de samba era a perda de seu caráter popular diante da vertente comercial que afastava o pobre dos desfiles. Hoje, com farta distribuição de fantasias às comunidades, fizemos algo pior: colocamos o "pobre" vestido dos discursos burgueses e sem a representatividade de sua classe. O "pobre" lá está: ganha a fantasia, mas é obrigado a cantar e exaltar valores de quem está rico...do empresário, da musa do empresário, da prefeitura que faz merchandising político de sua gestão, de quem morreu milionário, de quem deve ao fisco italiano...tem pra todo mundo! O pobre se fantasia para homenagear toda essa gente, e não sai à rua para cantar sua verdade, sua dor, sua necessidade.

Infelizmente não se percebe mais uma independência política das escolas de samba: viramos quilombos subsidiados. Nossos Zumbis viraram "zumbis" - assim, minúsculos, mortos vivos ziguezagueando sem consciência nos desfiles, sem protesto, sem ideologia, sem consciência. Enredos que questionem, que pleiteiem, que reivindiquem, certamente não se ajustarão à nova ordem de subserviência cultural e política.

O espetáculo continua cada vez mais extraordinário, mas perde seu cunho ideológico frente às imposições ou reverências necessárias. A amiga e especialista Rachel Valença escreveu algo, em uma de suas brilhantes crônicas, que considero fundamental para esse entendimento: as escolas de samba desfilam para morrer! Disse Rachel em seu texto: "alguma coisa de muito equivocada deve estar acontecendo: o esquema de fazer carnaval é suicida". Por que as escolas entram na avenida fadadas ao prejuízo financeiro, se estão tão debaixo das vontades e dos caprichos de seus financiadores? Se nem ao menos podem desfilar enredos de protesto, de elo direto com a voz e os anseios populares?

É duro ver um país engajado, efervescido de indignação, não ter sequer uma escola de samba com um enredo político, defendendo a dor do povo brasileiro contra a imundície, a sujeira, a corrupção. E todos farão a sua vista grossa e passarão a bola uns para os outros.

E vamos em frente. "The show must go on"!. Estamos, de fato, desfilando à margem das reais tradições do samba.

Saudades do tempo em que o samba andava de mãos dadas com o anseio popular. Como nessa capa do álbum "Esperança", da mesma Clara Nunes que cantou o samba, o povo e inspirou o texto de abertura desta minha crônica.

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Twitter @hrainho



Comentários
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    13/07/2013 14:42:13Duquesa Dholores: a nobreza da favela em pessoa!Membro SRZD desde 18/10/2010

    Talvez eu não saiba mim fazer compreender como gostaria. Talvez, apenas talvez, em nome dum fanatismo esvarosvisquizado, muitos não queiram entender minha mensagem. Os devotos das plumas e paetês volumetricamente excessiva jogam bosta na Geni que vos fala por não entenderem que carnaval é festa do povo. Mas encontro alento nas palavras desse rapazinho brogueiro. Na verdade, é mais do que um alento, é a luz no final do túnel que pode clarear a mente distorcida dos dirigentes de escolas de samba. O suicídio das escolas é algo notório. Elas perdem suas identidades. Expurgam seu DNA. Invertem valores. Transformaram o carnaval carioca numa festa chapa branca, quando não, num grande outdoor raparigueiro onde grifes, produtos e gente influente desfilam vaidades ou, pior ainda, inserem seus produtos na avenida como se fosse um momento comercial alternativo. PQP!... os verdadeiros princípios dessa festa foram usurpados. Escolas que já se destacaram fazendo revoluções com o povo, hoje embala o povo para presente. Presente caro com tino comercial ou turístico. Importante notar é que o deus mercado deu um xute na bunda de Mômo e esse perdeu seu poder de fogo.

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    13/07/2013 14:38:08Duquesa Dholores: a nobreza da favela em pessoa!Membro SRZD desde 18/10/2010

    Agora, quem manda é o mercadão. Um deus vaidosamente egoísta, egocêntrico, mercenário, cheio de â??boasâ? intenções. Enredos contestadores, sátiros, críticos, humorados são venenos para essa divindade. Até mermo os juradinhos liesianos se deixaram seduzir por essa impostura porque só aceitam como medida que postulam uma escola a conseguir o caneco aquelas que trambulham seu carnaval. Um desfile trambolhento precisa de verdinhas. Onde conseguir? O deus mercado responde. Ele oferece seu pinico furado e sai de porta em porta procurando quem queira financiar. A morte das escolas podem sim está anunciada porque não mais correspondem aos anseios do povo. Hoje, muitas delas não passam de um veículo midiático manipulado por estrategistas engessadores. Ao ver o rosto lindo de Clarinha e ao escutar a voz que tantas vezes se vez voz do povo, só nos resta a saudade de um movimento popular com papel bem definido dentro da sociedade. Saudade do tempo em que as escolas produziam sambas que despertava a consciência do povo. â??O leão Só morde o bumbum do pobre (bis E o rico é quem explode A boca do balão / O FMI chegou aqui, fincou o pé Devo e não nego Um dia eu pago, leva fé... (união da Ilha 1985). Também levo fé que um dia as escolas sairão desse abismo emplumado fruto da pinicaria e voltarão a nos fazer sorrir com criativos carnavais criativamente populares que se eternizem na mente do povo, que não morram na quarta de cinzas sufocados pelo excesso de matérias caros conseguidos graças ao dinheiro da pinicaria S/A.

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    13/07/2013 10:24:00Cláudia BauerMembro SRZD desde 19/01/2013

    Bom, sob esse aspecto, a São Clemente está com a faca e o queijo na mão. A sinopse tem uma parte que relata exatamente um tom de protesto, então cabe à São Clemente abordar esse tema. Mas não culpo as escolas não, a atual conjuntura do carnaval carioca obriga que fale sobre temas sem noção. As escolas têm que entrar nesse vibe mesmo né. Sugiro que em 2015 todas se unam para abordar um tema referente a protestos, cada uma. Aí eu quero ver.

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    13/07/2013 09:43:19Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Meu querido Hélio Ricardo Rainho (HRR), em vida a própria imortal CANTORA Clara Nunes considerava a si e a contemporânea colega Elis Regina, na atualidade de então, junto com pelos menos Elisete Cardoso, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda â?? eu incluiria a Alcione â?? as maiores CANTORAS da história da Música Popular Brasileira (MPB). Assim, o Samba sendo uma das essências da MPB, digamos, sem intelectualizar o debate de ideias, antropológica e sociologicamente deve mesmo ter compromisso com as necessidades, anseios e reivindicações do povo trabalhador. Aqui, atenção, rolou na Internet um vídeo no qual uma jovem manifestante dos protestos & manifestações recentes, sendo aburguesada e branca, tal jovem se referia às comunidades adeptas de ambas as culturas como o povo do â??carnavalzinho e do futebolzinhoâ?. Nada impede, historicamente falando, que os poetas e artistas existentes no mundo do samba se manifestem através de suas obras em relação ao citado compromisso com o povo trabalhador. Ocorre, esse compromisso, embora essencial e imprescindível, não está necessariamente no centro do propósito dos poetas e artistas do mundo do samba, cujo compromisso é com a produção de obras com excelência na qualidade em Arte, Cultura e Dignidade. De toda forma, para não me alongar excessivamente, só o fato do blogueiro e intelectual-sambista HRR ter deixado de prosseguir merecida, gabaritada e bem-sucedida carreira profissional na Vênus Platinada para ser parceiro de todos e todas, nós, no maior espetáculo da Terra, HRR faz jus a que lhe sejam tecidas todas as loas. Axé.

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    12/07/2013 13:50:03Nidia Jussara FdasilvaMembro SRZD desde 25/06/2012

    Perfeita a sua abordagem à esse assunto.Falcatruas,maracutaias e barganhas tomaram conta do nosso samba,infelizmente a voz do samba encoberta.

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