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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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12/07/2013 15h26

A sorte é cega
Rachel Valença

Sorteio da ordem dos desfiles. Foto: Henrique Mattos

Na última segunda-feira, foi sorteada na Cidade do Samba a ordem de desfiles das escolas de samba no carnaval de 2014. Como sabemos, não se trata de um sorteio na acepção exata da palavra. É um sorteio dirigido: algumas posições são predeterminadas pelos resultados do ano anterior. Além disso, formam-se pares de escolas que sorteiam entre si o dia do desfile. E só depois, definidas as participantes de cada noite, se sorteia a ordem de apresentação.
Tudo em nome do espetáculo. Alega-se que se a sorte levasse para a mesma noite escolas "fortes", a outra noite teria menor apelo para o público e venderia menos ingresso.

Como muita gente, costumo assistir todo o desfile, logo não tenho em mente esta noção pragmática e comercial. Mas admito que seja importante ter desfiles mais equilibrados. Do ponto de vista das escolas, no entanto, faz uma tremenda diferença desfilar domingo ou segunda. Por mais que se diga o contrário, a noite de segunda é a tal, e ao domingo fica relegado o papel de preparação para algo que ainda vai acontecer.

Ora, o ponto de vista das escolas é o que me interessa. E ao pensar assim três reflexões me ocorrem sobre esse sorteio. Primeira: por que se cristalizou a ideia de que e escola que acaba de subir e mais a última colocada do ano anterior é que devem abrir o desfile? Não seriam justamente essas as que mais precisam da sorte para competir em pé de igualdade com as gigantes do grupo? Não, a sorte não é para elas. Seu destino já está traçado e fugir a ele fica cada vez mais difícil. És vezes penso como seria saudável que o desfile já começassse "quente", com uma escola de grande torcida. As arquibancadas se encheriam desde cedo e o jurado teria um pouco mais de trabalho para mudar o esquema das notas ascendentes, em que a primeira a desfilar recebe invariavelmente uma nota baixa.

Além disso, quem vive os bastidores das escolas de samba sabe que não é indiferente a posição par ou a posição ímpar na ordem do desfile, porque esta determina o local da concentração, do lado do edifício Balança Mas não Cai ou do lado da sede dos Correios. Acho que a preferência pelo lado dos Correios é marcante, mas não uma unanimidade, e eis mas uma razão para o estresse do sorteio.

Penso se não seria mais interessante, mais vital, mais apaixonante que todas as escolas ficassem à mercê do destino. Creio que é o que acontece no futebol. Nos grandes torneios e copas, no sorteio das chaves, ninguém determina que tal time, por ser pequeno, não pode enfrentar em igualdade de condições o campeão, qualquer que seja o resultado. Essa é pelo menos minha visão de leiga, pois não acompanho futebol, limitando-me a torcer pelo meu time, o São Cristóvão, e pela seleção brasileira. E não me consta que lá sejam permitidas as trocas.
Ah, as trocas... Elas estão sempre a serviço da lei do mais forte, pois todos sabemos que em alguns casos rola até uma remuneração ou, com eufemismo, uma ajuda. Escola pobre que tem a sorte de tirar uma boa posição acha vantajoso negociá-la, no melhor modelo dos chamados partidos políticos de aluguel.

Diante de tudo isso, será que ainda se pode falar em sorte? Sorte é ter dinheiro, sorte é ser poderosa. Aquelas bolinhas com números têm significado apenas relativo. De qualquer forma, o domingo de carnaval no ano de 2014 promete fugir à regra, com escolas como Mangueira, renovada, e Beija-Flor, e entre elas o Salgueiro, que com seu bom enredo e carnavalesco do primeiro time, mas que terá de matar muitos leões para ter visibilidade entre as duas potências.
Na segunda, a campeã deste ano também não terá vida fácil, pois Portela e Unidos da Tijuca criam expectativas em todos, e por motivos diversos.

Se no Grupo Especial desfilar no primeiro dia é pior do que desfilar no segundo dia, no Grupo de Acesso a situação se inverte: a sexta-feira, um dia útil na cidade do Rio de Janeiro, é o pesadelo dos sambistas. Além do mais, nesse grupo, 24 horas fazem toda a diferença. Com recursos escassos e instalações precárias, a vida é difícil e os prazos são cruéis. Uma fantasia que não fica pronta, um elemento da decoração do carro que atrasa, tudo faz desse dia um caos para os dirigentes. Mas fazer o quê? Lá temos oito escolas que terão de encarar o desafoi. Torço para que a brava Em Cima da Hora esteja pronta para brilhar ao abrir este desfile. O resto fica por conta de São Jorge Guerreiro!


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Comentários
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    13/07/2013 01:19:19Nidia Jussara FdasilvaMembro SRZD desde 25/06/2012

    Na boa: vão pro inferno!

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    13/07/2013 01:09:23Nidia Jussara FdasilvaMembro SRZD desde 25/06/2012

    Continua as falcatruas e maracutatais,safadeza,presidentes safafados,bandos de vigaristas!

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    12/07/2013 19:58:40RogérioMembro SRZD desde 26/05/2009

    Uma coisa é certa a escola que sobe para o especial e a escola que ficou em ultimo tem que abrir o desfile porque a Rede Globo não transmite o desfile delas na integra por causa da programação assim atrasando a transmissão do desfile.

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    12/07/2013 19:32:01tallesMembro SRZD desde 16/03/2010

    Acredito que todas estas mudanças são justas e seriam muito bem-vindas, mas não poderíamos de esquecer da função dos julgadores, pois são eles que, bem mais que público e outras pessoas envolvidas, fazem esta diferença entre dias e sequencia das Escolas... Uma Escola a abrir deveria ter o mesmo peso de uma grande que fecha o Desfile... Todos sabem disso... todos os presidentes... mas parecem fazer "vista grossa"!

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    12/07/2013 15:39:13Diego AbreuMembro SRZD desde 05/02/2012

    Uma bela opinião sobre o ''rolar'' das bolinhas durante o sorteio. Concordo que deveria sim existir igualdade e imparcialidade, sem pré-requisitos como ascendente da Série A ou penúltima colocada no carnaval anterior, acho que sorteio é sorteio, imagine se a loteria tivemos a opção de ter 2 números fixos já determinados, baseados em uma regra qualquer feita pelos organizadores, que maravilha seria concorrer em acertar apenas 4 bolinhas, olha que maravilha seria viver. Pois bem, da mesma forma que acredito ainda que seja preciso CAPACITAR de forma total os julgadores, coloca-los em função daquilo que julgam, não acho justo um bailarino julgar bateria, um bailarino tem que julgar comissão de frente, ms e pb, etc. Um músico, arranjador, produtor musical esse sim julgaria a bateria, pois entenderia os fatos ali apresentados, deixando o sentimento optativo de alguns julgadores, visto nos últimos anos. Sabemos que a voz do povo é a voz de Deus, então deixai que escutem as vozes da arquibancada também, paga-se caro pelo espetáculo e ainda se sai contrariado pois não conseguiu agradar a maioria. Vamos sim tentar fazer que o carnaval seja justo, tanto na série A que enfrente entraves com tudo e no especial que recebe a visibilidade porém, sofre com as máfias postuladas desde antigos carnavais.

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    12/07/2013 15:34:01Diego dos Santos DamascenoMembro SRZD desde 15/04/2009

    Só uma dúvida, Salgueiro não é potência no carnaval? Não se compara a Mangueira e Beija-Flor?

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