SRZD


06/08/2013 16h27

A exoneração na PM e os interesses políticos de Beltrame
Gustavo Ribeiro

Erir da Costa Filho. Foto: Reprodução

Interesses políticos e um acúmulo de desgastes. Esses são os principais motivos apontados por especialistas ouvidos pelo SRZD.com para a exoneração do comandante-geral da Polícia Militar do Rio, Erir da Costa Filho. A demissão foi anunciada pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, quatro dias após o coronel ter baixado um ato administrativo concedendo anistia a 325 policiais que cometeram desvios de menor potencial ofensivo nos últimos dois anos.

"A exoneração é um acúmulo de desgastes dentro da polícia e o perdão das punições aos policiais foi o estopim. O coronel Erir é uma pessoa muito íntegra, honesta e dedicada à corporação, mas ele nunca podia ter tomado uma medida como essa sem consultar sequer o secretário Beltrame, que é o chefe maior da segurança pública no estado. Quando ele fez isso, selou sua exoneração", afirmou ao SRZD o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para o cientista político e sociólogo João Feres, também da Uerj, a repressão da PM durante as manifestações e os casos de violência policial no Rio colaboraram para o desgaste da gestão. Como exemplos, ele cita a morte de dez pessoas, entre elas quatro inocentes, durante uma operação no Complexo da Maré em junho e o suposto envolvimento de PMs no desaparecimento do morador da Rocinha Amarildo Dias de Souza. Ainda segundo o especialista, a exoneração tem claro interesse político.

"A demissão é um esforço do secretário Beltrame de sinalizar algum tipo de mudança ou responsabilizar alguém por esses fatos, pelo menos tentando se livrar parcialmente da responsabilidade dos desvios da polícia. No plano geral, essa decisão faz parte da lista de estratégias do governador Sérgio Cabral para dar uma resposta às manifestações das ruas", afirma Feres. Ele classificou a concessão de anistia aos PMs como um ato de "uma burrice estrondosa", já que a corporação passa por um momento difícil e de críticas.

"Já havia um processo de desgaste muito grande, principalmente depois da troca de acusações com o deputado Marcelo Freixo e o desabafo de que os PMs estavam sendo maltratados. Mas a principal causa da demissão é política", acrescenta o especialista em segurança pública Leonardo de Castro.

Momento não é favorável para Beltrame tentar candidatura

Secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Foto: DivulgaçãoHá rumores de que o secretário Beltrame tomou a atitude de exonerar Erir da Costa Filho para promover sua reputação perante a opinião pública e tentar disputar as eleições de 2014. No entanto, o cientista político João Feres alerta que o momento não é politicamente favorável para o secretário e, por isso, a candidatura dele é improvável.

Sumiço na Rocinha tem responsabilidade pública, dizem os especialistas

Beltrame criticou, na última sexta-feira, a declaração da ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, sobre o desaparecimento de Amarildo. Segundo ela, o caso tem "suspeição de responsabilidade pública". Os dois sociólogos concordam.

Amarildo, morador da Rocinha desaparecido desde o dia 14 de julho após ser levado para averiguação por policiais da UPP. Foto: Reprodução"A questão do Amarildo tem que continuar a ser questionada. Cadê essa pessoa? O cara estava sob custódia da polícia, então é de responsabilidade pública. É um absurdo", comentou João Feres.

"A partir do momento que ele é conduzido à sede policial e depois não é encontrado, o poder público está devendo, sim, explicações sobre o que aconteceu", diz Ignácio Cano.

Desmilitarização da PM

Beltrame também disse não acreditar que a imagem das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) tenha sido manchada após os recentes eventos de violência policial em comunidades e alegou que os casos são isolados. A opinião do secretário não é a mesma dos especialistas.

"A imagem da corporação é afetada, sim, sobretudo após o desaparecimento do Amarildo, que é muito grave. Não significa que a imagem tenha sido derrubada, mas é certamente afetada por esses casos. É ingenuo pensar que a UPP seria o fim dos problemas nas comunidades, mas é fundamental que eles sejam enfrentados", salienta Ignácio Cano.

"Está sendo vendido que a UPP deu certo porque tirou o traficante da comunidade. Isso é verdade, porque trocou um processo de militarização ilegal por um legal, mas não dá certo porque não acabou com um antagonismo histórico entre a polícia e a comunidade", analisa Leonardo de Castro, que defende um maior envolvimento da população no processo de policiamento local.

A proposta de desmilitarização da PM é vista com bons olhos pelos especialistas, mas eles ressaltam que outras medidas devem vir juntas. "Na verdade eu sou a favor do fim da Polícia Militar, mas esse processo é mais complicado. Como força ostensiva e preventiva, ela não funciona. O dinheiro que se gasta com a PM deveria ser alocado para as investigações da Polícia Civil e em formas de monitoramento como câmeras e radares", acrescenta o especialista em segurança pública.

O sociólogo Ignácio Cano também é a favor da medida, mas lembra que o centro da discussão deve se voltar para o modelo de polícia que a população deseja. "A função policial é civil e não militar. Mas é bom lembrar que muitas polícias civis no mundo agem com violência".

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