SRZD


29/10/2008 06h54

Você Sabia? - A história de um herói do automobilismo brasileiro
Gustavo Coelho

Chico Landi (à esquerda) ao lado de Juan Manuel Fangio: ele foi o único brasileiro a derrotar o lendário pentacampeão (Foto: www.museudosesportes.com.br / sem crédito divulgado)

Para quem nunca ouviu falar de Chico Landi, os números de sua carreira não chamam muita atenção. Afinal, sua passagem pela Fórmula 1 limita-se a apenas seis Grandes Prêmios, disputados num período de cinco anos. Participação regular na categoria, portanto, nunca houve. Além disso, Chico tem apenas uma vitória internacional no currículo, conquistada numa prova que nem contava pontos para o mundial.

Qual seria, então, a importância de Chico Landi? Quais foram os feitos desse homem de trajetória tão difícil de reconstruir? A resposta é simples: Chico foi o primeiro. O pioneiro. Não só do Brasil, mas de toda a América do Sul. Na década de 40, ele se aventurou pela Europa antes mesmo dos ases argentinos, como Juan Manuel Fangio e José Froilan Gonzalez.

Chico foi o primeiro ídolo do esporte a motor no Brasil, quando o automobilismo ainda era disputado em pistas indecentemente apertadas e perigosas. Numa delas - apelidada de "Trampolim do Diabo" - Chico conquistou três vitórias, que o credenciaram a tentar a sorte fora do país. Se não fosse a semente plantada por Chico, as corridas de automóveis talvez jamais tivessem se popularizado no país.

O início da carreira e as corridas no ''Trampolim do Diabo''


Filho de pai italiano e mão brasileira, Francisco Sacco Landi nasceu a 14 de julho de 1907, em São Paulo. Como era comum naquele período, ele demorou a fazer sua estréia no esporte. Só participou de uma corrida importante pela primeira vez em 1934, quando correu o 2º Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro. A prova, idealizada por Getúlio Vargas, era um dos poucos eventos realizados no Brasil que conseguiam ter repercussão internacional.

O traçado do circuito da Gávea era, de fato, um desafio inacreditável. Com mais de 100 curvas e alternando quatro superfícies diferentes - asfalto, cimento, paralelepípedo e, por incrível que pareça, areia - a pista ganhou o sugestivo nome de "Trampolim do Diabo". E foi exatamente lá que Chico começou a fazer a sua fama. Ele disputou várias edições diferentes do GP, sempre com destaque. Na edição de 1947, conquistou a maior de suas vitórias.

Correndo contra duas lendas do automobilismo italiano, Luigi Villoresi e Achille Varzi, Chico venceu uma corrida disputada num dia de chuva intensa. O triunfo ganhou proporções épicas: com o motor enchardado após passar numa cascata que caía na Avenida Niemeyer, Chico precisou economizar um pit stop fazendo a vela do propulsor secar com ventilação forçada. Para isso, desligava o motor nos trechos de descida da pista.

Os italianos Villoresi e Varzi resolveram poupar o carro, pensando que a corrida de Chico estava perdida. Mas a vela milagrosamente secou, e Chico venceu, levando a multidão ao delírio. Foi o segundo de seus três triunfos no circuito da Gávea, onde ele também saiu vencedor em 1941 e 1948. Mais do que isso: o desempenho impressionante rendeu um convite para disputar corridas na Europa.

A aventura européia e a vitória sobre Juan Manuel Fangio


Numa dessas provas, o GP de Bari de 1948, Chico se consagrou de vez. Antes da largada, ele descobriu que seu carro estava fora do regulamento, por causa de um mal-entendido com os organizadores. Irritado com a situação, o piloto brasileiro que acompanhava Chico, Rubens Abrunhosa, recusou-se a correr com um carro emprestado, e voltou para o Brasil. Chico, porém, tinha outras idéias. Aceitou o modelo reserva e tomou parte na corrida, pilotando uma Ferrari.

Um a um, os favoritos foram ficando para trás. Contrariando todas as expectativas, Chico venceu, derrotando até o futuro pentacampeão Juan Manuel Fangio. O fato foi tão inesperado que os organizadores precisaram tocar "O Guarani", de Carlos Gomes, no podium. Não havia hino do Brasil. Apelidado de "O Nuvolari Brasileiro" pelos jornais italianos, Chico ganhou o respeito e a admiração de ninguém menos do que Enzo Ferrari. Seu futuro parecia ser glorioso, mas o GP de Bari de 1948 seria sua única atuação de destaque na Europa.

Avesso à política, Chico viu prejudicada sua carreira por causa disso. Certa vez, chateou-se profundamente quando um jornal chamou-lhe de "fascista" por correr com uma Ferrari. Ao contrário de Fangio, que recebeu grande suporte de Juan Perón, Chico nunca teve vontade de recorrer a Getúlio Vargas. Por causa disso, suas chances foram limitadas. Talvez ele nunca tivesse a chance de participar de um GP da recém-criada Fórmula 1, mas a vitória em Bari abriu algumas portas.

Nas palavras de Enzo Ferrari, um piloto ''bravíssimo''


Em 1951, Chico inscreveu uma Ferrari pintada em verde e amarelo da "Escuderia Bandeirantes" para o G.P. da Itália. O carro foi cedido pelo próprio Enzo Ferrari, que abriu uma exceção para Chico. "Não costumo vender nem alugar minhas máquinas. Mas você, Chico, é bravíssimo", teria dito o Comendatore. Na corrida, o carro apresenta problemas de transmissão, e Chico abandona já no início. Antes disso, chega a ocupar a oitava colocação.

Mais tarde, Chico ainda disputaria outras cinco corridas de Fórmula 1, sempre de Maserati, conquistando como melhor resultado um quarto lugar no GP da Argentina de 1956. Sobre essa época, conta-se que ele recusou um convite de Enzo Ferrari para integrar a equipe oficial da escuderia, porque não aceitou correr com um carro pintado de vermelho. Para Chico, a máquina precisava ter as cores de seu país: verde e amarelo. O ''Comendatore'' não cedeu e, segundo a lenda, contratou Fangio para a vaga que seria de Chico.

Sem chances na Europa, Chico voltou para o Brasil, onde continuou a fazer sucessos nos anos 50 e 60. Depois disso, tornou-se administrador do autódromo de Interlagos, contribuindo para a formação de vários pilotos brasileiros. Em 1989, aos 82 anos de idade, Chico faleceu. Sua família, então, cumpriu seu último pedido: jogar suas cinzas no próprio circuito de Interlagos.

Apenas mais uma prova de seu incurável amor pelo esporte que ele apresentou ao Brasil.

*A seção ''Você Sabia?'' é publicada todas as segundas e quartas no Pit Stop


Comentários
  • Avatar
    04/05/2012 11:09:51Carlos Heredia JuniorAnônimo

    Absurdo. Uma página como esta com apenas 2 comentários até hoje. Isso mostra que o brasileiro não conhece a história de seus ídolos do passado e/ou não os valoriza. Eu mesmo sei pouco sobre Chico Landi e só descobri esta história ao fazer, por conta própria, uma pesquisa sobre "qual o maior piloto brasileiros, entre os não campeões mundiaisâ?. Um cara como este, com talento, com caráter, com opinião o suficiente para não se deixar manobrar, uma cara que se dedicou a glória do Brasil, merecia maior reconhecimento. No mínimo, com todo respeito ao Pace, o nome do autódromo onde ele plantou sementes das futuras gerações de pilotos brasileiros e onde ele pediu que fossem jogadas suas cinzas. Prova de amor ao esporte e ao Brasil, mesmo após sua partida deste mundo. Fantástica esta passagem de sua vitória, cheia de determinação, improviso e inventividade, bem tipicamente brasileira. Hoje descobri que o Brasil tem 4 e não 3 campeões do mundo na F1.

  • Avatar
    31/10/2008 22:06:12Rafael RosaAnônimo

    Por pura sorte, esse circuito vitimou apenas um piloto. Foi o brasileiro Irineu Correa em 1935. Se não me engano, seu carro caiu no canal da Visconde de Albuquerque no Leblon. Tem outra história em que um outro piloto teria se ferido mortalmente após se chcar num paredão, porque se enganara de pedais. O bólido que ele guiava tinha os mesmos invertidos. Mas ai se a história é verdadeira....

  • Avatar
    30/10/2008 16:07:43MarcoAnônimo

    Depois falam desse tal de Schumacher...piloto de verdade é o Chico Landi!

Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.