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29/09/2013 12h23

Luto: Carnaval carioca perde Fernando Pamplona, aos 87 anos
Redação SRZD

Fernando Pamplona e Maria Augusta. Foto: Ricardo Almeida

O domingo no Rio amanheceu cinza e chuvoso. E mais triste, e mais órfão também. O Carnaval carioca perdeu, nesta manhã, seu "Pai de Todos", formador de talentos como Rosa Magalhães, Maria Augusta, Renato Lage, Joãosinho Trinta e Lícia Lacerda. O carnavalesco eternamente apaixonado pelo Salgueiro, Fernando Pamplona, morreu em casa um dia após completar 87 anos, vítima de um câncer devastador.

Pamplona viveu casado por 60 anos com Zeni, para quem hoje o dia é motivo de choro e saudade. No fundo, ela já sabia que o companheiro de mais de meio século estava muito mal e recebera alta há poucos dias do Hospital São Lucas para se despedir da vida e da família em casa.

Familiares, amigos, companheiros de estrada e admiradores da vida de Pamplona vão prestar sua última homenagem ao mestre, como era considerado por todos ao seu redor, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, onde o corpo será velado.

Ao longo de sua história no Carnaval, Fernando Pamplona deixou na Avenida do samba rastros de produções de qualidade inquestionável e inesquecíveis. Ele foi contemplado com quatro campeonatos: "Quilombo dos Palmares", em 1960; "Xica da Silva", em 1963; "Bahia de Todos os Deuses", em 1969; "Festa para um rei negro", em 1971. A parceria com Arlindo Rodrigues foi importante para todos os títulos.

Pamplona afirmava que nunca quis receber dinheiro pelo Carnaval. Aliás, muitas vezes chegou a empregar do próprio bolso para ver o resultado esperado. Nos últimos tempos, ele já se sentia desanimado com o jogo de dinheiro e interesses em que o maior espetáculo do mundo vinha se tornando.

Em janeiro, Pamplona lançou sua autobiografia, intitulada

Em entrevista ao SRZD em 2008, o mestre destacou que sempre fez Carnaval por amor e sem a intenção de ganhar um tostão. "Nunca recebi nada do Salgueiro. Os carnavalescos quase morriam nos barracões. Não trabalhei pelo reconhecimento, quem quer ser reconhecido é político", disse ele, na época.

Na ocasião, o ex-carnavalesco criticou o fato de os enredos terem, na avaliação dele, se transformado em tema. Em relação ao próprio enredo da Academia do Samba para o ano seguinte, Pamplona não gosto e lamentou que o Carnaval tenha se transformado em apenas uma festa.

"O 'Tambor', do Salgueiro, é um tema, não é enredo. O Renato Lage (carnavalesco da escola) é meu amigo, mas tenho que falar. Para fugir da cronologia da história, as escolas estão criando temas. Hoje, o Carnaval é somente uma festa. A Vila fez um belo espetáculo, mas por ter dado para o mundo um Martinho da Vila, já merece parabéns. A Estácio já fez enredo sobre o Theatro Municipal (enredo da Vila Isabel para 2009), mas isso não quer dizer nada, pois a Bahia já apareceu várias vezes na Avenida", acrescentou.

O fato é que o Carnaval dos tempos áureos da carreira de Pamplona era uma forma de nostalgia, a ponto de ele, em 2008, já não assistir a nenhum desfile da Marquês de Sapucaí. "Eu prefiro viajar. O Carnaval do jeito que gosto não existe mais, ele acabou faz algum tempo. Hoje, eu até poderia voltar para uma escola, mas teria que ter total liberdade para criar".

Em janeiro, Pamplona lançou sua autobiografia, intitulada "O encarnado e o branco", rodeado de amigos na Lapa. Veja aqui.

Foto: Ricardo Almeida

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Comentários
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    29/09/2013 23:39:21Antonio Carlos FlausinoAnônimo

    O mundo do samba realmente perde um grande mestre do Carnaval carioca, salgueirense de alma e coração tenho certeza que irá se unir a muitos que ja partiram para o Plano Espiritual. Que os Deuses Africanos estejam do seu lado Fernando Pamplona.

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