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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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02/10/2013 02h28

A teatralização nas escolas de samba: 'Ser ou não ser? Eis a questão'
Dicá

Máscaras. Foto: DivulgaçãoAs escolas de samba sempre tiveram o intuito de mostrar ao público um desfile onde o enredo adquirisse ares de encenação de uma história.

Tínhamos assim a idéia de um tetro ambulante de modo que todos entendessem a história contada a partir de um desfile mostrando as partes em que o enredo se compõe.

Então as cenas de forma peculiar passavam diante de nossos olhos e sob as "luzes da ribalta" iluminavam o palco, ou melhor, a passarela carnavalesca aonde a história passava mostrando o enredo interpretado por milhares de artistas anônimos.

Porém essas escolas ainda carregavam valores imutáveis em seu âmago, como o próprio samba que pulsava como um grande coração.

É sabido que nesse conjunto Escola de Samba algumas partes sempre foram passíveis de mudanças obrigatórias como a "trilha-sonora" que é o nosso samba-enredo, as (indumentárias) fantasias, os carros alegóricos, entre outros,. tudo atrelado a nova história.

Teatralização na avenida. Foto: DivulgaçãoNo entanto,as características fundamentais como cor da escola, samba no pé, bateria e sua forma de tocar, passistas, cabrochas e o samba se diluía nesses desfiles evidenciando o genuíno samba brasileiro e suas Escolas de Samba.

Isso sempre nos remetia à tradição da escola com sua batida original e sagrada embasada nas religiões de matrizes africanas e suas inesquecíveis baianas. Havia o toque de cada bateria ao seu santo evidenciando um jeito próprio de cada escola desfilar.

Nos dias de hoje o apelo comercial, a grandiosidade, o novo nicho de mercado que as escolas se constituíram e a crescente teatralização nos desfiles denota a falta de cuidado com a tradição e acabam ameaçando a longevidade que essa cultura possa ter.

O samba vai saindo por uma porta e o teatro  das escolas de samba que em seus desfiles era fundamentado no samba vai se transformando num teatro tradicional.

Notamos então um crescimento dos ensaios representativos, às vezes até fora do ritmo do samba e suas baterias. Os passistas, cabrochas e pandeiristas deram lugar aos trejeitos de balés e movimentos aeróbicos e acrobáticos.

As roupagens ou fantasias cresceram e ficaram pesadas dificultando os movimentos e engessando a alegria e a graça de um gingado e de um samba no pé.

Teatralização na avenida. Foto: DivulgaçãoEntão o que chamavamos de desfile de escolas de samba, hoje com raras exceções pode ser chamado de escolas de desfiles, pois é proibido sambar...

Hoje é preciso ensaiar a peça exaustivamente, pois aquelas agremiações do passado mudaram e agora a tendência é cada vez mais de um teatro que emociona, mas não diverte...

Decorrente desse processo, os sambistas estão em desuso e os que insistem se corrompem no seu íntimo e escondem seus sorrisos e suas histórias vividas.

Os que ficam estão cada vez mais incorporando a nova maneira de atuar esquecendo o gingado do samba e a maneira mágica de um sambista desfilar.

Não se pode afirmar mais talvez o divisor de águas tenha sido a contribuição de Pamplona e seus discípulos naquele inesquecível desfile de "Chica da Silva".

Penso que a partir dali em marcha célere o desfile tradicional foi perdendo sua pujança diante das apresentações grandiosas com suas imensas alegorias e fantasias.

Diante do mundo fomos ganhando visibilidade, porém perdendo tradição, brasilidade, originalidade e, sobretudo o orgulho em pertencer a uma Escola de Samba!

Quem não se adequa a esse "Show Business" está fadado a sair de cena...

Dizem que é a evolução!

Axé!

Vamos caminhando...


Comentários
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    02/10/2013 12:04:57Walter Goncalves de AssisMembro SRZD desde 02/10/2013

    Texto perfeito, meu caro Dicá, os carnavalescos que antes eram figuras opcionais nas escolas de sambas, passaram a ser verdadeiros ditadores, oprimindo os sambistas e transformando o desfile em show visual e, com raras exceções, sem emoção.

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    02/10/2013 10:02:18GaloMembro SRZD desde 28/02/2013

    Grande Dicá, saudade das grandes emoções onde os foliões eram o foco central, tinha até nota para samba no pé , oh saudades, hoje apesar de apaixonado ainda pelo nosso carnaval GLOBALIZADO, tenho a esperança dele voltar a ser um espetaculo do povo para o povo, os desfiles das escolas de samba hoje estão parecendo mais com paradas marciais de escola de samba, não se dança, não se samba, não se brinca mais de carnaval, hoje infelizmente atravessamos a avenida em verdadeira marcha militar.

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    02/10/2013 09:03:31Harry de CastroMembro SRZD desde 26/09/2012

    Fico muito triste pois o que vejo na minha Morada é um monte de "bailarinos" mostrando suas acrobacias e estes ainda ridicularizam os que têm samba no pé. O pior é que que essa teatralização está em todas as escolas e cada vez mais o samba no pé vai ficando para escanteio, uma pena! Maravilhoso texto, Dicá!

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