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Dicá

Dicá

CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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05/11/2013 14h05

Onde foram os passistas?
Dicá

Passista. Arte: Fernanda QueirozA pergunta fica sempre no ar, porque aquelas pessoas que gostavam de "dançar o samba" nos terreiros já não dançam mais como antes, seja nos terreiros das escolas de samba ou nos desfiles. O que será que nos levou a isso?

És vezes pensando cá com meus botões, fico a imaginar, o que aconteceu?

Será que foi o "embranquecimento das escolas de samba?

Será que foi o novo padrão de desfile que se formou ao longo do tempo, esquecendo a arte e priorizando o espetáculo visual?
Ou será que foi o tempo dos desfiles que diminuiu e agora todos que desfilam são obrigados a correr?

Cá prá nós ver baianas correndo num desfile é feio demais, carregar cerca de quarenta quilos em desabalada carreira é o fim!


Mas ta aí, tá tudo ai, só não vê quem não quer...

Mas voltando para os detentores da nobre arte de sambar, a grande verdade é que os homens já não sambam mais!

Talvez devido à contribuição negativa que as escolas de desfile impuseram à classe, talvez seja o novo "modus operandis" das escolas modernas, o certo é que o "passista" que existia nas agremiações está com seus dias contados...a cada dia mais minguante!

Antigamente era uma beleza ver os passistas das escolas em ensaio de rua, nas quadras e nos desfiles "dando no pé". Fechavam o "trinômio do samba".

A dança, o canto e o ritmo, a base que mantinham as escolas de samba estava latente, viva e alegre, pois fora disso o restante sempre foi fantasia, alegoria...enfim, ilustração para que haja compreensão do enredo. Porém essas são as três partes básicas que representam o samba, aliás o bom samba brasileiro.

É como cantava o poeta Zeca da Casa verde nos tempos bons de Brasilândia...

"E que bom que vai ser só quero ver/ Todo mundo sambando prá valer" Serenim, serenim oba, serenim, serenim oba"

Ou...

"Quem não dá no pé dá nas cadeiras, quem não dá nas cadeiras da no pè" ...

E aquela gente humilde da Brasilândia ia sambando até o amanhecer, me perdoem, mas não dá pra esquecer... Quem conhece a felicidade, não consegue conviver com a normalidade, quer ser feliz a vida inteira...

Em São Paulo, é uma grande verdade que os lendários passistas e cabrochas, foram sucumbindo através do tempo...

Tornaram-se "componentes", ilustrações do enredo, muitos até parecem "passageiros da agonia", pois deve ser de lascar passar num desfile com os braços prá cima, batendo palma e cantando (quando canta) no calor de uma bateria, claro que não dá prá todo mundo sambar, mas pô "se mexe aí!"

É de doer...

As causas são muitas, mas penso que as principais é o tempo de desfile que diminuiu, e a falta de importância dada ao samba no pé, pois tudo que não é julgado como quesito, vai se tornando obsoleto, ou seja, não precisa nos desfiles...

E a gente observa os passistas e cabrochas sumindo do cenário. Tem muita gente rebolando, mas samba que é bom...

A pergunta que deixo como reflexão é.

Onde estão os passistas?

As cabrochas, as rainhas de bateria? Os pandeiristas? A ala de compositores nas escolas de samba?

Se alguém souber por favor, estou procurando faz tempo...


Comentários
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    18/11/2013 05:29:41Dalton Luís FerreiraMembro SRZD desde 13/08/2012

    ...outra coisa importante que foi ressaltada pelo Dica é a pouca importância dada ao samba no pé nos desfiles atuais. As escolas preocupam-se com alegorias riquíssimas, fantasias luxuosas e tudo o mais para impressionar os jurados. Como samba no pé não conta ponto e, na visão de alguns, "atrapalha" o bom andamento dos cortejos, quanto menos passistas, mais fácil desfilar. Uma pena.

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    18/11/2013 05:25:59Dalton Luís FerreiraMembro SRZD desde 13/08/2012

    Concordo com muita coisa do belo texto do Dica, mas eu acho que a diminuição do tempo dos desfiles não é causadora desse problema. Eu, por dever profissional, acompanho todas as escolas no sambódromo e vejo que, pelo menos no Grupo Especial, a maior parte delas desfila tranquilamente sem precisar correr e, algumas, até "segurando" o desfile para não desfilar em tempo menor do que o estabelecido no regulamento. Ademais, se o tempo for insuficiente, a escola precisa se organizar para diminuir o contingente para fazer o cortejo de forma a não prejudicar a qualidade do desfile. Credito a maior parte do problema à aceleração do ritmo das baterias que hoje em sua maioria tocam algo que não dá para dançar mais de cinco minutos. Além disso, e vou tocar numa ferida sabendo que posso ser acusado de homofobia, o fato de haver muitos meninos que sambam como se fossem mulheres afastam os pequenos passistas que poderiam vir a surgir. Eles ficam com receio de serem confundidos e ofendidos e acabam não se interessando em sambar no pé. Criou-se um gueto na maior parte das escolas onde o homem que samba tem de ser tão ou mais feminino do que as mulheres. Daí, você acaba restringindo o acesso dos homens que não querem sambar requebrando como cabrochas. As escolas de samba são, por essência, territórios livres para todas as manifestações religiosas, políticas e opções sexuais, mas, mesmo nesse território livre, nossos preconceitos acabam sufocando o surgimento de novos passistas e limitando muito o número de sambistas que mandam ver no pé. Não sei qual a solução ou se tem solução, afinal, todo mundo tem direito de sambar do jeito que achar melhor(inclusive homem que queira requebrar como mulher),mas o fato é que já vi muito menino não sambando no pé com medo do preconceito.

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    08/11/2013 08:14:59Bruno LoloMembro SRZD desde 16/07/2013

    Belo texto! O termo "Passageiro da Agonia" é de extremamente coerente com o sentimento sentido por muita gente aqui em SP, inclusive eu. O cenário que vivemos faz com que por deixemos nossa escola de coração, sempre faço uma relação com o futebol... o jogador tem seu time de coração mas joga pelo time que paga melhor, mas nesse caso o pagamento é poder fazer o que gosta, ser respeitado e reconhecido. Tenho inumeros amigos que passaram e muitos que ainda sentem esta agonia.

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    05/11/2013 21:11:01Diego OliveiraMembro SRZD desde 09/03/2013

    Gostei muito do texto, e fica aí a dica para as diretorias das escolas investirem em seus passistas, gente da comunidade, não é só dar o espaço para dançarem, mas apoio com figurino e moral, pq principalmente para nós homens as oportunidades são poucas, e infelizmente alguns valores se inverteram, e o que era divertido, virou algo mecânico... tenho a bênção de ser passista malandro na Rosas, mas e quantos não são apenas mais um em meio a multidão em seus ensaios, e que poderiam abrilhantar dando show de samba no pé.... abs e parabéns pelo texto!!!

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    05/11/2013 19:03:54Vilma AparecidaMembro SRZD desde 19/01/2013

    Olá Dicá, Mais uma vez vou utilizar, se me permitir seu texto com as meninas da minha ala na Nenê de Vila Matilde, não podemos perder esse chão,é ala que mistura passistas mirins ,juvenis e adultas.Para elas não esquecerem de dar no pé na avenida.,pois nossa ala se chama Filhas da Águia!.

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    05/11/2013 17:19:44Paulo Henrique OliveiraMembro SRZD desde 13/01/2013

    Excelente reflexão! Seria de grande valia, que todos passistas e cabrochas que buscam representar esta classe, leiam este artigo. Vai muito além de um reflexão. A matéria expressa um questionamento que a cada dia que passa, torna-se mais presente para os verdadeiros sambistas, aqueles que apreciam a arte e a magia do carnaval na sua verdadeira essência. A evolução do samba é necessária, mas a tradição é algo que deve ser respeitado e dado continuidade pela juventude. Parabéns Dicá!

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