SRZD


19/11/2013 19h17

Frieza ou descaso? Postura de médicos ao noticiar mortes gera polêmica
Lucas Torres

Ao chegar no hospital em busca de informações sobre o estado de saúde do avô, internado desde o fim da manhã após passar mal, Luana Rodrigues recebeu a notícia da morte por meio do primo. Apesar de a família já ter ciência do estado terminal do câncer, a perda foi um baque. Abalada, Luana caminhou em direção ao médico do hospital junto da mãe, que pediu para ver o sogro pela última vez. Mas recebeu uma resposta surpreendente: "Já foi ensacado, está no saco preto", disse o médico, com frieza e arrogância. O caso aconteceu há cinco anos, mas as palavras do profissional ainda causam revolta na família.

Esse é apenas um dos casos em que a dura notícia da perda de um ente querido pode se tornar um momento ainda pior para os familiares, dependendo da forma que os médicos informam. Apesar do momento delicado, não existe um treinamento específico para que os profissionais da saúde noticiem um falecimento. É o que informa ao SRZD o conselheiro e ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), que explica que o desenvolvimento da abordagem se desenvolve com a experiência na profissão.

Foto: divulgação"O médico vai, aos poucos, aprendendo a como lidar com esse tipo de situação. A abordagem ao paciente está relacionada aos valores éticos passados pela formação nos cursos de medicina", afirma.

Sentada na sala de espera de um hospital na Tijuca, Zona Norte do Rio, Tatiana Castanheira testemunha a chegada da triste notícia a familiares que aguardavam o atendimento de uma idosa, levada para a sala de emergência. Antes, Tatiana já tinha visto os médicos tentando reanimar a paciente. Ao chegar na recepção movimentada, o médico localiza os parentes da idosa e fala: "Estamos tentando reanimá-la, mas infelizmente ela morreu", disse, batendo as mãos contra as pernas, como quem se isenta de responsabilidades.

"A notícia foi dada de uma maneira ríspida. Estou chocada com a frieza e o despreparo em tratar de um assunto tão delicado. A vida realmente parece que virou uma coisa banal", classifica Tatiana.

Queixas que relatam a quebra da relação ética entre médico e paciente são comuns ao Cremerj, de acordo com Luís Fernando Morais. No caso de reclamações sobre o tratamento das mortes, o limite entre o distanciamento profissional e a indiferença são ainda mais difíceis de serem estabelecidos.

"A interpretação de um descaso é muito subjetiva. Depende da personalidade não só do médico, mas também dos próprios familiares", diz o conselheiro do órgão.

Caso os familiares se sintam desrespeitados, podem encaminhar denúncia ao Cremerj. Nesse caso, uma carta com identificação e assinatura deve ser encaminhada ao órgão. "Testemunhas têm grande utilidade nesses casos, para não ficar a palavra de um contra a de outro", diz Morais. Uma sindicância pode ser aberta, e o processo julgado de acordo com o código de ética, que prevê de punições leves a cassações de registros, dependendo da gravidade das infrações.

"Não pode haver descaso. Estamos tratando de pessoas, que têm sentimentos, medos, expectativas. O mínimo que se espera do médico é humanidade", completa Morais.

 


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Comentários
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    23/02/2014 11:18:58AndreAnônimo

    Eu não vi nenhuma frieza nas palavras "foi ensacado. Está no saco preto". Essas frases, por si só, não são duras. Ele simplesmente informou o que aconteceu. Se ele disse com voz alterada, já é outra história. Outra coisa é que deveria haver treinamento é para as pessoas em geral. Eu não sou médico, mas digo isso porque como ser humano, observo que as pessoas são mais emotivas do que deveriam em momentos que devem ser encarados com naturalidade. Se o parente está com câncer terminal, os familiares vão esperar o quê? Uma intervenção divina? Ah, dai-me paciência. O exercício da razão e bom senso são fundamentais pra uma boa vida.

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    19/11/2013 20:11:19Walney CruzAnônimo

    Mas isso é muito complicado. De um lado realmente os Médicos não estão preparados para lidar com a morte, nem a população. A morte deve ser encarada como parte da vida, algo natural. Agora mesmo que o Médico se comova com as primeiras mortes da carreira dele, depois de um tempo a morte acaba se tornando algo comum na vida dele, embora seja algo impactante na família, para o médico acaba se tornando algo comum. E como ensinar este médico a passar a notícia com um sentimento de empatia se aquilo passa a virar rotina na vida dele? Realmente muito complicado.

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