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07/11/2008 14h52

As Cores na Idade Média
Claudia Ferraz*

São as Iluminuras e as tapeçarias da Idade Média que nos mostram quão rica era a paleta de cores dos nossos antepassados medievais.  As Iluminuras eram os desenhos que "iluminavam" os livros copiados manualmente e ajudavam o fiel que não sabia ler. Podemos lembrar do filme "O nome da rosa" que mostra os monges copiando os livros no mosteiro.  As tapeçarias eram tramadas a partir de cartões baseados na pintura de um artista, esses cartões eram reaproveitados, vendidos ou re-adaptados posteriormente. Esse período foi marcado por uma sociedade feudal rigidamente hierarquizada onde o preço de uma cor tinha influencia decisiva sobre o seu significado.  As cores eram privilégios dos mais abastados, quanto mais luminosa e pura mais tinha seu peso pago o equivalente em ouro.

No ano de 1434, época em que o vermelho ainda era reservado somente para os nobres, o pintor flamengo Jan Van Eyck pintou o matrimonio do casal Arnolfini.  No quarto do casal uma cama vermelha chama a atenção, os burgueses ricos não podiam vestir vermelho, mas uma superstição tradicional atribuía um poder protetor a cor vermelha e por isso era permitido o seu uso nessas circunstancias. A Sra. Arnolfini usa um vestido verde luminoso, cor reservada aos burgueses e a cama é seguramente símbolo da riqueza do comerciante assim como as roupas volumosas do casal, quanto mais tecido uma roupa ostentava mais significava o status do dono.

Pela história da cor sabemos que em 1508 o pintor alemão Durer pagou quarenta e um gramas de ouro por trinta gramas de azul ultramarinho, um pigmento de grande intensidade luminosa, oriundo da pedra semi-preciosa lápis-lazúli. No códice o "Riquíssimo Livro das Horas" encomendado pelo conde Du Barry foi pintado pelos irmãos Limburg com esse precioso azul, pois era um livro luxuoso e suas cores se mantêm luminosas até hoje sem a necessidade de nenhum verniz de proteção. Assim, por décadas as cores luminosas foram reservadas para os ricos e as cores apagadas foram destinadas para os pobres.

A partir do século VI, quando o papa Gregório Magno promulgou uma lei para a pintura cristã, as cores apareceram nas vestimentas como signos de reconhecimento. Num mundo iletrado era fácil saber quem era quem através das cores das roupas.  Azul para a Virgem Maria, vermelho para Jesus,  púrpura para Deus e verde para o Espírito Santo. A principio a cor rosa era uma cor masculina e o azul feminino, em várias representações o menino Jesus veste uma roupa rosa. A mudança no uso dessas cores só ocorreu no século XX quando se resolveu inverter o masculino e o feminino nas cores.

Os fundos dourados mostram a riqueza de Deus e o fiel deve dar o que de melhor existe sobre a face da Terra. Na Idade Média, o dourado era distinto da cor amarela que identificava os proscritos, as prostitutas, bandidos, mães solteiras, hereges e os judeus. Judas Iscariotes é representado com túnica amarela, cor dos covardes e traidores. A cor branca  para os cristãos primitivos era a cor do luto pois a morte era a festa da ressurreição. As cores das ordens monásticas até o ano 1000 eram basicamente o marrom para os que viviam na pobreza e negro para aquelas ordens que permitiam certos luxos. Na Igreja hoje podemos perceber a hierarquia das cores, só o Papa veste branco, o bispo veste violeta e o cardeal vermelho, o branco Papal é o zênite divino.

Algumas iluminuras foram feitas com poucas cores como é o caso do códice da "Torre do Tombo" onde o azul, o vermelho e o preto predominam com alguns toques de amarelo. No "Apocalipse de Lorvão" predominam o vermelho, o amarelo e o laranja, cores iluminadas por si só. Outro livro interessante, "O Livro das Aves" que tem uma paleta nas cores azul, laranja, carmim, vermelho, amarelo, verde, preto e branco. Na tapeçaria "A dama e o Unicórnio" do século XV há um grande predomínio da cor vermelha ao longo de todos os painéis. As cores podiam ser de origem animal, mineral ou vegetal misturados a um tipo de cola da época, em todos os casos a sua obtenção dependia de fatores climáticos, de extração, de processos manuais lentos e muitas vezes caros.  Quanto mais raro e difícil de obter o pigmento, mais caro ficava seu peso vendido em gramas. Com a chegada de Renascença, as cores usadas na Idade Média mudaram quase repentinamente.  A sociedade e o poder começaram a mudar de mãos e as cores passaram não a determinar somente a classe social, mas também o poder do individuo.

*artista plástica e profª de História da Arte.


Comentários
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    20/03/2019 03:06:30LienAnônimo

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    13/02/2013 13:14:09carolAnônimo

    em primeiro lugar obrigada,pois esse texto me ajudou muito em um trabalho de historia e sem contar que é um assunto muito interessante q desperta uma curiosidades imensa nos leitores

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    17/02/2012 13:11:58IsaAnônimo

    Isso e zica cara :-):-):-):-):-):) kkkkkkkk~

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    21/04/2011 06:11:12professor morenoAnônimo

    Um assunto rico que chama a atenção e prende o leitor

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    19/08/2010 12:38:29lucianaAnônimo

    gostaria de saber o que indica a cor vermelha na biblia realmente era roupa usada para encontra com rei? por que foi pedido a Raabe para coloca cor vermelha na janela e por que os espias deceram pela janela em um pano vermelho e referencias biblica sobre a cor desde já agradeço e que Deus possa continua nos abençoando

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    01/06/2010 17:25:17Paula Adriana MassaraAnônimo

    Achei muito interessante o seu comentário. Gostaria de contar co a sua gentileza em me enviar nome dos livros que você consultou para a sua pesquisa. Obrigada

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    30/06/2009 09:56:59FernandaAnônimo

    As iluminuras eram feitas por encomenda só para pessoas da alta classe.Quem as fazia eram sobretudo monges.Ã? um erro grosseiro falar q eram para ajudar os fieis que nao sabiam ler.

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    12/11/2008 18:01:26MarinaAnônimo

    "A mudança no uso dessas cores só ocorreu no século XX quando se resolveu inverter o masculino e o feminino nas cores." huuuummm, agora entendi porque a revolução feminista só chegou no século XX. As mulheres se 'igualaram' a Jesus...pelo menos nas cores rosa e vemelha...yes!

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