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11/02/2014 15h16

'Na cabine do julgador': saiba como é julgado mestre-sala e porta-bandeira
Tatiana Perrota

Felipe Ferreira. Foto: André NazarehNa 'Cabine do julgador' desta semana está Felipe Ferreira. Professor do instituto de artes da Uerj, leciona cultura popular com foco nas questões do Carnaval, coordenador do Centro de Referência do Carnaval, autor de diversos livros, entre eles, "Escritos Carnavalescos" e "Inventando Carnavais" e, jurado do Estandarte de Ouro, foi julgador do quesito Mestre-sala e Porta-bandeira no ano de 1998.

Confira abaixo a entrevista completa!

SRZD-Carnaval: Como o quesito Mestre-sala e Porta-Bandeira é julgado?

Felipe Ferreira: Fui jurado do Grupo Especial no quesito Mestre-sala e Porta-bandeira em 1998, mas pelo que tenho percebido atualmente o julgamento tem sido excessivamente rígido. O atual julgamento privilegia as coreografias marcadas do casal, deixando de lado a dança espontânea. Está tudo modificado, antigamente a dança era feita para o jurado e para a plateia, enquanto hoje eles têm obrigação de fazer aquela apresentação na frente da cabine do julgador, muitas vezes com uma coreografia que não executam no decorrer do desfile. Na minha época procurava avaliar mais esse lado espontâneo da dança, tínhamos essa liberdade que hoje em dia não sei se existe. Julgava o casal pela dança que apresentavam durante todo o percursso e não só para mim ali naquele momento. Sempre procurei destacar a criatividade e espontaneidade do bailado. Mesmo que ele seja marcado ele precisa dar margens para o destaque do papel da PB, que é mostrar com orgulho o pavilhão e o MS estar em torno dela, lhe protegendo simbolicamente. Buscava avaliar também a dança de cada um separadamente e depois a dança em conjunto. Muitas vezes as apresentações juntas não combinam, quando na verdade deveriam combinar, e isso interfere no entrosamento. Outra coisa que também levei em conta na minha avaliação foi a indumentária. Entendo que, se de algum modo a roupa não agrada ela não deve ser levada em conta, mas sim a adaptação e a dignidade do casal. Se existe alguns elementos que não combinam esteticamente, isso não é tão importante quanto a roupa facilitar a dança. Por outro lado algumas roupas que facilitam a dança os deixam como figuras jocosas, até mesmo ridículas. Existem casais magníficos, mas que as roupas impostas acabam prejudicando a dignidade, neste caso isso precisa ser avaliado.

SRZD-Carnaval: Qual o diferencial no olhar do jurado?

Felipe Ferreira: O julgador do quesito MS e PB precisa ter um olhar carinhoso para o processo da cultura popular, compreender o que está acontecendo ali, que nada mais é do que uma verdadeira aula de dança popular. Ele não deve olhar a dança a partir de seus conhecimentos e sim usar seus conhecimentos para abrir os olhos para a dança. Vemos muitos jurados dizendo como a dança deveria ser feita, qual movimento usar ou não, e acho que esse parâmetro não deve ser dado pelo jurado e sim pelo casal. Cabe ao julgador perceber o valor daquilo que está sendo oferecido a ele, e isso tem sido um problema. Na verdade acredito que falte um pouco de humildade dos julgadores para perceberem a dimensão do que está sendo apresentado a eles.

SRZD-Carnaval: Sabemos que não existe um "padrão", muito menos uma "tabela" que ajude no parâmetro para o desconto dos décimos, mas você acha que seria mais fácil se existisse, ou acha que engessaria a forma de avaliação?

Felipe Ferreira: É difícil responder isso. A princípio a gente acha que sim, acreditando que os critérios seriam bem definidos, mas isso talvez enrijeceria o julgamento, e deixaríamos de levar em conta o que eu acho mais importante, que é a criatividade, a cultura e a arte. Acho que talvez pudesse ser revisto sim, dando mais subsídios, não tanto quanto uma tabela e uma padronização, fora as regras do manual do julgador, mas sim que pudesse ampliar as formas de avaliação. Acredito que o julgamento precisa ser comparativo, de maneira que, uma PB não extrapolasse as características necessárias, mas trouxesse alguma beleza a mais, uma novidade. A cultura é dinâmica, você tenta regulamentar mas isso quando dá certo faz com que precisem ser premiados, por isso então eles passam a ser o parâmetro para uma nota 10. Teve um ano que a bateria da Viradouro entrou com um funk na Avenida, muita gente achou que deveria tirar ponto, enquanto eu acho que isso deveria ser valorizado, a inovação. Até porque, no caso dos casais de MS e PB muita coisa pode não estar prevista, como o vento, se está ou não chovendo, a pista, de onde eles estão, no início ou no meio da escola (agora obrigatoriamente no início), se a escola está devagar ou correndo, se a roupa está confortável. São vários fatores que você precisa dar margem. Se não fosse assim todos estariam dançando até hoje como os outros dançavam antigamente, mas na verdade eles vão se reiventando a cada ano.

SRZD-Carnaval: Acha justo a avaliação dos quesitos de somente um ponto da Avenida?

Felipe Ferreira: Não acho injusto, já que atualmente isso está préviamente acordado mas não acho bom. Acho que isso acaba fazendo com que o espetáculo, todo ele, aconteça somente em quatro ou cinco pontos da Avenida. No caso dos casais de MS e PB isso é muito sério. Muitos deles entre um jurado e outro não se apresentam, apenas usam aquele espaço de tempo para se recuperarem e isso prejudica o espetáculo. Quem não está no campo de visão do julgador acaba perdendo a apresentação. Nas comissões de frente por exemplo, muitas se viram para as cabines, realizam as apresentações e o grande público mesmo não vê. Acho isso muito ruim e acredito que todos os quesitos deveriam ser julgados enquanto estivessem passando pela Avenida e não só de um ponto. Antigamente a escola se apresentava e o jurado julgava tudo aquilo que ele conseguia ver de onde ele estava. O sistema atual pode até ser justo, mas não acho bom.

SRZD-Carnaval: Existe alguma coreografia que podemos considerar como perfeita?

Felipe Ferreira: Quem cria a perfeição é o próprio artista. A cada momento, os casais estão reinventando sua dança. Por causa disso os parâmetros de julgamento precisam estar sempre sendo questionados. Uma coreografia perfeita é aquela que destaca a dignidade do casal, a capacidade de se orgulhar de sua bandeira, de nos emocionar com sua dança. Como isto é executado depende das caraterísticas de cada porta-bandeira e mestre-sala. Impor um gosto pessoal, exigir a execução de um determinado movimento, é um erro grave do julgador. Por outro lado a dança não é totalmente livre, visto que está ligada a uma história, a uma tradição. Encontrar o equilíbrio entre estas duas questões deve ser o objetivo do bom julgador.

SRZD-Carnaval: No que os ensaios técnicos podem ajudar ou prejudicar no desfile oficial?

Felipe Ferreira: Acho que podem interferir tanto de maneira negativa quanto positiva. No caso dos casais eles podem ensaiar a dança no espaço em que ela vai ser apresentada futuramente, é importante para eles terem noção do tamanho e isso acaba sendo bem produtivo além de adquirirem uma segurança maior. Por outro lado, eles tendem a repetir o que farão no desfile oficial e, acabam se apresentando somente na frente da cabine dos jurados, mesmo no ensaio técnico, deixando o público presente sem asssistir a evolução completa. És vezes a pessoa não está tão bem naquele dia e o comportamento acaba sendo outro, mas serve sempre para ter uma boa noção do que pode acontecer no dia do desfile oficial.

SRZD-Carnaval: Existem alguns segmentos que não são julgados, como o segundo e terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. Ainda assim, esses elementos influenciam de alguma forma no julgamento?

Felipe Ferreira: No julgamento do quesito não, até porque o jurado está fixado e preocupado com a apresentação do primeiro casal. Agora, é uma influência indireta dentro do espetáculo, assim como todo o resto influencia. Não acho que os outros casais deveriam ser incluídos nessa regulamentação do julgamento. No caso do segundo e terceiro casal, eles podem estar com uma roupa muito interessante, muito bonita e isso somar ao sentimento geral, que sempre acaba de certo modo influenciando em todas as notas. Eles tem liberdade de vir dançando pela Avenida, fazem a apresentação para os jurados como se fosse um treino e se preparam para futuramente assumirem o posto de primeiro casal, ou até mesmo fazerem uma substituição casa haja algum problema. Mas por outro lado eles vem muito mais soltos e fazem um desfile mais próximo daquilo que me agrada. É claro que os primeiros casais são deuses e deusas da passarela, mas acho que o restante vir solto é uma característica bem bacana.

SRZD-Carnaval: O que você acha do conhecimento dos jurados que participam do Carnaval. Eles são aptos para avaliar?

Felipe Ferreira: Considero que os jurados precisam ser substituídos. Ficar muito tempo como julgador, de um certo modo vicia o julgamento, porque a pessoa já tem uma perspectiva, como também acaba criando uma espécie de laço com aquele quesito. Principalmente com os casais de mestre-sala e porta-bandeira, afinal você está ali julgando pessoas, que você encontra do lado de fora. Então você também acaba criando um laço pessoal. Acredito que a rotatividade seria bem mais produtiva, e aí depois de dois ou três anos a pessoa voltaria, até mesmo mais experiente. Independente da formação acredito que o mais importante é a relação do jurado com a cultura popular, acho que não é necessário que seja uma bailarina ou um coreógrafo. Uma pessoa que acompanhe todo esse processo popular pode sim julgar tão bem quanto um bailarino ou um coreógrafo e eventualemnte ser até melhor, já que nem todos compreeendem esse processo popular. A capacidade de você entender a história, o processo, a tradição, a modernidade, enfim, todo a dinâmica da cultura popular e do Carnaval é o mais importante.

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Comentários
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    15/02/2014 11:30:55binocaMembro SRZD desde 17/07/2011

    EU DESEJAVA SABER EM QUE ESCOLA DE SAMBA DESFILOU ESTE SENHOR..COMO MESTRE-SALA..ELE SABE DANÃ?AR COMO MESTRE SALA..ACHO QUE ELE JULGAR VAI DO SENTIMENTO DO MOMENTO OU DA SIMPATIA POR DETERMINADA AGREMIAÃ?Ã?O...ACHO QUE DEVERIA SER CONVIDADO PESSOAS QUE JA DESFILARAM COMO TAL..QUE JA TENHA DESFILADO EM QUALQUER AGREMIAÃ?Ã?O...MAIS ESSES JULGADORES QUE SÃ?O CRIADOS... TER CONHECIMENTO DE CARNAVAL E IMPORTANTE MAIS TER A PRATICA E MUITO MAIS IMPORTANTE ELES DEVERIAM TER O CURSO NA PRATICA VESTIREM ROUPAS ..E SEREM PELO MENOS O QUARTO MESTRE SALA DE UMA AGREMIAÃ?Ã?O PARA TER O SENTIMENTO E JULGAR DE UMA FORMA IMPARCIAL...ANALISE DE UMA PESSOA DEIXA DUVIDAS ERRAM OS JUIZES...NOS SERES HUMANOS ERRAMOS..NA MÃ?O DELE ESTA O DESTINO DE UMA COMUNIDADE QUE LUTA O ANO TODO..POR ISSO NÃ?O ADIANTA ELE SER FORMADO PELAS UNIVERSIDADES DA VIDA..AINDA NÃ?O EXISTE UM FACULDADE PARA SE FORMAR SAMBISTAS ..A NOTA QUE ELE DER ESTARA DADA PORQUE A JUSTIFICATIVA SERA A QUE DER TAMBEM E TODOS ACATAM..NÃ?O SOU A FAVOR DESSES JULGADORES E COM ISSO O SAMBA ESTA MORRENDO...ENTREGUE A PESSOAS QUE APRESENTAM TITULOS ..MAIS O GRANDE SAMBISTA E FORMADO NA PRATICA..CHEGOU NUMA CIDADE UM SECRETARIO QUE NUNCA TINHA MORADO NA CIDADE ..E NESTA CIDADE TEM O CAMPO DO TRICOLOR..E FOI MARCADA UMA REUNIÃ?O NESTE CAMPO O SECRETARIO FOI PARA LARANJEIRAS PENSANDO QUE O TRICOLOR ERA LA...ENTÃ?O O SAMBA TEM DESSAS COISAS...BINOCA MADURA

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    12/02/2014 05:16:44Fábio FreitasMembro SRZD desde 07/04/2009

    Gostei muito desta análise!

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    11/02/2014 20:41:18BERNARDMembro SRZD desde 18/11/2010

    Que analise magnifica. Acho que seria muito mais bonito se os casais voltassem a passar na avenida como antigamente(como vejo nos vídeos no youtube), dançando para todos e não somente para os jurados. Acho também que os jurados devem rever seus conceitos e se basear no conceito e dicas de Felipe Ferreira. Parabéns pela analise. Acho também que os jurados devem ser mais coerentes, não vou citar nomes para não ofender ninguém, mas eu vi mestre-sala e porta-bandeira passar ANDANDO em frente ao jurado e tirar 10, por outro lado vi um casal dançando muito e a nota ser 9,7 (OBS: a justificativa da nota foi que a fantasia representava o sol e como choveu na hora do desfile, não se encaixou perfeitamente e a chuva apagou o sol). Isso não faz a minima coerência, vamos acordar jurados e LIESA. Julguem pelo bailado e não pela bandeira.

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    11/02/2014 17:45:36AghataMembro SRZD desde 20/05/2013

    Ah!!! Não!!! A pior escola de todos os tempos a Unidos do dia das Bruxas, tem Paulo Vianna como Presidente, Nilo Figueiredo como vice, Diretor de Carnaval Ivo Meireles, Comissão de Carnaval Fran Sérgio, Milton Cunha e Cláudio cebola. Porta Bandeira Squel, intérprete Gago David Brasil, Rainha de Bateria Laíla, Mestre de Bateria Mug e o samba enredo do Beija Flor 2.014. está formada a pior escola de todas

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    11/02/2014 16:08:50AghataMembro SRZD desde 20/05/2013

    Com certeza já deve ter ajudado e muiiiiiiiiiito a escola BONIficada.

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    11/02/2014 16:06:26Erick CardosoMembro SRZD desde 28/01/2010

    Clareza, conhecimento e amor ao carnaval. Filipe demonstra tudo isso nesta pequena entrevista. Que bom se todos os jurado atuais possuíssem estas qualidades! Saudações carnavalescas! Erick

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