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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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19/02/2014 15h18

'30 anos do Sambódromo': São Clemente 1987, o Carnaval dos meninos de rua
Hélio Ricardo Rainho

Triste e, ao mesmo tempo, arrebatador. Foi o desfile mais sombrio da história da escolas de samba. E não menos belo, marcante e inesquecível. O samba-enredo, melancólico, exibia as primeiras linhas em tom soturno, sendo todo entoado em tom menor. Em vez de uma receptividade festiva e vibrante, o público, atento, recebia com brados a passagem da escola, mas o tempo inteiro em visível reflexão e com certa dose de constrangimento. A escola estava magnífica. Seu tema levava a plateia a pensar.

Foto: Reprodução de InternetNão foi a apresentação de uma das chamadas "grandes", nem exatamente um esplendor de desfile plástico. Não foi a escola campeã. Mas, naquele ano de 1987, a São Clemente emprestou a negra cor de sua bandeira para iluminar em amarelo uma das chagas mais abertas da sociedade brasileira: a questão do menor abandonado. E constituiu um legado antológico para o carnaval carioca. Um desfile memorável, inédito, inesquecível!

Criando um trocadilho com a obra prima de Jorge Amado (Capitães de Areia), "Capitães do Asfalto", enredo de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa, trazia para o grande palco uma discussão dura e muito acertada sobre a problemática social que gerava, descuidava, desamparava e - por fim, - discriminava o menor de idade em nosso país. Seguindo uma linha política de crítica social já adotada nos anos anteriores, a escola da zona sul ascendeu naquele 1987 ao grupo de elite e fez bonito, surpreendendo a todos e mantendo-se para o ano posterior com um digno 7º lugar.

Sintomática, a letra do belíssimo samba tinha versos cuja alusão ao tema era um misto de poesia e constrangimento diante de um problema raras vezes tratado de forma tão ampla diante de uma multidão. Isaías de Paula, um dos compositores junto a Manuelzinho Poeta e Jorge Madeira, tinha propriedade de causa: era também um ex-interno do SAM (Serviço de Assistência ao Menor). A "cabeça do samba" prenunciava o discurso engajado, com o peso dos versos: "Pequenino / Triste feito um cão sem dono / Tão cansado de viver e sofrer / Por aí perambulando". O primeiro refrão tinha forte apelo emotivo, em primeira pessoa: "Seu moço, dê-me um trocado / Eu quero comer um pão / Sou menor abandonado neste mundo de ilusão". E expunha em linguagem muito franca, sem deixar dúvidas, a questão da má distribuição da renda nos versos: "Enquanto o filho do papai rico / Desfruta o bom e o bonito / Do dinheiro que o pai tem / Lá vai o menino pobrezinho / Que acorda bem cedinho pra vender bala no trem". Um achado!

Foto: Reprodução de InternetA comissão de frente, formada por meninos pertencentes à FUNABEM - a assim chamada Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, instituída pelo governo federal - causou choque e emoção. Um banco de praça ilustrava, no abre-alas, as crianças jogadas ao relento, a dormirem nas ruas da cidade diante dos olhares atônitos das autoridades inertes. Crianças pobres catavam comida no lixo, em uma das alegorias, enquanto os "filhos de pai rico" ficavam isolados em gaiolas de ouro com toda sorte de benefícios.

Fazendo bom uso da cor escura presente em sua bandeira, a escola soube ilustrar com beleza e adequação o enredo sombrio proposto por seus carnavalescos. Sob aplausos efusivos e lágrimas de emoção, a São Clemente passou em 1987 com um desfile que marcou história.

Foto: Reprodução de InternetÉ pena que, na lógica atual de desfiles apadrinhados e politicamente corretos, a construção de pontes políticas praticamente excluiu do Sambódromo as temáticas de crítica social e protesto. A escola de samba, que sempre primou por seu viés de resistência, tornou-se tão prisioneira dos gradis capitalistas que, hoje, já não se podem esperar desfiles autênticos e fortuitos como aquele dos clementianos em 1987. Sem dúvida, digno de registro e menção honrosa na historiografia dos grandes carnavais!

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Comentários
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    13/03/2014 17:42:51EddieMembro SRZD desde 13/02/2013

    Eu tenho um enredo excelente para essa escola, diferente e polêmico, com a cara da São Clemente. Tem que ter muito peito para fazer.

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    20/02/2014 08:01:37Carlos Gomes da MottaMembro SRZD desde 18/07/2012

    Eu estava lá. Não compreendo com um desfile desses, hoje, ou seja no ano passado, falar dessa imundice que é novela da Globo em troca de alguns trocados. Quanta saudade São Clemente. Pena que o tempo não volta atrás. Parabéns Helio Rainho; Muito inteligente a sua lembrança dessa fase de ouro do Carnaval e da São Clemente.

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    19/02/2014 20:42:40Duquesa Dholores: sou do morro e da nobresaMembro SRZD desde 18/10/2010

    "Ã? pena que, na lógica atual de desfiles apadrinhados e politicamente corretos, a construção de pontes políticas praticamente excluiu do Sambódromo as temáticas de crítica social e protesto. A escola de samba, que sempre primou por seu viés de resistência, tornou-se tão prisioneira dos gradis capitalistas que, hoje, já não se podem esperar desfiles autênticos e fortuitos como aquele dos clementianos em 1987..." Eu axo que somente esse trecho é suficiente pra eu. Ele nos dá a exata noção da triste realidade vivida pelas escolas hoje em dia. Gostei da expressão "gradis capitalista". Só que vou iscrever do meu jeito... dos gradis raparigueiros fruto da pinicaria LTDA". Tem escola aí com MBA em pinicaria.

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    19/02/2014 18:28:59Cláudia BauerMembro SRZD desde 19/01/2013

    Ã? uma pena mesmo, Hélio. Se por acaso a São Clemente reeditasse esse lindo enredo com certeza seria rebaixada. Hoje em dia está instalada a lei da compensação: você joga lindas alegorias que compensa a pobreza do enredo e você catequisa a comunidade para fazer uma excelente harmonia para compensar um samba ruim. Essa é a verdade. E nós, expectadores, sentimos falta da sátira que tanto marcou o carnaval e vamos continuar sentindo falta pois as escolas têm uma linda mordaça impregnada. Ã? triste.

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    19/02/2014 18:20:04Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Hélio Ricardo Rainho, muito bem lembrado. PARABÃ?NS. Não obstante, eu lembro também que, dentre digamos as curiosidades do maior espetáculo da Terra, o antológico samba-enredo da São Clemente dividiu a 7ª colocação com ATENÃ?Ã?O: A comunitária, tradicional e respeitável escola de samba Unidos do Cabuçu que apresentou o pífio ou sofrível enredo â??Roberto Carlos na Cidade da Fantasiaâ? desenvolvido por ninguém menos que a carnavalesca-mestre Rosa Magalhães. O samba-enredo surpreendentemente de razoável a bom foi o da parceria dos compositores Adilson Gavião, Adauto Magalha e Sérgio Magnata. Para ter-se ideia, no CD da LIESA então gravado e distribuído pela multinacional RCA, o canto esteve a cargo de três intérpretes, Celsinho, Di Miguel e Beto Cabuçu, um deles inclusive na época era um menino. Registre-se que naquele tempo o andamento rítmico dos sambas-enredo era cadenciado. Ocorre, o arranjador musical contratado pela LIESA, maestro Ivan Paulo impunha passagens instrumentais e melódicas entre as partes do samba parecidas com a de marcha. O que apequena o samba. Isto a mim não agrada. O que posteriormente levou o citado maestro a ser sucedido pelos músicos-sambistas-instrumentistas & maestros-arranjadores-craques Alceu Maia e Jorge Cardoso. A propósito, na gravação do CD 2014 não se sabe por que no ótimo samba-enredo da União da Ilha se ouve a mencionada passagem instrumental e melódica apequenadas indevida e supreendentemente feitas pela boa bateria â??Noventa Grausâ? sob a batuta do promissor mestre Thiago Diogo e arranjo do maestro Jorge Cardoso. Basta ouvi-lo. Almir de Macaé.

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