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Helena Theodoro - Cultura Afro

Helena Theodoro - Cultura Afro

Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



31/03/2014 18h30

Martinho da Vila e a identidade cultural brasileira
Helena Theodoro

Falar de Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila, é refletir sobre a pluricultura nacional, analisar a força do axé dos ancestrais e dos orixás, rever a fé na vida, na comunidade e na família, passando obrigatoriamente pelo estudo da identidade cultural do país, em suas vertentes, tanto étnicas como culturais. Focalizar Martinho da Vila, suas ideias e suas propostas, é mostrar um exemplo vivo do brasileiro, descolonizado culturalmente e orgulhoso de si mesmo e que pauta seu trabalho na cultura afro-descendente do país.

Neste passeio pela estrada trilhada pelo compositor, criamos um texto novo a partir da criação do autor:

Mostrando que Nem todo crioulo é doido (1969), o Martinho da Vila (1969), nosso Sargento de Milícias (1971), com seu Laralaiá (1970), fez Batuque na cozinha (1972), homenageando suas Origens (1973). Sempre afirmando Canta, canta ,minha gente, (1974), nesta Maravilha de cenário (1975), Martinho nunca esqueceu de oferecer uma Rosa do povo (1976) de Presente (1977) para os amigos na Tendinha (1978), onde fazia cantigas de Terreiro, sala e salão (1979).

São mais que puros seus Sentimentos (1981), expressos em Sambas de enredo (1980), calangos,partidos altos, e cantigas românticas, que mostram seu Verso e Reverso (1982), além de sua capacidade de utilizar Novas palavras (1983). Este é o Martinho da Vila Isabel (1984), com suas Criações e recriações (1985): Batuqueiro (1986), com o seu Coração de Malandro (1987) responsável pela Kizomba-festa da raça (1988), que fêz o Brasil inteiro aprender O Canto das Lavadeiras.(1989). Este é, de verdade, o Martinho da Vida(1990) em seu Templo da criação (1992), que afirma categórico: Vai, meu samba vai!.(1993).

Foto: Reprodução de Internet

Na sua Vila Isabel, Martinho presta homenagens Ao Rio de janeiro (1994), sem nunca deixar de viver a vida ao lado de sua esposa Cléo ,exclamando:Tá Delícia, tá gostoso (1995). Criou o Butiquim do Martinho (1996), onde promoveu muito samba e chorinho, sendo O Turbinado(1998), lutando pela Lusofonia (2000),mantendo contato com todos os países africanos de expressão portuguesa, muito consciente de que somos Coisas de Deus (1997) e que, quando revisita a África e mostra o que Angola canta (1998) ele louva os ancestrais e demonstra, por ser aquele que curte a família ,que é o Pai da Alegria, (1999), sendo o Martinho da Roça e da Cidade (2001), inteiramente Voz e coração (2002),já que é o grande mago das Conexões (2004), pleno de Brasilatinidade (2005), que o consagra como Martinho da Vila do Brasil e do Mundo (2007).

Martinho veio muito pequeno para o Rio de Janeiro, onde fincou raízes no Lins de Vasconcelos e se consagrou no bairro carioca de Vila Isabel, que foi criado em 3 de janeiro de 1872, quando o comerciante mineiro João Batista Viana Drumond comprou a então Fazenda dos Macacos e lhe deu o nome em homenagem à Princesa Isabel.

Seu primeiro disco foi dedicado à Vila Isabel sendo que um grande sucesso foi o samba-enredo da Vila:Quatro séculos de modas e costumes do disco Sambas de Enredo de 1997.

Este samba foi enredo do ano de 1968, que contou com uma grande mudança nos desfiles, causada pelo lançamento, em fins de 1967, do disco de sambas de enredo das escolas Os freqüentadores das arquibancadas já chegavam cantando os sambas e a chuva que caiu durante quase toda a noite, não diminuiu o entusiasmo geral , mas atrapalhou o desfile da Vila Isabel , que ficou em oitavo lugar. O samba é antológico:

A Vila desce colorida

Para mostrar no carnaval

Quatro séculos de modas e costumes

O moderno e o tradicional

Negros, brancos, índios

Eis a miscigenação

Ditando moda

Fixando os costumes

Os rituais e a tradição

E surgem tipos brasileiros

Saveiros e bateador

O carioca e o gaúcho

Jangadeiro e cantador

Lá vem o negro

Vejam as mucamas

Também vem com branco

Elegantes damas

Desfilam modas do Rio

Costumes do Norte

E a dança do sul

Capoeiras,desafios

Frevos e maracatu

Laralaia,ô,Laralaia

Festa da menina-moça

Na tribo dos Carajás

Candomblés lá na Bahia

Onde baixam os orixás

MARTINHO nasceu em Duas Barras, que chama de seu Off Rio, onde encontramos muita folia de reis, também conhecida por reisado e muita tradição afro-descendente. Ele fala de sua cidade natal através de sua poesia:

Meu Off Rio

Nos arredores, Cantagalo, Teresópolis

Nova Friburgo e Bom Jardim, bem no caminho

Meu off Rio tem um clima de montanha

E os bons ares vêm da serra de Petrópolis

É um lugar especial

Para quem é sentimental

E aprecia um gostoso bacalhau

O galo canta de madrugada

E a bandinha toca na praça

Na entrada há um vale

Que é encantado

Tem cavalgada, tem procissão

As cachoeiras principais de lá são duas

E a barra é limpa porque lá não tem ladrão

Tomo cachaça com os amigos

Lá em Cachoeira Alta

E na Queda do Tadeu, churrasco ao lago

Pra ir pro Carmo

Tem muita curva

E a preguiça então me faz ficar na praça

Eu nem preciso trancar o carro

A chave fica na ignição

A minha Vila fica meio enciumada

Se eu pego estrada e vou correndo para lá

Se alguém pergunta, eu não digo

Onde fica o tal lugar

Mas canto um samba para quem adivinhar.

A tradição cultural de Duas Barras sempre esteve presente no trabalho do poeta, que compôs a música Folia de Reis, que conta todo o desenrolar do folguedo, em 1989,no disco O Canto das Lavadeiras. É registro para crianças e adultos de uma tradição que nos encanta até hoje:

A vinte e cinco de dezembro

Se reúnem os foliões

E vão prá rua

Bater caixa nos portões

Lá vão pandeiro, sanfoneiro, violões

Santos Reis aqui chegou ai, ai

Pra visitar sua morada ai, ai, ai, ai)

Eles só voltam prá casa dias seis

Dia de Reis

Por sete anos se repete o ritual

Pra todo canto levam o bem, espantam o mal

É de casa, ô de fora

É de casa, ô de fora

Quem de dentro deve estar

Os de fora Santos Reis

Que lhes vieram visitar

Que vieram visitar, ai, ai

Na folia tem palhaço

Que faz verso e diabrura

Representa o tinhoso

Tentador das criaturas

Mas também tem a bandeira

A Bandeira do Divino

Mais atrás os três Reis Magos

Procurando o Deus Menino

É de casa, ô de fora...

Batem lá na sua porta

Pra pagar uma promessa

Levam mestre e contra-mestre

Pra poder cantar a beça

Dia vinte de janeiro

Eles dão uma festinha

Com viola, violeiro

Desafio e ladainha

É de casa, ô de fora...

O Zé Ferreira, como também é chamado pelos amigos, enfatiza a alegria de viver do povo brasileiro e de nossa tradição cultural africana de convivência, musicalidade e movimento corporal. Tudo sempre se transforma em encontro festivo. A composicão de Anézio, intitulada As festas, foi gravada em 1977 no CD Presente e reflete bem toda a forma de ser da comunidade afro-descendente:

As festas, as festas...

Levam todo meu dinheiro,

As festas que existem o ano inteiro

A fraternidade universal

Mas depois vem fevereiro

E também gasto o meu dinheiro

Comprando a fantasia para o carnaval

As festas...

Depois do carnaval respeito também a quaresma

Vem o domingo Pascoal

E chega o mês de maio

Mês de Maria, com a comemoração

Do consagrado dia das mães

Aquela que é amor, ternura e abnegação

As festas...

Pra terminar o mês de maio

Ainda tenho a festa da coroação

E chego ao mês de junho

Com Santo Antonio, São João, São Pedro

E eu mantenho a tradição

Terminam as festas juninas, julho vai...

Em agosto eu dou de cara com o dia do papai

As festas...

No decorrer do mês de agosto

Eu tenho outras festas

Mas não gasto um tostão

Dizem que ele é o mês dos desgostos

Mas pra mim não traz desgostos não

Depois vem o mês de setembro

E das criancinhas me lembro

Eu dou doces para Cosme e Damião

As festas...

Depois do dia das crianças

Eu tenho um descanso afinal

Vejo a minha situação

Dou um balanço no meu capital

Depois vem o mês de dezembro

E de muitos presentes me lembro

É chegado o dia de Natal

As festas...

As festas, as festas

Levaram também o meu décimo terceiro

As festas que eu fiz durante

O ano inteiro

Por isso ando duro companheiro

Martinho foi o grande elo entre Brasil e Angola nos anos 80, trazendo nossa tradição banto de lá para cá e levando a nossa recriação banta de cá para lá. No CD Presente gravou Muadiakime, que significa o mais velho. É música de Angola.e foi gravada com um cantor angolano chamado Bonga, que ele conheceu na França. É uma homenagem à sabedoria dos mais velhos, sendo uma mensagem importante num momento em que o mundo não queria acreditar em ninguém com mais de trinta anos, quando a palavra de ordem era a da juventude.

Martinho também homenageia os mais velhos através das baianas, que simbolizam as cabeças coroadas pelos cabelos brancos, representando a sabedoria africana das tias baianas da antiga Praça Onze, berço do samba, onde Tia Ciata, Tia Bibiana e muitas outras dançavam o samba de roda da Bahia e louvavam os orixás.

As baianas também cuidam do espaço da cozinha, que tem alto significado para a os orixás, para a sua manutenção e para a renovação do axé - elemento vitalizador das propriedades e domínios da natureza, já que é quando o sagrado se aproxima do homem pela boca. A cozinha é o espaço onde se transforma morte em vida, usando-se os temperos, a água, o azeite e o fogo.

Seja na tradição de Angola / Congo - banto, como na da Nigéria - nagô, cozinhar é considerado um ato sagrado e os alimentos são tratados de forma ritualística. A história da cultura popular do Rio de Janeiro mostra uma ligação profunda de pais e mães de santo com o samba, assim, os rigores gastronômicos da vasta culinária dos terreiros de candomblé, caboclo e umbanda determinaram a identidade de cada espaço onde o samba floresceu.

Martinho vai mostrar a ligação da sabedoria do sabor com o saber musical quando grava Cadê a Farinha? De Beto sem braço e Serginho Meriti:

Menina cadê a farinha?

Farinha pra fazer pirão

Pirão pra comer com peixe

Pescado no ribeirão

Pirão pra comer com peixe

Pescado no ribeirão

O vento soprou de lá

Aqui sacudiu a paia

Anunciando o perigo

Na folha da samambaia

Então menina segura

A barra da sua saia

Não deixe que a ventania

Te leve como cobaia

Se não amanhece o dia

E você não sai da gandaia

Se não amanhece o dia

E você não sai da gandaia

Menina cadê a farinha?

Farinha pra fazer pirão

Pirão pra comer com peixe

Pescado no ribeirão

Pirão pra comer com peixe

Pescado no ribeirão

Não demora menina que é hora

É hora da obrigação

Pelo flash do vagalume

Eu te vi na escuridão

Tem louça lá na bacia

Coco pra se ralar

E você lá na beira do poço

Com o moço querendo te agarrar

Mas eu vou dizer pra ele

Que você só quer namorar

Mas eu vou "dizer seu pai"

Que você só quer namorar

Martinho no seu Batuqueiro ao interpretar o "Cadê a farinha" evidencia como a comida nas festas de samba do Rio de Janeiro simbolizam a dinâmica do comer/beber/viver da tradição africana. Transcendendo à simples ação biológica de nutrir o corpo, constitui-se numa maneira de renovar a energia de toda a comunidade. Comer no samba, equivale a viver, preservar, comunicar e reforçar memórias individuais e coletivas.

Assim, podemos concluir que conhecer a obra de Martinho da Vila é mergulhar nas tradições afro-brasileiras em suas diferentes nuances e matrizes, tornando-as conhecimento necessário e indispensável para todos os brasileiros que preservam sua identidade cultural.


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Comentários
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    04/04/2014 08:14:17Nei Theodoro LopesAnônimo

    Mami O texto está ótimo. Parabéns! Beijinhos

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    02/04/2014 20:55:55Tunicotunico da VilaMembro SRZD desde 08/09/2013

    Chorei....e chorei...e chorei...Helena minha flor eu simplesmente te adoroooo. Muito me honra em ser blogueiro aqui no Srzd junto de ti..Você, Rainho, Claudinho Menudo...que honra...amo você..beiji

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